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173 reviews by:
rolandosmedeiros
Bingo de Ficção Especulativa do Reddit 2024~2025
First in a Series: Read the first book in a series 2/2 [Modo Fácil: Série de 3 livros ou menos]
Peguei isso aqui para ler porque assisti a série da HBO e gostei bastante. Queria compará-la com a fonte original, e de quebra podia encaixar aqui.
E cara... comparando com a fama das adaptações de fantasia recentes (The Wheel of Time, Witcher e LoTR), isso aqui foi um salto, no Oscar das adaptações para a televisão essa daqui merecia um prêmio. Parabéns HBO. Desde a seleção dos atores até a adaptação da narrativa e de seus temas mais espinhosos. A partir de agora sempre que eu pensar em alguma cena aqui, as duas mídias vão se misturar na minha cabeça a ponto de eu não saber mais qual é qual: e isso é bom.
Por conta de já ter assistido o desenrolar da narrativa na série, eu já peguei desde o princípio a temática, e também já conhecia a fama d'A Bússola de Ouro. Então não foi uma leitura virgem. Mas diversas cenas me pegaram mesmo assim, e foi gostoso, e sobretudo rápido, de ler [que era o que eu precisava nos últimos tempos]. Principalmente as cenas com o Asriel, que deve ser um dos pais mais pau no cu da literatura infantojuvenil: depois da filha cruzar o mundo, ir até os confins do Polo Norte pra ajudar a libertá-lo de uma prisão, ele manda essa:
E ainda tem uma cena que prevê aquele meme, "Game Over, você foi enviado para o Brasil", no caso do mundo do livro, Alto Brasil:
E o que ele o Lorde Asriel faz no final do livro... bem, basta dizer que isso aqui deve ter sido o YA que mais gostei de ter lido justamente porque ele não subestima a inteligência do leitor, seja nos solavancos que dá na narrativa, nos tiros (em sentido figurado... [talvez]) que dá nas personagens, e nos temas que resolve abordar.
O ponto que todo mundo sabe é que o livro, dizem, foi escrito para ser um anti-Nárnia, com críticas explícitas à religião. E eu que me considero... não sei, crente em alguma coisa, talvez numa bola de energia com barba branca, e que definitivamente não sou ateu, não vi tanto disso não. Há críticas explícitas mas mais à instituição Igreja do que à religião, seja qual for, isso sim. Mas antes disso, há de entrar na construção de mundo que é maluca, e eu não sei como funciona. Mas funciona.
É um misto de história alternativa [que vai fazer sentido no final do livro] que salpica aqui e ali fantasia, trama política, steampunk e até um pouco de ficção científica. A trama se passa na Inglaterra, mas há aqui daemons -animais falantes que fazem par com cada ser humano e representam a alma ou o animal espiritual - fantasmas, bruxas, uma raça de ursos gigantes falantes e guerreiros; nesse mundo viaja-se de botes e zeppelins, existem objetos que medem e apontam para a verdade, a produção de energia atômica e com base em urânio se tornara comum, e uma partícula recém-descoberta chamada "Pó" está causando alvoroço naquele mundo dominado pela Igreja. Só pra se ter uma ideia do mundo, a física aqui é chamada de "Telogia Experimental"; e a universidade da Lyra gasta dinheiro em "aparatos filosóficos". Ela mesma não compreende tudo, e chuta que teologia experimental tenha a ver com "movimento das esferas, mágica, e pequenas partículas de matéria". Você vai ver também, de quando em quando, ao longo do livro, nomes como Nova França, Lapônia, Moscóvia, Tártaros...
A prosa é ok, a sequência narrativa é frenética. A protagonista é Lyra, uma menina deixada pelo tio em Oxford, na Universidade Jordan, para ser criada lá. O livro já abre na tensão política, numa tentativa de envenenamento, e a menina metida no meio disso. Já pula para sequestros, e a investigação da menina pelo único amigo que tinha na universidade ter sido sequestrado. Está acontecendo, no Continente, diversos sequestros de crianças, e segundo algumas pessoas, estes sequestros estão tendo apoio da polícia do continente e da Igreja. Pensam ter algo a ver com pesquisas - pensando nisso, lembra um pouco a teoria da conspiração do Adrenocromo -, utilizando as crianças como cobaias [e mais tarde se descobre, a relação delas com o pó].
A Lyra é uma anti-heroína, e divide opiniões. Mas eu até que gostei do jeito dela. E a questão principal do livro, até o final que escangalha tudo, é sobre o que é o tal pó. Dá a entender que tudo que a Igreja faz é por uma má interpretação do que é o pó de verdade. Mais objetivamente parece, naquele mundo, a energia que liga corpo e alma. A discussão é sobre o que aquilo simboliza: é a fé, é o próprio "Deus", é o pecado?
O livro termina em aberto, engatilhando o segundo, com a Lyra e o Asriel indo atrás da resposta.
E eu, que já me perdi no que eu ia escrever, lembro de ter anotado isso aqui: é sério que chamam esse livro de anti-religião, quando, na reta final, é isso aqui que sai da boca do Asriel?
Ps. não que eu ache que o livro precise desse tanto de teísmo ou desse tanto de ateísmo para validá-lo, mas bato nessa tecla só pra ilustrar que eu acho que chamar de "livro ateu pra crianças e adolescentes", é limitá-lo, e muito. Principalmente um livro que abre e parece se inspirar no Paraíso Perdido, de onde o Pullman extrai muita coisa, à maneira dele, para fazer essa excêntrica e interessante construção de mundo funcionar.
First in a Series: Read the first book in a series 2/2 [Modo Fácil: Série de 3 livros ou menos]
Peguei isso aqui para ler porque assisti a série da HBO e gostei bastante. Queria compará-la com a fonte original, e de quebra podia encaixar aqui.
E cara... comparando com a fama das adaptações de fantasia recentes (The Wheel of Time, Witcher e LoTR), isso aqui foi um salto, no Oscar das adaptações para a televisão essa daqui merecia um prêmio. Parabéns HBO. Desde a seleção dos atores até a adaptação da narrativa e de seus temas mais espinhosos. A partir de agora sempre que eu pensar em alguma cena aqui, as duas mídias vão se misturar na minha cabeça a ponto de eu não saber mais qual é qual: e isso é bom.
Por conta de já ter assistido o desenrolar da narrativa na série, eu já peguei desde o princípio a temática, e também já conhecia a fama d'A Bússola de Ouro. Então não foi uma leitura virgem. Mas diversas cenas me pegaram mesmo assim, e foi gostoso, e sobretudo rápido, de ler [que era o que eu precisava nos últimos tempos]. Principalmente as cenas com o Asriel, que deve ser um dos pais mais pau no cu da literatura infantojuvenil: depois da filha cruzar o mundo, ir até os confins do Polo Norte pra ajudar a libertá-lo de uma prisão, ele manda essa:
"I'll tell you if you tell me something,” she said. “You’re my father, en’t you?”
“Yes. So what?”
E ainda tem uma cena que prevê aquele meme, "Game Over, você foi enviado para o Brasil", no caso do mundo do livro, Alto Brasil:
"And even if she got to the coast on her own, she might tow away on the wrong ship. It would be a fine thing to hidein a lifeboat and wake up on the way to High Brazil"
E o que ele o Lorde Asriel faz no final do livro... bem, basta dizer que isso aqui deve ter sido o YA que mais gostei de ter lido justamente porque ele não subestima a inteligência do leitor, seja nos solavancos que dá na narrativa, nos tiros (em sentido figurado... [talvez]) que dá nas personagens, e nos temas que resolve abordar.
O ponto que todo mundo sabe é que o livro, dizem, foi escrito para ser um anti-Nárnia, com críticas explícitas à religião. E eu que me considero... não sei, crente em alguma coisa, talvez numa bola de energia com barba branca, e que definitivamente não sou ateu, não vi tanto disso não. Há críticas explícitas mas mais à instituição Igreja do que à religião, seja qual for, isso sim. Mas antes disso, há de entrar na construção de mundo que é maluca, e eu não sei como funciona. Mas funciona.
É um misto de história alternativa [que vai fazer sentido no final do livro] que salpica aqui e ali fantasia, trama política, steampunk e até um pouco de ficção científica. A trama se passa na Inglaterra, mas há aqui daemons -animais falantes que fazem par com cada ser humano e representam a alma ou o animal espiritual - fantasmas, bruxas, uma raça de ursos gigantes falantes e guerreiros; nesse mundo viaja-se de botes e zeppelins, existem objetos que medem e apontam para a verdade, a produção de energia atômica e com base em urânio se tornara comum, e uma partícula recém-descoberta chamada "Pó" está causando alvoroço naquele mundo dominado pela Igreja. Só pra se ter uma ideia do mundo, a física aqui é chamada de "Telogia Experimental"; e a universidade da Lyra gasta dinheiro em "aparatos filosóficos". Ela mesma não compreende tudo, e chuta que teologia experimental tenha a ver com "movimento das esferas, mágica, e pequenas partículas de matéria". Você vai ver também, de quando em quando, ao longo do livro, nomes como Nova França, Lapônia, Moscóvia, Tártaros...
A prosa é ok, a sequência narrativa é frenética. A protagonista é Lyra, uma menina deixada pelo tio em Oxford, na Universidade Jordan, para ser criada lá. O livro já abre na tensão política, numa tentativa de envenenamento, e a menina metida no meio disso. Já pula para sequestros, e a investigação da menina pelo único amigo que tinha na universidade ter sido sequestrado. Está acontecendo, no Continente, diversos sequestros de crianças, e segundo algumas pessoas, estes sequestros estão tendo apoio da polícia do continente e da Igreja. Pensam ter algo a ver com pesquisas - pensando nisso, lembra um pouco a teoria da conspiração do Adrenocromo -, utilizando as crianças como cobaias [e mais tarde se descobre, a relação delas com o pó].
A Lyra é uma anti-heroína, e divide opiniões. Mas eu até que gostei do jeito dela. E a questão principal do livro, até o final que escangalha tudo, é sobre o que é o tal pó. Dá a entender que tudo que a Igreja faz é por uma má interpretação do que é o pó de verdade. Mais objetivamente parece, naquele mundo, a energia que liga corpo e alma. A discussão é sobre o que aquilo simboliza: é a fé, é o próprio "Deus", é o pecado?
O livro termina em aberto, engatilhando o segundo, com a Lyra e o Asriel indo atrás da resposta.
E eu, que já me perdi no que eu ia escrever, lembro de ter anotado isso aqui: é sério que chamam esse livro de anti-religião, quando, na reta final, é isso aqui que sai da boca do Asriel?
"Naturally he’d say that. But think of Adam and Eve like an imaginary number, like the square root of minus one: you can never see any concrete proof that it exists, but if you include it in your equations, you can calculate all manner of things that couldn’t be imagined without it."
Ps. não que eu ache que o livro precise desse tanto de teísmo ou desse tanto de ateísmo para validá-lo, mas bato nessa tecla só pra ilustrar que eu acho que chamar de "livro ateu pra crianças e adolescentes", é limitá-lo, e muito. Principalmente um livro que abre e parece se inspirar no Paraíso Perdido, de onde o Pullman extrai muita coisa, à maneira dele, para fazer essa excêntrica e interessante construção de mundo funcionar.
Bingo de Ficção Especulativa do Reddit 2024~2025
Entitled Animals: Read a book that has an animal in the title. [Modo Difícil: O animal no título é uma criatura fantástica]
A gente pega essas ficções mais fantásticas para ler, por vezes, como um jeito de se distanciar do marasmo cotidiano. E então sofremos um baque, a exemplo daqui, porque de maneira alguma esperamos (é uma novelinha francesa do final de dezenove) quando o ser fantástico se revela brasileiro, paulista, bebe vinho, leite (e água, noutra versão), suga a energia de seus hospedeiros, é invisível e semeia o caos no lugar ou corpo onde decide habitar. Em certo sentido, é realíssimo.
Não é exagero de minha interpretação (aliás, se tivesse visto isso sendo citado antes, teria lido O Horla muito mais cedo): "I will add: A few days before the first attack of the sickness from which I almost died, I vividly recall seeing a grand Brazilian three-master pass by with its flag (…) I told you that my house was on the water’s edge… all white.… He was hidden on this ship, without a doubt.…"
Para além disso, é uma narrativa que me surpreendeu muito pelo jeito de escrever do Maupassant e pela amplitude dos temas. O enredo é bom, há muitas boas metáforas, a exposição mesmo quando fantástica vem bem dosada e argumentada, e sobretudo a construção de cenas é um show à parte, muito cinematográfica. Dá para tirar muita coisa, isso se já não o foi tirado, para filmes de terror/suspense. Tudo que há de interessante, aliás, nas narrativas de terror do tempo do Maupassant se faz presente aqui: a dubiedade dos eventos mesmo quando experimentados em primeira pessoa, a racionalidade sempre pendendo numa corda bamba, a paralisia do sono, a hipnose e a mesmerizarão que tanto interessava o Poe, a ciência da época em contraste com o entendimento da limitação de nossos sentidos perante a realidade….
Há até um leve roçar na ficção-científica/horror côsmico quando o personagem principal se deixa pensar no Horla e em tudo aquilo que ele implica, aquilo que não conhecemos e que está além do que podemos conhecer; desde as minúcias da evolução darwiniana até os confins espaço sideral. Pensa-se naquele estranho ser como uma ramificação evolutiva, aquele que superará a raça humana. Chega a imaginar o espaço e as galáxias, e também um tipo de mariposa colossal, pulando de planeta a planeta em distantes nebulosas, como se fosse uma abelha que fizesse o oposto da polinização.
A história é contada em primeira pessoa, em forma de diário. Há a entrada dos dias e tudo. A estranheza já começa nos primeiros dias, ainda que o personagem ainda esteja bem lúcido. O protagonista nos diz — e escreve no diário — como está feliz por tornar à terra onde vivera e nascera sua família. Uma casa muito bem colocada, à margem do Sena. Vendo passar barquinhos e navios e o rio. A felicidade, porém, dura pouco. Nos dias seguintes apanha uma febre terçã e uma tal opressão decaí sobre ele que o faz escrever no diário, no que é a primeira boa exposição da narrativa, sobre como tudo aquilo "que nos rodeia e que percebemos sem ver, que roçamos inconscientemente, que encosta na gente sem que toquemos, e encontramos sem pedir (...)" afeta o nosso corpo e a nossa mente. E isso já coloca em campo o jogo que o Maupassant vai fazer o tempo todo: entre o fantástico e o científico. Isso aqui é tanto o efeito do Horla, quanto o efeito do que se dizia ser as bactérias no ar, ou mais antigamente os humores dos gregos e romanos. Me surpreendi com o quão a par ele já estava cientificamente, falando até sobre impulsos neurais, a certa parte.
Essa forma, um diário em primeira pessoa, também vai nos passando as crenças e a personalidade do protagonista. Caso nos perguntemos a algum momento se o relato dele é confiável ou não, se ele está louco ou não, temos aqui tudo necessário, todos eventos minuciosamente descritos, para fazermos nos mesmos o julgamento.
Nos primeiros dias ele está o tempo todo se questionando sobre como é possível baque tão grande ter se abatido sobre o corpo e humor tão inesperadamente, e questiona tudo, até seus sentidos, porque "as vibrações do ar são transformadas em ondas sonoras como se fadas convertessem magicamente movimento em som (...)" nosso olfato, diz, é pior que o de um cão; nosso paladar, seu feito mais extraordinário é distinguir a idade de um vinho; vai daí até a imemorial ideia de que o vento existe, mesmo que não o vejamos. (E sem precisar citá-lo a todo tempo, sempre quando diz essas coisas contrapomo-las, automaticamente, com o Horla).
A doença vai piorando para um mistura de febre, ansiedade, paralisia noturna e crises de pânico. Adquire mania de perseguição, mesmo quando caminha pelo jardim. Acontecimentos estranhos começam se dar na casa, e, para o bem ou para o mal da sanidade do protagonista, ele percebe que não é o único afetado por tudo aquilo. O que quer que esteja ali, não é totalmente fruto da imaginação dele.
Daí se desenvolveram as melhores cenas da novela, quando o protagonista busca tirar a prova real de que não está louco ou sonâmbulo, nem que está tendo lapsos de realidade (ou tudo ao mesmo tempo).
A maneira com que o Maupassant cria tudo isso é bastante engenhosa, a primeira vez que o protagonista vê o Horla (hor: fora, la: alí, lá. Aquele que está lá fora) é muito bem feita. E, até o final, o protagonista ainda que muitíssimo afetado por tudo que está se passando, continua a escrever racionalmente, pensa, tenta ver tudo por outro ângulo, se autoexamina..."Quão débil é nossa razão e quão rapidamente ela é solapada quando algo incompreensível nos abala (…) Em vez de concluirmos dizendo 'não compreendo porque não não sei as causas', damos a imaginar mistérios impressionantes e acontecimentos sobrenaturais" Há certa dose de ironia consigo mesmo, o protagonista sabe. E tudo isso ajudará a compor o ato final.
Por A mais B ele raciocina que o problema está ali, na casa. Nessa primeira metade, há uma mudança de ritmo, porque decide sair, pelo menos por um tempo, daquele lugar. Viaja pela frança, e percebemos (ele continua a escrever) que se sente e que está melhor, sem sinais da doença ou daquela opressão que o aflige desde o início da narrativa.
Na cidade, há o encontro com a mesmerização e hipnose por meio do marido da irmã. O tom é até mais realista, se deixa pensar em outras coisas (ainda que nunca perca o fantástico de vista). Escreve o protagonista: " O povo é um rebanho de idiotas. Às vezes um rebanho burro e paciente, outras feroz e revolucionário. Diga a eles: divirtam-se. E se divertem. Diga a eles: vá e lute com seu vizinho. E eles vão e lutam. Diga a eles: votem pelo Imperador. E votam pelo imperador. Depois: votem pela República. E votam pela república.'' Por que então, seguir homens ou princípios nesse mundo que nada é certo e mesmo nossos sentidos são ilusórios? Os que mandam também são outros idiotas porque "em vez de obedecer a homens, obedecem a princípios, os quais só podem ser estéreis, falsos, tolos" tanto quanto qualquer outra coisa ou pessoa. Pior: querem se fazer parecer imutáveis. Permanecem sempre presentes esses dois planos na narrativa, afinal, quem diz tudo isso é o homem afetado e que "tirara a prova real" da existência de algo sobrenatural em sua casa.
Ainda na cidade, em estado melhor, ele também diz, (a abrangência de temas é incrível) e não posso discordar, que até para crer no sobrenatural "tudo depende do meio e do lugar" afinal, "Sofremos influência daquilo que nos rodeia." Ele está bem, está ótimo. Porém, uma hora terá de voltar para casa...
Acho que já falei demais sobre o enredo e não quero estragar potenciais leituras, mas vale plantar semente da reta final: após esse retorno, ele (não vou falar como), vê o Horla no quintal de casa (já sabia de sua existência, mas ainda não tinha "visto" o ser invisível") numa cena muito cinematográfica, muito imaginativa, e cada vez mais perde o controle de si, se sente completamente dominado, tenta fazer certas coisas e faz outras. Consegue ir, com muito esforço, até a estação. Abre a boca para pedir a um dos trabalhadores dali para o levar para outra cidade, mas ao abrir a boca, contra a sua vontade, diz: “casa”.
Cresce a tensão, cresce a loucura, até a maneira de escrever (e a pontuação!) reflete o psicólogico do protagonista conforme eventos mais incompreensíveis vão acontecendo; e o final é bem bom ainda que você, pela maneira como a narrativa vai se afunilando, tenha sempre uma vaga ideia do que poderá acontecer. O interesse é a todo tempo sustetando pelo enredo e susessão de acontecimentos, mas a maneira que o Maupassant escreve a história e seus temas também não ficam para trás. Não atoa é, talvez, a sua obra mais popular.
***
Traduzi os trechinhos acima da versão da Charlotte Mandell. Dei uma leve cotejada com outra tradução em inglês e uma em espanhol do Ricardo Zelerayán. Essa aqui, da Charlotte, achei-a melhor. Só por comodidade não fui checar a versão brasileira, mas quem se interessar pode fazê-lo. A coleção Art of the Novella foi localizada aqui pela Grua Livros.
Esta edição é bem boa para quem quer se debruçar mais sobre o processo criativo, porque além da versão definitiva do Horla, há duas outras versões que o Maupassant até chegou a publicar, mas não satisfeito se deu a reescrever outras duas vezes até dar nesta versão. São interessantes tanto as mudanças quanto as permanências.
De diferentes formas, era claro para ele que a narrativa tinha de ser em primeira pessoa, ainda que não fosse em forma de diário. A primeira versão é praticamente uma carta-ensaio, só no final descambando para ser um relato fantástico; na segunda, um médico convoca estudiosos e psiquiatras para que ouçam a história de um dos homens internados no manicômio, o relato do encontro com o invísivel, o Horla.
Entitled Animals: Read a book that has an animal in the title. [Modo Difícil: O animal no título é uma criatura fantástica]
A gente pega essas ficções mais fantásticas para ler, por vezes, como um jeito de se distanciar do marasmo cotidiano. E então sofremos um baque, a exemplo daqui, porque de maneira alguma esperamos (é uma novelinha francesa do final de dezenove) quando o ser fantástico se revela brasileiro, paulista, bebe vinho, leite (e água, noutra versão), suga a energia de seus hospedeiros, é invisível e semeia o caos no lugar ou corpo onde decide habitar. Em certo sentido, é realíssimo.
Não é exagero de minha interpretação (aliás, se tivesse visto isso sendo citado antes, teria lido O Horla muito mais cedo): "I will add: A few days before the first attack of the sickness from which I almost died, I vividly recall seeing a grand Brazilian three-master pass by with its flag (…) I told you that my house was on the water’s edge… all white.… He was hidden on this ship, without a doubt.…"
Para além disso, é uma narrativa que me surpreendeu muito pelo jeito de escrever do Maupassant e pela amplitude dos temas. O enredo é bom, há muitas boas metáforas, a exposição mesmo quando fantástica vem bem dosada e argumentada, e sobretudo a construção de cenas é um show à parte, muito cinematográfica. Dá para tirar muita coisa, isso se já não o foi tirado, para filmes de terror/suspense. Tudo que há de interessante, aliás, nas narrativas de terror do tempo do Maupassant se faz presente aqui: a dubiedade dos eventos mesmo quando experimentados em primeira pessoa, a racionalidade sempre pendendo numa corda bamba, a paralisia do sono, a hipnose e a mesmerizarão que tanto interessava o Poe, a ciência da época em contraste com o entendimento da limitação de nossos sentidos perante a realidade….
Há até um leve roçar na ficção-científica/horror côsmico quando o personagem principal se deixa pensar no Horla e em tudo aquilo que ele implica, aquilo que não conhecemos e que está além do que podemos conhecer; desde as minúcias da evolução darwiniana até os confins espaço sideral. Pensa-se naquele estranho ser como uma ramificação evolutiva, aquele que superará a raça humana. Chega a imaginar o espaço e as galáxias, e também um tipo de mariposa colossal, pulando de planeta a planeta em distantes nebulosas, como se fosse uma abelha que fizesse o oposto da polinização.
"Quem vive naqueles mundos? Que formas, que seres, que animais ou que plantas, existirão ali? Estes seres pensantes de outros universos serão mais sábios e mais poderosos que nós? Conhecerão, eles, aquilo que ignoramos? Talvez qualquer dia desses um deles atravessará o espaço e chegará na terra para conquistá-la, como assim se fizeram investir os Normandos sobre aqueles povos mais fracos. (…) Somos muitíssimo indefesos, desarmados, ignorantes e pequenos sobre esse pedaço de lodo que gira solto em uma gota d’água."
A história é contada em primeira pessoa, em forma de diário. Há a entrada dos dias e tudo. A estranheza já começa nos primeiros dias, ainda que o personagem ainda esteja bem lúcido. O protagonista nos diz — e escreve no diário — como está feliz por tornar à terra onde vivera e nascera sua família. Uma casa muito bem colocada, à margem do Sena. Vendo passar barquinhos e navios e o rio. A felicidade, porém, dura pouco. Nos dias seguintes apanha uma febre terçã e uma tal opressão decaí sobre ele que o faz escrever no diário, no que é a primeira boa exposição da narrativa, sobre como tudo aquilo "que nos rodeia e que percebemos sem ver, que roçamos inconscientemente, que encosta na gente sem que toquemos, e encontramos sem pedir (...)" afeta o nosso corpo e a nossa mente. E isso já coloca em campo o jogo que o Maupassant vai fazer o tempo todo: entre o fantástico e o científico. Isso aqui é tanto o efeito do Horla, quanto o efeito do que se dizia ser as bactérias no ar, ou mais antigamente os humores dos gregos e romanos. Me surpreendi com o quão a par ele já estava cientificamente, falando até sobre impulsos neurais, a certa parte.
Essa forma, um diário em primeira pessoa, também vai nos passando as crenças e a personalidade do protagonista. Caso nos perguntemos a algum momento se o relato dele é confiável ou não, se ele está louco ou não, temos aqui tudo necessário, todos eventos minuciosamente descritos, para fazermos nos mesmos o julgamento.
Nos primeiros dias ele está o tempo todo se questionando sobre como é possível baque tão grande ter se abatido sobre o corpo e humor tão inesperadamente, e questiona tudo, até seus sentidos, porque "as vibrações do ar são transformadas em ondas sonoras como se fadas convertessem magicamente movimento em som (...)" nosso olfato, diz, é pior que o de um cão; nosso paladar, seu feito mais extraordinário é distinguir a idade de um vinho; vai daí até a imemorial ideia de que o vento existe, mesmo que não o vejamos. (E sem precisar citá-lo a todo tempo, sempre quando diz essas coisas contrapomo-las, automaticamente, com o Horla).
A doença vai piorando para um mistura de febre, ansiedade, paralisia noturna e crises de pânico. Adquire mania de perseguição, mesmo quando caminha pelo jardim. Acontecimentos estranhos começam se dar na casa, e, para o bem ou para o mal da sanidade do protagonista, ele percebe que não é o único afetado por tudo aquilo. O que quer que esteja ali, não é totalmente fruto da imaginação dele.
Daí se desenvolveram as melhores cenas da novela, quando o protagonista busca tirar a prova real de que não está louco ou sonâmbulo, nem que está tendo lapsos de realidade (ou tudo ao mesmo tempo).
A maneira com que o Maupassant cria tudo isso é bastante engenhosa, a primeira vez que o protagonista vê o Horla (hor: fora, la: alí, lá. Aquele que está lá fora) é muito bem feita. E, até o final, o protagonista ainda que muitíssimo afetado por tudo que está se passando, continua a escrever racionalmente, pensa, tenta ver tudo por outro ângulo, se autoexamina..."Quão débil é nossa razão e quão rapidamente ela é solapada quando algo incompreensível nos abala (…) Em vez de concluirmos dizendo 'não compreendo porque não não sei as causas', damos a imaginar mistérios impressionantes e acontecimentos sobrenaturais" Há certa dose de ironia consigo mesmo, o protagonista sabe. E tudo isso ajudará a compor o ato final.
Por A mais B ele raciocina que o problema está ali, na casa. Nessa primeira metade, há uma mudança de ritmo, porque decide sair, pelo menos por um tempo, daquele lugar. Viaja pela frança, e percebemos (ele continua a escrever) que se sente e que está melhor, sem sinais da doença ou daquela opressão que o aflige desde o início da narrativa.
Na cidade, há o encontro com a mesmerização e hipnose por meio do marido da irmã. O tom é até mais realista, se deixa pensar em outras coisas (ainda que nunca perca o fantástico de vista). Escreve o protagonista: " O povo é um rebanho de idiotas. Às vezes um rebanho burro e paciente, outras feroz e revolucionário. Diga a eles: divirtam-se. E se divertem. Diga a eles: vá e lute com seu vizinho. E eles vão e lutam. Diga a eles: votem pelo Imperador. E votam pelo imperador. Depois: votem pela República. E votam pela república.'' Por que então, seguir homens ou princípios nesse mundo que nada é certo e mesmo nossos sentidos são ilusórios? Os que mandam também são outros idiotas porque "em vez de obedecer a homens, obedecem a princípios, os quais só podem ser estéreis, falsos, tolos" tanto quanto qualquer outra coisa ou pessoa. Pior: querem se fazer parecer imutáveis. Permanecem sempre presentes esses dois planos na narrativa, afinal, quem diz tudo isso é o homem afetado e que "tirara a prova real" da existência de algo sobrenatural em sua casa.
Ainda na cidade, em estado melhor, ele também diz, (a abrangência de temas é incrível) e não posso discordar, que até para crer no sobrenatural "tudo depende do meio e do lugar" afinal, "Sofremos influência daquilo que nos rodeia." Ele está bem, está ótimo. Porém, uma hora terá de voltar para casa...
Acho que já falei demais sobre o enredo e não quero estragar potenciais leituras, mas vale plantar semente da reta final: após esse retorno, ele (não vou falar como), vê o Horla no quintal de casa (já sabia de sua existência, mas ainda não tinha "visto" o ser invisível") numa cena muito cinematográfica, muito imaginativa, e cada vez mais perde o controle de si, se sente completamente dominado, tenta fazer certas coisas e faz outras. Consegue ir, com muito esforço, até a estação. Abre a boca para pedir a um dos trabalhadores dali para o levar para outra cidade, mas ao abrir a boca, contra a sua vontade, diz: “casa”.
Cresce a tensão, cresce a loucura, até a maneira de escrever (e a pontuação!) reflete o psicólogico do protagonista conforme eventos mais incompreensíveis vão acontecendo; e o final é bem bom ainda que você, pela maneira como a narrativa vai se afunilando, tenha sempre uma vaga ideia do que poderá acontecer. O interesse é a todo tempo sustetando pelo enredo e susessão de acontecimentos, mas a maneira que o Maupassant escreve a história e seus temas também não ficam para trás. Não atoa é, talvez, a sua obra mais popular.
***
Traduzi os trechinhos acima da versão da Charlotte Mandell. Dei uma leve cotejada com outra tradução em inglês e uma em espanhol do Ricardo Zelerayán. Essa aqui, da Charlotte, achei-a melhor. Só por comodidade não fui checar a versão brasileira, mas quem se interessar pode fazê-lo. A coleção Art of the Novella foi localizada aqui pela Grua Livros.
Esta edição é bem boa para quem quer se debruçar mais sobre o processo criativo, porque além da versão definitiva do Horla, há duas outras versões que o Maupassant até chegou a publicar, mas não satisfeito se deu a reescrever outras duas vezes até dar nesta versão. São interessantes tanto as mudanças quanto as permanências.
De diferentes formas, era claro para ele que a narrativa tinha de ser em primeira pessoa, ainda que não fosse em forma de diário. A primeira versão é praticamente uma carta-ensaio, só no final descambando para ser um relato fantástico; na segunda, um médico convoca estudiosos e psiquiatras para que ouçam a história de um dos homens internados no manicômio, o relato do encontro com o invísivel, o Horla.
O Horla
Novela (1885/1886/1887s)
Tradução Inglesa de Charlotte Mandell
Coleção Art of the Novella, Ed. Meville House (2005)
74pp — ✲ 4.0/5.0
Outros Comentários: The Necklace
“O senhor devia era ter se matado na semana passada”, disse ele ao velho surdo.
O velho sinalizou com os dedos: “Só mais um pouco.” O garçom serviu a bebida até a borda, de modo que ela transbordou o copo e derramou-se no pires.
Depois de largar ''As Neves de Killamanjaro'' e não conseguir (por enquanto) fazer a leitura andar em ''Adeus às Armas'' (apesar de ter gostado), [e, alguns anos depois de ter escrito isso aqui, se decepcionar com "The Killers"] Um Lugar Limpo e Bem Iluminado foi a primeira narrativa do Hemingway que me prendeu e que gostei de verdade. Achei, de longe, o mais bem escrito dentre todos esses, intimista, rico, atmosférico e, ainda que minimalista, cheio de significados: em uma ponta o nada, a depressão, no outro a empatia, o lugar limpo e bem iluminado, um farol para a existência.
É um conto escrito sem finalidade teísta ou cristã, dada a frequentemente citada Oração ao Nada, mas consigo ver alguma coisa nesse jogo antagônico. Mais outro contraponto entre a luz e a atmosfera do bar com a escuridão da noite e a escuridão do interior daquele homem, um bêbado que tentara suicídio na semana passada e encontrara (talvez, não podemos saber) no álcool um caminho lento, mas certo, até a morte.
No desejo de um dos garçons de manter aquele lugar aberto (de novo, com a escuridão da falta de empatia do outro), de entender as necessidades humanas, de fazer daquele lugar um farol na noite (que fala tanto do exterior, da imagem da luz e da noite, quanto do interior dos homens) há talvez uma metafísica inintencional. Enfim, ótimo texto, primeiro Hemingway que gostei de verdade — e que todos nós, nessa existência, nesse intervalo iluminado, encontremos (seja na religião, no trabalho, nos relacionamentos, nas artes, onde for) esse lugar: um cais humano para a vida, limpo e bem iluminado. Tudo isso conciso em cinco páginas.
''O que será que ele temia? Não era medo ou terror. Era um nada que ele conhecia muito bem. Tudo não passava de um nada e um homem era um nada também. Era só isso e tudo o que se precisava era de luz e uma certa limpeza e ordem.''
"Você está mal," ele disse. "Foi preso?"
"Me casei," Parker respondeu.
Fechando a trilogia de comentários sobre os contos da Flannery, Parker's Back é mais um que se pauta na singularidade e na peculiaridade das personagens; é um conto cheio de flashbacks e digressões, mas também cheio de charme: e, diferente dos outros dois, o foco aqui é em uma relação amorosa — estranhíssima, mas magnetizante. E é outro que, de novo, a ironia do narrador é cristalina.
Parker (ou O.E) é um homem negro, coberto de tatuagens da cabeça aos pés (menos nas costas), antigo marinheiro, motorista de caminhão, agora trabalhador braçal, que casa com uma mulher simples, Sarah Ruth, branca, extremamente religiosa, que odeia as tatuagens dele.
Os dois aparentam ser totalmente aversos um ao outro, mas de quando em quando vão dando sinais de que há algo nessa contradição, nesse casamento estranho. Depois de um casamento apressado, Parker "continuou com ela como se estivesse enfeitiçado", e inventa histórias que não existem só para causar ciume na mulher; diz que a nova empregadora dele é uma jovem muito bonita, mas na verdade era "uma velha senhora que olhava para ele como olhava para o velho trator remendado — tinha que aguentá-lo por que era tudo que ela tinha."
Assim a Flannery vai levando a história, até que a narrativa volte no tempo e corra até o primeiro encontro, estranho e ocasional, do Parker com a esposa. Entendemos mais do passado dele, um homem que, pela voz do narrador, chama a mulher de feia, de rasa, de simples, mas que ele mesmo fora um menino "tão simples quanto um saco de pão", e na infância, ao ver um homem robusto, cheio de flores e bestas e homens tatuados na pele, tem uma epifania, "até aquele dia, o dia que viu aquele homem, nunca passou pela cabeça dele que havia qualquer coisa de incomum em simplesmente existir", depois daquilo não dava para continuar vivendo como vivia.
Mente para a família, foge, e vai trabalhar com o que der para conseguir se tatuar. Menos nas costas, claro, afinal por que tatuar um lugar onde você mesmo não consegue ver? A primeira tatuagem "doeu pouco, apenas o suficiente para parecer a Parker que era algo que valia a pena ser feito".
Não vou minuciar tudo aqui, mas a gente tem um vislumbre quase que total da vida do Parker até ali; a gente dá a volta completa com ele, e caímos no casal, quando mais jovens, o Parker levando um carregamento de pêssegos, passando sempre que podia na casa da moça. A descrição de toda essa parte é muito bonitinha. Eles são secos, se ofendem, são antagônicos, mal conversam, mas a relação que vai se construindo é muito verdadeira (a Flannery é muito boa em escrever personagens, credo!)
"Parker had no intention of taking any basket of peaches back there but the next day he found himself doing it. He and the girl had almost nothing to say to each other."
As próprias sucessões de parágrafos começam a representar o misto de sentimentos entre os dois Parker decide que não quer mais nada com ela, e na semana seguinte "Se casam no County Ordinary's Office porque Sarah Ruth achava que igrejas eram idólatras"; é, aliás, um dos grandes casamentos já narrados:
"The Ordinary was an old woman with red hair who had held office for forty years and looked as dusty as her books. She married them from behind the iron-grill of a stand-up desk and when she finished, she said with a flourish, “Three dollars and fifty cents and till death do you part!” and yanked some forms out of a machine."
Tudo que eu disse sobre a maneira de escrever da Flannery nos outros contos é válida aqui. Nos importamos muito menos com o que vai acontecer, e mais com o que ela vai escrever, de que jeito, e como vamos vislumbrar outras facetas daquelas personagens. Esse aqui, ainda mais que os outros, só é experimentado quando lido. Há, com certeza, muita simbologia religiosa que não peguei. Nos outros dois eu ainda conseguia fazer algumas pirotecnias para tornar o comentário interessante sem entesourar todos os trechos da escrita da Flannery, aqui foi mais difícil.
E só para dar um gostinho do encaminhamento final, o Parker sofre um um acidente na fazenda, no meio de tudo, "pensa nela [na esposa] e isso o coloca de pé, lentamente", e, ao mesmo tempo, tem uma epifania, aparece-lhe na mente um ardil para que ela não possa mais menosprezar as tatuagens dele, decide finalmente tatuar as costas: uma tatoo gigante, de um Jesus bizantino.
Até lá, ele se mete em brigas, foge do trabalho, se endivida, e finalmente quando consegue fazer, em duas sessões no mesmo dia, a dita cuja, a tatuagem, as coisas não parecem se encaminhar para terminar do jeito que ele imaginou.
Virou costume. De quando em quando, revisitar o Jardim do Borges. A última vez foi em Março do ano passado, e desde a minha primeira leitura, em 2018 ou 2019, esse conto está sempre orbitando minha mente. Foi, no início, ele também um dos impulsos formadores para que eu tomasse gosto pela literatura.
Numa primeira leitura, o que mais mexeu comigo, foi a maneira como o Borges conseguiu conceber e colocar no papel uma ideia que é (a primeiro momento) totalmente incompatível com o meio ou a forma — literária — que ele escolhe para veicular a sua arte:
Uma história infinita, em que múltiplos tempos e realidades se sucedem indefinidamente.
Mas, quanto mais e melhor você lê, mais se apercebe que o tema, os conceitos e o meio não são tão incompatíveis quanto inicialmente parecem ser. E, a meu ver pouco tem a ver com pós-modernismos, surrealismos e outros sufixismos de gênero; eu consigo ver, por exemplo, um germe disto mesmo no Machado, em 1800 e cacetada, Missa do Galo é um exemplo; onde, ao terminar, a leitura, você também dá um passo na escolha de um caminho através das veredas que constituem o jardim daquela representação. Uma releitura, do mesmo conto, em um ou outro momento talvez lhe indique que dessa vez o caminho a ser tomado é outro, o à esquerda; e aí, dentro do conto, surgem a mesma multiplicidade de eventos, e de temas, e até de tramas. É mesmo o infinito num junco. É o infinito no papel, na forma literária.
Há quem diga que pela amplitude de conceitos, neste e em outros contos do Borges, acate mais chamá-los de "Contos-Ensaio" do que "Contos-Literários". Há sim, alguma razão nisso, o miolo do conto é extremamente conceitual. Mas, no Borges, há também uma potência que usa justamente desse poderoso nexo conceitual para que seus contos puxem fio de situações ou enredos aparentemente prosaicos; e os desenvolve ascendentemente com o uso de diversos recursos artifícios, metáforas e imagens literários. Quem negará que é bela a imagem que ele faz, quando Yu Tsun olha para o jardim e vê uma sucessão de acontecimentos, de duplos Albert’s e Yu Tsun’s, indo e vindo, até a imagem ser quebrada por seu perseguidor, chegando para matá-lo?
No Garden of The Forking Paths (desta vez optei por ler o conto em inglês), quem esperaria por tudo isso — multiplicidade temporal, o infinito dentro de um livro — sair justamente do tropo de uma batida história de perseguição e espionagem? Pior, cheio de coincidências de enredo e estranhas exposições, que se, separadas da transgressão que visa o Borges, tornar-se-ia uma narrativa, no mínimo, duvidosa.
Mesmo o "found footage", que podemos, inicialmente (e ingenuamente) tomar como verdade, na realidade representada do conto já é ambígua e dá margem para múltiplos enganos. O leitor é quem deve fazer o julgamento: o relato de Yu Tsun é confiável? O que vemos, é um tempo em que tudo convergiu a favor de Yu Tsun, daí as coincidências narrativas?
No relato do prólogo, a ocultação do evento pelo Capitão Liddell Hart é a história sendo contada pelos vencedores — afinal, Yu Tsun é espião alemão —, ou realmente o relato é uma ficção? É um jogo labiríntico, em tempo e espaço.
Leiam o prólogo:
A primeira coisa a se levar em conta, é que o autor do prólogo é uma pessoa indefinida, e diferente de quem narra o relato que acompanharemos também em primeira pessoa (O do Dr. Yu Tsun); o narrador indefinido colocará à prova um mesmo evento, de um livro chamado "A History of The World War", comparando-o com um testemunho/depoimento parcial (faltam duas páginas) que de alguma maneira chegou em suas mãos. Inclusive, na única nota de rodapé que têm o conto, o primeiro narrador, o oculto, fará um juízo: “A malicious and outlandish statement. In point of fact, Captain Richard Madden had been attacked by the Prussian spy Hans Rabener, alias Viktor Runeberg, who drew an automatic pistol when Madden appeared with orders for the spy's arrest. Madden, in self defense, had inflicted wounds of which the spy later died. — Note by the manuscript editor”
Isso reitera a tentativa do falseamento de informações por parte dos Ingleses, e a ignorância destes quanto aos reais acontecimentos daquele evento, ou a comprovação da bifurcação dos tempos, no plano (universo) do conto — ou, no plano literário, da possibilidade infinita da ficção?
E, para quem acha que o conto não funciona como conto, para além de todos os seus conceitos, sugiro relê-lo com outros olhos e se atentar, principalmente, na primeira página e na roupagem de história de perseguição que o Borges dá. Quando se vê encurralado, disfarce descoberto, no bolso tralhas e o revólver com uma única munição, Yu Tsun vislumbra o suicídio. Mas conclui: “Vaguely I thought that a pistol shot can be heard for a great distance.”
É o mesmo raciocínio que lhe ocorrerá ao final do conto.
Acresce-se ainda, o realce que se dá entre as motivações dele e de seu perseguidor: o primeiro “I carried out my plan because I felt the Chief had some fear of those of my race, of those uncountable forebears whose culmination lies in me. I wished to prove to him that a yellow man could save his armies.”; o último “Madden was implacable. Rather, to be more accurate, he was obliged to be implacable. An Irishman in the service of England, a man suspected of equivocal feelings if not of actual treachery, how could he fail to welcome and seize upon this extraordinary piece of luck: the discovery, capture and perhaps the deaths of two agents of Imperial Germany?, e como isso também serve para colocar ambos em movimento — e ir até o final com suas decisões.
Enfim, estou longe de esgotar o conto, e ainda anseio por mais releituras; na próxima, vou no idioma original.
É um conto que exala atemporalidade e universalidade, é um dos grandes, gigantescos, da literatura universal.
Numa primeira leitura, o que mais mexeu comigo, foi a maneira como o Borges conseguiu conceber e colocar no papel uma ideia que é (a primeiro momento) totalmente incompatível com o meio ou a forma — literária — que ele escolhe para veicular a sua arte:
Uma história infinita, em que múltiplos tempos e realidades se sucedem indefinidamente.
Mas, quanto mais e melhor você lê, mais se apercebe que o tema, os conceitos e o meio não são tão incompatíveis quanto inicialmente parecem ser. E, a meu ver pouco tem a ver com pós-modernismos, surrealismos e outros sufixismos de gênero; eu consigo ver, por exemplo, um germe disto mesmo no Machado, em 1800 e cacetada, Missa do Galo é um exemplo; onde, ao terminar, a leitura, você também dá um passo na escolha de um caminho através das veredas que constituem o jardim daquela representação. Uma releitura, do mesmo conto, em um ou outro momento talvez lhe indique que dessa vez o caminho a ser tomado é outro, o à esquerda; e aí, dentro do conto, surgem a mesma multiplicidade de eventos, e de temas, e até de tramas. É mesmo o infinito num junco. É o infinito no papel, na forma literária.
The Garden of Forking Paths was the chaotic novel itself. The phrase 'to various future times, but not to all' suggested the image of bifurcating in time, not in space. Rereading the whole work confirmed this theory. In all fiction, when a man is faced with alternatives he chooses one at the expense of the others. In the almost unfathomable Ts'ui Pen, he chooses - simultaneously - all of them. He thus creates various futures, various times which start others that will in their turn branch out and bifurcate in other times. This is the cause of the contradictions in the novel.
Há quem diga que pela amplitude de conceitos, neste e em outros contos do Borges, acate mais chamá-los de "Contos-Ensaio" do que "Contos-Literários". Há sim, alguma razão nisso, o miolo do conto é extremamente conceitual. Mas, no Borges, há também uma potência que usa justamente desse poderoso nexo conceitual para que seus contos puxem fio de situações ou enredos aparentemente prosaicos; e os desenvolve ascendentemente com o uso de diversos recursos artifícios, metáforas e imagens literários. Quem negará que é bela a imagem que ele faz, quando Yu Tsun olha para o jardim e vê uma sucessão de acontecimentos, de duplos Albert’s e Yu Tsun’s, indo e vindo, até a imagem ser quebrada por seu perseguidor, chegando para matá-lo?
No Garden of The Forking Paths (desta vez optei por ler o conto em inglês), quem esperaria por tudo isso — multiplicidade temporal, o infinito dentro de um livro — sair justamente do tropo de uma batida história de perseguição e espionagem? Pior, cheio de coincidências de enredo e estranhas exposições, que se, separadas da transgressão que visa o Borges, tornar-se-ia uma narrativa, no mínimo, duvidosa.
Mesmo o "found footage", que podemos, inicialmente (e ingenuamente) tomar como verdade, na realidade representada do conto já é ambígua e dá margem para múltiplos enganos. O leitor é quem deve fazer o julgamento: o relato de Yu Tsun é confiável? O que vemos, é um tempo em que tudo convergiu a favor de Yu Tsun, daí as coincidências narrativas?
No relato do prólogo, a ocultação do evento pelo Capitão Liddell Hart é a história sendo contada pelos vencedores — afinal, Yu Tsun é espião alemão —, ou realmente o relato é uma ficção? É um jogo labiríntico, em tempo e espaço.
Leiam o prólogo:
"In his A History of the World War (page 212), Captain Liddell Hart reports that a planned offensive by thirteen British divisions, supported by fourteen hundred artillery pieces, against the German line at Serre-Montauban, scheduled for July 24, 1916, had to be postponed until the morning of the 29th. He comments that torrential rain caused this delay - which lacked any special significance. The following deposition, dictated by, read over, and then signed by Dr. Yu Tsun, former teacher of English at the Tsingtao Hochschule, casts unsuspected light upon this event. The first two pages are missing."
A primeira coisa a se levar em conta, é que o autor do prólogo é uma pessoa indefinida, e diferente de quem narra o relato que acompanharemos também em primeira pessoa (O do Dr. Yu Tsun); o narrador indefinido colocará à prova um mesmo evento, de um livro chamado "A History of The World War", comparando-o com um testemunho/depoimento parcial (faltam duas páginas) que de alguma maneira chegou em suas mãos. Inclusive, na única nota de rodapé que têm o conto, o primeiro narrador, o oculto, fará um juízo: “A malicious and outlandish statement. In point of fact, Captain Richard Madden had been attacked by the Prussian spy Hans Rabener, alias Viktor Runeberg, who drew an automatic pistol when Madden appeared with orders for the spy's arrest. Madden, in self defense, had inflicted wounds of which the spy later died. — Note by the manuscript editor”
Isso reitera a tentativa do falseamento de informações por parte dos Ingleses, e a ignorância destes quanto aos reais acontecimentos daquele evento, ou a comprovação da bifurcação dos tempos, no plano (universo) do conto — ou, no plano literário, da possibilidade infinita da ficção?
“Lost in these imaginary illusions I forgot my destiny — that of the hunted. For an undetermined period of time I felt myself cut off from the world, an abstract spectator. The hazy and murmuring countryside, the moon, the decline of the evening, stirred within me. Going down the gently sloping road I could not feel fatigue. The evening was at once intimate and infinite.”
E, para quem acha que o conto não funciona como conto, para além de todos os seus conceitos, sugiro relê-lo com outros olhos e se atentar, principalmente, na primeira página e na roupagem de história de perseguição que o Borges dá. Quando se vê encurralado, disfarce descoberto, no bolso tralhas e o revólver com uma única munição, Yu Tsun vislumbra o suicídio. Mas conclui: “Vaguely I thought that a pistol shot can be heard for a great distance.”
É o mesmo raciocínio que lhe ocorrerá ao final do conto.
Acresce-se ainda, o realce que se dá entre as motivações dele e de seu perseguidor: o primeiro “I carried out my plan because I felt the Chief had some fear of those of my race, of those uncountable forebears whose culmination lies in me. I wished to prove to him that a yellow man could save his armies.”; o último “Madden was implacable. Rather, to be more accurate, he was obliged to be implacable. An Irishman in the service of England, a man suspected of equivocal feelings if not of actual treachery, how could he fail to welcome and seize upon this extraordinary piece of luck: the discovery, capture and perhaps the deaths of two agents of Imperial Germany?, e como isso também serve para colocar ambos em movimento — e ir até o final com suas decisões.
Enfim, estou longe de esgotar o conto, e ainda anseio por mais releituras; na próxima, vou no idioma original.
É um conto que exala atemporalidade e universalidade, é um dos grandes, gigantescos, da literatura universal.
"O mundo não acabou, afinal. Mas o mundo que eu me sentia bem em viver sim. Em um piscar de olhos."
[I: Sobre o conjunto da obra]
[II: Sobre o Primeiro Volume]
I. Eden
Eu sinceramente não consigo entender o motivo de uma obra tão vasta, tão redondinha, ser ignorada e preterida pelo grande público que consome mangá. Na ascensão relativamente recente dos quadrinhos japoneses, a última, alavancada pelos três grandes seinen's (Vagabond, Vinland Saga, Berserk), continuou e continua mantendo Eden às escondidas. Eden é melhor que, no mínimo, dois desse trio. E olha que Vagabond que me fez gostar de ler mangá. Mesmo dentro do próprio gênero da ficção científica japonesa, com Ghost In the Shell, Planetes, Sidonia no Kishi e outros, Eden fica escondido. Mal entra nas listas. Diminuindo ainda mais o escopo, nem no sub-gênero do Cyberpunk — que o Endo Hiroki demonstra compreender mais do que certos contemporâneos que acham que o Cyberpunk se resume a Chuva & Neon — você ouve falar de Eden.
Eden é um épico, fechado e planejado, que ao longo de seus dezessete volumes, cruza gêneros, demografias, e até área das ciências humanas e exatas com uma finalidade louvável: contar uma boa história. Atravessa filosofia, religião, física teórica, virologia, conflitos étnicos, políticos e sexuais, para falar, como toda grande obra, sobre a condição humana e a interação humana.
Quer mais? A discussão acerca das pandemias e vírus, cada vez mais frequentes e reincidentes desde o Covid, é um dos temas centrais da obra, de pasmem, 1998! Singularidade, existencialismo, eurocentrismo, brutalidade e sofrimento causado pela Guerra às Drogas aqui na América do Sul são só mais alguns pluses.
Eden apesar de ser uma obra com que você passa pelas páginas facilmente, dado o encadeamento envolvente, é denso; exige e desafia o leitor. Se o escopo já parece impressionante com tudo o que citei, há outra camada que envolve o gnosticismo e a tecnologia (razão pela qual acompanhamos três gerações de uma família específica [com nomes simbólicos como Elijah, Enoah, Hannah] em diferentes etapas e tempos). Você é inserido no mundo; você apresenta-se à narrativa, e não o contrário. Destaco a coragem do Endo Hiroki, tanto na construção quanto no worldbuilding especulativo/religioso.
Estamos no apocalipse, e por isso o autor não alivia nada. Não se censura nem na escrita nem no desenho. Eden equilibra suas partes mais especulativas e próximas da ficção científica com temas sérios e caros: vemos casos sobre os Uigures no Leste Europeu, tráfico de drogas e prostituição na América do Sul, conflitos do Oriente Médio e o conflito hindu-islâmico na Índia.
O principal conflito político criado pelo mangá também merece atenção: as ações da Própatria (Gnostia), uma federação originaria da OTAN e da ONU, mas que logo englobou ambas, e agora praticamente controla as Américas, Japão, Europa e algumas partes da África. Esse novo gigante imperial mundial visa a adesão de todos os países do mundo, visando alcançar a paz global em meio ao caos. Não surpreende que a organização, levantada durante um período drástico na humanidade (a Pandemia que você verá já no primeiro capítulo) seja internamente suja, tirana e dominadora.
De qualquer jeito, na Agnostia (nações ou comunidades marginais não-membros da Própatria) onde percorreremos nos primeiros volumes, as coisas também não vão bem, e países como Paraguai, Peru e Índia sofrem as consequências do tráfico e conflitos de guerrilhas armadas, chegando perto de um estado anárquico e fraturado pelas guerras internas.
Presenciamos táticas de guerrilha, conflitos entre supremacias éticas, guerras ao tráfico, combates de faca, mas tudo isso envolto em elementos de ficção cientifica, então temos também combates entre hackers, de criptografia e programação, super-soldados e avançadas tecnologias de combate. Hiroki também balanceia ação frenética com contemplação.
Inseridos nesse épico global, ainda temos uma gama incrível de personagens principais e secundários, consistentes, atrativos, inteligentes e bem desenvolvidos.
Reitero sempre caráter de Eden como um Épico por haver um todo por trás de tudo, um final bem amarrado, um bom final, que faz necessário tudo que vem antes. O primeiro capítulo é amarrado com o último capítulo, dezessete volumes depois, de um jeito muito particular, envolvendo um disco de vinil e uma dança — digo só para te deixar com um gostinho de ler. O primeiro volume, por conta disso — com exceção do ótimo primeiro capítulo —, não representa a série em sua totalidade. Eden se sobressai na corrida longa. Possui uma construção um pouco lenta, uma mudança de foco brusca, exposição e diálogo certas vezes engessados, e o visual de início ainda não está maduro. Mas ainda sim, é superior a muito do que se tem por aí. Eu ainda não li um primeiro capítulo que se equipare às cem paginas redondinhas, surpreendentes, que é o primeiro capítulo de Eden.
O desenvolvimento do enredo de toda a série é ótimo, os volumes vão seguindo um bom ritmo e a linha de acontecimentos que faz com que você queira sempre ler um pouco mais. A mudança de foco e personagens ocorrerá de tempos em tempos, mas isso possibilita desenvolver e mostrar cada faceta da história, é o Endo girando o cubo-mágico para cada parte receber a sua luz. Você acompanhará o desenvolvimento do próprio autor como artista visual, e também como escritor, já que gradualmente ele vai despertando seu gênio-magnânimo; a reta final de Eden é uma — quase — odisseia no espaço.
Você tem que estar disposto a mais do que apenas ler ''passando os olhos'', a obra deve ser observada com muita atenção, pois há muito mais detalhes que enriquecem a leitura. Eden eventualmente lida com praticamente todos os aspectos da civilização humana e, ocasionalmente, pula até de gêneros para um melhor foco em diferentes tópicos. Em um arco, temos uma narrativa com molde de romance de formação, em outro um drama, ou uma narrativa policial, uma guerra às drogas, e até uma comédia sexual com uma prostituta. À margem das explicações, muitas das mensagens e conexões ficam a cargo do leitor para serem interpretadas. É uma leitura completa, para se investir com algum tempo e sentir aquela imersão romanesca.
II. Volume 1
O primeiro capítulo de Eden começa contando a vida do jovem casal Enoah e Hanna — uns dos primeiros a serem descobertos como imunes à epidemia —, a maneira como vivem, como lidam com aquele “apocalipse”, como se sentem em relação ao destino incerto da humanidade. Começa quase como fosse um slice-of-lice, mas já percebemos algo de diferente quando o vírus é utilizado como uma doença que causa segregação, semelhante ao lepra ou o HIV.
Uma das partes mais interessantes no prólogo, se não a parte mais interessante, são as personagens. Um gostinho do que virá a ser a obra. Eles são construídos apenas para, no fim do capítulo, que é quase uma one-shot (conto), serem totalmente desconstruídos. Inverte-se os valores quando cada uma das motivações internas vão sendo reveladas. O paraíso se desfaz tanto para os protagonistas quanto para nós.
Por exemplo, há o Layne. Um cadeirante, homossexual que amava o melhor amigo, pai de uma das duas crianças que hoje ele cuida. Ou, o Chris, um militar que está do lado de fora “fazendo o bem” e tentando salvar o mundo. Ou, o Ennoia, o filho do Chris, que seria o protagonista bondoso hipotético do prólogo, que deseja semear vida naquele mundo morto.
Apesar das aparentes boas intenções destes três, o primeiro se revela um falso cordeiro, o segundo um falso herói e o próprio Ennoia, o mocinho, o personagem com quem deveríamos nos apegar, demonstra um embotamento de empatia quando ordena um massacre no final. Age tão frio quanto o robô que comanda no fim do prólogo.
A história do primeiro volume muda, então, de foco. Se acostume, que isso será comum. Um salto no tempo e somos apresentados ao filho de Hannah e Enoah, Elijah. Fora do Eden, anda pelo mundo sendo pela visão dele que somos pela primeira vez apresentados ao mundo além do Eden (Centro de Pesquisa) do prólogo; apresenta-nos a Própatria e os Nômades.
Elijah é acompanhado pelo robô, do pai, que reconstruiu, e mundo que ele percorre é um mundo em que civilização foi sendo tomada pela natureza, com a parte da humanidade afetada pelo vírus já há mortos há tempos mas ainda ali, como cascas vazias, é o efeito do Closer. A viagem de Ellijah o faz fazer diversos questionamentos sobre o mundo. São pequenas cenas de sobrevivência, com ele procurando por roupas e alimentos. Ele é um garoto inteligente, conhece o mundo em que vive, mas ainda muito ingênuo, ingenuidade que não vai durar muito, visto que logo precisará viver entre guerrilhas armadas, mercenários, prostituição, tráfico de drogas e muita morte.
Durante a passagem do tempo do prólogo para o segundo capítulo, Enoah, seu pai, virou o grande cabeça por trás de todo o tráfico de drogas na América do Sul. Mais uma virada na personagem inicialmente apresentada no prólogo.
Enoah é raptado, e somos apresentados ao grupo de guerrilheiros, personagens que conosco percorrerão alguns arcos. Sophia, uma super hacker com o corpo completamente mecânico e modos maternais, Kenji, um quieto e tímido soldado (que rende as melhores cenas de ação no mangá), e alguns outros. Eles estavam tentando cruzar a fronteira dos países da Gnostia e Propatia sorrateiramente. Nesse cenário, Elijah, que antes era só um garoto mimado pelo pai, agora uma mistura de narco-traficante com mafioso-chefe de estado, troca a lente pela qual costumava observar o mundo. Ele é mal tratado, linchado e sofre todas as consequências de ser o filho do praticamente chefe do crime organizado na América do Sul, e o primeiro volume, com seus altos e baixos, com sua frequente mudança de foco, acaba com os pés no primeiro arco do mangá: Conflitos militares na travessia dos Andes.
[I: Sobre o conjunto da obra]
[II: Sobre o Primeiro Volume]
I. Eden
Eu sinceramente não consigo entender o motivo de uma obra tão vasta, tão redondinha, ser ignorada e preterida pelo grande público que consome mangá. Na ascensão relativamente recente dos quadrinhos japoneses, a última, alavancada pelos três grandes seinen's (Vagabond, Vinland Saga, Berserk), continuou e continua mantendo Eden às escondidas. Eden é melhor que, no mínimo, dois desse trio. E olha que Vagabond que me fez gostar de ler mangá. Mesmo dentro do próprio gênero da ficção científica japonesa, com Ghost In the Shell, Planetes, Sidonia no Kishi e outros, Eden fica escondido. Mal entra nas listas. Diminuindo ainda mais o escopo, nem no sub-gênero do Cyberpunk — que o Endo Hiroki demonstra compreender mais do que certos contemporâneos que acham que o Cyberpunk se resume a Chuva & Neon — você ouve falar de Eden.
Eden é um épico, fechado e planejado, que ao longo de seus dezessete volumes, cruza gêneros, demografias, e até área das ciências humanas e exatas com uma finalidade louvável: contar uma boa história. Atravessa filosofia, religião, física teórica, virologia, conflitos étnicos, políticos e sexuais, para falar, como toda grande obra, sobre a condição humana e a interação humana.
Quer mais? A discussão acerca das pandemias e vírus, cada vez mais frequentes e reincidentes desde o Covid, é um dos temas centrais da obra, de pasmem, 1998! Singularidade, existencialismo, eurocentrismo, brutalidade e sofrimento causado pela Guerra às Drogas aqui na América do Sul são só mais alguns pluses.
Eden apesar de ser uma obra com que você passa pelas páginas facilmente, dado o encadeamento envolvente, é denso; exige e desafia o leitor. Se o escopo já parece impressionante com tudo o que citei, há outra camada que envolve o gnosticismo e a tecnologia (razão pela qual acompanhamos três gerações de uma família específica [com nomes simbólicos como Elijah, Enoah, Hannah] em diferentes etapas e tempos). Você é inserido no mundo; você apresenta-se à narrativa, e não o contrário. Destaco a coragem do Endo Hiroki, tanto na construção quanto no worldbuilding especulativo/religioso.
Estamos no apocalipse, e por isso o autor não alivia nada. Não se censura nem na escrita nem no desenho. Eden equilibra suas partes mais especulativas e próximas da ficção científica com temas sérios e caros: vemos casos sobre os Uigures no Leste Europeu, tráfico de drogas e prostituição na América do Sul, conflitos do Oriente Médio e o conflito hindu-islâmico na Índia.
O principal conflito político criado pelo mangá também merece atenção: as ações da Própatria (Gnostia), uma federação originaria da OTAN e da ONU, mas que logo englobou ambas, e agora praticamente controla as Américas, Japão, Europa e algumas partes da África. Esse novo gigante imperial mundial visa a adesão de todos os países do mundo, visando alcançar a paz global em meio ao caos. Não surpreende que a organização, levantada durante um período drástico na humanidade (a Pandemia que você verá já no primeiro capítulo) seja internamente suja, tirana e dominadora.
De qualquer jeito, na Agnostia (nações ou comunidades marginais não-membros da Própatria) onde percorreremos nos primeiros volumes, as coisas também não vão bem, e países como Paraguai, Peru e Índia sofrem as consequências do tráfico e conflitos de guerrilhas armadas, chegando perto de um estado anárquico e fraturado pelas guerras internas.
Presenciamos táticas de guerrilha, conflitos entre supremacias éticas, guerras ao tráfico, combates de faca, mas tudo isso envolto em elementos de ficção cientifica, então temos também combates entre hackers, de criptografia e programação, super-soldados e avançadas tecnologias de combate. Hiroki também balanceia ação frenética com contemplação.
Inseridos nesse épico global, ainda temos uma gama incrível de personagens principais e secundários, consistentes, atrativos, inteligentes e bem desenvolvidos.
Reitero sempre caráter de Eden como um Épico por haver um todo por trás de tudo, um final bem amarrado, um bom final, que faz necessário tudo que vem antes. O primeiro capítulo é amarrado com o último capítulo, dezessete volumes depois, de um jeito muito particular, envolvendo um disco de vinil e uma dança — digo só para te deixar com um gostinho de ler. O primeiro volume, por conta disso — com exceção do ótimo primeiro capítulo —, não representa a série em sua totalidade. Eden se sobressai na corrida longa. Possui uma construção um pouco lenta, uma mudança de foco brusca, exposição e diálogo certas vezes engessados, e o visual de início ainda não está maduro. Mas ainda sim, é superior a muito do que se tem por aí. Eu ainda não li um primeiro capítulo que se equipare às cem paginas redondinhas, surpreendentes, que é o primeiro capítulo de Eden.
O desenvolvimento do enredo de toda a série é ótimo, os volumes vão seguindo um bom ritmo e a linha de acontecimentos que faz com que você queira sempre ler um pouco mais. A mudança de foco e personagens ocorrerá de tempos em tempos, mas isso possibilita desenvolver e mostrar cada faceta da história, é o Endo girando o cubo-mágico para cada parte receber a sua luz. Você acompanhará o desenvolvimento do próprio autor como artista visual, e também como escritor, já que gradualmente ele vai despertando seu gênio-magnânimo; a reta final de Eden é uma — quase — odisseia no espaço.
Você tem que estar disposto a mais do que apenas ler ''passando os olhos'', a obra deve ser observada com muita atenção, pois há muito mais detalhes que enriquecem a leitura. Eden eventualmente lida com praticamente todos os aspectos da civilização humana e, ocasionalmente, pula até de gêneros para um melhor foco em diferentes tópicos. Em um arco, temos uma narrativa com molde de romance de formação, em outro um drama, ou uma narrativa policial, uma guerra às drogas, e até uma comédia sexual com uma prostituta. À margem das explicações, muitas das mensagens e conexões ficam a cargo do leitor para serem interpretadas. É uma leitura completa, para se investir com algum tempo e sentir aquela imersão romanesca.
II. Volume 1
O primeiro capítulo de Eden começa contando a vida do jovem casal Enoah e Hanna — uns dos primeiros a serem descobertos como imunes à epidemia —, a maneira como vivem, como lidam com aquele “apocalipse”, como se sentem em relação ao destino incerto da humanidade. Começa quase como fosse um slice-of-lice, mas já percebemos algo de diferente quando o vírus é utilizado como uma doença que causa segregação, semelhante ao lepra ou o HIV.
Uma das partes mais interessantes no prólogo, se não a parte mais interessante, são as personagens. Um gostinho do que virá a ser a obra. Eles são construídos apenas para, no fim do capítulo, que é quase uma one-shot (conto), serem totalmente desconstruídos. Inverte-se os valores quando cada uma das motivações internas vão sendo reveladas. O paraíso se desfaz tanto para os protagonistas quanto para nós.
Por exemplo, há o Layne. Um cadeirante, homossexual que amava o melhor amigo, pai de uma das duas crianças que hoje ele cuida. Ou, o Chris, um militar que está do lado de fora “fazendo o bem” e tentando salvar o mundo. Ou, o Ennoia, o filho do Chris, que seria o protagonista bondoso hipotético do prólogo, que deseja semear vida naquele mundo morto.
Apesar das aparentes boas intenções destes três, o primeiro se revela um falso cordeiro, o segundo um falso herói e o próprio Ennoia, o mocinho, o personagem com quem deveríamos nos apegar, demonstra um embotamento de empatia quando ordena um massacre no final. Age tão frio quanto o robô que comanda no fim do prólogo.
A história do primeiro volume muda, então, de foco. Se acostume, que isso será comum. Um salto no tempo e somos apresentados ao filho de Hannah e Enoah, Elijah. Fora do Eden, anda pelo mundo sendo pela visão dele que somos pela primeira vez apresentados ao mundo além do Eden (Centro de Pesquisa) do prólogo; apresenta-nos a Própatria e os Nômades.
Elijah é acompanhado pelo robô, do pai, que reconstruiu, e mundo que ele percorre é um mundo em que civilização foi sendo tomada pela natureza, com a parte da humanidade afetada pelo vírus já há mortos há tempos mas ainda ali, como cascas vazias, é o efeito do Closer. A viagem de Ellijah o faz fazer diversos questionamentos sobre o mundo. São pequenas cenas de sobrevivência, com ele procurando por roupas e alimentos. Ele é um garoto inteligente, conhece o mundo em que vive, mas ainda muito ingênuo, ingenuidade que não vai durar muito, visto que logo precisará viver entre guerrilhas armadas, mercenários, prostituição, tráfico de drogas e muita morte.
Durante a passagem do tempo do prólogo para o segundo capítulo, Enoah, seu pai, virou o grande cabeça por trás de todo o tráfico de drogas na América do Sul. Mais uma virada na personagem inicialmente apresentada no prólogo.
Enoah é raptado, e somos apresentados ao grupo de guerrilheiros, personagens que conosco percorrerão alguns arcos. Sophia, uma super hacker com o corpo completamente mecânico e modos maternais, Kenji, um quieto e tímido soldado (que rende as melhores cenas de ação no mangá), e alguns outros. Eles estavam tentando cruzar a fronteira dos países da Gnostia e Propatia sorrateiramente. Nesse cenário, Elijah, que antes era só um garoto mimado pelo pai, agora uma mistura de narco-traficante com mafioso-chefe de estado, troca a lente pela qual costumava observar o mundo. Ele é mal tratado, linchado e sofre todas as consequências de ser o filho do praticamente chefe do crime organizado na América do Sul, e o primeiro volume, com seus altos e baixos, com sua frequente mudança de foco, acaba com os pés no primeiro arco do mangá: Conflitos militares na travessia dos Andes.
A Nossa Herança Clássica
(…) "Até nossas superstições devemo-las aos espectros, bruxas, pragas, maus agouros e dias de azar dos gregos. E quem seria capaz de compreender a literatura inglesa, ou uma ode de Keats, sem ter alguma noção de mitologia grega? Nossa literatura dificilmente teria existido sem a tradição grega. Nosso alfabeto nos vem da Grécia através de Cumas e Roma; nossa linguagem está inçada de palavras gregas; nossa ciência criou uma linguagem internacional formada de termos gregos; nossa gramática e nossa retórica, até mesmo a pontuação e os parágrafos desta página, são invenções gregas. Nossos gêneros literários são gregos — o lirismo, a ode, o idílio, a novela, o ensaio, a oração, a biografia, a história e, acima de tudo, o drama; aqui também quase todas as palavras são gregas. Gregos são os termos e formas do drama moderno — tragédia, comédia e pantomima; e embora a tragédia isabelina seja única, a comédia nos chegou quase incólume, de Menandro e Filêmon, através de Plauto e Terêncio, Ben Jonson e Molière. Os dramas gregos por si correspondem às mais ricas porções de nossa herança. (...)
A civilização não morre, emigra; muda de vestuário e habitat, mas persiste. A decadência de uma civilização, como a de um indivíduo, abre espaço para o desabrochar de outra; a vida deixa cair a velha pele e surpreende a morte com uma nova mocidade. A civilização grega está viva; move-se em todo sopro intelectual que respiramos; de tal modo está viva que nenhum de nós seria capaz de absorvê-la inteira nem mesmo no espaço de uma existência. Seus defeitos nós os conhecemos — as guerras insanas e impiedosas, a estagnante escravidão, a sujeição da mulher, a falta de freio moral, o corrupto individualismo, o trágico fracasso na união da liberdade à ordem e à paz. Mas os que amam a liberdade, a razão e a beleza não se perturbarão diante dessa tênue neblina. Ouvirão dentro do tumulto da história política as vozes de Sólon e Sócrates, de Platão e Eurípides, de Fídias e Praxíteles, de Epicuro e Arquimedes; agradecerão a existência desses homens e procurarão com eles conviver através dos séculos. Hão de pensar na Grécia como a radiosa aurora desta civilização ocidental que, a despeito de todas as suas falhas, é o nosso alimento e a nossa vida."
(…) "Até nossas superstições devemo-las aos espectros, bruxas, pragas, maus agouros e dias de azar dos gregos. E quem seria capaz de compreender a literatura inglesa, ou uma ode de Keats, sem ter alguma noção de mitologia grega? Nossa literatura dificilmente teria existido sem a tradição grega. Nosso alfabeto nos vem da Grécia através de Cumas e Roma; nossa linguagem está inçada de palavras gregas; nossa ciência criou uma linguagem internacional formada de termos gregos; nossa gramática e nossa retórica, até mesmo a pontuação e os parágrafos desta página, são invenções gregas. Nossos gêneros literários são gregos — o lirismo, a ode, o idílio, a novela, o ensaio, a oração, a biografia, a história e, acima de tudo, o drama; aqui também quase todas as palavras são gregas. Gregos são os termos e formas do drama moderno — tragédia, comédia e pantomima; e embora a tragédia isabelina seja única, a comédia nos chegou quase incólume, de Menandro e Filêmon, através de Plauto e Terêncio, Ben Jonson e Molière. Os dramas gregos por si correspondem às mais ricas porções de nossa herança. (...)
A civilização não morre, emigra; muda de vestuário e habitat, mas persiste. A decadência de uma civilização, como a de um indivíduo, abre espaço para o desabrochar de outra; a vida deixa cair a velha pele e surpreende a morte com uma nova mocidade. A civilização grega está viva; move-se em todo sopro intelectual que respiramos; de tal modo está viva que nenhum de nós seria capaz de absorvê-la inteira nem mesmo no espaço de uma existência. Seus defeitos nós os conhecemos — as guerras insanas e impiedosas, a estagnante escravidão, a sujeição da mulher, a falta de freio moral, o corrupto individualismo, o trágico fracasso na união da liberdade à ordem e à paz. Mas os que amam a liberdade, a razão e a beleza não se perturbarão diante dessa tênue neblina. Ouvirão dentro do tumulto da história política as vozes de Sólon e Sócrates, de Platão e Eurípides, de Fídias e Praxíteles, de Epicuro e Arquimedes; agradecerão a existência desses homens e procurarão com eles conviver através dos séculos. Hão de pensar na Grécia como a radiosa aurora desta civilização ocidental que, a despeito de todas as suas falhas, é o nosso alimento e a nossa vida."
''Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos.''.
O que é A Terceira Margem do Rio? É o elemento mágico indefinido pelo autor que torna a história aberta para a imaginação e fantasia. É a reflexão sobre a morte através do medo de ir no lugar de um familiar; é a nova dimensão-não-existente do rio; a dimensão de barco-homem-margem; é a emoção inexplicável que transcorre das penas e do estilo do Rosa; ou, talvez, a procura de sentido na existência.
Eu não consigo pôr em palavas o que a linguagem desse conto fez comigo, me deixou com lágrimas nos olhos e não consigo apontar um único motivo nem se quisesse; esta talvez seja a purgação das emoções pela poética, como concebe o Aristóteles; numa forma de vai-vem de um rio de sensações, muitas dúvidas, muitas interpretações, no entanto, com uma coisa como certa: esta é uma das melhores histórias curtas que já li, talvez da literatura universal como um todo.
''Mas minha irmã teve menino, ela mesma entestou que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco, foi num dia bonito, minha irmã de vestido branco, que tinha sido o do casamento, ela erguia nos braços a criancinha, o marido dela segurou, para defender os dois, o guarda-sol. A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. Minha irmã chorou, nós todos aí choramos, abraçados.''
O que é A Terceira Margem do Rio? É o elemento mágico indefinido pelo autor que torna a história aberta para a imaginação e fantasia. É a reflexão sobre a morte através do medo de ir no lugar de um familiar; é a nova dimensão-não-existente do rio; a dimensão de barco-homem-margem; é a emoção inexplicável que transcorre das penas e do estilo do Rosa; ou, talvez, a procura de sentido na existência.
Eu não consigo pôr em palavas o que a linguagem desse conto fez comigo, me deixou com lágrimas nos olhos e não consigo apontar um único motivo nem se quisesse; esta talvez seja a purgação das emoções pela poética, como concebe o Aristóteles; numa forma de vai-vem de um rio de sensações, muitas dúvidas, muitas interpretações, no entanto, com uma coisa como certa: esta é uma das melhores histórias curtas que já li, talvez da literatura universal como um todo.
''Mas minha irmã teve menino, ela mesma entestou que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco, foi num dia bonito, minha irmã de vestido branco, que tinha sido o do casamento, ela erguia nos braços a criancinha, o marido dela segurou, para defender os dois, o guarda-sol. A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. Minha irmã chorou, nós todos aí choramos, abraçados.''