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rolandosmedeiros 's review for:

Parker's Back by Flannery O'Connor
4.0

"Você está mal," ele disse. "Foi preso?"
"Me casei," Parker respondeu.


Fechando a trilogia de comentários sobre os contos da Flannery, Parker's Back é mais um que se pauta na singularidade e na peculiaridade das personagens; é um conto cheio de flashbacks e digressões, mas também cheio de charme: e, diferente dos outros dois, o foco aqui é em uma relação amorosa — estranhíssima, mas magnetizante. E é outro que, de novo, a ironia do narrador é cristalina.

Parker (ou O.E) é um homem negro, coberto de tatuagens da cabeça aos pés (menos nas costas), antigo marinheiro, motorista de caminhão, agora trabalhador braçal, que casa com uma mulher simples, Sarah Ruth, branca, extremamente religiosa, que odeia as tatuagens dele.

Os dois aparentam ser totalmente aversos um ao outro, mas de quando em quando vão dando sinais de que há algo nessa contradição, nesse casamento estranho. Depois de um casamento apressado, Parker "continuou com ela como se estivesse enfeitiçado", e inventa histórias que não existem só para causar ciume na mulher; diz que a nova empregadora dele é uma jovem muito bonita, mas na verdade era "uma velha senhora que olhava para ele como olhava para o velho trator remendado — tinha que aguentá-lo por que era tudo que ela tinha."

Assim a Flannery vai levando a história, até que a narrativa volte no tempo e corra até o primeiro encontro, estranho e ocasional, do Parker com a esposa. Entendemos mais do passado dele, um homem que, pela voz do narrador, chama a mulher de feia, de rasa, de simples, mas que ele mesmo fora um menino "tão simples quanto um saco de pão", e na infância, ao ver um homem robusto, cheio de flores e bestas e homens tatuados na pele, tem uma epifania, "até aquele dia, o dia que viu aquele homem, nunca passou pela cabeça dele que havia qualquer coisa de incomum em simplesmente existir", depois daquilo não dava para continuar vivendo como vivia.

Mente para a família, foge, e vai trabalhar com o que der para conseguir se tatuar. Menos nas costas, claro, afinal por que tatuar um lugar onde você mesmo não consegue ver? A primeira tatuagem "doeu pouco, apenas o suficiente para parecer a Parker que era algo que valia a pena ser feito".

Não vou minuciar tudo aqui, mas a gente tem um vislumbre quase que total da vida do Parker até ali; a gente dá a volta completa com ele, e caímos no casal, quando mais jovens, o Parker levando um carregamento de pêssegos, passando sempre que podia na casa da moça. A descrição de toda essa parte é muito bonitinha. Eles são secos, se ofendem, são antagônicos, mal conversam, mas a relação que vai se construindo é muito verdadeira (a Flannery é muito boa em escrever personagens, credo!)

"Parker had no intention of taking any basket of peaches back there but the next day he found himself doing it. He and the girl had almost nothing to say to each other."


As próprias sucessões de parágrafos começam a representar o misto de sentimentos entre os dois Parker decide que não quer mais nada com ela, e na semana seguinte "Se casam no County Ordinary's Office porque Sarah Ruth achava que igrejas eram idólatras"; é, aliás, um dos grandes casamentos já narrados:

"The Ordinary was an old woman with red hair who had held office for forty years and looked as dusty as her books. She married them from behind the iron-grill of a stand-up desk and when she finished, she said with a flourish, “Three dollars and fifty cents and till death do you part!” and yanked some forms out of a machine."


Tudo que eu disse sobre a maneira de escrever da Flannery nos outros contos é válida aqui. Nos importamos muito menos com o que vai acontecer, e mais com o que ela vai escrever, de que jeito, e como vamos vislumbrar outras facetas daquelas personagens. Esse aqui, ainda mais que os outros, só é experimentado quando lido. Há, com certeza, muita simbologia religiosa que não peguei. Nos outros dois eu ainda conseguia fazer algumas pirotecnias para tornar o comentário interessante sem entesourar todos os trechos da escrita da Flannery, aqui foi mais difícil.

E só para dar um gostinho do encaminhamento final, o Parker sofre um um acidente na fazenda, no meio de tudo, "pensa nela [na esposa] e isso o coloca de pé, lentamente", e, ao mesmo tempo, tem uma epifania, aparece-lhe na mente um ardil para que ela não possa mais menosprezar as tatuagens dele, decide finalmente tatuar as costas: uma tatoo gigante, de um Jesus bizantino.

Até lá, ele se mete em brigas, foge do trabalho, se endivida, e finalmente quando consegue fazer, em duas sessões no mesmo dia, a dita cuja, a tatuagem, as coisas não parecem se encaminhar para terminar do jeito que ele imaginou.