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rolandosmedeiros 's review for:

The Horla by Guy de Maupassant
4.0

Bingo de Ficção Especulativa do Reddit 2024~2025
Entitled Animals: Read a book that has an animal in the title.
[Modo Difícil: O animal no título é uma criatura fantástica]

A gente pega essas ficções mais fantásticas para ler, por vezes, como um jeito de se distanciar do marasmo cotidiano. E então sofremos um baque, a exemplo daqui, porque de maneira alguma esperamos (é uma novelinha francesa do final de dezenove) quando o ser fantástico se revela brasileiro, paulista, bebe vinho, leite (e água, noutra versão), suga a energia de seus hospedeiros, é invisível e semeia o caos no lugar ou corpo onde decide habitar. Em certo sentido, é realíssimo.

Não é exagero de minha interpretação (aliás, se tivesse visto isso sendo citado antes, teria lido O Horla muito mais cedo): "I will add: A few days before the first attack of the sickness from which I almost died, I vividly recall seeing a grand Brazilian three-master pass by with its flag (…) I told you that my house was on the water’s edge… all white.… He was hidden on this ship, without a doubt.…"

Para além disso, é uma narrativa que me surpreendeu muito pelo jeito de escrever do Maupassant e pela amplitude dos temas. O enredo é bom, há muitas boas metáforas, a exposição mesmo quando fantástica vem bem dosada e argumentada, e sobretudo a construção de cenas é um show à parte, muito cinematográfica. Dá para tirar muita coisa, isso se já não o foi tirado, para filmes de terror/suspense. Tudo que há de interessante, aliás, nas narrativas de terror do tempo do Maupassant se faz presente aqui: a dubiedade dos eventos mesmo quando experimentados em primeira pessoa, a racionalidade sempre pendendo numa corda bamba, a paralisia do sono, a hipnose e a mesmerizarão que tanto interessava o Poe, a ciência da época em contraste com o entendimento da limitação de nossos sentidos perante a realidade….

Há até um leve roçar na ficção-científica/horror côsmico quando o personagem principal se deixa pensar no Horla e em tudo aquilo que ele implica, aquilo que não conhecemos e que está além do que podemos conhecer; desde as minúcias da evolução darwiniana até os confins espaço sideral. Pensa-se naquele estranho ser como uma ramificação evolutiva, aquele que superará a raça humana. Chega a imaginar o espaço e as galáxias, e também um tipo de mariposa colossal, pulando de planeta a planeta em distantes nebulosas, como se fosse uma abelha que fizesse o oposto da polinização.

"Quem vive naqueles mundos? Que formas, que seres, que animais ou que plantas, existirão ali? Estes seres pensantes de outros universos serão mais sábios e mais poderosos que nós? Conhecerão, eles, aquilo que ignoramos? Talvez qualquer dia desses um deles atravessará o espaço e chegará na terra para conquistá-la, como assim se fizeram investir os Normandos sobre aqueles povos mais fracos. (…) Somos muitíssimo indefesos, desarmados, ignorantes e pequenos sobre esse pedaço de lodo que gira solto em uma gota d’água."


A história é contada em primeira pessoa, em forma de diário. Há a entrada dos dias e tudo. A estranheza já começa nos primeiros dias, ainda que o personagem ainda esteja bem lúcido. O protagonista nos diz — e escreve no diário — como está feliz por tornar à terra onde vivera e nascera sua família. Uma casa muito bem colocada, à margem do Sena. Vendo passar barquinhos e navios e o rio. A felicidade, porém, dura pouco. Nos dias seguintes apanha uma febre terçã e uma tal opressão decaí sobre ele que o faz escrever no diário, no que é a primeira boa exposição da narrativa, sobre como tudo aquilo "que nos rodeia e que percebemos sem ver, que roçamos inconscientemente, que encosta na gente sem que toquemos, e encontramos sem pedir (...)" afeta o nosso corpo e a nossa mente. E isso já coloca em campo o jogo que o Maupassant vai fazer o tempo todo: entre o fantástico e o científico. Isso aqui é tanto o efeito do Horla, quanto o efeito do que se dizia ser as bactérias no ar, ou mais antigamente os humores dos gregos e romanos. Me surpreendi com o quão a par ele já estava cientificamente, falando até sobre impulsos neurais, a certa parte.

Essa forma, um diário em primeira pessoa, também vai nos passando as crenças e a personalidade do protagonista. Caso nos perguntemos a algum momento se o relato dele é confiável ou não, se ele está louco ou não, temos aqui tudo necessário, todos eventos minuciosamente descritos, para fazermos nos mesmos o julgamento.

Nos primeiros dias ele está o tempo todo se questionando sobre como é possível baque tão grande ter se abatido sobre o corpo e humor tão inesperadamente, e questiona tudo, até seus sentidos, porque "as vibrações do ar são transformadas em ondas sonoras como se fadas convertessem magicamente movimento em som (...)" nosso olfato, diz, é pior que o de um cão; nosso paladar, seu feito mais extraordinário é distinguir a idade de um vinho; vai daí até a imemorial ideia de que o vento existe, mesmo que não o vejamos. (E sem precisar citá-lo a todo tempo, sempre quando diz essas coisas contrapomo-las, automaticamente, com o Horla).

A doença vai piorando para um mistura de febre, ansiedade, paralisia noturna e crises de pânico. Adquire mania de perseguição, mesmo quando caminha pelo jardim. Acontecimentos estranhos começam se dar na casa, e, para o bem ou para o mal da sanidade do protagonista, ele percebe que não é o único afetado por tudo aquilo. O que quer que esteja ali, não é totalmente fruto da imaginação dele.

Daí se desenvolveram as melhores cenas da novela, quando o protagonista busca tirar a prova real de que não está louco ou sonâmbulo, nem que está tendo lapsos de realidade (ou tudo ao mesmo tempo).

A maneira com que o Maupassant cria tudo isso é bastante engenhosa, a primeira vez que o protagonista vê o Horla (hor: fora, la: alí, lá. Aquele que está lá fora) é muito bem feita. E, até o final, o protagonista ainda que muitíssimo afetado por tudo que está se passando, continua a escrever racionalmente, pensa, tenta ver tudo por outro ângulo, se autoexamina..."Quão débil é nossa razão e quão rapidamente ela é solapada quando algo incompreensível nos abala (…) Em vez de concluirmos dizendo 'não compreendo porque não não sei as causas', damos a imaginar mistérios impressionantes e acontecimentos sobrenaturais" Há certa dose de ironia consigo mesmo, o protagonista sabe. E tudo isso ajudará a compor o ato final.

Por A mais B ele raciocina que o problema está ali, na casa. Nessa primeira metade, há uma mudança de ritmo, porque decide sair, pelo menos por um tempo, daquele lugar. Viaja pela frança, e percebemos (ele continua a escrever) que se sente e que está melhor, sem sinais da doença ou daquela opressão que o aflige desde o início da narrativa.

Na cidade, há o encontro com a mesmerização e hipnose por meio do marido da irmã. O tom é até mais realista, se deixa pensar em outras coisas (ainda que nunca perca o fantástico de vista). Escreve o protagonista: " O povo é um rebanho de idiotas. Às vezes um rebanho burro e paciente, outras feroz e revolucionário. Diga a eles: divirtam-se. E se divertem. Diga a eles: vá e lute com seu vizinho. E eles vão e lutam. Diga a eles: votem pelo Imperador. E votam pelo imperador. Depois: votem pela República. E votam pela república.'' Por que então, seguir homens ou princípios nesse mundo que nada é certo e mesmo nossos sentidos são ilusórios? Os que mandam também são outros idiotas porque "em vez de obedecer a homens, obedecem a princípios, os quais só podem ser estéreis, falsos, tolos" tanto quanto qualquer outra coisa ou pessoa. Pior: querem se fazer parecer imutáveis. Permanecem sempre presentes esses dois planos na narrativa, afinal, quem diz tudo isso é o homem afetado e que "tirara a prova real" da existência de algo sobrenatural em sua casa.

Ainda na cidade, em estado melhor, ele também diz, (a abrangência de temas é incrível) e não posso discordar, que até para crer no sobrenatural "tudo depende do meio e do lugar" afinal, "Sofremos influência daquilo que nos rodeia." Ele está bem, está ótimo. Porém, uma hora terá de voltar para casa...

Acho que já falei demais sobre o enredo e não quero estragar potenciais leituras, mas vale plantar semente da reta final: após esse retorno, ele (não vou falar como), vê o Horla no quintal de casa (já sabia de sua existência, mas ainda não tinha "visto" o ser invisível") numa cena muito cinematográfica, muito imaginativa, e cada vez mais perde o controle de si, se sente completamente dominado, tenta fazer certas coisas e faz outras. Consegue ir, com muito esforço, até a estação. Abre a boca para pedir a um dos trabalhadores dali para o levar para outra cidade, mas ao abrir a boca, contra a sua vontade, diz: “casa”.

Cresce a tensão, cresce a loucura, até a maneira de escrever (e a pontuação!) reflete o psicólogico do protagonista conforme eventos mais incompreensíveis vão acontecendo; e o final é bem bom ainda que você, pela maneira como a narrativa vai se afunilando, tenha sempre uma vaga ideia do que poderá acontecer. O interesse é a todo tempo sustetando pelo enredo e susessão de acontecimentos, mas a maneira que o Maupassant escreve a história e seus temas também não ficam para trás. Não atoa é, talvez, a sua obra mais popular.

***

Traduzi os trechinhos acima da versão da Charlotte Mandell. Dei uma leve cotejada com outra tradução em inglês e uma em espanhol do Ricardo Zelerayán. Essa aqui, da Charlotte, achei-a melhor. Só por comodidade não fui checar a versão brasileira, mas quem se interessar pode fazê-lo. A coleção Art of the Novella foi localizada aqui pela Grua Livros.

Esta edição é bem boa para quem quer se debruçar mais sobre o processo criativo, porque além da versão definitiva do Horla, há duas outras versões que o Maupassant até chegou a publicar, mas não satisfeito se deu a reescrever outras duas vezes até dar nesta versão. São interessantes tanto as mudanças quanto as permanências.

De diferentes formas, era claro para ele que a narrativa tinha de ser em primeira pessoa, ainda que não fosse em forma de diário. A primeira versão é praticamente uma carta-ensaio, só no final descambando para ser um relato fantástico; na segunda, um médico convoca estudiosos e psiquiatras para que ouçam a história de um dos homens internados no manicômio, o relato do encontro com o invísivel, o Horla.

O Horla
Novela (1885/1886/1887s)
Tradução Inglesa de Charlotte Mandell
Coleção Art of the Novella, Ed. Meville House (2005)
74pp — ✲ 4.0/5.0
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