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rolandosmedeiros 's review for:

The Garden of Forking Paths by Jorge Luis Borges
5.0

Virou costume. De quando em quando, revisitar o Jardim do Borges. A última vez foi em Março do ano passado, e desde a minha primeira leitura, em 2018 ou 2019, esse conto está sempre orbitando minha mente. Foi, no início, ele também um dos impulsos formadores para que eu tomasse gosto pela literatura.

Numa primeira leitura, o que mais mexeu comigo, foi a maneira como o Borges conseguiu conceber e colocar no papel uma ideia que é (a primeiro momento) totalmente incompatível com o meio ou a forma — literária — que ele escolhe para veicular a sua arte:

Uma história infinita, em que múltiplos tempos e realidades se sucedem indefinidamente.

Mas, quanto mais e melhor você lê, mais se apercebe que o tema, os conceitos e o meio não são tão incompatíveis quanto inicialmente parecem ser. E, a meu ver pouco tem a ver com pós-modernismos, surrealismos e outros sufixismos de gênero; eu consigo ver, por exemplo, um germe disto mesmo no Machado, em 1800 e cacetada, Missa do Galo é um exemplo; onde, ao terminar, a leitura, você também dá um passo na escolha de um caminho através das veredas que constituem o jardim daquela representação. Uma releitura, do mesmo conto, em um ou outro momento talvez lhe indique que dessa vez o caminho a ser tomado é outro, o à esquerda; e aí, dentro do conto, surgem a mesma multiplicidade de eventos, e de temas, e até de tramas. É mesmo o infinito num junco. É o infinito no papel, na forma literária.

The Garden of Forking Paths was the chaotic novel itself. The phrase 'to various future times, but not to all' suggested the image of bifurcating in time, not in space. Rereading the whole work confirmed this theory. In all fiction, when a man is faced with alternatives he chooses one at the expense of the others. In the almost unfathomable Ts'ui Pen, he chooses - simultaneously - all of them. He thus creates various futures, various times which start others that will in their turn branch out and bifurcate in other times. This is the cause of the contradictions in the novel.


Há quem diga que pela amplitude de conceitos, neste e em outros contos do Borges, acate mais chamá-los de "Contos-Ensaio" do que "Contos-Literários". Há sim, alguma razão nisso, o miolo do conto é extremamente conceitual. Mas, no Borges, há também uma potência que usa justamente desse poderoso nexo conceitual para que seus contos puxem fio de situações ou enredos aparentemente prosaicos; e os desenvolve ascendentemente com o uso de diversos recursos artifícios, metáforas e imagens literários. Quem negará que é bela a imagem que ele faz, quando Yu Tsun olha para o jardim e vê uma sucessão de acontecimentos, de duplos Albert’s e Yu Tsun’s, indo e vindo, até a imagem ser quebrada por seu perseguidor, chegando para matá-lo?

No Garden of The Forking Paths (desta vez optei por ler o conto em inglês), quem esperaria por tudo isso — multiplicidade temporal, o infinito dentro de um livro — sair justamente do tropo de uma batida história de perseguição e espionagem? Pior, cheio de coincidências de enredo e estranhas exposições, que se, separadas da transgressão que visa o Borges, tornar-se-ia uma narrativa, no mínimo, duvidosa.

Mesmo o "found footage", que podemos, inicialmente (e ingenuamente) tomar como verdade, na realidade representada do conto já é ambígua e dá margem para múltiplos enganos. O leitor é quem deve fazer o julgamento: o relato de Yu Tsun é confiável? O que vemos, é um tempo em que tudo convergiu a favor de Yu Tsun, daí as coincidências narrativas?

No relato do prólogo, a ocultação do evento pelo Capitão Liddell Hart é a história sendo contada pelos vencedores — afinal, Yu Tsun é espião alemão —, ou realmente o relato é uma ficção? É um jogo labiríntico, em tempo e espaço.

Leiam o prólogo:

"In his A History of the World War (page 212), Captain Liddell Hart reports that a planned offensive by thirteen British divisions, supported by fourteen hundred artillery pieces, against the German line at Serre-Montauban, scheduled for July 24, 1916, had to be postponed until the morning of the 29th. He comments that torrential rain caused this delay - which lacked any special significance. The following deposition, dictated by, read over, and then signed by Dr. Yu Tsun, former teacher of English at the Tsingtao Hochschule, casts unsuspected light upon this event. The first two pages are missing."


A primeira coisa a se levar em conta, é que o autor do prólogo é uma pessoa indefinida, e diferente de quem narra o relato que acompanharemos também em primeira pessoa (O do Dr. Yu Tsun); o narrador indefinido colocará à prova um mesmo evento, de um livro chamado "A History of The World War", comparando-o com um testemunho/depoimento parcial (faltam duas páginas) que de alguma maneira chegou em suas mãos. Inclusive, na única nota de rodapé que têm o conto, o primeiro narrador, o oculto, fará um juízo: “A malicious and outlandish statement. In point of fact, Captain Richard Madden had been attacked by the Prussian spy Hans Rabener, alias Viktor Runeberg, who drew an automatic pistol when Madden appeared with orders for the spy's arrest. Madden, in self defense, had inflicted wounds of which the spy later died. — Note by the manuscript editor”

Isso reitera a tentativa do falseamento de informações por parte dos Ingleses, e a ignorância destes quanto aos reais acontecimentos daquele evento, ou a comprovação da bifurcação dos tempos, no plano (universo) do conto — ou, no plano literário, da possibilidade infinita da ficção?

“Lost in these imaginary illusions I forgot my destiny — that of the hunted. For an undetermined period of time I felt myself cut off from the world, an abstract spectator. The hazy and murmuring countryside, the moon, the decline of the evening, stirred within me. Going down the gently sloping road I could not feel fatigue. The evening was at once intimate and infinite.”


E, para quem acha que o conto não funciona como conto, para além de todos os seus conceitos, sugiro relê-lo com outros olhos e se atentar, principalmente, na primeira página e na roupagem de história de perseguição que o Borges dá. Quando se vê encurralado, disfarce descoberto, no bolso tralhas e o revólver com uma única munição, Yu Tsun vislumbra o suicídio. Mas conclui: “Vaguely I thought that a pistol shot can be heard for a great distance.”
É o mesmo raciocínio que lhe ocorrerá ao final do conto.

Acresce-se ainda, o realce que se dá entre as motivações dele e de seu perseguidor: o primeiro “I carried out my plan because I felt the Chief had some fear of those of my race, of those uncountable forebears whose culmination lies in me. I wished to prove to him that a yellow man could save his armies.”; o último “Madden was implacable. Rather, to be more accurate, he was obliged to be implacable. An Irishman in the service of England, a man suspected of equivocal feelings if not of actual treachery, how could he fail to welcome and seize upon this extraordinary piece of luck: the discovery, capture and perhaps the deaths of two agents of Imperial Germany?, e como isso também serve para colocar ambos em movimento — e ir até o final com suas decisões.

Enfim, estou longe de esgotar o conto, e ainda anseio por mais releituras; na próxima, vou no idioma original.

É um conto que exala atemporalidade e universalidade, é um dos grandes, gigantescos, da literatura universal.