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rolandosmedeiros
Uma narrativa linda, daquelas que faz você ver beleza nas coisas mais simples da vida (aqui, em uma menininha lavando louça).
Uma temática atual, forte e inesperada — você começa o conto e não sabe para onde a Alice Walker vai. Abre falando de reality shows, sobre a mulher que é a Mama — uma negra, opulenta, de mãos fortes e jeito masculino: uma trabalhadeira do lar e fazendeira, mãe solo de duas filhas, lá pelo sul “profundo” dos EUA —, e logo estamos enfeitiçados, e gratos pelo vislumbre que a autora concede a nós na vida dessa reduzida família, de duas ou quando muito três pessoas: três mulheres.
Ela vai te conduzindo numa narrativa e perpassando e resvalando em múltiplos temas, como a relação entre gerações, herança cultural e mesmo apropriação cultural a partir de objetos cotidianos (os tais objetos de “Everyday Use”), mas não só. A autora fala disso tudo brilhantemente, sem teses ou didatismo, de um ponto de vista nada blasé. Em apenas seis páginas, na minha edição.
Nas disciplinas de língua estrangeira é um conto muitíssimo presente; um clássico “moderno”, de 1973. Concordo com a denominação. Agora, por que que nunca foi traduzido para o português é a pergunta a se fazer. Justamente nós que, se me lembro bem, tivemos por muito tempo no Brasil discussões sobre apropriação cultural — até o ponto disso ter se tornado malvisto por culpa de alguns.
Ela traz justamente um tipo de apropriação cultural muito mais sutil e complicado: de dentro da própria família e de dentro da própria herança cultural.
O ponto de vista é a da Mama — Sra. Johnson — e já numa das primeiras cenas, bastante corriqueira, ela consegue te prender com algo simples: a tensão da irmã menor (com o corpo cheio de cicatrizes de queimadura devido a um acidente na infância) perante ao contato com a irmã, que vêm visitá-la com o novo cunhado (dela), genro (da Mama). Isso puxa a gente, na cabeça da mãe, para uma memória de quando as duas eram ainda menores: Maggie, a menor, pelo episódio na infância, vista como um animalzinho arisco que necessita de amor; Dee, a maior, deixou a família para ir viver, independente, na cidade, desde a infância odiava a casa no sul.
O conto é todo pautado em contrastes. Físicos, culturais. Em questão de aparência, Dee (a mais velha) tem o rosto mais bonito, o cabelo mais bonito, e tudo mais bonito que a irmã. Não parece se importar muito com a família, inclusive fica implícito que em um desastre familiar anterior ela foi indiferente ou mesmo complacente na situação. Maggie, a menina menor, é um doce, mas preterida — e isso reflete em quase tudo que ela faz.
"Everyday Use", significa algo de uso cotidiano, corrente, prático. Em certa ótica, nesses objetos de uso diário estão parte da herança familiar: nos entalhes que o marido da tia deixou, nos objetos com marcas de uso de familiares já falecidos, nas cobertas e colchas manufaturadas com esmero e consertadas com retalhos de diferentes pessoas e por diferentes mãos. Tudo isso é herança familiar. É mais um contraste do conto quando isso se justapõe à visita da filha, com uma cabeça que só pensa no "fashion", na moda; a memorabilia familiar vista como artigo de moda, valorizada pela indústria; portanto, só agora possuindo valor. Aí está o jogo com a apropriação cultural. Quando Dee vê Maggie utilizando aquela peça que vale muitíssimo na cidade grande como uma coisa de uso cotidiano, não consegue entender, e não enxerga a herança familiar para além da platitude. Como não vê muitas outras coisas — mas aí num aspecto mais de relação pessoal com a família. Estas partes você deve ler por você mesmo.
Cara, eu senti o peso de um livro inteiro nessas seis páginas; a beleza das cenas é de esquentar qualquer coração. Sinto que vou ter para sempre esse conto como uma de minhas paixões literárias.
Uma paixão diferente da de outros contos que me acompanham como exemplos MÁXIMOS dessa forma que gosto tanto (Borges, Chékov, Machado…) Mas, isso não significa, de maneira alguma, menos.
São duas prateleiras que se erguem na mesma altura e que, é estranho para quem a vê de frente, se interseccionam aqui e ali, muitas vezes. Sinto ser esse um dos casos.
Uma temática atual, forte e inesperada — você começa o conto e não sabe para onde a Alice Walker vai. Abre falando de reality shows, sobre a mulher que é a Mama — uma negra, opulenta, de mãos fortes e jeito masculino: uma trabalhadeira do lar e fazendeira, mãe solo de duas filhas, lá pelo sul “profundo” dos EUA —, e logo estamos enfeitiçados, e gratos pelo vislumbre que a autora concede a nós na vida dessa reduzida família, de duas ou quando muito três pessoas: três mulheres.
Ela vai te conduzindo numa narrativa e perpassando e resvalando em múltiplos temas, como a relação entre gerações, herança cultural e mesmo apropriação cultural a partir de objetos cotidianos (os tais objetos de “Everyday Use”), mas não só. A autora fala disso tudo brilhantemente, sem teses ou didatismo, de um ponto de vista nada blasé. Em apenas seis páginas, na minha edição.
Nas disciplinas de língua estrangeira é um conto muitíssimo presente; um clássico “moderno”, de 1973. Concordo com a denominação. Agora, por que que nunca foi traduzido para o português é a pergunta a se fazer. Justamente nós que, se me lembro bem, tivemos por muito tempo no Brasil discussões sobre apropriação cultural — até o ponto disso ter se tornado malvisto por culpa de alguns.
Ela traz justamente um tipo de apropriação cultural muito mais sutil e complicado: de dentro da própria família e de dentro da própria herança cultural.
O ponto de vista é a da Mama — Sra. Johnson — e já numa das primeiras cenas, bastante corriqueira, ela consegue te prender com algo simples: a tensão da irmã menor (com o corpo cheio de cicatrizes de queimadura devido a um acidente na infância) perante ao contato com a irmã, que vêm visitá-la com o novo cunhado (dela), genro (da Mama). Isso puxa a gente, na cabeça da mãe, para uma memória de quando as duas eram ainda menores: Maggie, a menor, pelo episódio na infância, vista como um animalzinho arisco que necessita de amor; Dee, a maior, deixou a família para ir viver, independente, na cidade, desde a infância odiava a casa no sul.
O conto é todo pautado em contrastes. Físicos, culturais. Em questão de aparência, Dee (a mais velha) tem o rosto mais bonito, o cabelo mais bonito, e tudo mais bonito que a irmã. Não parece se importar muito com a família, inclusive fica implícito que em um desastre familiar anterior ela foi indiferente ou mesmo complacente na situação. Maggie, a menina menor, é um doce, mas preterida — e isso reflete em quase tudo que ela faz.
"Everyday Use", significa algo de uso cotidiano, corrente, prático. Em certa ótica, nesses objetos de uso diário estão parte da herança familiar: nos entalhes que o marido da tia deixou, nos objetos com marcas de uso de familiares já falecidos, nas cobertas e colchas manufaturadas com esmero e consertadas com retalhos de diferentes pessoas e por diferentes mãos. Tudo isso é herança familiar. É mais um contraste do conto quando isso se justapõe à visita da filha, com uma cabeça que só pensa no "fashion", na moda; a memorabilia familiar vista como artigo de moda, valorizada pela indústria; portanto, só agora possuindo valor. Aí está o jogo com a apropriação cultural. Quando Dee vê Maggie utilizando aquela peça que vale muitíssimo na cidade grande como uma coisa de uso cotidiano, não consegue entender, e não enxerga a herança familiar para além da platitude. Como não vê muitas outras coisas — mas aí num aspecto mais de relação pessoal com a família. Estas partes você deve ler por você mesmo.
Cara, eu senti o peso de um livro inteiro nessas seis páginas; a beleza das cenas é de esquentar qualquer coração. Sinto que vou ter para sempre esse conto como uma de minhas paixões literárias.
Uma paixão diferente da de outros contos que me acompanham como exemplos MÁXIMOS dessa forma que gosto tanto (Borges, Chékov, Machado…) Mas, isso não significa, de maneira alguma, menos.
São duas prateleiras que se erguem na mesma altura e que, é estranho para quem a vê de frente, se interseccionam aqui e ali, muitas vezes. Sinto ser esse um dos casos.
Lido em Inglês
Antologia da Unv. de Connecticut
Conto — 6pp — ✲ 5.0/5.0
Queria não ter lido a introdução que vinha na antologia, porque a imagem que eu criaria na minha cabeça sobre a autoria desses três contos (Parker's Back, Good Country People, e este) quebraria completamente. Uma imagem falsa, cheia de preconceitos e pressupostos. Eu, além do mais, e falo sério, achava que ela era um homem: O'Connor me soa, sei lá, nome masculino, e Flannery meio lá meio cá; do mesmo jeito como também já tive certeza de que Mia Couto era uma jovem poetisa se não brasileira, portuguesa; e Ortega Y Gasset dois irmãos (ou coautores) inseparáveis.
Se você pensa no que se convencionou chamar de conto moderno, tem de pensar na Flannery. Só essa breve seleção deixa isso bem claro. É o exemplo perfeito de como esse nome (O Conto Moderno) é só uma convenção para um objeto de muitas formas, cores, vozes e estilos, quase que um artefato alienígena de Roadside Picnic. Curiosamente, minhas duas últimas leituras foram justamente ela e a Anna Kavan, duas mulheres que desmontam completamente um montão de teses sobre o conto, cada qual à sua maneira. As duas, porém, convergem em uma: quebram a tese de que o enredo é a sustentação ou o mais importante no conto. As duas vencem, e não por nocaute.
Mais impressionante ainda na ficção dela é o contraste. Ainda que religiosa, nos contos há uma visão irônica, bem-humorada, chocante e violenta sobre todos os aspectos da vida humana, incluindo a religião; ela diz que o escritor deve ser capaz, antes de tudo, de tornar tudo aquilo que há de ruim no mundo crível, e só depois tornar a graça expressiva. Aqui a gente tem: A Good Man is Hard to Find, um conto violentíssimo, impactante e hipnotizante sobre um serial killer que acaba por se deparar com uma família acidentada no meio duma road-trip; Parker's Back, a descrição maravilhosa, bonita e contraditória da relação entre um ex-marinheiro, tatuado dos pés à cabeça, que se casa (sem saber bem por que) com uma dona de casa extremamente religiosa lá do sul profundo dos Estados Unidos; e Good Country People, a vida estranha de uma mulher com uma doença degenerativa, uma perna de mentira, um bacharel em filosofia, vivendo numa fazenda ajudando a mãe e, o principal, o seu encontro dela com um magnetizante e suspeito vendedor de bíblias.
Eu só conhecia o tal gótico sulista pelo cinema e televisão: um exemplo bom é a famosa primeira temporada de True Detective; um exemplo marromenos é a adaptação de "The Devil All the Time". Eu gostava desse último até ler, aqui, a Flannery e entender como os personagens de lá são só cartolinas estereotipadas quando em comparação. A graça da O'Connor é justamente o trato com as personagens, mesmo as mais vis, preconceituosas, chatas, esquisitas (e além), mesmo quando está ironizando há muita afeição e cuidado pelas personagens. É um tipo diferente de conto justamente por causa disso, muito mais pautado neles do que no enredo. Parece até contrassenso, se tratando da forma breve; mas funciona muito que bem. Ela sabe do que está falando, conhece aquele sul, a cultura e o modo de ser dessas personagens. Não escolheu tratar do lugar por puro exotismo. Como Mo Walsh, no the Guardian, diz do Southern Gothic: “... embora sejam personagens deformados ou intolerantes ou violentos, nas mãos de um escritor sulista são descritos com empatia e verdade. (...) Isto não é ser grotesco. É uma vida dura e um trabalho duro, e esses personagens apenas mostram cicatrizes visíveis daquilo que muitos de nós carregamos em nosso íntimo.”
A autora é da Georgia, um dos sete Estados confederados do sul, marcados pela derrota na guerra civil, pelo preconceito e pela desigualdade. O cenário dessas histórias se dão predominantemente em ambientes rurais: pensa-se naquelas longas plantações de milho ou algodão até onde se pode enxergar, fazendas e residências rurais decadentes, no meio do nada, junto de pequenas igrejas com chão de tábua de madeira e uma pequena comunidade. O gótico do nome vem disso, mais os personagens perturbadores ou excêntricos, cenários decadentes, situações grotescas e outros eventos sinistros relacionados à pobreza, ao crime e, no caso da Flannery, principalmente a violência.
Ainda que a questão da raça seja incidental nos contos, trata de maneira muito astuta e desmitificada o homem branco e a mulher branca, e mantém um afastamento (diria inteligente) do interior da consciência das personagens negras. Aqui, por exemplo, a gente tem uma vovozinha explicitamente racista, que é tagarela, chata, mas você ainda sente alguma coisa por ela — de novo, o trato dado à personagem pela Flannery.
Todos os três contos selecionados na antologia são exemplos de que a graça é, acima de tudo, o fruir do texto. O prazer em lê-los, em ter vislumbres de personagens cheios de vida, de outra época e outro jeito de ser. Se pôr frente desses contos como um cirurgião de frente a um sapo, amarrado e com os pequeninos órgãos à mostra na mesa de cirurgia, antes de uma dissecação, não me parece bom. Ela mesma diz algo nessa linha, quando seus contos estavam sendo lidos na universidade:"Há um problema sério no jeito de se ensinar ou encarar literatura quando, para a maioria dos estudantes, uma narrativa ou um conto se torna simplesmente algo a ser resolvido, algo que você consome em troca de uma explicação [ou significado]."
[A Good Man is Hard to Find]
Agora, este conto em si: ele abre com um café da manhã em família. Estão prestes a sair numa roadtrip. O filho único, a esposa dele e os dois netos pequenos querem ir para a Florida, e a avó (como a chama o narrador) quer visitar velhos conhecidos no Tenessee, "(...) se aproveitando de toda oportunidade que tinha para tentar convencer o filho a mudar os planos". Nessa manhã ela apontava para a notícia de que um serial-killer havia fugido da prisão e estava à solta. Sem sucesso. Bastava se contentar e tentar esconder o gato no carro, contra à vontade do filho, porque tinha medo "de que ele sentiria muita saudade dela" e que "poderia, sem querer, morrer asfixiado por ter esbarrado no fogão"
Só a descrição da viagem, a primeira metade do conto, já é interessantíssima. Os país, cansados, julgamo-nos com poucos dias para aproveitar as férias, mal trocando palavras entre si, a avó não parando de falar, contanto histórias de um tempo ainda mais antigo, comentando sobre cada lugar que passam, e em meio a isso dando visões estereotipadas, preconceituosas e anedotas sobre negros como quem cita um ditado popular, e o jeito muito verossímil de descrever as crianças, quicando no carro, tão enérgicas que saltam às paginas — uma cena memorável é quando, depois de ficarem subitamente quietas e paradas, perceberem que não se machucaram no acidente, saltam do carro e começam a gritar, pular e comemorar "sofremos um ACIDENTE!". Ou a avó, que depois de ter causado o acidente, "torceu para estar tão machucada a ponto da raiva do filho se amenizar um pouco".
De cima do morro três homens veem o carro capotado no buraco, e umas pessoas acenando. Ele desce para ajudar. E aí se desenrola o grosso do conto: epifanias, conversas profundas, violência, e um dos temas centrais do conto, penso eu: a relação profunda, que fingimos que não existe, entre nós e aqueles que consideramos a escória da sociedade; e que pensava-se há cem anos atrás, o que pensamos hoje: antigamente se podia confiar nos outros, deixar as portas abertas... não, não se podia, pensa-se que sim, mas não. O conto me deixou com a impressão de que desde o início do mundo foi que as coisas começaram a piorar, não há cinquenta, cem anos atrás, como ouvimos em conversas reais ou em conversas com essas narrativas. E isso implica em, na voz do The Misfit, se o paraíso não é aqui, devemos ir de encontro a ele o mais rápido possível; ou, se o paraíso não existe, está liberado o caos? Quanto mais complexo e mais bem sucedido é o trabalho ficcional do autor, mais chances de evocar diferentes leituras e interpretações em diferentes leitores.
A frase da esposa do Red Sammy, quando fazem uma parada no meio da viagem, define bem
No quesito de se observar a arte da ficção, esse conto tem tudo. Abre já com um objetivo para as personagens, já estão decididos a viajar e tomam o último café da manhã; há já aí o foreshadowing, de jeitos diferentes, do final do conto; há o trato e o desenvolvimento das personagens, a ironia do narrador, a dicção sulista, o contraste dentro da própria família em cada uma das personagens; o sútil pintar do tema; o "erro trágico" da Avó; a ação e o conflito aparecendo (em contrassenso) só nas últimas paginas do conto e acabando de supetão, e a abertura para múltiplas releituras.
A Flannery é um exemplo perfeito de que uma boa história não precisa de personagens dos quais você tem de, obrigatoriamente, se sentir atraído ou se identificar. Nem de que você precisa de um enredo mirabolante para segurar, desde o início, o leitor. A graça é, como citei, a amplitude e as características individuais de cada, incluindo seus jeitos, defeitos e manias. É o que me ficou dos três: são contos muito mais focados nas personagens do que numa intriga ou num argumento forte. Seus temas, também, se tornam muito mais abrangentes com o uso dessas personagens. Aliás, a sensação que a O'Connor me parece querer passar mais aqui nesse conto, especificamente, não seria a mesma caso alguma das personagens fosse muito gostável e identificável. Ela não quer passar tristeza, e se quer passar tragédia é do tipo de tragédia na acepção moderna, que envolve geralmente violência e morte em um ciclo. Todos temos culpa no cartório, só fingimos ou não nos atentamos que não.
Se você pensa no que se convencionou chamar de conto moderno, tem de pensar na Flannery. Só essa breve seleção deixa isso bem claro. É o exemplo perfeito de como esse nome (O Conto Moderno) é só uma convenção para um objeto de muitas formas, cores, vozes e estilos, quase que um artefato alienígena de Roadside Picnic. Curiosamente, minhas duas últimas leituras foram justamente ela e a Anna Kavan, duas mulheres que desmontam completamente um montão de teses sobre o conto, cada qual à sua maneira. As duas, porém, convergem em uma: quebram a tese de que o enredo é a sustentação ou o mais importante no conto. As duas vencem, e não por nocaute.
Mais impressionante ainda na ficção dela é o contraste. Ainda que religiosa, nos contos há uma visão irônica, bem-humorada, chocante e violenta sobre todos os aspectos da vida humana, incluindo a religião; ela diz que o escritor deve ser capaz, antes de tudo, de tornar tudo aquilo que há de ruim no mundo crível, e só depois tornar a graça expressiva. Aqui a gente tem: A Good Man is Hard to Find, um conto violentíssimo, impactante e hipnotizante sobre um serial killer que acaba por se deparar com uma família acidentada no meio duma road-trip; Parker's Back, a descrição maravilhosa, bonita e contraditória da relação entre um ex-marinheiro, tatuado dos pés à cabeça, que se casa (sem saber bem por que) com uma dona de casa extremamente religiosa lá do sul profundo dos Estados Unidos; e Good Country People, a vida estranha de uma mulher com uma doença degenerativa, uma perna de mentira, um bacharel em filosofia, vivendo numa fazenda ajudando a mãe e, o principal, o seu encontro dela com um magnetizante e suspeito vendedor de bíblias.
Eu só conhecia o tal gótico sulista pelo cinema e televisão: um exemplo bom é a famosa primeira temporada de True Detective; um exemplo marromenos é a adaptação de "The Devil All the Time". Eu gostava desse último até ler, aqui, a Flannery e entender como os personagens de lá são só cartolinas estereotipadas quando em comparação. A graça da O'Connor é justamente o trato com as personagens, mesmo as mais vis, preconceituosas, chatas, esquisitas (e além), mesmo quando está ironizando há muita afeição e cuidado pelas personagens. É um tipo diferente de conto justamente por causa disso, muito mais pautado neles do que no enredo. Parece até contrassenso, se tratando da forma breve; mas funciona muito que bem. Ela sabe do que está falando, conhece aquele sul, a cultura e o modo de ser dessas personagens. Não escolheu tratar do lugar por puro exotismo. Como Mo Walsh, no the Guardian, diz do Southern Gothic: “... embora sejam personagens deformados ou intolerantes ou violentos, nas mãos de um escritor sulista são descritos com empatia e verdade. (...) Isto não é ser grotesco. É uma vida dura e um trabalho duro, e esses personagens apenas mostram cicatrizes visíveis daquilo que muitos de nós carregamos em nosso íntimo.”
A autora é da Georgia, um dos sete Estados confederados do sul, marcados pela derrota na guerra civil, pelo preconceito e pela desigualdade. O cenário dessas histórias se dão predominantemente em ambientes rurais: pensa-se naquelas longas plantações de milho ou algodão até onde se pode enxergar, fazendas e residências rurais decadentes, no meio do nada, junto de pequenas igrejas com chão de tábua de madeira e uma pequena comunidade. O gótico do nome vem disso, mais os personagens perturbadores ou excêntricos, cenários decadentes, situações grotescas e outros eventos sinistros relacionados à pobreza, ao crime e, no caso da Flannery, principalmente a violência.
Ainda que a questão da raça seja incidental nos contos, trata de maneira muito astuta e desmitificada o homem branco e a mulher branca, e mantém um afastamento (diria inteligente) do interior da consciência das personagens negras. Aqui, por exemplo, a gente tem uma vovozinha explicitamente racista, que é tagarela, chata, mas você ainda sente alguma coisa por ela — de novo, o trato dado à personagem pela Flannery.
Todos os três contos selecionados na antologia são exemplos de que a graça é, acima de tudo, o fruir do texto. O prazer em lê-los, em ter vislumbres de personagens cheios de vida, de outra época e outro jeito de ser. Se pôr frente desses contos como um cirurgião de frente a um sapo, amarrado e com os pequeninos órgãos à mostra na mesa de cirurgia, antes de uma dissecação, não me parece bom. Ela mesma diz algo nessa linha, quando seus contos estavam sendo lidos na universidade:"Há um problema sério no jeito de se ensinar ou encarar literatura quando, para a maioria dos estudantes, uma narrativa ou um conto se torna simplesmente algo a ser resolvido, algo que você consome em troca de uma explicação [ou significado]."
[A Good Man is Hard to Find]
Agora, este conto em si: ele abre com um café da manhã em família. Estão prestes a sair numa roadtrip. O filho único, a esposa dele e os dois netos pequenos querem ir para a Florida, e a avó (como a chama o narrador) quer visitar velhos conhecidos no Tenessee, "(...) se aproveitando de toda oportunidade que tinha para tentar convencer o filho a mudar os planos". Nessa manhã ela apontava para a notícia de que um serial-killer havia fugido da prisão e estava à solta. Sem sucesso. Bastava se contentar e tentar esconder o gato no carro, contra à vontade do filho, porque tinha medo "de que ele sentiria muita saudade dela" e que "poderia, sem querer, morrer asfixiado por ter esbarrado no fogão"
Só a descrição da viagem, a primeira metade do conto, já é interessantíssima. Os país, cansados, julgamo-nos com poucos dias para aproveitar as férias, mal trocando palavras entre si, a avó não parando de falar, contanto histórias de um tempo ainda mais antigo, comentando sobre cada lugar que passam, e em meio a isso dando visões estereotipadas, preconceituosas e anedotas sobre negros como quem cita um ditado popular, e o jeito muito verossímil de descrever as crianças, quicando no carro, tão enérgicas que saltam às paginas — uma cena memorável é quando, depois de ficarem subitamente quietas e paradas, perceberem que não se machucaram no acidente, saltam do carro e começam a gritar, pular e comemorar "sofremos um ACIDENTE!". Ou a avó, que depois de ter causado o acidente, "torceu para estar tão machucada a ponto da raiva do filho se amenizar um pouco".
De cima do morro três homens veem o carro capotado no buraco, e umas pessoas acenando. Ele desce para ajudar. E aí se desenrola o grosso do conto: epifanias, conversas profundas, violência, e um dos temas centrais do conto, penso eu: a relação profunda, que fingimos que não existe, entre nós e aqueles que consideramos a escória da sociedade; e que pensava-se há cem anos atrás, o que pensamos hoje: antigamente se podia confiar nos outros, deixar as portas abertas... não, não se podia, pensa-se que sim, mas não. O conto me deixou com a impressão de que desde o início do mundo foi que as coisas começaram a piorar, não há cinquenta, cem anos atrás, como ouvimos em conversas reais ou em conversas com essas narrativas. E isso implica em, na voz do The Misfit, se o paraíso não é aqui, devemos ir de encontro a ele o mais rápido possível; ou, se o paraíso não existe, está liberado o caos? Quanto mais complexo e mais bem sucedido é o trabalho ficcional do autor, mais chances de evocar diferentes leituras e interpretações em diferentes leitores.
A frase da esposa do Red Sammy, quando fazem uma parada no meio da viagem, define bem
"Não há ninguém nesse mundo de meu deus em que você possa confiar," ela disse. "E eu não faço exceção alguma, pra ninguém".
No quesito de se observar a arte da ficção, esse conto tem tudo. Abre já com um objetivo para as personagens, já estão decididos a viajar e tomam o último café da manhã; há já aí o foreshadowing, de jeitos diferentes, do final do conto; há o trato e o desenvolvimento das personagens, a ironia do narrador, a dicção sulista, o contraste dentro da própria família em cada uma das personagens; o sútil pintar do tema; o "erro trágico" da Avó; a ação e o conflito aparecendo (em contrassenso) só nas últimas paginas do conto e acabando de supetão, e a abertura para múltiplas releituras.
A Flannery é um exemplo perfeito de que uma boa história não precisa de personagens dos quais você tem de, obrigatoriamente, se sentir atraído ou se identificar. Nem de que você precisa de um enredo mirabolante para segurar, desde o início, o leitor. A graça é, como citei, a amplitude e as características individuais de cada, incluindo seus jeitos, defeitos e manias. É o que me ficou dos três: são contos muito mais focados nas personagens do que numa intriga ou num argumento forte. Seus temas, também, se tornam muito mais abrangentes com o uso dessas personagens. Aliás, a sensação que a O'Connor me parece querer passar mais aqui nesse conto, especificamente, não seria a mesma caso alguma das personagens fosse muito gostável e identificável. Ela não quer passar tristeza, e se quer passar tragédia é do tipo de tragédia na acepção moderna, que envolve geralmente violência e morte em um ciclo. Todos temos culpa no cartório, só fingimos ou não nos atentamos que não.
Parker's Back, A Good Man is Hard to Find, Good Country People
40~50pp — ✲ 4.5/5.0
Lido em Inglês.
Trad. Livre dos Trechos.
Outros Comentários: Parker's Back (logo mais) Good Country People (logo mais)
Trechos da própria O'Connor tirei de "Mistery and Manners"
Aproveitar que nessa atualização do Goodreads ficou mais cômodo separar as resenhas por edições, e testar a funcionalidade:
— **A aposta de pascal; e a interessante forma do Nada a Temer: (28pp a 32pp):**
Partindo de memórias, Barnes narra episódios de seu passado, questões familiares, entraves pessoais, o anuviar da lembrança e a margem da ficção.
Neste, que é um dos curtos capítulos da primeira metade do livro (a maioria o são; sucintos, palatáveis) lembra de quando era estudante de universidade, e estagiou numa escola católica da Bretanha.
Lembra do encontro com um jovem padre de fervorosa fé, e parte de uma conversa com o rapaz — que ele guarda até mesmo tom e a frase proferida (isso vai ser problematizado depois pelo próprio Barnes, numa interessante questão sobre a ficção) — para chegar na aposta de Pascal.
A aposta de Pascal é simples, se acreditarmos em Deus e no fim Deus existir, ganhamos, se acreditarmos, e no fim Deus não existir, perdemos; mas, não tanto quanto se não acreditarmos e Ele existir.
Recorda então, de um episódio, em Kiev, julho de 2006, e narra brevemente: “no Jardim Zoológico de Kiev, um homem desceu por uma corda até à fossa murada onde estão os leões e os tigres. (…) ele [diz]: «Quem crê em Deus não será atacado pelos leões»; segundo outra, foi ainda mais provocador: «Se Deus existe, salvar-me-á.» então uma leoa irritada derrubou-o e, com os dentes, cortou-lhe a carótida. Isto provará: a) que o homem era louco; b) que Deus não existe; c) que Deus existe, mas não cai no engodo de se manifestar com truques tão baixos; d) que Deus existe mesmo e acaba de provar que pratica a ironia; e) ou nada disso?"
E vai (esse ir e vir de relatos, memórias, opiniões, narração, é constante em todo o livro) até um dos cadernos de Wittgenstein, e tira uma frase, que atinge um pensamento muito popular a nós brasileiros, ao menos é o que mais vejo a minha volta, num misto e mistura de religiões e superstições; aquele de que você deve acreditar porque mal não faz… “exceto,” diz Barnes, “o [mal] de não sermos verdadeiros, coisa que para alguns pode ser um mal irredutível e não negociável."
Soa como exagero, pois o é.
E o Barnes joga com isso.
A frase solta, ou a “a aposta, feita para parecer que não é aposta (…) [caso] fôssemos a divindade, ficaríamos um tanto indiferente a aval tão frouxo"ganha outro contexto, quando o intencionalmente o Barnes mostra de onde o tirou: "Wittgenstein foi professor de várias escolas em aldeias remotas do Sul da Áustria. Os habitantes locais achavam-no excêntrico e austero, mas dedicado aos alunos (…) Em Viena passaram dois dias a fazer o mesmo [passeio] com vários exemplos de arquitetura e tecnologia. Depois apanharam o comboio de volta a Gloggnitz. Quando ele chegou, caía a noite. Lançaram-se na caminhada de regresso, dezanove quilómetros. Wittgenstein, sentindo que muitas das crianças estavam assustadas, abeirou-se de cada uma e disse calmamente: «Estás com medo? Bom, então tens de pensar unicamente em Deus.» Encontravam-se, literalmente, numa floresta escura. «Vá, acredita! Mal não faz.» E provavelmente não fez."
Como ele mesmo diz, é um escritor transgênero. No sentido de: não lhe interessa convenções.
Eu fui atrás da notícia que ele cita de Kiev, e não existe; me parece uma invenção alá às do Borges. Mas pouco importa. A memória, também é duvidosa (em si): “o romancista (outra vez eu) está menos interessado na natureza exata dessa verdade e mais na natureza dos crentes; no modo como abraçam as crenças e na textura do terreno entre as narrativas concorrentes. Mesmo que seja ela que paute a maior parte do livro. “Um romancista é alguém que não se lembra de nada, mas regista e manipula versões diferentes daquilo de que não se lembra.”
Isto é apenas um recorte. Só lendo mesmo, para você apreender a maneira como esse trecho, e muitos outros, de ficção e memória, dialogam com o ponto de vista do escritor Barnes de uma maneira mais ampla. Episódios de infância que modificam-se totalmente a partir de relatos de diferentes participantes, em um livro que tem como “superfície” e aí ele já é interessante, foi inclusive a minha razão de pegar para lê-lo, o tema da morte na visão de muitos escritores, parentes e filósofos do autor, que é o ponto de toda a minha outra resenha, bem mais pessoal.
— **A aposta de pascal; e a interessante forma do Nada a Temer: (28pp a 32pp):**
Partindo de memórias, Barnes narra episódios de seu passado, questões familiares, entraves pessoais, o anuviar da lembrança e a margem da ficção.
Neste, que é um dos curtos capítulos da primeira metade do livro (a maioria o são; sucintos, palatáveis) lembra de quando era estudante de universidade, e estagiou numa escola católica da Bretanha.
Lembra do encontro com um jovem padre de fervorosa fé, e parte de uma conversa com o rapaz — que ele guarda até mesmo tom e a frase proferida (isso vai ser problematizado depois pelo próprio Barnes, numa interessante questão sobre a ficção) — para chegar na aposta de Pascal.
A aposta de Pascal é simples, se acreditarmos em Deus e no fim Deus existir, ganhamos, se acreditarmos, e no fim Deus não existir, perdemos; mas, não tanto quanto se não acreditarmos e Ele existir.
“Talvez não seja tanto um argumento como uma tomada de posição interesseira (…)'' e emenda: "mas a primeira aposta, sobre a existência de Deus, depende duma segunda e simultânea aposta, sobre a natureza de Deus. E se Deus não for como o imaginamos? Se, por exemplo, Ele reprova os apostadores, principalmente aqueles cuja suposta crença n’Ele depende dum pensamento interesseiro? E quem decide quem ganha? Nós não: Deus pode preferir o cético honesto ao oportunista interesseiro."
Recorda então, de um episódio, em Kiev, julho de 2006, e narra brevemente: “no Jardim Zoológico de Kiev, um homem desceu por uma corda até à fossa murada onde estão os leões e os tigres. (…) ele [diz]: «Quem crê em Deus não será atacado pelos leões»; segundo outra, foi ainda mais provocador: «Se Deus existe, salvar-me-á.» então uma leoa irritada derrubou-o e, com os dentes, cortou-lhe a carótida. Isto provará: a) que o homem era louco; b) que Deus não existe; c) que Deus existe, mas não cai no engodo de se manifestar com truques tão baixos; d) que Deus existe mesmo e acaba de provar que pratica a ironia; e) ou nada disso?"
E vai (esse ir e vir de relatos, memórias, opiniões, narração, é constante em todo o livro) até um dos cadernos de Wittgenstein, e tira uma frase, que atinge um pensamento muito popular a nós brasileiros, ao menos é o que mais vejo a minha volta, num misto e mistura de religiões e superstições; aquele de que você deve acreditar porque mal não faz… “exceto,” diz Barnes, “o [mal] de não sermos verdadeiros, coisa que para alguns pode ser um mal irredutível e não negociável."
Soa como exagero, pois o é.
E o Barnes joga com isso.
A frase solta, ou a “a aposta, feita para parecer que não é aposta (…) [caso] fôssemos a divindade, ficaríamos um tanto indiferente a aval tão frouxo"ganha outro contexto, quando o intencionalmente o Barnes mostra de onde o tirou: "Wittgenstein foi professor de várias escolas em aldeias remotas do Sul da Áustria. Os habitantes locais achavam-no excêntrico e austero, mas dedicado aos alunos (…) Em Viena passaram dois dias a fazer o mesmo [passeio] com vários exemplos de arquitetura e tecnologia. Depois apanharam o comboio de volta a Gloggnitz. Quando ele chegou, caía a noite. Lançaram-se na caminhada de regresso, dezanove quilómetros. Wittgenstein, sentindo que muitas das crianças estavam assustadas, abeirou-se de cada uma e disse calmamente: «Estás com medo? Bom, então tens de pensar unicamente em Deus.» Encontravam-se, literalmente, numa floresta escura. «Vá, acredita! Mal não faz.» E provavelmente não fez."
**
Como ele mesmo diz, é um escritor transgênero. No sentido de: não lhe interessa convenções.
Eu fui atrás da notícia que ele cita de Kiev, e não existe; me parece uma invenção alá às do Borges. Mas pouco importa. A memória, também é duvidosa (em si): “o romancista (outra vez eu) está menos interessado na natureza exata dessa verdade e mais na natureza dos crentes; no modo como abraçam as crenças e na textura do terreno entre as narrativas concorrentes. Mesmo que seja ela que paute a maior parte do livro. “Um romancista é alguém que não se lembra de nada, mas regista e manipula versões diferentes daquilo de que não se lembra.”
“Para o escritor mais velho, memória e imaginação parecem diferenciar-se cada vez menos. Não é porque o mundo imaginado esteja realmente muito mais próximo da vida do escritor do que ele ou ela quer admitir (um erro comum entre os que dissecam a ficção)”
Isto é apenas um recorte. Só lendo mesmo, para você apreender a maneira como esse trecho, e muitos outros, de ficção e memória, dialogam com o ponto de vista do escritor Barnes de uma maneira mais ampla. Episódios de infância que modificam-se totalmente a partir de relatos de diferentes participantes, em um livro que tem como “superfície” e aí ele já é interessante, foi inclusive a minha razão de pegar para lê-lo, o tema da morte na visão de muitos escritores, parentes e filósofos do autor, que é o ponto de toda a minha outra resenha, bem mais pessoal.
“O meu irmão desconfia da maior parte das memórias. Eu não desconfio, prefiro ver nelas o labor da imaginação, que contém uma verdade imaginativa e se contrapõe à verdade naturalista. Ford Madox Ford podia dizer grandes mentiras e grandes verdades, ao mesmo tempo e na mesma frase.”
Nossa Herança Oriental (A História da Civilização #1) — ✲ 5.0/5.0
A velha mãe Àsia
1047 pp.
Quase cinco meses de leitura e por volta de novecentos e oitenta densas páginas (a última centena é "apenas" a extensa catalogação de notas, referências e bibliografia do autor), mas que de forma alguma me cansaram. Tanto que já vou emendar no próximo: Nossa Herança Clássica (Grécia)
Nossa Herança Oriental é um livro que todo mundo deveria ler, seja seu interesse pelas artes, literatura, política, guerras ou história. O fato de ter sido escrito em 1935 não incomoda, o Will é lúcido e pungente a todo tempo, principalmente quando o assunto é o contraste entre Ocidente e Oriente, mas também em muitos outros aspectos; chega um momento que você consegue sentir a ironia exalando de certos apontamentos e muitos excertos beiram o cômico (intencionalmente), brincando com a visão ocidental e americanizada da história com H maiúsculo.
Além disso, o fato de ter sido escrito antes da Segunda Guerra, torna certos apontamentos do Will ainda mais interessantes. Não sei se foi era a aura do momento ou se esse era o pensamento geral da época, mas no capítulo sobre o Japão, desde o início, da sua forçada modernização por parte de exigências (explícitas e implícitas) do Ocidente, Will praticamente crava que o que se seguiria seria algum tipo de guerra, retaliação, entre Japão, Estados Unidos e Rússia.
A prosa e a seleção do autor sobre o que mostrar das antiquíssimas sociedades é um deleite, desde Elam até a China, e vossas respectivas letras, guerras e artes. Eu aposto: é impossível você terminar de ler esse livro sem ter feito, no mínimo, umas cinquenta anotações ou destaques. É de longe o melhor e mais interessante livro de “história” — na verdade, é muito mais que só um livro de história — que já li.
A única ressalva é quanto aos primeiros capítulos, ainda sim interessantes, mas que tateiam sobre as Fundações da Civilização, o que o faz ficar muito nas suposições. Mas conforme avança e mais fatos e informações temos, o livro tende a melhorar. O interesse próprio do leitor tornará certos capítulos melhores e mais interessantes que outros, mas todos os capítulos, e a tentativa de apreender e passear por milhares de anos da civilização é louvável: Suméria, Egito, Babilônia, Assíria, com um Interlúdio (Hititas, Fenícios, Frígios e outros Semitas), e então Judéia, Pérsia, Índia, China e Japão. É em tamanho, escopo e em qualidade, um livrasso.
Tenho quase umas duzentas anotações nesses livro, mas é melhor concluir com uma parte da própria conclusão do Will e da Ariel:
A velha mãe Àsia
1047 pp.
Quase cinco meses de leitura e por volta de novecentos e oitenta densas páginas (a última centena é "apenas" a extensa catalogação de notas, referências e bibliografia do autor), mas que de forma alguma me cansaram. Tanto que já vou emendar no próximo: Nossa Herança Clássica (Grécia)
Nossa Herança Oriental é um livro que todo mundo deveria ler, seja seu interesse pelas artes, literatura, política, guerras ou história. O fato de ter sido escrito em 1935 não incomoda, o Will é lúcido e pungente a todo tempo, principalmente quando o assunto é o contraste entre Ocidente e Oriente, mas também em muitos outros aspectos; chega um momento que você consegue sentir a ironia exalando de certos apontamentos e muitos excertos beiram o cômico (intencionalmente), brincando com a visão ocidental e americanizada da história com H maiúsculo.
Além disso, o fato de ter sido escrito antes da Segunda Guerra, torna certos apontamentos do Will ainda mais interessantes. Não sei se foi era a aura do momento ou se esse era o pensamento geral da época, mas no capítulo sobre o Japão, desde o início, da sua forçada modernização por parte de exigências (explícitas e implícitas) do Ocidente, Will praticamente crava que o que se seguiria seria algum tipo de guerra, retaliação, entre Japão, Estados Unidos e Rússia.
A prosa e a seleção do autor sobre o que mostrar das antiquíssimas sociedades é um deleite, desde Elam até a China, e vossas respectivas letras, guerras e artes. Eu aposto: é impossível você terminar de ler esse livro sem ter feito, no mínimo, umas cinquenta anotações ou destaques. É de longe o melhor e mais interessante livro de “história” — na verdade, é muito mais que só um livro de história — que já li.
A única ressalva é quanto aos primeiros capítulos, ainda sim interessantes, mas que tateiam sobre as Fundações da Civilização, o que o faz ficar muito nas suposições. Mas conforme avança e mais fatos e informações temos, o livro tende a melhorar. O interesse próprio do leitor tornará certos capítulos melhores e mais interessantes que outros, mas todos os capítulos, e a tentativa de apreender e passear por milhares de anos da civilização é louvável: Suméria, Egito, Babilônia, Assíria, com um Interlúdio (Hititas, Fenícios, Frígios e outros Semitas), e então Judéia, Pérsia, Índia, China e Japão. É em tamanho, escopo e em qualidade, um livrasso.
Tenho quase umas duzentas anotações nesses livro, mas é melhor concluir com uma parte da própria conclusão do Will e da Ariel:
"A Europa e a América são as filhas, muito estragadas de mimos, da velha Ásia, e nunca perceberam a riqueza de sua herança pré-clássica. Mas se fizermos a conta das artes e processos que o Ocidente tomou do Oriente ou que apareceram primeiro no Oriente, ver-nos-ermos, sem o perceber, desenhando um esboço da [nossa] civilização"
O queridíssimo Prof. Luís Augusto Fischer fez um ótimo livro ensaístico sobre o Borges e o Machado, meus dois autores favoritos, dois gigantes, que — ele mostra em detalhes e vai muito mais a fundo do que farei brevemente aqui — nunca se leram (Machado morreu antes, e o Borges não se interessou por ler o Bruxo), mas que revelam muitas consonâncias formais, temáticas e contextuais.
Um trecho que ele não citou e que me saltou aos olhos agora que estou relendo Dom Casmurro está no capítulo IX, e pegou porque lembrei instantaneamente, desta vez, do Pierre Menard. (Aliás, mal vejo essa cena, bem boa, sendo comentada.) É quando o Bentinho relembra e dedica o capítulo a explicar a teoria do amigo de que “A vida é uma ópera e uma grande ópera” escrita por Lúcifer. O amigo desenvolve como chegou nessa teoria e descreve como tudo se decorreu no céu. São só três páginas, e é puro suco de Machado.
E bom, o que tem a ver com o Pierre Menard, este artigo ou conto ou genial ensaio ficcional do Borges? O autor fictício (o amigo do Menard) diz que o Menard ao reescrever o Quixote faz diferenciação entre cópia/transcrição mecânica de outro texto com a produção de um texto que coincida linha a linha, palavra por palavra, com as de Cervantes. Coisas diferentes, segundo ele. E seguindo a tese do amigo do Bentinho, Shakespeare nada mais é que um tipo de Pierre Menard. "O poeta inglês não teve outro gênio senão transcrever a letra da ópera [de Lucífer], com tal fidelidade que parece ele próprio o autor da composição (…)"
Menard transcreveu o Quixote; Shakespeare transcreveu a própria ópera de Lúcifer, a ópera da existência: a vida que a gente vive. Está aí, aliás, um dos maiores elogios ao Shakespeare feito pelo Machado, ainda que do seu jeitinho sempre dissimulado.
O ponto dos dois autores é diferente, claro. Mas ambos são muito imaginativos quanto no modo de colocar e expor aquilo que eles querem transmitir. O Borges, com a sua forma única; o Machado, dentro de um romance, por meio de uma personagem e de uma prosa cristalina. E, ainda sim, de diferentes formas, a ideia geral dos dois está próxima, a ponto de que partes de um se aplicam a outro e vice-versa, em um Borgiano vaivém de influências.
E se alguém rir da minha tese, eu respondo como tenor italiano amigo do Bentinho (de um jeito menos enfurecido), encerrando o capítulo: "Caro Santiago, eu não tenho graça, eu tenho horror à graça (…) um dia, quando todos os livros forem queimados por inúteis, há de haver alguém, pode ser que tenor, e talvez italiano, que ensine esta verdade aos homens. Tudo é música, meu amigo. No princípio era o dó, e o dó fez-se ré, etc. Este cálix, este cálix é um breve estribilho. Não se ouve? Também não se ouve o pau nem a pedra, mas tudo cabe na mesma ópera…"
*
Eu já li o Pierre Menard umas quatro vezes e ainda não sei se consegui pegar tudo que tem aqui. O ponto de que parte Borges, por meio de um autor anônimo, e está aí parte da ficcionalização, quer provar que certas partes do Dom Quixote foram escritas por um outro autor, recém falecido no momento de publicação deste artigo: Pierre Menard. Ele acaba dando uma volta completa e o ensaio ficcional acaba criando um poderosíssimo ensaio que se debruça e transcende a própria literatura.
O Borges está aí ao mesmo tempo que não está, característica comum dos grandes autores. É difícil saber quando um apontamento do autor-ficcional, no texto, é olhado com ironia ou com reverência por parte do Borges. O ponto principal, que o levou a bolar toda essa interessante ficcionalização, é sobre a mudança dos significados de um texto com o avançar do tempo. Se tivesse escrito como um mero ensaio, não seria tão bom quanto como ele o é da forma que fez. O absurdo e a estranheza do que o autor-anônimo está nos dizendo, até as notas fictícias mas críveis, corroboram com o sentido do todo.
Há o vai e vem das influências: o autor-ficional do artigo sente que está lendo, no Quixote, o estilo de Menard, inspirado por Shakespeare, mas agora ele já o precede, já que está dentro do Quixote. Ele é, aliás, melhor, porque Menard, apesar das duas obras serem materialmente iguais, escreve o contrário daquilo que lhe é caro, e por conta dos anos transcorridos e por conta da motivação de Menard escrever, o texto muda semanticamente, ainda que materialmente não.
Um trecho que ele não citou e que me saltou aos olhos agora que estou relendo Dom Casmurro está no capítulo IX, e pegou porque lembrei instantaneamente, desta vez, do Pierre Menard. (Aliás, mal vejo essa cena, bem boa, sendo comentada.) É quando o Bentinho relembra e dedica o capítulo a explicar a teoria do amigo de que “A vida é uma ópera e uma grande ópera” escrita por Lúcifer. O amigo desenvolve como chegou nessa teoria e descreve como tudo se decorreu no céu. São só três páginas, e é puro suco de Machado.
E bom, o que tem a ver com o Pierre Menard, este artigo ou conto ou genial ensaio ficcional do Borges? O autor fictício (o amigo do Menard) diz que o Menard ao reescrever o Quixote faz diferenciação entre cópia/transcrição mecânica de outro texto com a produção de um texto que coincida linha a linha, palavra por palavra, com as de Cervantes. Coisas diferentes, segundo ele. E seguindo a tese do amigo do Bentinho, Shakespeare nada mais é que um tipo de Pierre Menard. "O poeta inglês não teve outro gênio senão transcrever a letra da ópera [de Lucífer], com tal fidelidade que parece ele próprio o autor da composição (…)"
Menard transcreveu o Quixote; Shakespeare transcreveu a própria ópera de Lúcifer, a ópera da existência: a vida que a gente vive. Está aí, aliás, um dos maiores elogios ao Shakespeare feito pelo Machado, ainda que do seu jeitinho sempre dissimulado.
O ponto dos dois autores é diferente, claro. Mas ambos são muito imaginativos quanto no modo de colocar e expor aquilo que eles querem transmitir. O Borges, com a sua forma única; o Machado, dentro de um romance, por meio de uma personagem e de uma prosa cristalina. E, ainda sim, de diferentes formas, a ideia geral dos dois está próxima, a ponto de que partes de um se aplicam a outro e vice-versa, em um Borgiano vaivém de influências.
E se alguém rir da minha tese, eu respondo como tenor italiano amigo do Bentinho (de um jeito menos enfurecido), encerrando o capítulo: "Caro Santiago, eu não tenho graça, eu tenho horror à graça (…) um dia, quando todos os livros forem queimados por inúteis, há de haver alguém, pode ser que tenor, e talvez italiano, que ensine esta verdade aos homens. Tudo é música, meu amigo. No princípio era o dó, e o dó fez-se ré, etc. Este cálix, este cálix é um breve estribilho. Não se ouve? Também não se ouve o pau nem a pedra, mas tudo cabe na mesma ópera…"
*
Eu já li o Pierre Menard umas quatro vezes e ainda não sei se consegui pegar tudo que tem aqui. O ponto de que parte Borges, por meio de um autor anônimo, e está aí parte da ficcionalização, quer provar que certas partes do Dom Quixote foram escritas por um outro autor, recém falecido no momento de publicação deste artigo: Pierre Menard. Ele acaba dando uma volta completa e o ensaio ficcional acaba criando um poderosíssimo ensaio que se debruça e transcende a própria literatura.
O Borges está aí ao mesmo tempo que não está, característica comum dos grandes autores. É difícil saber quando um apontamento do autor-ficcional, no texto, é olhado com ironia ou com reverência por parte do Borges. O ponto principal, que o levou a bolar toda essa interessante ficcionalização, é sobre a mudança dos significados de um texto com o avançar do tempo. Se tivesse escrito como um mero ensaio, não seria tão bom quanto como ele o é da forma que fez. O absurdo e a estranheza do que o autor-anônimo está nos dizendo, até as notas fictícias mas críveis, corroboram com o sentido do todo.
Há o vai e vem das influências: o autor-ficional do artigo sente que está lendo, no Quixote, o estilo de Menard, inspirado por Shakespeare, mas agora ele já o precede, já que está dentro do Quixote. Ele é, aliás, melhor, porque Menard, apesar das duas obras serem materialmente iguais, escreve o contrário daquilo que lhe é caro, e por conta dos anos transcorridos e por conta da motivação de Menard escrever, o texto muda semanticamente, ainda que materialmente não.
"Uma doutrina filosófica é no início uma descrição verossímil do universo; passam os anos e é um simples capítulo – quando não um parágrafo ou um nome – da história da filosofia. Na literatura, essa caducidade final é ainda mais evidente. O Quixote – disse-me Menard – foi antes de tudo um livro agradável; agora é uma ocasião de brindes patrióticos, de soberba gramatical, de obscenas edições de luxo. A glória é uma incompreensão e talvez a pior."
Um livro que termino já ansiando por uma releitura mais aprofundada.
É denso, lento, cercado por referências e visões plurais, que pede por uma leitura mais cadenciada e atenta, mas, por outro lado, é extremamente informativo, elucidativo, e o melhor de tudo, o autor não se esconde por de trás das obras teóricas em que se apoia; quando tem de criticar o lirismo superficial e artificial de um certo autor, a poesia concreta de muitos outros... ou mesmo nos ditos autores epicizantes — falseadores que quase mecanicamente apenas usam e replicam recursos da Épica — e nos "poemetos épicos": "próprio de poetas menores, donos tão somente da técnica versatória, e destituídos de maior talento e largueza de visão", completando: "o resultado: obra de ínfima importância estética, tal como, Prosopopéia (...) O Uraguai (...), etc.". É duro, mas é sempre honesto, quando tem de ser elogioso o é e mostra por que é, sem medo de dar nome aos bois, para o bem ou para o mau. Engraçado é o que eu cito hoje como elogio ao crítico/professor, na época de publicação, foi visto com maus olhos, rendendo uma boa resposta do Massaud Moisés logo na introdução, ele diz, por alto, que essa repressão só aconteceu por ele ser brasileiro, professor, e ter um cérebro pensante.
Enfim, trata muitíssimo bem também da diferença entre forma e conteúdo, "Poema" e "Poesia", limitações e falsas limitações (socialmente impostas ou autoimpostas); com exemplificações práticas e concretas (apesar de grande carga de teoria, não temos só teorizações) sobre como identificar a poesia na prosa ou a falta de poesia no verso ou mesmo no poema; outras terminologias, pressupostos e enganos, e muito mais. Não vale a pena continuar a desenvolver aqui por agora; preciso desenvolver, primeiro, minhas anotações suscitadas pela leitura. Me ensinou MUITO. E apesar de se afastar da historiografia, também é relevante nesse ponto. Ele conhece muito de literatura brasileira e portuguesa.
Em conclusão rápida, digo que é um livro recomendadíssimo a qualquer um que queira pensar e refletir mais a fundo sobre suas leituras. Tenha fins acadêmicos, de escrita pessoal, ou não. Você só precisa gostar de pensar sobre a literatura, e ter empenho.
Outras notas: só consegui essa edição antiquíssima, que separa por Poesia e Prosa (o título no entanto, leva ao engano, não trata só de poesia, começa, digno de nota, pela definição do que é literatura, indo para forma, gêneros, e enfim se detendo no Lírico e no Épico). Hoje em dia, para estudo, há uma edição melhor, que reúne a Prosa I e Prosa II com a Poesia I (essa parte), que é revisada, e é a mais recomendada. Só não a li pois não a encontrei.
É denso, lento, cercado por referências e visões plurais, que pede por uma leitura mais cadenciada e atenta, mas, por outro lado, é extremamente informativo, elucidativo, e o melhor de tudo, o autor não se esconde por de trás das obras teóricas em que se apoia; quando tem de criticar o lirismo superficial e artificial de um certo autor, a poesia concreta de muitos outros... ou mesmo nos ditos autores epicizantes — falseadores que quase mecanicamente apenas usam e replicam recursos da Épica — e nos "poemetos épicos": "próprio de poetas menores, donos tão somente da técnica versatória, e destituídos de maior talento e largueza de visão", completando: "o resultado: obra de ínfima importância estética, tal como, Prosopopéia (...) O Uraguai (...), etc.". É duro, mas é sempre honesto, quando tem de ser elogioso o é e mostra por que é, sem medo de dar nome aos bois, para o bem ou para o mau. Engraçado é o que eu cito hoje como elogio ao crítico/professor, na época de publicação, foi visto com maus olhos, rendendo uma boa resposta do Massaud Moisés logo na introdução, ele diz, por alto, que essa repressão só aconteceu por ele ser brasileiro, professor, e ter um cérebro pensante.
Enfim, trata muitíssimo bem também da diferença entre forma e conteúdo, "Poema" e "Poesia", limitações e falsas limitações (socialmente impostas ou autoimpostas); com exemplificações práticas e concretas (apesar de grande carga de teoria, não temos só teorizações) sobre como identificar a poesia na prosa ou a falta de poesia no verso ou mesmo no poema; outras terminologias, pressupostos e enganos, e muito mais. Não vale a pena continuar a desenvolver aqui por agora; preciso desenvolver, primeiro, minhas anotações suscitadas pela leitura. Me ensinou MUITO. E apesar de se afastar da historiografia, também é relevante nesse ponto. Ele conhece muito de literatura brasileira e portuguesa.
Em conclusão rápida, digo que é um livro recomendadíssimo a qualquer um que queira pensar e refletir mais a fundo sobre suas leituras. Tenha fins acadêmicos, de escrita pessoal, ou não. Você só precisa gostar de pensar sobre a literatura, e ter empenho.
Outras notas: só consegui essa edição antiquíssima, que separa por Poesia e Prosa (o título no entanto, leva ao engano, não trata só de poesia, começa, digno de nota, pela definição do que é literatura, indo para forma, gêneros, e enfim se detendo no Lírico e no Épico). Hoje em dia, para estudo, há uma edição melhor, que reúne a Prosa I e Prosa II com a Poesia I (essa parte), que é revisada, e é a mais recomendada. Só não a li pois não a encontrei.
Uma narrativa brevíssima, meras seis páginas, quase só de descrição e ambientação, de estranheza e de apreensão, que, como o suceder de peças que caem e vão derrubando outras, originou, esbarrou, com o Rei Amarelo do Chambers, o Ciclo do Tchuchuco do Lovecraft, e criou, junto do Machen, do Algernon Blackwood e de alguns outros (e sem o qual, possivelmente não teríamos nada disso) a weird-fiction, fincando as bases do terror moderno.
(...) Eu diria hoje que seu valor didático é mínimo, é praticamente apenas entretenimento." Diz a autora no fim deste livro, e eu não poderia discordar mais; não da segunda parte, é claro, a ironia e acidez amistosa o faz um livro extremamente divertido e cômico, mas da primeira: o valor didático, a singeleza, e a utilidade desse livro para quem vê prazer na leitura (e por osmose, também na escrita) é imensurável.
De 1960 a 1980, Szymborska escreveu uma coluna anônima para um jornal literário polonês chamado Zycie Literackie. A coluna intitulava-se Literary Mailbox e a ideia era que aspirantes a escritores enviassem seus trabalhos e recebessem conselhos úteis.
Para ela, era mais uma coluna, mais um trabalho, ela nem ao menos assinava com seu nome; ou seja, tudo que vemos nesse livro, todas as dicas e conselhos, foram escritos sem pretensão alguma, diferente de muitos outros livros que falam sobre o ato de escrever ou ler como se tivessem desvendado o (um) segredo universal. Foi até uma surpresa para ela que uma amiga se lembrasse dessa Coluna e sugerisse publicação.
Traduzi e reproduzerei no final da resenha algumas dessas respostas que ela deu a autores, para pegarem o gostinho da coisa; ela se repete apenas em algumas respostas, mas que, quando não são úteis são extremamente engraçadas. O importante é que peguem o tom, a partir daí a leitura flui que é uma beleza.
Ás vezes a autora é seria, outras vezes irônica, elogiosa e até dura. Mas há uma razão, ela quer desiludir os escritores; quando ela escreve uma resposta, ela se lembra dela própria, do banho de água fria que tomou de diversos editores, e do quão bom isso foi para ela no final das contas. Ela não é dura porquê estima demais a escrita no geral, Szymborska é dura com os aspirantes a escritores porque acha que eles se importam MUITO POUCO.
Seu conselhos são monumentalmente sensatos. Não seja um narcisista. Trabalhe (muito) mais. O melhor 'utensílio de escrita' é uma lixeira. A vida é curta, mas 'cada detalhe leva tempo'. Não seja utópico. Mantenha-se afastado do vazio o máximo que puder. Tudo isso é dito com outras palavras, mas mantendo sempre uma honestidade que pode ser confundida com dureza. Ela é como nossos pais, é áspera porquê quer que saibamos que o mundo (real ou editorial, da prosa ou da poesia, dos amores e amizades) é duro. Exemplo:
Para B. L. da Província de Wrocław
O medo de ser direito, os esforços constantes e meticulosos para metaforizar tudo, a necessidade incessante de provar que você é um poeta em cada linha: essas ansiedades afligem todo bardo iniciante. São curáveis, se percebidas a tempo. Seus poemas até agora se assemelham a traduções forçadas de discursos diretos em complicações desnecessárias. No momento, acredite em mim, uma única metáfora organicamente ligada ao conceito original do poema vale mais do que mil e quinhetos enfeites adicionados ex post. Por favor, envie-nos algo novo em alguns meses.
Eu acho que vai ser difícil achar um livro sobre a escrita que supere-o. E antes de prosseguir com as traduções que prometi, como não sou muito conceituado, deixo uma resenha muito boa deste mesmo livro feita nesse mês na Folha de São Paulo (eu nem sabia que tinha edição brasileira, o li em inglês, e acabei de descobrir tanto a resenha quanto a edição) e é reproduzido aqui também lgumas dessas entradas que apareceram na edição brasileira. Como eles são uma autoridade maior que eu, caso não tenham se convencido de ler até aqui, dê mais uma chance sobre a ótica de outra resenha mais profissional: https://outline.com/yHvYGc
Ele (o autor da resenha) tem uma visão um pouco diferente da minha — o título é um pouco clickbait — mas vale a pena ser lida. Ambos concordamos, ao menos, que esse é livro é extremamente necessário, e que não pode passar em branco. Como diz: é antisséptico.
COMO ESCREVER (E QUANDO PARAR) — Wislawa Szymborska — Entradas Iniciais da Edição Estadusunidense
Para P. Z. D., de Chorzów
“Por favor, me dê alguma esperança de publicação, ou pelo menos forneça algum consolo.” Devemos, depois de ler seus envios, escolher o último. Então atenção, por favor, estamos dando conforto. Um destino esplêndido espera por você, o destino de um leitor, e um leitor do mais alto calibre, ou seja, desinteressado pela escrita – o destino de um amante da literatura, que sempre será seu companheiro mais firme, o conquistado, não o conquistador. Você vai ler tudo pelo prazer de ler. Sem identificar “truques”, sem se perguntar se esta ou aquela passagem poderia ser melhor escrita, ou tão bem quanto, mas de uma forma diferente. Nenhuma inveja, nenhum desânimo, nenhum ataque de baço, nenhuma das sensações que acompanham o leitor que também escreve. Para você, Dante sempre será Dante, tenha ou não tias no ramo editorial. Você não será torturado à noite pela pergunta de por que X, que escreve versos livres, é publicado, enquanto você, que rima incansavelmente contando sílabas nas duas mãos, nem recebe respostas. As expressões faciais de um editor significarão menos do que nada para você, enquanto o estremecimento em vários estágios significará, se não nada, pelo menos não muito. E há também esse benefício não desprezível: as pessoas falam de escritores incompetentes, mas nunca de leitores incompetentes. É claro que existem hordas de leitores fracassados – desnecessário dizer que não incluímos você entre eles – mas de alguma forma eles se safam, enquanto qualquer um que escreva sem sucesso será instantaneamente inundado por piscadelas, elogios falsos e suspiros. Nem mesmo as namoradas e parentes são confiáveis nesses casos. Então, como você se sente agora? Como um rei? Esperamos que sim.
Para W. K. de Lublin
Suas observações até agora são de natureza puramente privada – elas dizem respeito a pessoas e lugares esboçados de uma maneira tão nebulosa e desconexa que não conseguem de maneira alguma chamar a atenção do leitor. Aliás, não entendemos por que você fala de sua mania de escrever como se fosse uma doença vergonhosa da qual você deve ser curado imediatamente. Não há nada remotamente anormal em querer escrever sobre seus pensamentos e experiências. Pelo contrário — isso revela sua cultura literária pessoal. O que é obrigatório não só para os autores, mas para as pessoas educadas em geral. Quando lemos versões publicadas de memórias e cartas entre estas pessoas, ficamos maravilhados com a forma literária dessas auto-revelações – compostas diversas vezes por indivíduos que além de não serem escritores, não tinham qualquer inspiração a se tornar... Hoje em dia, porém, assim que alguém escreve algumas palavras, começa a pesar seu valor, é obcecado pelos pensamentos de publicação, questiona-se se o tempo foi bem gasto... É uma pena que cada frase formulada mais ou menos graciosamente deva instantaneamente valer alguma coisa. E se a recompensa vier apenas dez ou vinte anos depois? E se essa frase bem trabalhada nunca colher dividendos em nenhum sentido público, mas apoiar, sustentar o escritor nas horas sombrias e enriquecer sua vida? Isso não tem valor?
Para Eug. Ł. de Inowrocław
A mesma velha reclamação sobre a “juventude”. Desta vez, devemos perdoar o autor, pois, segundo ele, ainda não foi a lugar nenhum, experimentou algo digno de menção ou leu tudo o que deveria ler. Tais confissões traem a crença (adolescente, portanto um pouco simplista) de que apenas as circunstâncias externas fazem o escritor. Que sua qualidade criativa deriva da quantidade de aventuras de sua vida. De fato, o escritor se desenvolve internamente, dentro de seu próprio coração e mente: através de uma propensão inata para o pensamento, sensibilidade aguda para assuntos menores, espanto com o que os outros vêem como comum. Viagens para o exterior? Esperamos sinceramente que você as aceite, eles às vezes são úteis. Mas antes de partir para Capri, sugerimos uma viagem para o interior. Se você voltar sem nada para escrever, nenhuma Azure Grotto o salvará.
Para Ewa, de Bytom
Quem sabe, talvez os poderes poéticos estejam adormecidos nas profundezas de sua alma. O fato é que eles ainda não vieram à tona. Você os impede com pilhas de metáforas desajeitadas, e tão empilhadas uma sob as outras que o mundo além delas desaparece de vista. Ser “poético” é o pecado reinante dos poetas iniciantes. Eles temem frases simples, dificultam as coisas para si e para os outros. Um em cada dez supera essa fase e se torna um bom poeta; cinco parara de escrever completamente; um muda para a prosa (com melhores resultados, esperamos); enquanto outros quatro se contorcem em poemas cada vez mais impenetráveis. Olhando para trás, vemos que nossos dez de repente se tornaram onze. Um poeta nasce a cada minuto.
Para Ula, de Sopot
Defina poesia em uma frase – por favor. Conhecemos pelo menos quinhentas dessas definições de várias fontes diferentes, nenhuma das quais nos parece abrangente e agradavelmente precisa. Cada um expressa o gosto de sua própria época. Nosso ceticismo nativo nos salva de tentar novas definições. Mas o adorável aforismo de Carl Sandburg me vem à mente: “A poesia é um diário escrito por uma criatura marinha, que vive na terra e deseja voar”. Isso serve por enquanto?
Para Puszka, de Radom
Até o tédio deve ser descrito com paixão. Esta é uma lei de ferro da literatura, que não há como suplantar. Você deve começar a escrever um diário – recomendamos isso a todos os aspirantes a escritores. Em breve você verá quantas coisas acontecem mesmo nos dias em que nada parece estar acontecendo. Se você não encontrar nada digno de nota, nenhum pensamento, observação ou impressão, a conclusão será a seguinte: você ainda não é qualificada o suficiente. Experimente.
Merged review:
(...) Eu diria hoje que seu valor didático é mínimo, é praticamente apenas entretenimento." Diz a autora no fim deste livro, e eu não poderia discordar mais; não da segunda parte, é claro, a ironia e acidez amistosa o faz um livro extremamente divertido e cômico, mas da primeira: o valor didático, a singeleza, e a utilidade desse livro para quem vê prazer na leitura (e por osmose, também na escrita) é imensurável.
De 1960 a 1980, Szymborska escreveu uma coluna anônima para um jornal literário polonês chamado Zycie Literackie. A coluna intitulava-se Literary Mailbox e a ideia era que aspirantes a escritores enviassem seus trabalhos e recebessem conselhos úteis.
Para ela, era mais uma coluna, mais um trabalho, ela nem ao menos assinava com seu nome; ou seja, tudo que vemos nesse livro, todas as dicas e conselhos, foram escritos sem pretensão alguma, diferente de muitos outros livros que falam sobre o ato de escrever ou ler como se tivessem desvendado o (um) segredo universal. Foi até uma surpresa para ela que uma amiga se lembrasse dessa Coluna e sugerisse publicação.
Traduzi e reproduzerei no final da resenha algumas dessas respostas que ela deu a autores, para pegarem o gostinho da coisa; ela se repete apenas em algumas respostas, mas que, quando não são úteis são extremamente engraçadas. O importante é que peguem o tom, a partir daí a leitura flui que é uma beleza.
Ás vezes a autora é seria, outras vezes irônica, elogiosa e até dura. Mas há uma razão, ela quer desiludir os escritores; quando ela escreve uma resposta, ela se lembra dela própria, do banho de água fria que tomou de diversos editores, e do quão bom isso foi para ela no final das contas. Ela não é dura porquê estima demais a escrita no geral, Szymborska é dura com os aspirantes a escritores porque acha que eles se importam MUITO POUCO.
Seu conselhos são monumentalmente sensatos. Não seja um narcisista. Trabalhe (muito) mais. O melhor 'utensílio de escrita' é uma lixeira. A vida é curta, mas 'cada detalhe leva tempo'. Não seja utópico. Mantenha-se afastado do vazio o máximo que puder. Tudo isso é dito com outras palavras, mas mantendo sempre uma honestidade que pode ser confundida com dureza. Ela é como nossos pais, é áspera porquê quer que saibamos que o mundo (real ou editorial, da prosa ou da poesia, dos amores e amizades) é duro. Exemplo:
Para B. L. da Província de Wrocław
O medo de ser direito, os esforços constantes e meticulosos para metaforizar tudo, a necessidade incessante de provar que você é um poeta em cada linha: essas ansiedades afligem todo bardo iniciante. São curáveis, se percebidas a tempo. Seus poemas até agora se assemelham a traduções forçadas de discursos diretos em complicações desnecessárias. No momento, acredite em mim, uma única metáfora organicamente ligada ao conceito original do poema vale mais do que mil e quinhetos enfeites adicionados ex post. Por favor, envie-nos algo novo em alguns meses.
Eu acho que vai ser difícil achar um livro sobre a escrita que supere-o. E antes de prosseguir com as traduções que prometi, como não sou muito conceituado, deixo uma resenha muito boa deste mesmo livro feita nesse mês na Folha de São Paulo (eu nem sabia que tinha edição brasileira, o li em inglês, e acabei de descobrir tanto a resenha quanto a edição) e é reproduzido aqui também lgumas dessas entradas que apareceram na edição brasileira. Como eles são uma autoridade maior que eu, caso não tenham se convencido de ler até aqui, dê mais uma chance sobre a ótica de outra resenha mais profissional: https://outline.com/yHvYGc
Ele (o autor da resenha) tem uma visão um pouco diferente da minha — o título é um pouco clickbait — mas vale a pena ser lida. Ambos concordamos, ao menos, que esse é livro é extremamente necessário, e que não pode passar em branco. Como diz: é antisséptico.
COMO ESCREVER (E QUANDO PARAR) — Wislawa Szymborska — Entradas Iniciais da Edição Estadusunidense
Para P. Z. D., de Chorzów
“Por favor, me dê alguma esperança de publicação, ou pelo menos forneça algum consolo.” Devemos, depois de ler seus envios, escolher o último. Então atenção, por favor, estamos dando conforto. Um destino esplêndido espera por você, o destino de um leitor, e um leitor do mais alto calibre, ou seja, desinteressado pela escrita – o destino de um amante da literatura, que sempre será seu companheiro mais firme, o conquistado, não o conquistador. Você vai ler tudo pelo prazer de ler. Sem identificar “truques”, sem se perguntar se esta ou aquela passagem poderia ser melhor escrita, ou tão bem quanto, mas de uma forma diferente. Nenhuma inveja, nenhum desânimo, nenhum ataque de baço, nenhuma das sensações que acompanham o leitor que também escreve. Para você, Dante sempre será Dante, tenha ou não tias no ramo editorial. Você não será torturado à noite pela pergunta de por que X, que escreve versos livres, é publicado, enquanto você, que rima incansavelmente contando sílabas nas duas mãos, nem recebe respostas. As expressões faciais de um editor significarão menos do que nada para você, enquanto o estremecimento em vários estágios significará, se não nada, pelo menos não muito. E há também esse benefício não desprezível: as pessoas falam de escritores incompetentes, mas nunca de leitores incompetentes. É claro que existem hordas de leitores fracassados – desnecessário dizer que não incluímos você entre eles – mas de alguma forma eles se safam, enquanto qualquer um que escreva sem sucesso será instantaneamente inundado por piscadelas, elogios falsos e suspiros. Nem mesmo as namoradas e parentes são confiáveis nesses casos. Então, como você se sente agora? Como um rei? Esperamos que sim.
Para W. K. de Lublin
Suas observações até agora são de natureza puramente privada – elas dizem respeito a pessoas e lugares esboçados de uma maneira tão nebulosa e desconexa que não conseguem de maneira alguma chamar a atenção do leitor. Aliás, não entendemos por que você fala de sua mania de escrever como se fosse uma doença vergonhosa da qual você deve ser curado imediatamente. Não há nada remotamente anormal em querer escrever sobre seus pensamentos e experiências. Pelo contrário — isso revela sua cultura literária pessoal. O que é obrigatório não só para os autores, mas para as pessoas educadas em geral. Quando lemos versões publicadas de memórias e cartas entre estas pessoas, ficamos maravilhados com a forma literária dessas auto-revelações – compostas diversas vezes por indivíduos que além de não serem escritores, não tinham qualquer inspiração a se tornar... Hoje em dia, porém, assim que alguém escreve algumas palavras, começa a pesar seu valor, é obcecado pelos pensamentos de publicação, questiona-se se o tempo foi bem gasto... É uma pena que cada frase formulada mais ou menos graciosamente deva instantaneamente valer alguma coisa. E se a recompensa vier apenas dez ou vinte anos depois? E se essa frase bem trabalhada nunca colher dividendos em nenhum sentido público, mas apoiar, sustentar o escritor nas horas sombrias e enriquecer sua vida? Isso não tem valor?
Para Eug. Ł. de Inowrocław
A mesma velha reclamação sobre a “juventude”. Desta vez, devemos perdoar o autor, pois, segundo ele, ainda não foi a lugar nenhum, experimentou algo digno de menção ou leu tudo o que deveria ler. Tais confissões traem a crença (adolescente, portanto um pouco simplista) de que apenas as circunstâncias externas fazem o escritor. Que sua qualidade criativa deriva da quantidade de aventuras de sua vida. De fato, o escritor se desenvolve internamente, dentro de seu próprio coração e mente: através de uma propensão inata para o pensamento, sensibilidade aguda para assuntos menores, espanto com o que os outros vêem como comum. Viagens para o exterior? Esperamos sinceramente que você as aceite, eles às vezes são úteis. Mas antes de partir para Capri, sugerimos uma viagem para o interior. Se você voltar sem nada para escrever, nenhuma Azure Grotto o salvará.
Para Ewa, de Bytom
Quem sabe, talvez os poderes poéticos estejam adormecidos nas profundezas de sua alma. O fato é que eles ainda não vieram à tona. Você os impede com pilhas de metáforas desajeitadas, e tão empilhadas uma sob as outras que o mundo além delas desaparece de vista. Ser “poético” é o pecado reinante dos poetas iniciantes. Eles temem frases simples, dificultam as coisas para si e para os outros. Um em cada dez supera essa fase e se torna um bom poeta; cinco parara de escrever completamente; um muda para a prosa (com melhores resultados, esperamos); enquanto outros quatro se contorcem em poemas cada vez mais impenetráveis. Olhando para trás, vemos que nossos dez de repente se tornaram onze. Um poeta nasce a cada minuto.
Para Ula, de Sopot
Defina poesia em uma frase – por favor. Conhecemos pelo menos quinhentas dessas definições de várias fontes diferentes, nenhuma das quais nos parece abrangente e agradavelmente precisa. Cada um expressa o gosto de sua própria época. Nosso ceticismo nativo nos salva de tentar novas definições. Mas o adorável aforismo de Carl Sandburg me vem à mente: “A poesia é um diário escrito por uma criatura marinha, que vive na terra e deseja voar”. Isso serve por enquanto?
Para Puszka, de Radom
Até o tédio deve ser descrito com paixão. Esta é uma lei de ferro da literatura, que não há como suplantar. Você deve começar a escrever um diário – recomendamos isso a todos os aspirantes a escritores. Em breve você verá quantas coisas acontecem mesmo nos dias em que nada parece estar acontecendo. Se você não encontrar nada digno de nota, nenhum pensamento, observação ou impressão, a conclusão será a seguinte: você ainda não é qualificada o suficiente. Experimente.
De 1960 a 1980, Szymborska escreveu uma coluna anônima para um jornal literário polonês chamado Zycie Literackie. A coluna intitulava-se Literary Mailbox e a ideia era que aspirantes a escritores enviassem seus trabalhos e recebessem conselhos úteis.
Para ela, era mais uma coluna, mais um trabalho, ela nem ao menos assinava com seu nome; ou seja, tudo que vemos nesse livro, todas as dicas e conselhos, foram escritos sem pretensão alguma, diferente de muitos outros livros que falam sobre o ato de escrever ou ler como se tivessem desvendado o (um) segredo universal. Foi até uma surpresa para ela que uma amiga se lembrasse dessa Coluna e sugerisse publicação.
Traduzi e reproduzerei no final da resenha algumas dessas respostas que ela deu a autores, para pegarem o gostinho da coisa; ela se repete apenas em algumas respostas, mas que, quando não são úteis são extremamente engraçadas. O importante é que peguem o tom, a partir daí a leitura flui que é uma beleza.
Ás vezes a autora é seria, outras vezes irônica, elogiosa e até dura. Mas há uma razão, ela quer desiludir os escritores; quando ela escreve uma resposta, ela se lembra dela própria, do banho de água fria que tomou de diversos editores, e do quão bom isso foi para ela no final das contas. Ela não é dura porquê estima demais a escrita no geral, Szymborska é dura com os aspirantes a escritores porque acha que eles se importam MUITO POUCO.
Seu conselhos são monumentalmente sensatos. Não seja um narcisista. Trabalhe (muito) mais. O melhor 'utensílio de escrita' é uma lixeira. A vida é curta, mas 'cada detalhe leva tempo'. Não seja utópico. Mantenha-se afastado do vazio o máximo que puder. Tudo isso é dito com outras palavras, mas mantendo sempre uma honestidade que pode ser confundida com dureza. Ela é como nossos pais, é áspera porquê quer que saibamos que o mundo (real ou editorial, da prosa ou da poesia, dos amores e amizades) é duro. Exemplo:
Para B. L. da Província de Wrocław
O medo de ser direito, os esforços constantes e meticulosos para metaforizar tudo, a necessidade incessante de provar que você é um poeta em cada linha: essas ansiedades afligem todo bardo iniciante. São curáveis, se percebidas a tempo. Seus poemas até agora se assemelham a traduções forçadas de discursos diretos em complicações desnecessárias. No momento, acredite em mim, uma única metáfora organicamente ligada ao conceito original do poema vale mais do que mil e quinhetos enfeites adicionados ex post. Por favor, envie-nos algo novo em alguns meses.
Eu acho que vai ser difícil achar um livro sobre a escrita que supere-o. E antes de prosseguir com as traduções que prometi, como não sou muito conceituado, deixo uma resenha muito boa deste mesmo livro feita nesse mês na Folha de São Paulo (eu nem sabia que tinha edição brasileira, o li em inglês, e acabei de descobrir tanto a resenha quanto a edição) e é reproduzido aqui também lgumas dessas entradas que apareceram na edição brasileira. Como eles são uma autoridade maior que eu, caso não tenham se convencido de ler até aqui, dê mais uma chance sobre a ótica de outra resenha mais profissional: https://outline.com/yHvYGc
Ele (o autor da resenha) tem uma visão um pouco diferente da minha — o título é um pouco clickbait — mas vale a pena ser lida. Ambos concordamos, ao menos, que esse é livro é extremamente necessário, e que não pode passar em branco. Como diz: é antisséptico.
COMO ESCREVER (E QUANDO PARAR) — Wislawa Szymborska — Entradas Iniciais da Edição Estadusunidense
Para P. Z. D., de Chorzów
“Por favor, me dê alguma esperança de publicação, ou pelo menos forneça algum consolo.” Devemos, depois de ler seus envios, escolher o último. Então atenção, por favor, estamos dando conforto. Um destino esplêndido espera por você, o destino de um leitor, e um leitor do mais alto calibre, ou seja, desinteressado pela escrita – o destino de um amante da literatura, que sempre será seu companheiro mais firme, o conquistado, não o conquistador. Você vai ler tudo pelo prazer de ler. Sem identificar “truques”, sem se perguntar se esta ou aquela passagem poderia ser melhor escrita, ou tão bem quanto, mas de uma forma diferente. Nenhuma inveja, nenhum desânimo, nenhum ataque de baço, nenhuma das sensações que acompanham o leitor que também escreve. Para você, Dante sempre será Dante, tenha ou não tias no ramo editorial. Você não será torturado à noite pela pergunta de por que X, que escreve versos livres, é publicado, enquanto você, que rima incansavelmente contando sílabas nas duas mãos, nem recebe respostas. As expressões faciais de um editor significarão menos do que nada para você, enquanto o estremecimento em vários estágios significará, se não nada, pelo menos não muito. E há também esse benefício não desprezível: as pessoas falam de escritores incompetentes, mas nunca de leitores incompetentes. É claro que existem hordas de leitores fracassados – desnecessário dizer que não incluímos você entre eles – mas de alguma forma eles se safam, enquanto qualquer um que escreva sem sucesso será instantaneamente inundado por piscadelas, elogios falsos e suspiros. Nem mesmo as namoradas e parentes são confiáveis nesses casos. Então, como você se sente agora? Como um rei? Esperamos que sim.
Para W. K. de Lublin
Suas observações até agora são de natureza puramente privada – elas dizem respeito a pessoas e lugares esboçados de uma maneira tão nebulosa e desconexa que não conseguem de maneira alguma chamar a atenção do leitor. Aliás, não entendemos por que você fala de sua mania de escrever como se fosse uma doença vergonhosa da qual você deve ser curado imediatamente. Não há nada remotamente anormal em querer escrever sobre seus pensamentos e experiências. Pelo contrário — isso revela sua cultura literária pessoal. O que é obrigatório não só para os autores, mas para as pessoas educadas em geral. Quando lemos versões publicadas de memórias e cartas entre estas pessoas, ficamos maravilhados com a forma literária dessas auto-revelações – compostas diversas vezes por indivíduos que além de não serem escritores, não tinham qualquer inspiração a se tornar... Hoje em dia, porém, assim que alguém escreve algumas palavras, começa a pesar seu valor, é obcecado pelos pensamentos de publicação, questiona-se se o tempo foi bem gasto... É uma pena que cada frase formulada mais ou menos graciosamente deva instantaneamente valer alguma coisa. E se a recompensa vier apenas dez ou vinte anos depois? E se essa frase bem trabalhada nunca colher dividendos em nenhum sentido público, mas apoiar, sustentar o escritor nas horas sombrias e enriquecer sua vida? Isso não tem valor?
Para Eug. Ł. de Inowrocław
A mesma velha reclamação sobre a “juventude”. Desta vez, devemos perdoar o autor, pois, segundo ele, ainda não foi a lugar nenhum, experimentou algo digno de menção ou leu tudo o que deveria ler. Tais confissões traem a crença (adolescente, portanto um pouco simplista) de que apenas as circunstâncias externas fazem o escritor. Que sua qualidade criativa deriva da quantidade de aventuras de sua vida. De fato, o escritor se desenvolve internamente, dentro de seu próprio coração e mente: através de uma propensão inata para o pensamento, sensibilidade aguda para assuntos menores, espanto com o que os outros vêem como comum. Viagens para o exterior? Esperamos sinceramente que você as aceite, eles às vezes são úteis. Mas antes de partir para Capri, sugerimos uma viagem para o interior. Se você voltar sem nada para escrever, nenhuma Azure Grotto o salvará.
Para Ewa, de Bytom
Quem sabe, talvez os poderes poéticos estejam adormecidos nas profundezas de sua alma. O fato é que eles ainda não vieram à tona. Você os impede com pilhas de metáforas desajeitadas, e tão empilhadas uma sob as outras que o mundo além delas desaparece de vista. Ser “poético” é o pecado reinante dos poetas iniciantes. Eles temem frases simples, dificultam as coisas para si e para os outros. Um em cada dez supera essa fase e se torna um bom poeta; cinco parara de escrever completamente; um muda para a prosa (com melhores resultados, esperamos); enquanto outros quatro se contorcem em poemas cada vez mais impenetráveis. Olhando para trás, vemos que nossos dez de repente se tornaram onze. Um poeta nasce a cada minuto.
Para Ula, de Sopot
Defina poesia em uma frase – por favor. Conhecemos pelo menos quinhentas dessas definições de várias fontes diferentes, nenhuma das quais nos parece abrangente e agradavelmente precisa. Cada um expressa o gosto de sua própria época. Nosso ceticismo nativo nos salva de tentar novas definições. Mas o adorável aforismo de Carl Sandburg me vem à mente: “A poesia é um diário escrito por uma criatura marinha, que vive na terra e deseja voar”. Isso serve por enquanto?
Para Puszka, de Radom
Até o tédio deve ser descrito com paixão. Esta é uma lei de ferro da literatura, que não há como suplantar. Você deve começar a escrever um diário – recomendamos isso a todos os aspirantes a escritores. Em breve você verá quantas coisas acontecem mesmo nos dias em que nada parece estar acontecendo. Se você não encontrar nada digno de nota, nenhum pensamento, observação ou impressão, a conclusão será a seguinte: você ainda não é qualificada o suficiente. Experimente.
Merged review:
(...) Eu diria hoje que seu valor didático é mínimo, é praticamente apenas entretenimento." Diz a autora no fim deste livro, e eu não poderia discordar mais; não da segunda parte, é claro, a ironia e acidez amistosa o faz um livro extremamente divertido e cômico, mas da primeira: o valor didático, a singeleza, e a utilidade desse livro para quem vê prazer na leitura (e por osmose, também na escrita) é imensurável.
De 1960 a 1980, Szymborska escreveu uma coluna anônima para um jornal literário polonês chamado Zycie Literackie. A coluna intitulava-se Literary Mailbox e a ideia era que aspirantes a escritores enviassem seus trabalhos e recebessem conselhos úteis.
Para ela, era mais uma coluna, mais um trabalho, ela nem ao menos assinava com seu nome; ou seja, tudo que vemos nesse livro, todas as dicas e conselhos, foram escritos sem pretensão alguma, diferente de muitos outros livros que falam sobre o ato de escrever ou ler como se tivessem desvendado o (um) segredo universal. Foi até uma surpresa para ela que uma amiga se lembrasse dessa Coluna e sugerisse publicação.
Traduzi e reproduzerei no final da resenha algumas dessas respostas que ela deu a autores, para pegarem o gostinho da coisa; ela se repete apenas em algumas respostas, mas que, quando não são úteis são extremamente engraçadas. O importante é que peguem o tom, a partir daí a leitura flui que é uma beleza.
Ás vezes a autora é seria, outras vezes irônica, elogiosa e até dura. Mas há uma razão, ela quer desiludir os escritores; quando ela escreve uma resposta, ela se lembra dela própria, do banho de água fria que tomou de diversos editores, e do quão bom isso foi para ela no final das contas. Ela não é dura porquê estima demais a escrita no geral, Szymborska é dura com os aspirantes a escritores porque acha que eles se importam MUITO POUCO.
Seu conselhos são monumentalmente sensatos. Não seja um narcisista. Trabalhe (muito) mais. O melhor 'utensílio de escrita' é uma lixeira. A vida é curta, mas 'cada detalhe leva tempo'. Não seja utópico. Mantenha-se afastado do vazio o máximo que puder. Tudo isso é dito com outras palavras, mas mantendo sempre uma honestidade que pode ser confundida com dureza. Ela é como nossos pais, é áspera porquê quer que saibamos que o mundo (real ou editorial, da prosa ou da poesia, dos amores e amizades) é duro. Exemplo:
Para B. L. da Província de Wrocław
O medo de ser direito, os esforços constantes e meticulosos para metaforizar tudo, a necessidade incessante de provar que você é um poeta em cada linha: essas ansiedades afligem todo bardo iniciante. São curáveis, se percebidas a tempo. Seus poemas até agora se assemelham a traduções forçadas de discursos diretos em complicações desnecessárias. No momento, acredite em mim, uma única metáfora organicamente ligada ao conceito original do poema vale mais do que mil e quinhetos enfeites adicionados ex post. Por favor, envie-nos algo novo em alguns meses.
Eu acho que vai ser difícil achar um livro sobre a escrita que supere-o. E antes de prosseguir com as traduções que prometi, como não sou muito conceituado, deixo uma resenha muito boa deste mesmo livro feita nesse mês na Folha de São Paulo (eu nem sabia que tinha edição brasileira, o li em inglês, e acabei de descobrir tanto a resenha quanto a edição) e é reproduzido aqui também lgumas dessas entradas que apareceram na edição brasileira. Como eles são uma autoridade maior que eu, caso não tenham se convencido de ler até aqui, dê mais uma chance sobre a ótica de outra resenha mais profissional: https://outline.com/yHvYGc
Ele (o autor da resenha) tem uma visão um pouco diferente da minha — o título é um pouco clickbait — mas vale a pena ser lida. Ambos concordamos, ao menos, que esse é livro é extremamente necessário, e que não pode passar em branco. Como diz: é antisséptico.
COMO ESCREVER (E QUANDO PARAR) — Wislawa Szymborska — Entradas Iniciais da Edição Estadusunidense
Para P. Z. D., de Chorzów
“Por favor, me dê alguma esperança de publicação, ou pelo menos forneça algum consolo.” Devemos, depois de ler seus envios, escolher o último. Então atenção, por favor, estamos dando conforto. Um destino esplêndido espera por você, o destino de um leitor, e um leitor do mais alto calibre, ou seja, desinteressado pela escrita – o destino de um amante da literatura, que sempre será seu companheiro mais firme, o conquistado, não o conquistador. Você vai ler tudo pelo prazer de ler. Sem identificar “truques”, sem se perguntar se esta ou aquela passagem poderia ser melhor escrita, ou tão bem quanto, mas de uma forma diferente. Nenhuma inveja, nenhum desânimo, nenhum ataque de baço, nenhuma das sensações que acompanham o leitor que também escreve. Para você, Dante sempre será Dante, tenha ou não tias no ramo editorial. Você não será torturado à noite pela pergunta de por que X, que escreve versos livres, é publicado, enquanto você, que rima incansavelmente contando sílabas nas duas mãos, nem recebe respostas. As expressões faciais de um editor significarão menos do que nada para você, enquanto o estremecimento em vários estágios significará, se não nada, pelo menos não muito. E há também esse benefício não desprezível: as pessoas falam de escritores incompetentes, mas nunca de leitores incompetentes. É claro que existem hordas de leitores fracassados – desnecessário dizer que não incluímos você entre eles – mas de alguma forma eles se safam, enquanto qualquer um que escreva sem sucesso será instantaneamente inundado por piscadelas, elogios falsos e suspiros. Nem mesmo as namoradas e parentes são confiáveis nesses casos. Então, como você se sente agora? Como um rei? Esperamos que sim.
Para W. K. de Lublin
Suas observações até agora são de natureza puramente privada – elas dizem respeito a pessoas e lugares esboçados de uma maneira tão nebulosa e desconexa que não conseguem de maneira alguma chamar a atenção do leitor. Aliás, não entendemos por que você fala de sua mania de escrever como se fosse uma doença vergonhosa da qual você deve ser curado imediatamente. Não há nada remotamente anormal em querer escrever sobre seus pensamentos e experiências. Pelo contrário — isso revela sua cultura literária pessoal. O que é obrigatório não só para os autores, mas para as pessoas educadas em geral. Quando lemos versões publicadas de memórias e cartas entre estas pessoas, ficamos maravilhados com a forma literária dessas auto-revelações – compostas diversas vezes por indivíduos que além de não serem escritores, não tinham qualquer inspiração a se tornar... Hoje em dia, porém, assim que alguém escreve algumas palavras, começa a pesar seu valor, é obcecado pelos pensamentos de publicação, questiona-se se o tempo foi bem gasto... É uma pena que cada frase formulada mais ou menos graciosamente deva instantaneamente valer alguma coisa. E se a recompensa vier apenas dez ou vinte anos depois? E se essa frase bem trabalhada nunca colher dividendos em nenhum sentido público, mas apoiar, sustentar o escritor nas horas sombrias e enriquecer sua vida? Isso não tem valor?
Para Eug. Ł. de Inowrocław
A mesma velha reclamação sobre a “juventude”. Desta vez, devemos perdoar o autor, pois, segundo ele, ainda não foi a lugar nenhum, experimentou algo digno de menção ou leu tudo o que deveria ler. Tais confissões traem a crença (adolescente, portanto um pouco simplista) de que apenas as circunstâncias externas fazem o escritor. Que sua qualidade criativa deriva da quantidade de aventuras de sua vida. De fato, o escritor se desenvolve internamente, dentro de seu próprio coração e mente: através de uma propensão inata para o pensamento, sensibilidade aguda para assuntos menores, espanto com o que os outros vêem como comum. Viagens para o exterior? Esperamos sinceramente que você as aceite, eles às vezes são úteis. Mas antes de partir para Capri, sugerimos uma viagem para o interior. Se você voltar sem nada para escrever, nenhuma Azure Grotto o salvará.
Para Ewa, de Bytom
Quem sabe, talvez os poderes poéticos estejam adormecidos nas profundezas de sua alma. O fato é que eles ainda não vieram à tona. Você os impede com pilhas de metáforas desajeitadas, e tão empilhadas uma sob as outras que o mundo além delas desaparece de vista. Ser “poético” é o pecado reinante dos poetas iniciantes. Eles temem frases simples, dificultam as coisas para si e para os outros. Um em cada dez supera essa fase e se torna um bom poeta; cinco parara de escrever completamente; um muda para a prosa (com melhores resultados, esperamos); enquanto outros quatro se contorcem em poemas cada vez mais impenetráveis. Olhando para trás, vemos que nossos dez de repente se tornaram onze. Um poeta nasce a cada minuto.
Para Ula, de Sopot
Defina poesia em uma frase – por favor. Conhecemos pelo menos quinhentas dessas definições de várias fontes diferentes, nenhuma das quais nos parece abrangente e agradavelmente precisa. Cada um expressa o gosto de sua própria época. Nosso ceticismo nativo nos salva de tentar novas definições. Mas o adorável aforismo de Carl Sandburg me vem à mente: “A poesia é um diário escrito por uma criatura marinha, que vive na terra e deseja voar”. Isso serve por enquanto?
Para Puszka, de Radom
Até o tédio deve ser descrito com paixão. Esta é uma lei de ferro da literatura, que não há como suplantar. Você deve começar a escrever um diário – recomendamos isso a todos os aspirantes a escritores. Em breve você verá quantas coisas acontecem mesmo nos dias em que nada parece estar acontecendo. Se você não encontrar nada digno de nota, nenhum pensamento, observação ou impressão, a conclusão será a seguinte: você ainda não é qualificada o suficiente. Experimente.