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rolandosmedeiros 's review for:

Northern Lights by Philip Pullman
3.0

Bingo de Ficção Especulativa do Reddit 2024~2025
First in a Series: Read the first book in a series 2/2
[Modo Fácil: Série de 3 livros ou menos]

Peguei isso aqui para ler porque assisti a série da HBO e gostei bastante. Queria compará-la com a fonte original, e de quebra podia encaixar aqui.

E cara... comparando com a fama das adaptações de fantasia recentes (The Wheel of Time, Witcher e LoTR), isso aqui foi um salto, no Oscar das adaptações para a televisão essa daqui merecia um prêmio. Parabéns HBO. Desde a seleção dos atores até a adaptação da narrativa e de seus temas mais espinhosos. A partir de agora sempre que eu pensar em alguma cena aqui, as duas mídias vão se misturar na minha cabeça a ponto de eu não saber mais qual é qual: e isso é bom.

Por conta de já ter assistido o desenrolar da narrativa na série, eu já peguei desde o princípio a temática, e também já conhecia a fama d'A Bússola de Ouro. Então não foi uma leitura virgem. Mas diversas cenas me pegaram mesmo assim, e foi gostoso, e sobretudo rápido, de ler [que era o que eu precisava nos últimos tempos]. Principalmente as cenas com o Asriel, que deve ser um dos pais mais pau no cu da literatura infantojuvenil: depois da filha cruzar o mundo, ir até os confins do Polo Norte pra ajudar a libertá-lo de uma prisão, ele manda essa:

"I'll tell you if you tell me something,” she said. “You’re my father, en’t you?”
“Yes. So what?”


E ainda tem uma cena que prevê aquele meme, "Game Over, você foi enviado para o Brasil", no caso do mundo do livro, Alto Brasil:

"And even if she got to the coast on her own, she might tow away on the wrong ship. It would be a fine thing to hidein a lifeboat and wake up on the way to High Brazil"


E o que ele o Lorde Asriel faz no final do livro... bem, basta dizer que isso aqui deve ter sido o YA que mais gostei de ter lido justamente porque ele não subestima a inteligência do leitor, seja nos solavancos que dá na narrativa, nos tiros (em sentido figurado... [talvez]) que dá nas personagens, e nos temas que resolve abordar.

O ponto que todo mundo sabe é que o livro, dizem, foi escrito para ser um anti-Nárnia, com críticas explícitas à religião. E eu que me considero... não sei, crente em alguma coisa, talvez numa bola de energia com barba branca, e que definitivamente não sou ateu, não vi tanto disso não. Há críticas explícitas mas mais à instituição Igreja do que à religião, seja qual for, isso sim. Mas antes disso, há de entrar na construção de mundo que é maluca, e eu não sei como funciona. Mas funciona.

É um misto de história alternativa [que vai fazer sentido no final do livro] que salpica aqui e ali fantasia, trama política, steampunk e até um pouco de ficção científica. A trama se passa na Inglaterra, mas há aqui daemons -animais falantes que fazem par com cada ser humano e representam a alma ou o animal espiritual - fantasmas, bruxas, uma raça de ursos gigantes falantes e guerreiros; nesse mundo viaja-se de botes e zeppelins, existem objetos que medem e apontam para a verdade, a produção de energia atômica e com base em urânio se tornara comum, e uma partícula recém-descoberta chamada "Pó" está causando alvoroço naquele mundo dominado pela Igreja. Só pra se ter uma ideia do mundo, a física aqui é chamada de "Telogia Experimental"; e a universidade da Lyra gasta dinheiro em "aparatos filosóficos". Ela mesma não compreende tudo, e chuta que teologia experimental tenha a ver com "movimento das esferas, mágica, e pequenas partículas de matéria". Você vai ver também, de quando em quando, ao longo do livro, nomes como Nova França, Lapônia, Moscóvia, Tártaros...

A prosa é ok, a sequência narrativa é frenética. A protagonista é Lyra, uma menina deixada pelo tio em Oxford, na Universidade Jordan, para ser criada lá. O livro já abre na tensão política, numa tentativa de envenenamento, e a menina metida no meio disso. Já pula para sequestros, e a investigação da menina pelo único amigo que tinha na universidade ter sido sequestrado. Está acontecendo, no Continente, diversos sequestros de crianças, e segundo algumas pessoas, estes sequestros estão tendo apoio da polícia do continente e da Igreja. Pensam ter algo a ver com pesquisas - pensando nisso, lembra um pouco a teoria da conspiração do Adrenocromo -, utilizando as crianças como cobaias [e mais tarde se descobre, a relação delas com o pó].

A Lyra é uma anti-heroína, e divide opiniões. Mas eu até que gostei do jeito dela. E a questão principal do livro, até o final que escangalha tudo, é sobre o que é o tal pó. Dá a entender que tudo que a Igreja faz é por uma má interpretação do que é o pó de verdade. Mais objetivamente parece, naquele mundo, a energia que liga corpo e alma. A discussão é sobre o que aquilo simboliza: é a fé, é o próprio "Deus", é o pecado?

O livro termina em aberto, engatilhando o segundo, com a Lyra e o Asriel indo atrás da resposta.
E eu, que já me perdi no que eu ia escrever, lembro de ter anotado isso aqui: é sério que chamam esse livro de anti-religião, quando, na reta final, é isso aqui que sai da boca do Asriel?

"Naturally he’d say that. But think of Adam and Eve like an imaginary number, like the square root of minus one: you can never see any concrete proof that it exists, but if you include it in your equations, you can calculate all manner of things that couldn’t be imagined without it."


Ps. não que eu ache que o livro precise desse tanto de teísmo ou desse tanto de ateísmo para validá-lo, mas bato nessa tecla só pra ilustrar que eu acho que chamar de "livro ateu pra crianças e adolescentes", é limitá-lo, e muito. Principalmente um livro que abre e parece se inspirar no Paraíso Perdido, de onde o Pullman extrai muita coisa, à maneira dele, para fazer essa excêntrica e interessante construção de mundo funcionar.