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rolandosmedeiros
Em trinta e tantas páginas, com uma ambientação densa, opressiva e evocadora de sensações como apreensão, medo e frio, o Jack London faz uma ótima história de terror. Terror natural, sem precisar de fantasmas ou seres inomináveis. O frio mortal que o protagonista — e o cãozinho que o acompanha — enfrenta já é adversário o suficiente.
Adversário, digo, do ponto de vista do protagonista. As planícies do Yukon são e serão as planícies do Yukon. Se há algum enfrentamento, vem por parte do homem.
As longas e evocativas descrições daquele ambiente tocou especialmente em mim (carioca que nunca sentiu frio de verdade); a prosa densa é contrabalanceada por um arranjo de ações relativamente simples, mas que ainda te mantêm lendo tanto pela descrição como pela necessidade de saber o que vai acontecer com o homem e o cão.
A narrativa trata de um homem sem nome que decide contra o conselho de mais sábios (estava atrasado no encontro anual com amigos) e contra a palpitação da sua própria fisiologia, vagar pelas planícies absurdamente frias do Yukon no auge do inverno. Um homem que acredita na inteligência humana acima de tudo, que não se importa com significados ou significações profundas, "nada de metafísica", como diz o texto.
Observamos as reflexões do homem, captamos as percepções do cão; sentimos fome e frio à medida que avançamos junto deles através do gelo, compreendemos a imensidão do Mar Branco que é o Alasca, e a fragilidade da condição humana perante a natureza; e, também, a sabedoria natural do c cão contrastada com a arrogância do homem.
Formalmente simples e bem feito, acho que dá para chamar de clássico. É, no mínimo, exemplo quintessencial da "literatura/gênero de sobrevivência". Li outras narrativas do London e aqui também ficou evidente a habilidade dele de fazer imagens claras, quase que como um filme mesmo, só com o uso do narrador, e também o potencial de criar ambientações e cenários densos que são muito além de ser apenas plano de fundo para as histórias.
É uma das minhas cinco estrelas afetivas. Foi um dos primeiros contos que li, e daqueles que me fez gostar e enxergar o potencial da literatura. Lembro até do lugar de onde o li. Num dia frio, tomando um café, em uma casa que não fiquei nem três meses mas que dela me ficaram essa e outras memórias. Sabe como é... a vida moderna de nômade.
Adversário, digo, do ponto de vista do protagonista. As planícies do Yukon são e serão as planícies do Yukon. Se há algum enfrentamento, vem por parte do homem.
As longas e evocativas descrições daquele ambiente tocou especialmente em mim (carioca que nunca sentiu frio de verdade); a prosa densa é contrabalanceada por um arranjo de ações relativamente simples, mas que ainda te mantêm lendo tanto pela descrição como pela necessidade de saber o que vai acontecer com o homem e o cão.
''O problema dele era a falta de imaginação. Era esperto e estava atento às coisas da vida, mas apenas às coisas e não ao significado delas. Cinquenta graus negativos significavam oitenta e tal graus de congelação. Tal facto, para ele, significava frio e desconforto, e apenas isso. Não o levava a meditar sobre a sua fragilidade como criatura de temperatura que era, ou sobre a fragilidade do homem em geral, apenas capaz de viver dentro de certos limites muito estreitos de calor e frio; e não o levava, daí para a frente, para o campo das conjecturas sobre a imortalidade e sobre o lugar do homem no universo. Cinquenta graus negativos representavam uma picada do frio, que faz doer e de que a gente se deve resguardar usando luvas, lobos de orelha, botas quentes de pele e meias grossas. Cinquenta graus negativos, para ele, eram apenas e só cinquenta graus negativos. Nunca lhe passara pela cabeça que pudessem ser mais alguma coisa.''
A narrativa trata de um homem sem nome que decide contra o conselho de mais sábios (estava atrasado no encontro anual com amigos) e contra a palpitação da sua própria fisiologia, vagar pelas planícies absurdamente frias do Yukon no auge do inverno. Um homem que acredita na inteligência humana acima de tudo, que não se importa com significados ou significações profundas, "nada de metafísica", como diz o texto.
Observamos as reflexões do homem, captamos as percepções do cão; sentimos fome e frio à medida que avançamos junto deles através do gelo, compreendemos a imensidão do Mar Branco que é o Alasca, e a fragilidade da condição humana perante a natureza; e, também, a sabedoria natural do c cão contrastada com a arrogância do homem.
Formalmente simples e bem feito, acho que dá para chamar de clássico. É, no mínimo, exemplo quintessencial da "literatura/gênero de sobrevivência". Li outras narrativas do London e aqui também ficou evidente a habilidade dele de fazer imagens claras, quase que como um filme mesmo, só com o uso do narrador, e também o potencial de criar ambientações e cenários densos que são muito além de ser apenas plano de fundo para as histórias.
É uma das minhas cinco estrelas afetivas. Foi um dos primeiros contos que li, e daqueles que me fez gostar e enxergar o potencial da literatura. Lembro até do lugar de onde o li. Num dia frio, tomando um café, em uma casa que não fiquei nem três meses mas que dela me ficaram essa e outras memórias. Sabe como é... a vida moderna de nômade.
''Subitamente o gelo quebrou e o cão debateu-se por momentos, desequilibrado para um dos lados, mas depois conseguiu sair para piso mais firme. Tinha molhado as patas e pernas da frente, e quase imediatamente a água que ficara agarrada ao pelo transformou-se em gelo. Fez rápidos esforços para o remover lambendo as pernas e depois sentou-se na neve começando a morder o gelo que se tinha formado entre os dedos para o tirar também. Fez isto apenas por instinto. Deixar ficar o gelo significaria pés em ferida e ele não sabia isso. Apenas obedeceu à misteriosa indicação vinda das profundezas ocultas do seu ser.''
Koolau, o Leproso — 15pp
Um exército revolucionário de Leprosos
Já li o London outras vezes — adoro o To Build a Fire —, e não lembro como cheguei a este conto. A este bom conto, por sinal. Ritmo frenético, ação, violência, e imagens claríssimas, muito visuais: quase se ouve o som das rajadas de metralhadora do Koolau ou dos bombardeios americanos à ilha os leprosos.
É, antes de tudo, uma ficção histórica (ficção, galera, ficção!)*. Koolau é um havaiano, que como muitos outros com quem convive, contraiu a lepra por conta do fluxo de pessoas devido à dominação e abertura das ilhas. O governo, vendo o número de aflitos só crescendo e sem muita certeza de como a doença se transmite ou se cura, abre um decreto que todos os leprosos devem ser enviados para Malokai — uma ilha-prisão.
O conto abre com um discurso de Koolau para outros leprosos justamente contra isso. Dá a entender que já passou algum tempo desde a decisão do governo, e Koolau e os poucos que conseguiu juntar e fugir para a Ilha de Kalalau já estão cansados, só querem viver o final de suas vezes como seres-humanos, amando, desejando, se divertindo, mesmo deformados pela doença (a quote inicial vem daí). O narrador até usa o termo "criaturas", a dado momento.
Isso, é claro, vira um problema para o governo. Eles enviam frequentemente pequenas patrulhas para a Ilha, mas Koolau domina o terreno do lugar, repetidamente rechaça ou mata-os. E isso começa a pesar para o governo: um bando de leprosos, deformados, vencendo-nos de novo e de novo?, não pode! Decidem, finalmente, mandar um pequeno exército para tomar a ilha, com morteiros e tudo.
Daí desenvolvem-se as melhores partes do conto: a última dança/festa dos Leprosos; a preparação para a chegada do exército; a carnificina completa na ilha, cenas dignas do melhor do cinema de ação/guerra; sobretudo a cena de Koolau protegendo a única ponte que dá acesso à parte de cima da Ilha. A caracterização da ilha, aliás, é muito boa. Há bombardeios, trocas de tiro em passagens estreitas, emboscadas na floresta, armadilhas… É o cinema de ação atomizado em quinze páginas.
Descrições muito boas — no meio da troca de tiro, Koolau sente o cheiro de carne queimada, e só então percebe que é a própria carne dele queimando sob a metralhadora —, do tipo
E se você acha que a narrativa acabará com algum tipo de moral — como nos filmecos —, você se engana. O conto sofre uma virada, e da destruição patente (buracos, deslizamentos, corpos despedaçados, bombas zunindo, "traição") o que fica são várias reflexões sobre liberdade interrompida; raiva, violência e revolta que une e que isola; o orgulho da liberdade e o encaminhamento para um fim solitário, trágico.
Eu cada vez mais gosto do London.
[[A tradução para o espanhol é do Luis López Nieves e está disponível na internet, btw]]
~ ~ ~
[*A narrativa é de 1900s. Enfatizei ficção histórica porque bati o olho numa análise gigantesca de um descendente (se não me engano) de Havaianos que fez praticamente uma tese de umas sessenta páginas de como o London mentiu e inventou e coisa e tal. Mas é claro, meu amigo, é ficção! Queria o quê?
Há realmente problemas de representação (o narrador utiliza algumas palavras estranhas quanto aos chineses), mas não está na narrativa de todo. Não importa que o nome dos lugares sejam reais, que a própria história seja BASEADA em um evento histórico real. Ele inventou um monte em cima, há narrador, há personagens, há uma finalidade estética. Até o uso da palavra "criaturas" para os leprosos tem um sentido, a desumanização deles reflete a desumanização que o próprio exército e governo fez deles. O narrador em terceira pessoa, na minha leitura, está imerso no fogo cruzado, ponto esse que é central no conto.]
Um exército revolucionário de Leprosos
"Era aquélla la danza de los muertos vivos, porque la vida seguía amando y anhelando en sus cuerpos en desintegración."
Já li o London outras vezes — adoro o To Build a Fire —, e não lembro como cheguei a este conto. A este bom conto, por sinal. Ritmo frenético, ação, violência, e imagens claríssimas, muito visuais: quase se ouve o som das rajadas de metralhadora do Koolau ou dos bombardeios americanos à ilha os leprosos.
É, antes de tudo, uma ficção histórica (ficção, galera, ficção!)*. Koolau é um havaiano, que como muitos outros com quem convive, contraiu a lepra por conta do fluxo de pessoas devido à dominação e abertura das ilhas. O governo, vendo o número de aflitos só crescendo e sem muita certeza de como a doença se transmite ou se cura, abre um decreto que todos os leprosos devem ser enviados para Malokai — uma ilha-prisão.
O conto abre com um discurso de Koolau para outros leprosos justamente contra isso. Dá a entender que já passou algum tempo desde a decisão do governo, e Koolau e os poucos que conseguiu juntar e fugir para a Ilha de Kalalau já estão cansados, só querem viver o final de suas vezes como seres-humanos, amando, desejando, se divertindo, mesmo deformados pela doença (a quote inicial vem daí). O narrador até usa o termo "criaturas", a dado momento.
" — Nos privan de la libertad porque estamos enfermos. Hemos acatado la ley. No hemos hecho nada malo. Y, sin embargo, nos encierran en una prisión. Molokai es una cárcel. Vosotros lo sabéis. Ahí tenéis a Niuli. Mandaron a su hermana a Molokai hace siete años. Desde entonces no ha vuelto a verla ni volverá a verla jamás."
Isso, é claro, vira um problema para o governo. Eles enviam frequentemente pequenas patrulhas para a Ilha, mas Koolau domina o terreno do lugar, repetidamente rechaça ou mata-os. E isso começa a pesar para o governo: um bando de leprosos, deformados, vencendo-nos de novo e de novo?, não pode! Decidem, finalmente, mandar um pequeno exército para tomar a ilha, com morteiros e tudo.
Daí desenvolvem-se as melhores partes do conto: a última dança/festa dos Leprosos; a preparação para a chegada do exército; a carnificina completa na ilha, cenas dignas do melhor do cinema de ação/guerra; sobretudo a cena de Koolau protegendo a única ponte que dá acesso à parte de cima da Ilha. A caracterização da ilha, aliás, é muito boa. Há bombardeios, trocas de tiro em passagens estreitas, emboscadas na floresta, armadilhas… É o cinema de ação atomizado em quinze páginas.
Descrições muito boas — no meio da troca de tiro, Koolau sente o cheiro de carne queimada, e só então percebe que é a própria carne dele queimando sob a metralhadora —, do tipo
"Mientras Koolau seguía disparando sobre ellos, llegó a su olfato un olor a carne chamuscada. Miró en torno suyo, y al poco descubrió que procedía de sus propias manos. Era el calor del rifle. La lepra había destruido la mayor parte de los nervios de sus extremidades y aunque su propia carne se abrasaba y él sentía el olor, no experimentaba la menor sensación"
E se você acha que a narrativa acabará com algum tipo de moral — como nos filmecos —, você se engana. O conto sofre uma virada, e da destruição patente (buracos, deslizamentos, corpos despedaçados, bombas zunindo, "traição") o que fica são várias reflexões sobre liberdade interrompida; raiva, violência e revolta que une e que isola; o orgulho da liberdade e o encaminhamento para um fim solitário, trágico.
Eu cada vez mais gosto do London.
[[A tradução para o espanhol é do Luis López Nieves e está disponível na internet, btw]]
~ ~ ~
[*A narrativa é de 1900s. Enfatizei ficção histórica porque bati o olho numa análise gigantesca de um descendente (se não me engano) de Havaianos que fez praticamente uma tese de umas sessenta páginas de como o London mentiu e inventou e coisa e tal. Mas é claro, meu amigo, é ficção! Queria o quê?
Há realmente problemas de representação (o narrador utiliza algumas palavras estranhas quanto aos chineses), mas não está na narrativa de todo. Não importa que o nome dos lugares sejam reais, que a própria história seja BASEADA em um evento histórico real. Ele inventou um monte em cima, há narrador, há personagens, há uma finalidade estética. Até o uso da palavra "criaturas" para os leprosos tem um sentido, a desumanização deles reflete a desumanização que o próprio exército e governo fez deles. O narrador em terceira pessoa, na minha leitura, está imerso no fogo cruzado, ponto esse que é central no conto.]
Relido em 2022 — 3.5*
Comentário breve: talvez esse tenha sido o conto do Poe com a temática e mote mais interessante que li: um hipnotista, que tem por objetivo, mesmerizar um homem que está prestes a morrer, e sanar sua curiosidade acerca das consequências e efeitos que essa hipnose…? esse animal magnetism…? teria em um momento delicado como o expirar da vida.
O que mais quer, nosso protagonista, é sobretudo descobrir "em que medida, ou por qual duração de tempo, os avanços da Morte podiam ser detidos (por esse) processo."
Encadeia-se aí, uma sequência interessantíssima, mórbida, misteriosa, muito bem escrita, que por vezes soa quase como um exemplo de como "descrever (BEM!) o indescritível".
Ao contrário, por exemplo, das descrições densas e exageradas do Lovecraft (que eu gosto, mas, com ressalvas), o Poe aqui é límpido, e não apenas pela cientificidade com que reveste o conto, pois não evita pesar a mão nas descrições do estado do paciente; ele é límpido, no sentido de que, cria uma atmosfera naturalmente, a partir do tema inicial; sem recorrer à adjetivos ou à um horror demasiadamente sugestivo.
O Poe, aqui, é sucinto e quase tão mesmerizador quanto o narrador-protagonista. A narrativa, porém, não é tão bem bolada feito alguns outros de seus contos que tive o prazer de ler (Berenice, William Wilson e Barril de Amontilado permanecem meus favoritos). O desenvolvimento é muito bom, talvez a melhor parte do conto, mas o desfecho é estranhamento decepcionante, no sentido de que: o que o Poe viu como climax, conclusão, é uma cena que suscita lá algumas coisas, é imagem interessante, mas fraca. É um conto no geral, competente, acima da média.
Há, no entanto, alguns problemas. Por alto, as perguntas feitas pelo protagonista, o médico e os assistentes, ao moribundo-mesmerizado são rasas e improváveis dada a situação que se encontram; o relato é escrito como uma "desmentira" de outros relatos exagerados que andam correndo sobre esse evento, a pergunta que fica é, como pode ter sido MAIS exagerado que o que vemos transcorrer através do próprio participante?; (esse aqui eu assumo, pode ser falta de imaginação minha), mas é extremamente difícil seguir o texto e formar as cenas e imagens de quando o moribundo-morto começa a falar, a construção é estranha (como deve de fato ser), mas a ponto de atrapalhar um pouco a imersão; e por fim, o último e para mim o maior problema do conto como conto ficcional: a tentativa do Poe em dar uma verossimilhança não Aristotélica-Poética, mas sim uma verossimilhança de “Relato-Factual".
Como disse antes, a história é contada por um narrador-protagonista, que censura tanto seu nome quanto dos outros participantes; segue-se assim até o fim, e não há problemas quanto à forma. No entanto, quando a história aproxima-se do clímax, há uma intromissão, realizada para manter esse caráter "realista" da narrativa, que interrompe abruptamente o fluxo narrativo — logo em uma das melhores partes, onde o clima soturno está em ascensão, e você já está imerso no conto. Ao meu ver, é uma inserção totalmente desnecessária: O narrador-personagem fala de "choque", de "incredulidade" e até de "narrativa"; não deixando que a coisa flua e aconteça por si só, ou que o choque e a incredulidade também façam-se por si; purgando toda aquela limpidez elogiável do inicio do desenvolvimento que citei antes.
Na minha opinião, não precisava disso. Bastava que, no início, o Poe fizesse as suas artimanhas e peripécias (li, por alto, que esse conto foi lido na época como um evento que realmente aconteceu), e seguisse, a partir da abertura, a forma de um conto ficcional normal. O próprio Laclos, nas Liaisons Dangeresues que li recentemente, faz o mesmo ao suscitar a dúvida de que seu romance são cartas encontradas, e mesmo num romance de quinhentas páginas, não há NENHUMA intromissão problemática desse tipo, que quebre o fluxo narrativo, o que ocorre aqui, nesse conto BEM mais curto.
Enfim, é claro, não é isso o que se sobressaí nessa história, é apenas o ponto que me incomodou. De resto, é um bom conto, não dos melhores do autor, mas um bom conto.
Comentário breve: talvez esse tenha sido o conto do Poe com a temática e mote mais interessante que li: um hipnotista, que tem por objetivo, mesmerizar um homem que está prestes a morrer, e sanar sua curiosidade acerca das consequências e efeitos que essa hipnose…? esse animal magnetism…? teria em um momento delicado como o expirar da vida.
O que mais quer, nosso protagonista, é sobretudo descobrir "em que medida, ou por qual duração de tempo, os avanços da Morte podiam ser detidos (por esse) processo."
Encadeia-se aí, uma sequência interessantíssima, mórbida, misteriosa, muito bem escrita, que por vezes soa quase como um exemplo de como "descrever (BEM!) o indescritível".
Ao contrário, por exemplo, das descrições densas e exageradas do Lovecraft (que eu gosto, mas, com ressalvas), o Poe aqui é límpido, e não apenas pela cientificidade com que reveste o conto, pois não evita pesar a mão nas descrições do estado do paciente; ele é límpido, no sentido de que, cria uma atmosfera naturalmente, a partir do tema inicial; sem recorrer à adjetivos ou à um horror demasiadamente sugestivo.
O Poe, aqui, é sucinto e quase tão mesmerizador quanto o narrador-protagonista. A narrativa, porém, não é tão bem bolada feito alguns outros de seus contos que tive o prazer de ler (Berenice, William Wilson e Barril de Amontilado permanecem meus favoritos). O desenvolvimento é muito bom, talvez a melhor parte do conto, mas o desfecho é estranhamento decepcionante, no sentido de que: o que o Poe viu como climax, conclusão, é uma cena que suscita lá algumas coisas, é imagem interessante, mas fraca. É um conto no geral, competente, acima da média.
Há, no entanto, alguns problemas. Por alto, as perguntas feitas pelo protagonista, o médico e os assistentes, ao moribundo-mesmerizado são rasas e improváveis dada a situação que se encontram; o relato é escrito como uma "desmentira" de outros relatos exagerados que andam correndo sobre esse evento, a pergunta que fica é, como pode ter sido MAIS exagerado que o que vemos transcorrer através do próprio participante?; (esse aqui eu assumo, pode ser falta de imaginação minha), mas é extremamente difícil seguir o texto e formar as cenas e imagens de quando o moribundo-morto começa a falar, a construção é estranha (como deve de fato ser), mas a ponto de atrapalhar um pouco a imersão; e por fim, o último e para mim o maior problema do conto como conto ficcional: a tentativa do Poe em dar uma verossimilhança não Aristotélica-Poética, mas sim uma verossimilhança de “Relato-Factual".
Como disse antes, a história é contada por um narrador-protagonista, que censura tanto seu nome quanto dos outros participantes; segue-se assim até o fim, e não há problemas quanto à forma. No entanto, quando a história aproxima-se do clímax, há uma intromissão, realizada para manter esse caráter "realista" da narrativa, que interrompe abruptamente o fluxo narrativo — logo em uma das melhores partes, onde o clima soturno está em ascensão, e você já está imerso no conto. Ao meu ver, é uma inserção totalmente desnecessária: O narrador-personagem fala de "choque", de "incredulidade" e até de "narrativa"; não deixando que a coisa flua e aconteça por si só, ou que o choque e a incredulidade também façam-se por si; purgando toda aquela limpidez elogiável do inicio do desenvolvimento que citei antes.
Na minha opinião, não precisava disso. Bastava que, no início, o Poe fizesse as suas artimanhas e peripécias (li, por alto, que esse conto foi lido na época como um evento que realmente aconteceu), e seguisse, a partir da abertura, a forma de um conto ficcional normal. O próprio Laclos, nas Liaisons Dangeresues que li recentemente, faz o mesmo ao suscitar a dúvida de que seu romance são cartas encontradas, e mesmo num romance de quinhentas páginas, não há NENHUMA intromissão problemática desse tipo, que quebre o fluxo narrativo, o que ocorre aqui, nesse conto BEM mais curto.
Enfim, é claro, não é isso o que se sobressaí nessa história, é apenas o ponto que me incomodou. De resto, é um bom conto, não dos melhores do autor, mas um bom conto.
Dolorosamente Real
[Painfully Real]
A adaptação deste livro tem potencial para se tornar um dos melhores filmes da década 2020s. The Killers of the Flower Moon, com direção e roteiro do Scorcese, estreará em outubro. O episódio da história americana (re)contado pelo David Grann no livro já é surpreendente por si só, e o famoso diretor terá pouco a acrescentar em termos de pesquisa e reviravoltas narrativas. Preparem-se, sobretudo, para um gigantesco "BASEADO EM FATOS REAIS", que deveria ecoar a cada "não pode ser" proferido pelo leitor/espectador; pois, sim, aquilo aconteceu: mais um hediondo crime — quiça princípio de genocídio — cometido pelos Estados Unidos contra nativos da América.
David Grann fez um trabalho muito interessante em retratar essa história em uma sequência narrativa, sempre embasado em algum documento, perscrutando por todo tipo de arquivo (*fiz questão de colocar o metódo dele no final da resenha). Scorsese precisará apenas fazer sua mágica; a adaptação pede uma “romantização das minúcias”, aplicada no que é uma seca prosa de não-ficção baseada em arquivos. Será "o diabo nos detalhes": capturar a essência da tribo Osage e sua religião, o movimento da cidade, as minúcias das pessoas em seus espaços privados, e as pistas em cada olhar ou descula. Pelo trailer, me parece que ele ainda tentará passar um tom de suspeita geral, da perspectiva dos Osages para com todos os brancos, suscitada em algum momento do livro mas não explorada. A pesquisa já está feita, a narrativa está ali à disposição do diretor, falta apenas a criação do espetáculo, da atuação e da representação visual — o seu olhar para aqueles fatos.
Ponho minha mão no fogo que a história contada pelo David Grann, originalmente em três partes, com suas luzes e sombras (a parte subsequente jogando alguma luz na anterior), será unida pelo Scorsese em uma linha única. No livro, o que fica suspenso na primeira parte e a gente descobre só na segunda, provavelmente no filme será apresentado em sequência contínua, eliminando completamente, talvez, a terceira parte, na qual o autor aparece com sua voz própria de pesquisador e escritor. O que é, no entanto, revelado na terceira, a grande conspiração, talvez seja unido às outras duas. As três horas de duração me são uma forte pista para tal assunção.
Indo para um outro aspecto, esse é um daqueles casos em que conhecer as minúcias da história de antemão pode prejudicar a apreciação artística dessa tragédia real, desenrolada como uma narrativa. Se eu soubesse mais sobre esse episódio sujo da história dos Estados Unidos, provavelmente teria gostado menos do livro, é bem verdade, mesmo com a crueza com que o hábil jornalista conta a história. Portanto, se você está curioso para ler o livro primeiro, eu aconselho que faça o inverso. Aguarde o filme. Inclusive, o filme tem muito potencial para superar o livro — justamente pela aproximação e romantização. Deixe o livro para depois.
A história trata d’os Osages, uma importante tribo indígena da América do Norte, que a partir do início do Século XIX foram gradualmente forçados a ir cedendo terreno e abrir mão de sua terra para os Estados Unidos, "O chefe osage declarou que seu povo “não teve escolha: deviam assinar o tratado ou ser declarados inimigos dos Estados Unidos", como resultado, perderam mais de cinquenta mil quilômetros de terra. Foram, ainda, movidos para o Kansas; passando algum tempo, são mais uma vez de lá retirados e agora movidos para as “Terras Indígenas”, atual Oklahoma, onde se estabelecem "de vez", em quatro cidades-postos: Pawhuska, Hominy, Fairfax, e Gray Horse.
No início do século XX, já nessas terras quaisquer, uma reserva considerada sem valor, uma perfuração da terra, para a surpresa de todos, cospe uma cascata de ouro — ouro negro. Descobriu-se petróleo na nova reserva Osage. Inteligentemente, alguns anos antes, um dos líderes Osages, havia feito um acordo de que tudo encontrado na nova terra, seria pertencente a Nação Osage, e assim toda a tribo passou a cobrar e receber pelos poços perfurados e pelos barris que enchiam na foz do petróleo que não parava de jorrar. Essa terra, propriedade da tribo, fez, a partir do lucro que indústria petrolífera lhes proporcionava, todos os Osages ricos. Ricaços. E a história se espalhou por todo o país por meio de diversos jornais, num misto de preconceitos e exageros típicos dos jornais.
Numa ironia do destino, retomando o bonito prólogo e implicando no título da obra: "Em maio, quando os coiotes uivam sob uma lua enorme, plantas maiores, como o coração-roxo e a margarida-amarela, começam a despontar entre as menores, roubando-lhes luz e água. Os talos das flores se quebram, as pétalas saem flutuando pelos ares e em pouco tempo jazem sepultadas sob a terra. É por isso que os osages dizem que maio é o mês da lua que mata as flores". Nesse simbólico mês de maio, dois Osages — contemplados na lista de beneficiários do lucro do Petróleo — são encontrados mortos, num curto espaço de tempo.
Mortes violentíssimas. E daí, meu amigo, é ladeira abaixo. É se vertiginar e boquiabrir-se todo o tempo. É bang-bang de faroeste, mortes violentas, mortes por envenenamento, mortes por explosão; detetives privados e federais, prefeitos, xerifes, corruptos e não-corruptos; tramoias gigantescas, traição em todos os aspectos, maldade generalizada, e uma conspiração muito maior do que aquela que fora se desvelando inicialmente. O novelo da tramoia se estende por quilômetros.
Killers of the Flower Moon — ✲ 4.0/5.0
365pp
[Painfully Real]
A adaptação deste livro tem potencial para se tornar um dos melhores filmes da década 2020s. The Killers of the Flower Moon, com direção e roteiro do Scorcese, estreará em outubro. O episódio da história americana (re)contado pelo David Grann no livro já é surpreendente por si só, e o famoso diretor terá pouco a acrescentar em termos de pesquisa e reviravoltas narrativas. Preparem-se, sobretudo, para um gigantesco "BASEADO EM FATOS REAIS", que deveria ecoar a cada "não pode ser" proferido pelo leitor/espectador; pois, sim, aquilo aconteceu: mais um hediondo crime — quiça princípio de genocídio — cometido pelos Estados Unidos contra nativos da América.
David Grann fez um trabalho muito interessante em retratar essa história em uma sequência narrativa, sempre embasado em algum documento, perscrutando por todo tipo de arquivo (*fiz questão de colocar o metódo dele no final da resenha). Scorsese precisará apenas fazer sua mágica; a adaptação pede uma “romantização das minúcias”, aplicada no que é uma seca prosa de não-ficção baseada em arquivos. Será "o diabo nos detalhes": capturar a essência da tribo Osage e sua religião, o movimento da cidade, as minúcias das pessoas em seus espaços privados, e as pistas em cada olhar ou descula. Pelo trailer, me parece que ele ainda tentará passar um tom de suspeita geral, da perspectiva dos Osages para com todos os brancos, suscitada em algum momento do livro mas não explorada. A pesquisa já está feita, a narrativa está ali à disposição do diretor, falta apenas a criação do espetáculo, da atuação e da representação visual — o seu olhar para aqueles fatos.
Ponho minha mão no fogo que a história contada pelo David Grann, originalmente em três partes, com suas luzes e sombras (a parte subsequente jogando alguma luz na anterior), será unida pelo Scorsese em uma linha única. No livro, o que fica suspenso na primeira parte e a gente descobre só na segunda, provavelmente no filme será apresentado em sequência contínua, eliminando completamente, talvez, a terceira parte, na qual o autor aparece com sua voz própria de pesquisador e escritor. O que é, no entanto, revelado na terceira, a grande conspiração, talvez seja unido às outras duas. As três horas de duração me são uma forte pista para tal assunção.
Indo para um outro aspecto, esse é um daqueles casos em que conhecer as minúcias da história de antemão pode prejudicar a apreciação artística dessa tragédia real, desenrolada como uma narrativa. Se eu soubesse mais sobre esse episódio sujo da história dos Estados Unidos, provavelmente teria gostado menos do livro, é bem verdade, mesmo com a crueza com que o hábil jornalista conta a história. Portanto, se você está curioso para ler o livro primeiro, eu aconselho que faça o inverso. Aguarde o filme. Inclusive, o filme tem muito potencial para superar o livro — justamente pela aproximação e romantização. Deixe o livro para depois.
A história trata d’os Osages, uma importante tribo indígena da América do Norte, que a partir do início do Século XIX foram gradualmente forçados a ir cedendo terreno e abrir mão de sua terra para os Estados Unidos, "O chefe osage declarou que seu povo “não teve escolha: deviam assinar o tratado ou ser declarados inimigos dos Estados Unidos", como resultado, perderam mais de cinquenta mil quilômetros de terra. Foram, ainda, movidos para o Kansas; passando algum tempo, são mais uma vez de lá retirados e agora movidos para as “Terras Indígenas”, atual Oklahoma, onde se estabelecem "de vez", em quatro cidades-postos: Pawhuska, Hominy, Fairfax, e Gray Horse.
No início do século XX, já nessas terras quaisquer, uma reserva considerada sem valor, uma perfuração da terra, para a surpresa de todos, cospe uma cascata de ouro — ouro negro. Descobriu-se petróleo na nova reserva Osage. Inteligentemente, alguns anos antes, um dos líderes Osages, havia feito um acordo de que tudo encontrado na nova terra, seria pertencente a Nação Osage, e assim toda a tribo passou a cobrar e receber pelos poços perfurados e pelos barris que enchiam na foz do petróleo que não parava de jorrar. Essa terra, propriedade da tribo, fez, a partir do lucro que indústria petrolífera lhes proporcionava, todos os Osages ricos. Ricaços. E a história se espalhou por todo o país por meio de diversos jornais, num misto de preconceitos e exageros típicos dos jornais.
Numa ironia do destino, retomando o bonito prólogo e implicando no título da obra: "Em maio, quando os coiotes uivam sob uma lua enorme, plantas maiores, como o coração-roxo e a margarida-amarela, começam a despontar entre as menores, roubando-lhes luz e água. Os talos das flores se quebram, as pétalas saem flutuando pelos ares e em pouco tempo jazem sepultadas sob a terra. É por isso que os osages dizem que maio é o mês da lua que mata as flores". Nesse simbólico mês de maio, dois Osages — contemplados na lista de beneficiários do lucro do Petróleo — são encontrados mortos, num curto espaço de tempo.
Mortes violentíssimas. E daí, meu amigo, é ladeira abaixo. É se vertiginar e boquiabrir-se todo o tempo. É bang-bang de faroeste, mortes violentas, mortes por envenenamento, mortes por explosão; detetives privados e federais, prefeitos, xerifes, corruptos e não-corruptos; tramoias gigantescas, traição em todos os aspectos, maldade generalizada, e uma conspiração muito maior do que aquela que fora se desvelando inicialmente. O novelo da tramoia se estende por quilômetros.
*"Este livro se baseia principalmente em fontes primárias e materiais inéditos. Entre eles encontram-se milhares de páginas de arquivo do FBI, depoimentos secretos a grandes júris, transcrições de audiências judiciais, declarações de informantes, diários de detetives particulares, documentos de indulto e liberdade condicional, correspondência privada, um manuscrito inédito de que um dos detetives é coautor, entradas de diários, registros do Conselho Tribal Osage, relatos orais, relatórios de campo do Escritório de Assuntos Indígenas, atas do Congresso, memorandos e telegramas do Departamento de Justiça, fotos de cenas de crimes, testamentos, relatórios de curadores e confissões dos assassinos. "
Killers of the Flower Moon — ✲ 4.0/5.0
365pp
(Lido na Antologia da Literatura Fantástica)
Até aqui, junto com a Lula Opta por sua Tinta, do Bioy, é o conto que mais personifica a literatura fantástica. É a metamorfose não em besouro ou barata, mas em cacto. Uma metamorfose mui agradável ao personagem.
É uma reflexão de um homem enfermo, azarado, que sofrer uma acidente feio a cavalo, começa a cavar “para tentar se resguardar”, até que começa a transformar-se em vegetal, mais especificamente, em um cacto. Isso, porém, é só a largada, o que nos é apresentado no interior desse conto curto e belíssimo é uma discussão sobre a existência; comparações e ironias sobre sentimentos humanos em contraste com a relação vegetal-terra; questionamentos sobre se há mesmo uma diferença — ou vantagem — tão discrepante assim entre nós e a natureza.
O ponto do Santiago Dabove é que, em uma visão abrangente, ligeiramente pessimista (ou realista, dependendo da sua perspectiva) nos somos meras paisagens na terra, somos menos que vegetais.
''… por muito que se preze a atividade, a mudança, a movimentação humana, na maioria dos casos o homem se move, anda, vai e vem por um calabouço filiforme, prolongado. Aquele que tem por horizonte quatro paredes bem conhecidas e tateadas não difere muito daquele que percorre as mesmas rotas diariamente para cumprir tarefas sempre iguais, em circunstâncias não muito diferentes. Toda essa canseira não vale o beijo mútuo, e nem sequer pactado, entre o vegetal e o sol.''
Até aqui, junto com a Lula Opta por sua Tinta, do Bioy, é o conto que mais personifica a literatura fantástica. É a metamorfose não em besouro ou barata, mas em cacto. Uma metamorfose mui agradável ao personagem.
É uma reflexão de um homem enfermo, azarado, que sofrer uma acidente feio a cavalo, começa a cavar “para tentar se resguardar”, até que começa a transformar-se em vegetal, mais especificamente, em um cacto. Isso, porém, é só a largada, o que nos é apresentado no interior desse conto curto e belíssimo é uma discussão sobre a existência; comparações e ironias sobre sentimentos humanos em contraste com a relação vegetal-terra; questionamentos sobre se há mesmo uma diferença — ou vantagem — tão discrepante assim entre nós e a natureza.
O ponto do Santiago Dabove é que, em uma visão abrangente, ligeiramente pessimista (ou realista, dependendo da sua perspectiva) nos somos meras paisagens na terra, somos menos que vegetais.
Reconfortante, com beleza mesmo nos traços simples e nas cenas puramente introspectivas, Mushishi, da japonesa Yuki Urushibara, é uma experiência única que exige, sobretudo nos dias de hoje, um desacelerar, uma calma e uma sensibilidade para acompanhar o Mushishi Ginko — um tipo de médico num mundo de fantasia que mistura o Japão atual com o Japão Edo — simplesmente viajando pela terra dele para tratar de doenças causadas pelos Mushi. É menos entretenimento e mais algo semelhante a observar uma aquarela, uma pintura em movimento, com muito mais silêncio do que som, muito mais cenários que pessoas; e, ainda sim, com histórias tocantes. Nesse primeiro volume a gente tem cinco histórias diferentes.
Mushishi é episódico, mas há uma sequência e um desenvolvimento que aponta para frente, conforme mais mistérios desse mundo são revelados. Mushis são pequenas formas de vida que são na mesma proporção místicas e naturais, e cada episódio trata de um Mushi novo que o Ginko encontra. Cada episódio, também, revela um pouco mais sobre esses seres, mas tudo é muito implícito e cifrado. Até a forma deles no traço da autora é curiosa. Às vezes, o Ginko faz o papel literalmente de médico, matando ou expulsando o Mushi com remédios, receitas ou rituais; em outros, quando a coisa é mais complexa, ou quando envolve não uma pessoa afetada, mas toda uma região, uma floresta, um lago, etc., ele age como um conciliador. Nem sempre, porém, ele consegue resolver as coisas. É um vagante e está sempre aprendendo, tendo que lidar com o suicídio de pacientes, o ostracismo, o fato de não ser capaz mais de se fixar em lugar nenhum, e outros problemas.
A vida e a relação entre Mushis e seres humanos é o tema aqui — e, em geral, da série. A relação entre o mundo natural e o mundo humano, e entre o real e o sobrenatural. A adaptação em anime (mais os filmes) é incrivelmente bem feita, com um lance genial de adicionar uma narração meio folclórica nos episódios, sendo um ótimo complemento ao mangá. O tom de mistério e misticismo é patente em ambos: muita coisa fica em aberto às nossas próprias interpretações. Como cada episódio só tem um fiapo de enredo, vou me abster de falar muito sobre trama aqui. A graça é ler.
As cinco histórias do volume são:
The Green Seat: a história de um menino que tem um dom: seus kanjis esboçados no papel ganham vida. Qual a origem da capacidade desse menino? Que eles, os Mushi, são de verdade? Há um grupo onipotente de Mushis? Donde surgiram? Eles são sencientes ou só existem?
The Soft Horns: Aqui somos convidados a cobrir nossos ouvidos e mergulhar pelos místicos sons internos do corpo. Nos aprofundamos no conceito de som e silêncio (e também do som do silêncio) por meio da história de um menino surdo, sua mãe, e um vilarejo quieto cercado por montanhas.
The Pillow Pathway: Um capítulo mais melancólico, que difere um pouco dos anteriores, com um Ginko impotente. Dessa vez, trata-se de um homem que sonha com eventos que se realizam. Há um Mushi preso em seus sonhos.
The Light of the Eyelid: A história que premiou a auora e fez o mangá ser publicado. Ginko visita uma garota chamada Sui, que sofre de uma doença causada pelos Mushi que torna seus olhos hipersensíveis à luz; por isso, ela começa a viver em um galpão escuro. Por ficar tanto tempo na escuridão, e devido ao Mushi que a aflige, ela começa a vislumbrar o maravilhoso Rio da Vida, ou, Rio dos Mushis. Que é esse rio, que só pode ser visto quando alguém ''fecha a segunda pálpebra’’ e se desliga do mundano? É a pergunta deste episódio; que, aliás, tem grandes consequências para as histórias seguintes.
The Travelling Swamp: Ginko está viajando pelas montanhas para ver seu amigo, Adashino, um doutor, assim como ele, e colecionador de objetos que tenham relação com os Mushis. O pincel da primeira história, um dos chifres da segunda, por exemplo, são comprados por ele e é assim que o Ginko arruma grana. Ao longo do caminho, ele conhece uma garota chamada Io, que vive dentro de um pântano viajante, um pântano vivo que desce a montanha em direção ao mar.
O posfácio da autora no término desse primeiro volume também é bastante interessante e revelador do tom do mangá:"Após deixar o material pronto para publicação, estava imersa em sentimentalismo, como 'puxa, acho que depois disso, não terei mais oportunidade de publicar nada.' Consciente do limite da minha capacidade, comecei a procurar um emprego que não envolvia desenhar. E, quando já tinha esquecido completamente do concurso, fui informada que havia sido premiada. Pensei comigo 'A realidade as vezes é maluca'. E mesmo após meu trabalho virar uma publicação regular na revista, minha capacidade não mudou em nada, fazendo com que o meu editor passasse por maus bocados… e sendo honesta, ainda passa. Os mushi são seres complexos, mas adoráveis. Ficaria contente que, através das histórias, as pessoas pudessem sentir a existência desses pequenos seres a sua volta.’’
Mushishi é episódico, mas há uma sequência e um desenvolvimento que aponta para frente, conforme mais mistérios desse mundo são revelados. Mushis são pequenas formas de vida que são na mesma proporção místicas e naturais, e cada episódio trata de um Mushi novo que o Ginko encontra. Cada episódio, também, revela um pouco mais sobre esses seres, mas tudo é muito implícito e cifrado. Até a forma deles no traço da autora é curiosa. Às vezes, o Ginko faz o papel literalmente de médico, matando ou expulsando o Mushi com remédios, receitas ou rituais; em outros, quando a coisa é mais complexa, ou quando envolve não uma pessoa afetada, mas toda uma região, uma floresta, um lago, etc., ele age como um conciliador. Nem sempre, porém, ele consegue resolver as coisas. É um vagante e está sempre aprendendo, tendo que lidar com o suicídio de pacientes, o ostracismo, o fato de não ser capaz mais de se fixar em lugar nenhum, e outros problemas.
A vida e a relação entre Mushis e seres humanos é o tema aqui — e, em geral, da série. A relação entre o mundo natural e o mundo humano, e entre o real e o sobrenatural. A adaptação em anime (mais os filmes) é incrivelmente bem feita, com um lance genial de adicionar uma narração meio folclórica nos episódios, sendo um ótimo complemento ao mangá. O tom de mistério e misticismo é patente em ambos: muita coisa fica em aberto às nossas próprias interpretações. Como cada episódio só tem um fiapo de enredo, vou me abster de falar muito sobre trama aqui. A graça é ler.
As cinco histórias do volume são:
The Green Seat: a história de um menino que tem um dom: seus kanjis esboçados no papel ganham vida. Qual a origem da capacidade desse menino? Que eles, os Mushi, são de verdade? Há um grupo onipotente de Mushis? Donde surgiram? Eles são sencientes ou só existem?
The Soft Horns: Aqui somos convidados a cobrir nossos ouvidos e mergulhar pelos místicos sons internos do corpo. Nos aprofundamos no conceito de som e silêncio (e também do som do silêncio) por meio da história de um menino surdo, sua mãe, e um vilarejo quieto cercado por montanhas.
The Pillow Pathway: Um capítulo mais melancólico, que difere um pouco dos anteriores, com um Ginko impotente. Dessa vez, trata-se de um homem que sonha com eventos que se realizam. Há um Mushi preso em seus sonhos.
The Light of the Eyelid: A história que premiou a auora e fez o mangá ser publicado. Ginko visita uma garota chamada Sui, que sofre de uma doença causada pelos Mushi que torna seus olhos hipersensíveis à luz; por isso, ela começa a viver em um galpão escuro. Por ficar tanto tempo na escuridão, e devido ao Mushi que a aflige, ela começa a vislumbrar o maravilhoso Rio da Vida, ou, Rio dos Mushis. Que é esse rio, que só pode ser visto quando alguém ''fecha a segunda pálpebra’’ e se desliga do mundano? É a pergunta deste episódio; que, aliás, tem grandes consequências para as histórias seguintes.
The Travelling Swamp: Ginko está viajando pelas montanhas para ver seu amigo, Adashino, um doutor, assim como ele, e colecionador de objetos que tenham relação com os Mushis. O pincel da primeira história, um dos chifres da segunda, por exemplo, são comprados por ele e é assim que o Ginko arruma grana. Ao longo do caminho, ele conhece uma garota chamada Io, que vive dentro de um pântano viajante, um pântano vivo que desce a montanha em direção ao mar.
O posfácio da autora no término desse primeiro volume também é bastante interessante e revelador do tom do mangá:"Após deixar o material pronto para publicação, estava imersa em sentimentalismo, como 'puxa, acho que depois disso, não terei mais oportunidade de publicar nada.' Consciente do limite da minha capacidade, comecei a procurar um emprego que não envolvia desenhar. E, quando já tinha esquecido completamente do concurso, fui informada que havia sido premiada. Pensei comigo 'A realidade as vezes é maluca'. E mesmo após meu trabalho virar uma publicação regular na revista, minha capacidade não mudou em nada, fazendo com que o meu editor passasse por maus bocados… e sendo honesta, ainda passa. Os mushi são seres complexos, mas adoráveis. Ficaria contente que, através das histórias, as pessoas pudessem sentir a existência desses pequenos seres a sua volta.’’
Um Futuro... Não-Muito-Distante.
Coletânea de Contos (1999)
Contos de um futuro-à-moda-antiga; mas, ao mesmo tempo, de um futuro-próximo. Um futuro, em certas cenas e ideias, agora presente. Apesar de decisões estruturais duvidosas, o livro publicado pelo Bruce Sterling um ano antes da virada do milênio ainda é potente pela originalidade: faz um cyberpunk único, com menos cyber e mais punk; menos neon e luzes cromáticas, e mais revoluções tecnológicas e políticas. Cheio de conceitos e ideias originais que se passam em fronteiras geográficas bem delimitadas e reais.
Esse ano mesmo eu li uma ficção científica da década de 2010 (Blindsight, do Watts) que nem de perto fez soar (nem englobou) a sensação de viver nos dias de hoje, globalizado, fluído e flexível em todos os aspectos - para o bem ou mal -, desde o social até o tecnólogico, como faz o Sterling. Até mesmo em questão de estilo: a voz aqui é irreverente, ágil, quase de um jornalismo gonzo, nem um pouco pesada ou científica, ainda que seja ligeiramente densa.
Sterling, que foi um dos pais do Cyberpunk, é aqui bastante cético no exercício de futuro, e essas sete narrativas diversas apresentam incertezas sobre o futuro que, sob as penas de outros escritores do gênero, é muito exagerado ou idealizado; ele é límpido: nós não nós livraremos das nossas bagagens sociais, econômicas e psicológicas tão cedo. Esses outros futuros, mais fantasiosos e imaginativos, estão MUITO distantes ou nem mesmo chegarão próximos de acontecer.
Esse aqui, como você perceberá em certos aspectos ao longo do livro, já aconteceu.
Maneki Neko
Tokyo.
É difícil definir esse conto, que apesar da forma básica, tem um ponto central forte. Não por acaso acabou sendo indicado a diversos prêmios na literatura de gênero. Sterling imagina aqui um tipo de seita de favores, com leve influência da cultura oriental de dar e receber presentes, apoiada na velocidade de compartilhamento de informação no mundo moderno.
Em um “aplicativo de smartphone” o membro/participante deve realizar favores anônimos peculiares mas simples de realizar, e que em si mesmos mal parecem ter importância. Porém, no todo, apoiado por um algoritmo avançado por detrás, na inteligência artificial e também no vasto banco de dados, os pequenos favores (podemos, de certa forma, pensar nos nossos cliques) tem a capacidade de estragar a vida de uma pessoa que entre em conflito de interesse com o aplicativo - o tom e o modo, porém, beira o cômico.
Shimizu Tsuyoshi trabalha convertendo gravações obsoletas e atualizando-as para os novos formatos digitais com auxílio de IAs (como hoje virou coisa comum, bem lembrar: os contos daqui são anteriores a 99') e participa, por lazer, dessa rede de favores e tarefas. Isso significa que, frequentemente, chegam mensagens com instruções estranhas e enigmáticas, mas fáceis de serem realizadas, (ah!, como é antiga a gameficação da vida) que ele deve completar no aplicativo. Essas missõeszinhas diarias vão desde entregar um doce para um desconhecido nas proximidades até pegar o papel higiênico do banheiro público. A rede é automatizada e corre numa miríade de direções, sempre favorecendo aqueles que cumprem com as instruções.
Numa dessas empreitadas, Shimizu cruza com Louise, uma promotora federal dos EUA com ascendência japonesa, que declara histericamente que essa tal rede de presentes (ou favores) é uma conspiração criminosa. Ela se faz de detetive e é ela que puxa o fio da narrativa, com a investigação desse aplicativo logo após passar a ser "indiretamente" perseguida por seus membros. Poderia facilmente ser um conto de horror tecnólogico, mas o Sterling leva bem para o lado humorístico, a exemplo das seções que traduzi livremente:
Maneki Neko é bem prosaico, mas não deixa de ser interessante. Integra nalgumas revistas de ficção científica "The Best of SF" da época. O interessante, ao menos para mim, foi mais a proximidade com o nosso presente que por qualidades narrativas/literárias: o aplicativo, que com ajuda de algoritmos, envia desafios e tarefas por notificações, e a realização destas faz com que o usuário passe a ser compensado facilitando a vida em geral de quem participa e, por consequência, atraindo ainda mais gente, poderia muito bem existir (se é que já não existe) hoje em dia.
Ganhou o Locus (1999) em Best Short Story
Segundo Lugar no Hugo (1999) Best Short Story
Big Jelly
California.
Apesar de não ser o meu favorito da antologia, esse é o meu tipo de conto de ficção científica favorito: totalmente maluco, mas maluco com base científica; de modo que, sem didatismo, lhe entretém e lhe ensina fatos novos e bastantes específicos sobre um certo assunto: nesse caso, sobre diversas espécimes e características das águas vivas. Sobre, também, experimentos biológicos e o Urschleim (o suposto fluido celular da mãe terra, o lodo primordial).
Um ciêntista gay com hiperfoco em águas-vivas artificiais e um barão do petróleo do Texas (a dupla é bem boa de se acompanhar) se unem para desenvolver uma nova patente e acabam por encontrar um líquido anômalo que pode ser ainda mais lucrativo que o ouro negro - porém, o governo não pode saber. Um conto ululante, com um ritmo maluco e uma reta final digna de filme de ação. Decepcionando para quem sempre espera por conclusões catastróficas ou grandiosas, mas agradável (como eu) para quem se diverte e se deixa levar pelas águas-vivas artificiais cheias de hélio.
The Littlest Jackal
Finlândia.
Numa narrativa que fica bem naquele limiar que ele mesmo nomeou (o slipstream) entre a ficção científica e a ficção entre aspas mainstream, acompanhamos Leggy Starlitz, Khoklov, Raf-Chacal e Aino num golpe político que toma como base nossas famigeradas "revoluções sulamericanas" e as junta com as runs tecnológicas num contexto de leste-europeu.
É um bom conto, talvez um pouco extenso e ligeiramente anticlimático, mas, como dizem, o que importa é experiência, e a ela é interessante. O ponto que o Sterling toca nesse conto é de que de certa maneira, nos já estamos vivendo em um cenário Cyberpunk.
Toda a tecnologia do conto é real, assim como as facções e organizações políticas, com um pluszinho a mais. Acrescenta-se aí, no entanto, algumas organizações e uma temática bem “shadowrun”: um culto apocalíptico japonês; uma equipe de ataque da Mossad; uma tentativa de montar banco/paraíso fiscal para lavagem dinheiro; e, no meito de tudo, uma organização social de finlandeses que quer estabelecer um estado livre na Finlândia, junto de ex-agentes da KGB. Há até, mais uma subnarrativa, um destauqe para uma escritora de livros infantis finalandesa que viralizou no Japão (referência aos Moonins). É um conto que exemplifica bem o conceito que o Sterling tem da globalização, vista de 99”.
Há uma contrapartida: é fácil perder-se, principalmente quando se descobre que o conto se insere e também finaliza uma sequência narrativa que provém de outros livros e outros contos. Isso explica, mas não exime, a falta de credibilidade (ou mesmo qualidade) do desfecho narrativo.
Por que razão montar, em uma antologia, um sequência de contos que é cronológica e bem amarrada (chegaremos lá, são as próximas histórias), e antes, um conto (este) que é o encerramento, deslocado, de um “outro universo”? Decisão estranha.
Sacred Cow
India/Inglaterra
De longe o pior conto da antologia. Em resumo, o ocidente foi dizimado pela doença da vaca louca, e só sobraram algumas sociedades asiáticas que tratavam a v cacaomo animal sagrado, ou seja, não a comiam, daí o título. A trama se desenvolve num teatro/cinema, Bollywood tornada Hollywood, e não me lembro mais de muita coisa além de envolve filmes baratos, cinema indiano, e que me entediou até a alma.
Deep Eddy
Düsseldorf
Eu consigo contar nos dedos da mão esquerda quantas narrativas de ficção científica conseguem se sustentar e sobressair apenas na relação ente personagens. Com só dois personagens, então, apenas essa: Deep Eddy do Sterling.
Eddy é um traficante de spex-ware (pelo que eu entendi, um tipo de óculos de realidade aumentada e integrada) e Sardelle, uma segurança proletariada, cansada e desgastada que deve levar Eddy até um comprador que o trouxe do Tennessee até Dusseldorf. Ela é extremamente direta e faz tudo para que seu trabalho seja facilitado, e é isso que deixa toda a interação entre ambos realmente divertida e engraçada de ler; a primeira metade do conto é praticamente só de turismo e interação, e é curiosamente bom.
Düsseldörf está tendo um dos infames Wendes, uma reunião espontânea, no contexto do conto, que mistura torcida organizada (Hooligans), cyberpunks libertários como o próprio Eddy, fornecedores e contrabandistas de pornografia ilegal, manuais para manufaturação de bombas, drogas e armas, info política, e outras pessoas tão esquisitas quanto. Isso tudo é inicialmente pano de fundo para a relação entre o Eddy e a Sardelle, e também entre o mundo real e o mundo visto através do spex (Eddy até este momento de sua vida vivia quase mergulhado num metaverso, onde até suas relações sexuais se davam por lá por lá), culminando no ideal disforme do Americano de querer se envolver na política dos outros países.
O Wende carnavalesco faz tudo se descabelar e cluminar em uma conclusão maluca e caótica, que eu não vou estragar, mas que tem a ver com manifestações sociais e políticas.É um outro conto bem bom, pau a pau, ou ligeiramente inferior, ao conto final do livro, que também faz parte desse mesmo universo, a “trilogia de Chattanooga”.
Alguns trechos livremente traduzidos:
Bicycle Repairman
Tennessee, Chattanooga.
Nessa “sequência”, que cronologicamente se passa enquanto o Eddy do conto anterior está na Europa, tornamos a um conto de ficção científica mais, digamos, estrito; com ideias e conceitos estranhos e únicos.
Ainda sim, porém, mais uma vez o Sterling joga a ação central do conto para o diálogo (aqui bastante expositivo, sim, é normal nesse gênero) ressaltando talvez a única coisa que se repete ao longo dos contos, e não é uma crítica, que é a voz do narrador das histórias.
A protagonista é Lyle, uma amiga do Eddy. Uma “neuter”, mulher assexuada que participa dos novos – e diversos – movimentos de gênero que proliferaram nesse futuro (eu não disse que era um futuro-presente?), promovendo a “Deliberação Sexual”, a liberação para quem quiser de uma cirurgia que artificialmente erradica o desejo e impulso sexual das pessoas.
Como o título diz, ela também conserta e é obcecada por bicicletas. E é para essa loja que o Eddy sorrateiramente manda, recebe e comercia os seus specs-ware tecnológicos. Lyle recebe, como sempre, mais um desses pacotes, e julga ser só mais quincarias do Eddy. Até a loja ser invadida pelo segurança de um político que tenta roubar o pacote.
Aperte os cintos.
A partir daqui revela-se que o pacote tem relação com a NAFTA (que também aparece na conclusão do conto anterior) e com a União Europeia; mais especificamente: o pacote é uma gravação que pode revelar e incriminar o Senador da NAFTA como sendo um Mook. Isso significa que, um antigo software anteriormente utilizado para ser um assistente artificial do político na companha, sussurrando no seu ouvido uma retórica perfeita, valores morais firmes e políticas excelentes, tomou, roubou e assumiu identidade do homem. A inteligência artificial passou a crer ser o próprio Senador e agir como tal.
Lyle, não faz a mínima ideia de tudo isso, e as armadilhas (medidas de segurança pela região problemática onde aluga a lojja) pegam o agente do Senador. Ela não sabe bem o que fazer, e liga para o Pete, um amigo que faz parte das “Aranhas da Cidade”, um grupo de escaladores urbanos, altamente tecnológicos, que sobem os arranha-céus das megalópoles apenas pela emoção de subir; invadem prédios mega protegidos e classificados apenas pela adrenalina de trespassá-los
Com Pete, vem Mabel, e o conto se revolve a partir daí no diálogo ente os quatro personagens. Kitty (a agente capturada) passa a ser a interrogada; ninguém ali sabe muito bem o que fazer. Uma “Neuter”, um Escalador Urbano, uma Liberal-Progressista e uma Agente Esecial de um político. O que pode se esperar disso? Para onde isso vai?
Um pouco cansativo, mas no fim bem diveritdo..
Taklamakan
De longe o conto mais surpreendente, engenhoso e interessante da coleção. Em questões de enredo é o meu favorito. É ficção científica clássica e, sobretudo, boa.
Taklamakan é o nome do conto e do deserto real da Ásia Central onde se passa a história, que também encerra a trilogia narrativa iniciada em Deep Eddy. Passou-se dez anos desde os acontecimentos de Bicycle Repairman, e o que ressurge nesse conto são alguns isolados conceitos e instituições anteriormente utilizadas, podendo muito bem ser lido isoladamente.
Caçadores de Recompensas modernos (ex-escaladores urbanos) recebem uma informação que pode vir a ser muitíssimo lucrativa, e buscam se infiltrar em uma base de foguetes desativada que pentecia, supostamente, à União Asiática.
Encontram, no lugar, um enorme buraco artificial, que guardava um segredo assustadoramente estranho: com interesse em testar a viabilidade das viagens espaciais demasiado longas, e com as tribos do deserto incomodando, a NASA junto com essa União Asiática, enfiam três naves espaciais falsas em um buraco gigantesco no deserto, e convidam (não gentilmente) a população daquela região (não tão literalmente) a viajarem para o espaço.
O porém: as Naves não decolam, e sim afundam. É tudo ilusório. As paredes, o buraco e as naves foram preparadas para passar a sensação de que aquelas pessoas estavam realmente viajando no espaço (estrelas e galáxias móveis são projetadas nas paredes que encobrem as janelas), mas estavam mesmo paradas, no fundo de um buraco, no meio do deserto. Tudo a fim de testar vários aspectos de engenharia social, testar os efeitos de uma viagem espacial de centenas de ano sem arriscar a fazê-la.
É isso que os Caçadores de Recompensa encontram, e o desenvolvimento do enredo se dá na tentativa de entrar e de ter contato com a população das naves (que, spoiler, acontece). O povo, que inicialmente parecia alheio, julgando estarem viajando no espaço, dão indícios diferentes: uma nave está completamente silenciosa; outra, julga estar no espaço e sendo visitada por alienigenas ou espíritos; e, principalmente, na última nave algumas pessoas não parecem estar totalmente enganadas...
Outro final digno de filme de ação. Conto interessantíssimo e não é atoa que ganhou o Hugo e o Locus de Melhor Noveleta. Um ótimo fechamento para a Coletânea.
Coletânea de Contos (1999)
Contos de um futuro-à-moda-antiga; mas, ao mesmo tempo, de um futuro-próximo. Um futuro, em certas cenas e ideias, agora presente. Apesar de decisões estruturais duvidosas, o livro publicado pelo Bruce Sterling um ano antes da virada do milênio ainda é potente pela originalidade: faz um cyberpunk único, com menos cyber e mais punk; menos neon e luzes cromáticas, e mais revoluções tecnológicas e políticas. Cheio de conceitos e ideias originais que se passam em fronteiras geográficas bem delimitadas e reais.
Esse ano mesmo eu li uma ficção científica da década de 2010 (Blindsight, do Watts) que nem de perto fez soar (nem englobou) a sensação de viver nos dias de hoje, globalizado, fluído e flexível em todos os aspectos - para o bem ou mal -, desde o social até o tecnólogico, como faz o Sterling. Até mesmo em questão de estilo: a voz aqui é irreverente, ágil, quase de um jornalismo gonzo, nem um pouco pesada ou científica, ainda que seja ligeiramente densa.
Sterling, que foi um dos pais do Cyberpunk, é aqui bastante cético no exercício de futuro, e essas sete narrativas diversas apresentam incertezas sobre o futuro que, sob as penas de outros escritores do gênero, é muito exagerado ou idealizado; ele é límpido: nós não nós livraremos das nossas bagagens sociais, econômicas e psicológicas tão cedo. Esses outros futuros, mais fantasiosos e imaginativos, estão MUITO distantes ou nem mesmo chegarão próximos de acontecer.
Esse aqui, como você perceberá em certos aspectos ao longo do livro, já aconteceu.
Maneki Neko
Tokyo.
É difícil definir esse conto, que apesar da forma básica, tem um ponto central forte. Não por acaso acabou sendo indicado a diversos prêmios na literatura de gênero. Sterling imagina aqui um tipo de seita de favores, com leve influência da cultura oriental de dar e receber presentes, apoiada na velocidade de compartilhamento de informação no mundo moderno.
Em um “aplicativo de smartphone” o membro/participante deve realizar favores anônimos peculiares mas simples de realizar, e que em si mesmos mal parecem ter importância. Porém, no todo, apoiado por um algoritmo avançado por detrás, na inteligência artificial e também no vasto banco de dados, os pequenos favores (podemos, de certa forma, pensar nos nossos cliques) tem a capacidade de estragar a vida de uma pessoa que entre em conflito de interesse com o aplicativo - o tom e o modo, porém, beira o cômico.
Shimizu Tsuyoshi trabalha convertendo gravações obsoletas e atualizando-as para os novos formatos digitais com auxílio de IAs (como hoje virou coisa comum, bem lembrar: os contos daqui são anteriores a 99') e participa, por lazer, dessa rede de favores e tarefas. Isso significa que, frequentemente, chegam mensagens com instruções estranhas e enigmáticas, mas fáceis de serem realizadas, (ah!, como é antiga a gameficação da vida) que ele deve completar no aplicativo. Essas missõeszinhas diarias vão desde entregar um doce para um desconhecido nas proximidades até pegar o papel higiênico do banheiro público. A rede é automatizada e corre numa miríade de direções, sempre favorecendo aqueles que cumprem com as instruções.
Numa dessas empreitadas, Shimizu cruza com Louise, uma promotora federal dos EUA com ascendência japonesa, que declara histericamente que essa tal rede de presentes (ou favores) é uma conspiração criminosa. Ela se faz de detetive e é ela que puxa o fio da narrativa, com a investigação desse aplicativo logo após passar a ser "indiretamente" perseguida por seus membros. Poderia facilmente ser um conto de horror tecnólogico, mas o Sterling leva bem para o lado humorístico, a exemplo das seções que traduzi livremente:
“Ela suspira. — Eu sento nas cadeiras, e alguém deixou um chiclete colado. Recebo pizzas de graça, mas são de, um exemplo dessa semana mesmo, catupiry com abacaxi. Eu coloco a cabeça fora da janela e é quase certo que eu leve uma cusparada ou coisa pior. Sempre que estou com pressa, o meu lado da fila se enche de idosos que são preferencialmente passados à frente. (…)
— Na rua, a descarga nunca funciona, — diz Louise. — Minhas encomendas sempre se perdem nos correios. Quando passo do lado dos carros, os alarmes disparam. E todos os olhos me encontram. São sempre essas coisinhas. Coisinhas minúsculas, mas que nunca, nunca cessam. Eu estou remando contra algo muito maior que eu, e muito, muito paciente. Eles sabem tudo sobre mim. Possuem milhões de braços e pernas. E esses braços e pernas são cada uma dessas pessoas, cada um desses usuários.”
Maneki Neko é bem prosaico, mas não deixa de ser interessante. Integra nalgumas revistas de ficção científica "The Best of SF" da época. O interessante, ao menos para mim, foi mais a proximidade com o nosso presente que por qualidades narrativas/literárias: o aplicativo, que com ajuda de algoritmos, envia desafios e tarefas por notificações, e a realização destas faz com que o usuário passe a ser compensado facilitando a vida em geral de quem participa e, por consequência, atraindo ainda mais gente, poderia muito bem existir (se é que já não existe) hoje em dia.
Ganhou o Locus (1999) em Best Short Story
Segundo Lugar no Hugo (1999) Best Short Story
Big Jelly
California.
Apesar de não ser o meu favorito da antologia, esse é o meu tipo de conto de ficção científica favorito: totalmente maluco, mas maluco com base científica; de modo que, sem didatismo, lhe entretém e lhe ensina fatos novos e bastantes específicos sobre um certo assunto: nesse caso, sobre diversas espécimes e características das águas vivas. Sobre, também, experimentos biológicos e o Urschleim (o suposto fluido celular da mãe terra, o lodo primordial).
Um ciêntista gay com hiperfoco em águas-vivas artificiais e um barão do petróleo do Texas (a dupla é bem boa de se acompanhar) se unem para desenvolver uma nova patente e acabam por encontrar um líquido anômalo que pode ser ainda mais lucrativo que o ouro negro - porém, o governo não pode saber. Um conto ululante, com um ritmo maluco e uma reta final digna de filme de ação. Decepcionando para quem sempre espera por conclusões catastróficas ou grandiosas, mas agradável (como eu) para quem se diverte e se deixa levar pelas águas-vivas artificiais cheias de hélio.
The Littlest Jackal
Finlândia.
Numa narrativa que fica bem naquele limiar que ele mesmo nomeou (o slipstream) entre a ficção científica e a ficção entre aspas mainstream, acompanhamos Leggy Starlitz, Khoklov, Raf-Chacal e Aino num golpe político que toma como base nossas famigeradas "revoluções sulamericanas" e as junta com as runs tecnológicas num contexto de leste-europeu.
É um bom conto, talvez um pouco extenso e ligeiramente anticlimático, mas, como dizem, o que importa é experiência, e a ela é interessante. O ponto que o Sterling toca nesse conto é de que de certa maneira, nos já estamos vivendo em um cenário Cyberpunk.
Toda a tecnologia do conto é real, assim como as facções e organizações políticas, com um pluszinho a mais. Acrescenta-se aí, no entanto, algumas organizações e uma temática bem “shadowrun”: um culto apocalíptico japonês; uma equipe de ataque da Mossad; uma tentativa de montar banco/paraíso fiscal para lavagem dinheiro; e, no meito de tudo, uma organização social de finlandeses que quer estabelecer um estado livre na Finlândia, junto de ex-agentes da KGB. Há até, mais uma subnarrativa, um destauqe para uma escritora de livros infantis finalandesa que viralizou no Japão (referência aos Moonins). É um conto que exemplifica bem o conceito que o Sterling tem da globalização, vista de 99”.
Há uma contrapartida: é fácil perder-se, principalmente quando se descobre que o conto se insere e também finaliza uma sequência narrativa que provém de outros livros e outros contos. Isso explica, mas não exime, a falta de credibilidade (ou mesmo qualidade) do desfecho narrativo.
Por que razão montar, em uma antologia, um sequência de contos que é cronológica e bem amarrada (chegaremos lá, são as próximas histórias), e antes, um conto (este) que é o encerramento, deslocado, de um “outro universo”? Decisão estranha.
Sacred Cow
India/Inglaterra
De longe o pior conto da antologia. Em resumo, o ocidente foi dizimado pela doença da vaca louca, e só sobraram algumas sociedades asiáticas que tratavam a v cacaomo animal sagrado, ou seja, não a comiam, daí o título. A trama se desenvolve num teatro/cinema, Bollywood tornada Hollywood, e não me lembro mais de muita coisa além de envolve filmes baratos, cinema indiano, e que me entediou até a alma.
Deep Eddy
Düsseldorf
Eu consigo contar nos dedos da mão esquerda quantas narrativas de ficção científica conseguem se sustentar e sobressair apenas na relação ente personagens. Com só dois personagens, então, apenas essa: Deep Eddy do Sterling.
Eddy é um traficante de spex-ware (pelo que eu entendi, um tipo de óculos de realidade aumentada e integrada) e Sardelle, uma segurança proletariada, cansada e desgastada que deve levar Eddy até um comprador que o trouxe do Tennessee até Dusseldorf. Ela é extremamente direta e faz tudo para que seu trabalho seja facilitado, e é isso que deixa toda a interação entre ambos realmente divertida e engraçada de ler; a primeira metade do conto é praticamente só de turismo e interação, e é curiosamente bom.
Düsseldörf está tendo um dos infames Wendes, uma reunião espontânea, no contexto do conto, que mistura torcida organizada (Hooligans), cyberpunks libertários como o próprio Eddy, fornecedores e contrabandistas de pornografia ilegal, manuais para manufaturação de bombas, drogas e armas, info política, e outras pessoas tão esquisitas quanto. Isso tudo é inicialmente pano de fundo para a relação entre o Eddy e a Sardelle, e também entre o mundo real e o mundo visto através do spex (Eddy até este momento de sua vida vivia quase mergulhado num metaverso, onde até suas relações sexuais se davam por lá por lá), culminando no ideal disforme do Americano de querer se envolver na política dos outros países.
O Wende carnavalesco faz tudo se descabelar e cluminar em uma conclusão maluca e caótica, que eu não vou estragar, mas que tem a ver com manifestações sociais e políticas.É um outro conto bem bom, pau a pau, ou ligeiramente inferior, ao conto final do livro, que também faz parte desse mesmo universo, a “trilogia de Chattanooga”.
Alguns trechos livremente traduzidos:
“Sardelle suspirou. — Descobrimos que você é um homem solteiro, entre dezoito e trinta anos. Sem trabalho fixo. Sem teto fixo. Sem esposa, sem filhos. Inclinações politicas radicais; viaja com frequência. Sua demografia é altamente perigosa.‘’
"Eddy sentiu o feitiço da viagem tomá-lo; (…) Uma outra hora, um outro lugar: quaisquer que fossem o vasto conjunto de impossibilidades que militaram contra a sua presença ali, todas haviam sido derrotadas. Era uma noite de sexta feira em Düsseldorf, 13 de Julho, 2035… O relógio marcava dez e dez. A sincronicidade ganhava aspectos mágicos."
"Ela evitava encontrar seus olhos; sua cabeça lançava-se em todas direções como se estivesse mortalmente envergonhada. Eddy logo percebeu que ela estava, na verdade, escaneando metodicamente o rosto de cada estranho no ônibus.“
Bicycle Repairman
Tennessee, Chattanooga.
Nessa “sequência”, que cronologicamente se passa enquanto o Eddy do conto anterior está na Europa, tornamos a um conto de ficção científica mais, digamos, estrito; com ideias e conceitos estranhos e únicos.
Ainda sim, porém, mais uma vez o Sterling joga a ação central do conto para o diálogo (aqui bastante expositivo, sim, é normal nesse gênero) ressaltando talvez a única coisa que se repete ao longo dos contos, e não é uma crítica, que é a voz do narrador das histórias.
A protagonista é Lyle, uma amiga do Eddy. Uma “neuter”, mulher assexuada que participa dos novos – e diversos – movimentos de gênero que proliferaram nesse futuro (eu não disse que era um futuro-presente?), promovendo a “Deliberação Sexual”, a liberação para quem quiser de uma cirurgia que artificialmente erradica o desejo e impulso sexual das pessoas.
Como o título diz, ela também conserta e é obcecada por bicicletas. E é para essa loja que o Eddy sorrateiramente manda, recebe e comercia os seus specs-ware tecnológicos. Lyle recebe, como sempre, mais um desses pacotes, e julga ser só mais quincarias do Eddy. Até a loja ser invadida pelo segurança de um político que tenta roubar o pacote.
Aperte os cintos.
A partir daqui revela-se que o pacote tem relação com a NAFTA (que também aparece na conclusão do conto anterior) e com a União Europeia; mais especificamente: o pacote é uma gravação que pode revelar e incriminar o Senador da NAFTA como sendo um Mook. Isso significa que, um antigo software anteriormente utilizado para ser um assistente artificial do político na companha, sussurrando no seu ouvido uma retórica perfeita, valores morais firmes e políticas excelentes, tomou, roubou e assumiu identidade do homem. A inteligência artificial passou a crer ser o próprio Senador e agir como tal.
Lyle, não faz a mínima ideia de tudo isso, e as armadilhas (medidas de segurança pela região problemática onde aluga a lojja) pegam o agente do Senador. Ela não sabe bem o que fazer, e liga para o Pete, um amigo que faz parte das “Aranhas da Cidade”, um grupo de escaladores urbanos, altamente tecnológicos, que sobem os arranha-céus das megalópoles apenas pela emoção de subir; invadem prédios mega protegidos e classificados apenas pela adrenalina de trespassá-los
Com Pete, vem Mabel, e o conto se revolve a partir daí no diálogo ente os quatro personagens. Kitty (a agente capturada) passa a ser a interrogada; ninguém ali sabe muito bem o que fazer. Uma “Neuter”, um Escalador Urbano, uma Liberal-Progressista e uma Agente Esecial de um político. O que pode se esperar disso? Para onde isso vai?
Um pouco cansativo, mas no fim bem diveritdo..
Taklamakan
De longe o conto mais surpreendente, engenhoso e interessante da coleção. Em questões de enredo é o meu favorito. É ficção científica clássica e, sobretudo, boa.
Taklamakan é o nome do conto e do deserto real da Ásia Central onde se passa a história, que também encerra a trilogia narrativa iniciada em Deep Eddy. Passou-se dez anos desde os acontecimentos de Bicycle Repairman, e o que ressurge nesse conto são alguns isolados conceitos e instituições anteriormente utilizadas, podendo muito bem ser lido isoladamente.
Caçadores de Recompensas modernos (ex-escaladores urbanos) recebem uma informação que pode vir a ser muitíssimo lucrativa, e buscam se infiltrar em uma base de foguetes desativada que pentecia, supostamente, à União Asiática.
Encontram, no lugar, um enorme buraco artificial, que guardava um segredo assustadoramente estranho: com interesse em testar a viabilidade das viagens espaciais demasiado longas, e com as tribos do deserto incomodando, a NASA junto com essa União Asiática, enfiam três naves espaciais falsas em um buraco gigantesco no deserto, e convidam (não gentilmente) a população daquela região (não tão literalmente) a viajarem para o espaço.
O porém: as Naves não decolam, e sim afundam. É tudo ilusório. As paredes, o buraco e as naves foram preparadas para passar a sensação de que aquelas pessoas estavam realmente viajando no espaço (estrelas e galáxias móveis são projetadas nas paredes que encobrem as janelas), mas estavam mesmo paradas, no fundo de um buraco, no meio do deserto. Tudo a fim de testar vários aspectos de engenharia social, testar os efeitos de uma viagem espacial de centenas de ano sem arriscar a fazê-la.
É isso que os Caçadores de Recompensa encontram, e o desenvolvimento do enredo se dá na tentativa de entrar e de ter contato com a população das naves (que, spoiler, acontece). O povo, que inicialmente parecia alheio, julgando estarem viajando no espaço, dão indícios diferentes: uma nave está completamente silenciosa; outra, julga estar no espaço e sendo visitada por alienigenas ou espíritos; e, principalmente, na última nave algumas pessoas não parecem estar totalmente enganadas...
Outro final digno de filme de ação. Conto interessantíssimo e não é atoa que ganhou o Hugo e o Locus de Melhor Noveleta. Um ótimo fechamento para a Coletânea.
Muitas referências e domínio por parte do Moore de muitas histórias e autores do Mythos de Tchuchuco (Lovecraft, Bierce, Ashton Clark Smith, Ramsey Campbell, etc.); uma ideia e ótica bastante original e interessante sobre os mitos, principalmente na questão temporal e não literal (a virada do conto é muito boa e desde a primeira página, estranha, borrada, há um mecanismo sendo acionado para dar um fechamento pungente da narrativa); têm um ritmo e um compasso narrativo que lembra certas narrativas modernas sobre Serial Killers (True Detective, Mindhunter, etc).
Porém, o trato no diálogo é estranhíssimo, principalmente no que se refere à caracterização do FBI e da Agente Principal; e há uma cena de estupro (que envolve um monstro alá Dagon) estranhíssima (ainda que o evento tenha relação direta com a maneira com que o Lovecraft encara o Mythos e implicação narrativa). É cinquenta cinquenta, você tem de ler e decidir se a tal cena coroa uma péssima história do Moore, ou se tudo que vem antes consegue, pelo menos, sustentá-la com a cabeça acima da água.
Porém, o trato no diálogo é estranhíssimo, principalmente no que se refere à caracterização do FBI e da Agente Principal; e há uma cena de estupro (que envolve um monstro alá Dagon) estranhíssima (ainda que o evento tenha relação direta com a maneira com que o Lovecraft encara o Mythos e implicação narrativa). É cinquenta cinquenta, você tem de ler e decidir se a tal cena coroa uma péssima história do Moore, ou se tudo que vem antes consegue, pelo menos, sustentá-la com a cabeça acima da água.
How to Read a Book: The Classic Guide to Intelligent Reading
Mortimer J. Adler, Charles Van Doren
Título cliquebait. Te digo a razão: a maior parte das pessoas que pega esse livro para ler tem em mente ficção, poesia, enfim, literatura em geral. E, nesse aspecto, o livro ajuda e toca nesse assunto (sendo generoso) em apenas 10% de suas quatrocentas e tantas densas páginas (de um jeito nem tão legal assim). Se você pensa em lê-lo por causa disso, leia o que tenho a dizer a seguir:
O Adler mesmo, para quem gosta de ler ficção e está sempre tentando ler melhor, tem um ensaio enxuto, de menos de dez páginas, muito melhor: "How to Mark a Book". Vai te ajudar horrores e melhorar em muito a sua leitura. Eu, hoje em dia, não consigo ler sem anotar, sem lápis, caneta ou um pedê-efe editável. Esse artigo dele me ajudou muito. Você acha facilmente no Google pesquisando o nome + Adler. Te poupará umas quatrocentas páginas.
O livro não é de todo ruim, apesar de que eu imagino a tristeza que foi alguém tentar aplicar estritamente toda a metodologia que o Adler dá aqui em um livro de ficção (não vou imaginar quantos possíveis leitores ele afastou porque conheço a história dele de livreiro e sei que ele equilibrou a balança com o tanto de leitores que criou). Utilizando a terminologia do próprio Adler, deveria se chamar "Como Ler (ou Estudar) Livros Práticos". É interessante para isso: não-ficção, filosofia, política, ciências, etc. Inclusive, você pode aplicar a própria metodologia nesse livro mesmo. Fazendo uma leitura inspecional, com base nesse meu comentário, e decidindo se é para você ou não. É bom também para dissertações de mestrado, escrita acadêmica, entre outras coisas. Ajuda nisso e se esse é o seu interesse, vai fundo que nisso ele é bom.
Agora, para quem caiu no cliquebait do título achando outra coisa, saiba que não há nada sobre o prazer ou a fruição da leitura aqui, nem, arrisco, em como ler melhor. É um livro seco. Sobra pouco para gente: apenas a parte inicial sobre leitura inspecional (algo que faço até hoje e que talvez você já faça, sem saber) e a lista de obras do final: uma interessante base de leitura clássica. É melhor ler as aulas do Borges na Universidade de Buenos Aires ou as Lições de Literatura do Nabokov — ou, melhor, a dica que esses dois provavelmente aprovariam, só ler mais bons livros mesmo.
2.5 arredondado pra cima porque… não sei.
O Adler mesmo, para quem gosta de ler ficção e está sempre tentando ler melhor, tem um ensaio enxuto, de menos de dez páginas, muito melhor: "How to Mark a Book". Vai te ajudar horrores e melhorar em muito a sua leitura. Eu, hoje em dia, não consigo ler sem anotar, sem lápis, caneta ou um pedê-efe editável. Esse artigo dele me ajudou muito. Você acha facilmente no Google pesquisando o nome + Adler. Te poupará umas quatrocentas páginas.
O livro não é de todo ruim, apesar de que eu imagino a tristeza que foi alguém tentar aplicar estritamente toda a metodologia que o Adler dá aqui em um livro de ficção (não vou imaginar quantos possíveis leitores ele afastou porque conheço a história dele de livreiro e sei que ele equilibrou a balança com o tanto de leitores que criou). Utilizando a terminologia do próprio Adler, deveria se chamar "Como Ler (ou Estudar) Livros Práticos". É interessante para isso: não-ficção, filosofia, política, ciências, etc. Inclusive, você pode aplicar a própria metodologia nesse livro mesmo. Fazendo uma leitura inspecional, com base nesse meu comentário, e decidindo se é para você ou não. É bom também para dissertações de mestrado, escrita acadêmica, entre outras coisas. Ajuda nisso e se esse é o seu interesse, vai fundo que nisso ele é bom.
Agora, para quem caiu no cliquebait do título achando outra coisa, saiba que não há nada sobre o prazer ou a fruição da leitura aqui, nem, arrisco, em como ler melhor. É um livro seco. Sobra pouco para gente: apenas a parte inicial sobre leitura inspecional (algo que faço até hoje e que talvez você já faça, sem saber) e a lista de obras do final: uma interessante base de leitura clássica. É melhor ler as aulas do Borges na Universidade de Buenos Aires ou as Lições de Literatura do Nabokov — ou, melhor, a dica que esses dois provavelmente aprovariam, só ler mais bons livros mesmo.
2.5 arredondado pra cima porque… não sei.
Eu cataloguei o livro aqui no ano passado, mas a nota reflete mais a sensação que tive ao rememorar a leitura do que um juízo sobre suas qualidades concretas: o li por volta de 2016, com meus dezesseis anos (que já parecem tão distantes), na época que nos grupos que eu particpava para parecer cult você deveria dizer que assistiu completo (e sem dormir) 2001.
E pior que, assistindo com essas péssimas intenções, o filme acabou sendo um marco para mim. O único contato que tinha tido com ficção científica antes do filme era a ficção científica com toques japoneses: Sidonia no Kishi, Gurenm Lagann, Planetes, já que odiava a FC americana/britânica que passava na TV a cabo: Star Wars, Jornada nas Estrelas, Doctor Who… para mim o nome FC se resumia a coisa do tipo e que tudo era parecido com Star Wars ou Star Trek (antes, eu odiava, hoje em dia sou mais educado e digo apenas não gostar).
Depois de assistir duas horas e vinte minutos vidrado, o final do filme me marcou tanto que me fez ir atrás do livro, e olha que eu não tinha costume de ler. Queria saber o significado daquele final: e não tive uma surpresa negativa quando cheguei no final do livro e vi que era tão diferente. Gostei mais do final do livro, até. Enganchava com o 2010 que emendei na sequência (esse sim, muito doido, por sinal. Lembro até hoje da cena do cara em espírito incorporando na TV. Não esperava isso no meio de uma space-opera).
O livro, portanto, tem um lugarzinho especial em mim. (Lembre-se, eu só lia imagens). E acabei gostando mais do livro que do filme, sei que, nesse caso, a opinião popular é geralmente inversa. Achei a relação entre os tripulantes uns com os outros, e do tripulantes com o HAL, cheio de opressão e suspense, funcionou melhor no livro, além de que a estrutura em capítulos curtos e diálogos legais de se ler ajudaram este ex-analfabeto funcional que vos fala. Não me lembro de me incomodar uma única vez com a exposição exagerada do Clarke.
Dei essa volta toda para dizer que devo fazer uma releitura. Li recentemente Blindsight (https://www.youtube.com/watch?v=VkR2hnXR0SM), um sci-fi moderno, denso, que bebe muito de 2001, trazendo muitos outros temas interessantes e atuais, sobre consciência, livre arbítrio, linguagem, neurociência e um outro tipo de primeiro contato. Acerta em certos pontos, e erra grosseiramente em outros. O Arthur C. Clarke dá um banho, com folga, na questão relacionamento entre a tripulação, enquanto o Hard Sci-Fi premiado de 2010 do Watts, com toda a sua profundidade, luta para fazer um diálogo que não seja duro e artificial. Mas, o homem acerta, como disse, em outros pontos e compensa. O primeiro contato lá é muito mais interessante; mas, enfim, divaguei. Conclusão: 2001, filme, livro, analfabetismo, Clarke incontornável, releitura.
E pior que, assistindo com essas péssimas intenções, o filme acabou sendo um marco para mim. O único contato que tinha tido com ficção científica antes do filme era a ficção científica com toques japoneses: Sidonia no Kishi, Gurenm Lagann, Planetes, já que odiava a FC americana/britânica que passava na TV a cabo: Star Wars, Jornada nas Estrelas, Doctor Who… para mim o nome FC se resumia a coisa do tipo e que tudo era parecido com Star Wars ou Star Trek (antes, eu odiava, hoje em dia sou mais educado e digo apenas não gostar).
Depois de assistir duas horas e vinte minutos vidrado, o final do filme me marcou tanto que me fez ir atrás do livro, e olha que eu não tinha costume de ler. Queria saber o significado daquele final: e não tive uma surpresa negativa quando cheguei no final do livro e vi que era tão diferente. Gostei mais do final do livro, até. Enganchava com o 2010 que emendei na sequência (esse sim, muito doido, por sinal. Lembro até hoje da cena do cara em espírito incorporando na TV. Não esperava isso no meio de uma space-opera).
O livro, portanto, tem um lugarzinho especial em mim. (Lembre-se, eu só lia imagens). E acabei gostando mais do livro que do filme, sei que, nesse caso, a opinião popular é geralmente inversa. Achei a relação entre os tripulantes uns com os outros, e do tripulantes com o HAL, cheio de opressão e suspense, funcionou melhor no livro, além de que a estrutura em capítulos curtos e diálogos legais de se ler ajudaram este ex-analfabeto funcional que vos fala. Não me lembro de me incomodar uma única vez com a exposição exagerada do Clarke.
Dei essa volta toda para dizer que devo fazer uma releitura. Li recentemente Blindsight (https://www.youtube.com/watch?v=VkR2hnXR0SM), um sci-fi moderno, denso, que bebe muito de 2001, trazendo muitos outros temas interessantes e atuais, sobre consciência, livre arbítrio, linguagem, neurociência e um outro tipo de primeiro contato. Acerta em certos pontos, e erra grosseiramente em outros. O Arthur C. Clarke dá um banho, com folga, na questão relacionamento entre a tripulação, enquanto o Hard Sci-Fi premiado de 2010 do Watts, com toda a sua profundidade, luta para fazer um diálogo que não seja duro e artificial. Mas, o homem acerta, como disse, em outros pontos e compensa. O primeiro contato lá é muito mais interessante; mas, enfim, divaguei. Conclusão: 2001, filme, livro, analfabetismo, Clarke incontornável, releitura.