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rolandosmedeiros 's review for:

Ser polvo by Santiago Dabove
4.0

(Lido na Antologia da Literatura Fantástica)

''… por muito que se preze a atividade, a mudança, a movimentação humana, na maioria dos casos o homem se move, anda, vai e vem por um calabouço filiforme, prolongado. Aquele que tem por horizonte quatro paredes bem conhecidas e tateadas não difere muito daquele que percorre as mesmas rotas diariamente para cumprir tarefas sempre iguais, em circunstâncias não muito diferentes. Toda essa canseira não vale o beijo mútuo, e nem sequer pactado, entre o vegetal e o sol.''

Até aqui, junto com a Lula Opta por sua Tinta, do Bioy, é o conto que mais personifica a literatura fantástica. É a metamorfose não em besouro ou barata, mas em cacto. Uma metamorfose mui agradável ao personagem.
É uma reflexão de um homem enfermo, azarado, que sofrer uma acidente feio a cavalo, começa a cavar “para tentar se resguardar”, até que começa a transformar-se em vegetal, mais especificamente, em um cacto. Isso, porém, é só a largada, o que nos é apresentado no interior desse conto curto e belíssimo é uma discussão sobre a existência; comparações e ironias sobre sentimentos humanos em contraste com a relação vegetal-terra; questionamentos sobre se há mesmo uma diferença — ou vantagem — tão discrepante assim entre nós e a natureza.

O ponto do Santiago Dabove é que, em uma visão abrangente, ligeiramente pessimista (ou realista, dependendo da sua perspectiva) nos somos meras paisagens na terra, somos menos que vegetais.