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rolandosmedeiros 's review for:
A Good Old-Fashioned Future
by Bruce Sterling, Bruce Sterling
Um Futuro... Não-Muito-Distante.
Coletânea de Contos (1999)
Contos de um futuro-à-moda-antiga; mas, ao mesmo tempo, de um futuro-próximo. Um futuro, em certas cenas e ideias, agora presente. Apesar de decisões estruturais duvidosas, o livro publicado pelo Bruce Sterling um ano antes da virada do milênio ainda é potente pela originalidade: faz um cyberpunk único, com menos cyber e mais punk; menos neon e luzes cromáticas, e mais revoluções tecnológicas e políticas. Cheio de conceitos e ideias originais que se passam em fronteiras geográficas bem delimitadas e reais.
Esse ano mesmo eu li uma ficção científica da década de 2010 (Blindsight, do Watts) que nem de perto fez soar (nem englobou) a sensação de viver nos dias de hoje, globalizado, fluído e flexível em todos os aspectos - para o bem ou mal -, desde o social até o tecnólogico, como faz o Sterling. Até mesmo em questão de estilo: a voz aqui é irreverente, ágil, quase de um jornalismo gonzo, nem um pouco pesada ou científica, ainda que seja ligeiramente densa.
Sterling, que foi um dos pais do Cyberpunk, é aqui bastante cético no exercício de futuro, e essas sete narrativas diversas apresentam incertezas sobre o futuro que, sob as penas de outros escritores do gênero, é muito exagerado ou idealizado; ele é límpido: nós não nós livraremos das nossas bagagens sociais, econômicas e psicológicas tão cedo. Esses outros futuros, mais fantasiosos e imaginativos, estão MUITO distantes ou nem mesmo chegarão próximos de acontecer.
Esse aqui, como você perceberá em certos aspectos ao longo do livro, já aconteceu.
Maneki Neko
Tokyo.
É difícil definir esse conto, que apesar da forma básica, tem um ponto central forte. Não por acaso acabou sendo indicado a diversos prêmios na literatura de gênero. Sterling imagina aqui um tipo de seita de favores, com leve influência da cultura oriental de dar e receber presentes, apoiada na velocidade de compartilhamento de informação no mundo moderno.
Em um “aplicativo de smartphone” o membro/participante deve realizar favores anônimos peculiares mas simples de realizar, e que em si mesmos mal parecem ter importância. Porém, no todo, apoiado por um algoritmo avançado por detrás, na inteligência artificial e também no vasto banco de dados, os pequenos favores (podemos, de certa forma, pensar nos nossos cliques) tem a capacidade de estragar a vida de uma pessoa que entre em conflito de interesse com o aplicativo - o tom e o modo, porém, beira o cômico.
Shimizu Tsuyoshi trabalha convertendo gravações obsoletas e atualizando-as para os novos formatos digitais com auxílio de IAs (como hoje virou coisa comum, bem lembrar: os contos daqui são anteriores a 99') e participa, por lazer, dessa rede de favores e tarefas. Isso significa que, frequentemente, chegam mensagens com instruções estranhas e enigmáticas, mas fáceis de serem realizadas, (ah!, como é antiga a gameficação da vida) que ele deve completar no aplicativo. Essas missõeszinhas diarias vão desde entregar um doce para um desconhecido nas proximidades até pegar o papel higiênico do banheiro público. A rede é automatizada e corre numa miríade de direções, sempre favorecendo aqueles que cumprem com as instruções.
Numa dessas empreitadas, Shimizu cruza com Louise, uma promotora federal dos EUA com ascendência japonesa, que declara histericamente que essa tal rede de presentes (ou favores) é uma conspiração criminosa. Ela se faz de detetive e é ela que puxa o fio da narrativa, com a investigação desse aplicativo logo após passar a ser "indiretamente" perseguida por seus membros. Poderia facilmente ser um conto de horror tecnólogico, mas o Sterling leva bem para o lado humorístico, a exemplo das seções que traduzi livremente:
Maneki Neko é bem prosaico, mas não deixa de ser interessante. Integra nalgumas revistas de ficção científica "The Best of SF" da época. O interessante, ao menos para mim, foi mais a proximidade com o nosso presente que por qualidades narrativas/literárias: o aplicativo, que com ajuda de algoritmos, envia desafios e tarefas por notificações, e a realização destas faz com que o usuário passe a ser compensado facilitando a vida em geral de quem participa e, por consequência, atraindo ainda mais gente, poderia muito bem existir (se é que já não existe) hoje em dia.
Ganhou o Locus (1999) em Best Short Story
Segundo Lugar no Hugo (1999) Best Short Story
Big Jelly
California.
Apesar de não ser o meu favorito da antologia, esse é o meu tipo de conto de ficção científica favorito: totalmente maluco, mas maluco com base científica; de modo que, sem didatismo, lhe entretém e lhe ensina fatos novos e bastantes específicos sobre um certo assunto: nesse caso, sobre diversas espécimes e características das águas vivas. Sobre, também, experimentos biológicos e o Urschleim (o suposto fluido celular da mãe terra, o lodo primordial).
Um ciêntista gay com hiperfoco em águas-vivas artificiais e um barão do petróleo do Texas (a dupla é bem boa de se acompanhar) se unem para desenvolver uma nova patente e acabam por encontrar um líquido anômalo que pode ser ainda mais lucrativo que o ouro negro - porém, o governo não pode saber. Um conto ululante, com um ritmo maluco e uma reta final digna de filme de ação. Decepcionando para quem sempre espera por conclusões catastróficas ou grandiosas, mas agradável (como eu) para quem se diverte e se deixa levar pelas águas-vivas artificiais cheias de hélio.
The Littlest Jackal
Finlândia.
Numa narrativa que fica bem naquele limiar que ele mesmo nomeou (o slipstream) entre a ficção científica e a ficção entre aspas mainstream, acompanhamos Leggy Starlitz, Khoklov, Raf-Chacal e Aino num golpe político que toma como base nossas famigeradas "revoluções sulamericanas" e as junta com as runs tecnológicas num contexto de leste-europeu.
É um bom conto, talvez um pouco extenso e ligeiramente anticlimático, mas, como dizem, o que importa é experiência, e a ela é interessante. O ponto que o Sterling toca nesse conto é de que de certa maneira, nos já estamos vivendo em um cenário Cyberpunk.
Toda a tecnologia do conto é real, assim como as facções e organizações políticas, com um pluszinho a mais. Acrescenta-se aí, no entanto, algumas organizações e uma temática bem “shadowrun”: um culto apocalíptico japonês; uma equipe de ataque da Mossad; uma tentativa de montar banco/paraíso fiscal para lavagem dinheiro; e, no meito de tudo, uma organização social de finlandeses que quer estabelecer um estado livre na Finlândia, junto de ex-agentes da KGB. Há até, mais uma subnarrativa, um destauqe para uma escritora de livros infantis finalandesa que viralizou no Japão (referência aos Moonins). É um conto que exemplifica bem o conceito que o Sterling tem da globalização, vista de 99”.
Há uma contrapartida: é fácil perder-se, principalmente quando se descobre que o conto se insere e também finaliza uma sequência narrativa que provém de outros livros e outros contos. Isso explica, mas não exime, a falta de credibilidade (ou mesmo qualidade) do desfecho narrativo.
Por que razão montar, em uma antologia, um sequência de contos que é cronológica e bem amarrada (chegaremos lá, são as próximas histórias), e antes, um conto (este) que é o encerramento, deslocado, de um “outro universo”? Decisão estranha.
Sacred Cow
India/Inglaterra
De longe o pior conto da antologia. Em resumo, o ocidente foi dizimado pela doença da vaca louca, e só sobraram algumas sociedades asiáticas que tratavam a v cacaomo animal sagrado, ou seja, não a comiam, daí o título. A trama se desenvolve num teatro/cinema, Bollywood tornada Hollywood, e não me lembro mais de muita coisa além de envolve filmes baratos, cinema indiano, e que me entediou até a alma.
Deep Eddy
Düsseldorf
Eu consigo contar nos dedos da mão esquerda quantas narrativas de ficção científica conseguem se sustentar e sobressair apenas na relação ente personagens. Com só dois personagens, então, apenas essa: Deep Eddy do Sterling.
Eddy é um traficante de spex-ware (pelo que eu entendi, um tipo de óculos de realidade aumentada e integrada) e Sardelle, uma segurança proletariada, cansada e desgastada que deve levar Eddy até um comprador que o trouxe do Tennessee até Dusseldorf. Ela é extremamente direta e faz tudo para que seu trabalho seja facilitado, e é isso que deixa toda a interação entre ambos realmente divertida e engraçada de ler; a primeira metade do conto é praticamente só de turismo e interação, e é curiosamente bom.
Düsseldörf está tendo um dos infames Wendes, uma reunião espontânea, no contexto do conto, que mistura torcida organizada (Hooligans), cyberpunks libertários como o próprio Eddy, fornecedores e contrabandistas de pornografia ilegal, manuais para manufaturação de bombas, drogas e armas, info política, e outras pessoas tão esquisitas quanto. Isso tudo é inicialmente pano de fundo para a relação entre o Eddy e a Sardelle, e também entre o mundo real e o mundo visto através do spex (Eddy até este momento de sua vida vivia quase mergulhado num metaverso, onde até suas relações sexuais se davam por lá por lá), culminando no ideal disforme do Americano de querer se envolver na política dos outros países.
O Wende carnavalesco faz tudo se descabelar e cluminar em uma conclusão maluca e caótica, que eu não vou estragar, mas que tem a ver com manifestações sociais e políticas.É um outro conto bem bom, pau a pau, ou ligeiramente inferior, ao conto final do livro, que também faz parte desse mesmo universo, a “trilogia de Chattanooga”.
Alguns trechos livremente traduzidos:
Bicycle Repairman
Tennessee, Chattanooga.
Nessa “sequência”, que cronologicamente se passa enquanto o Eddy do conto anterior está na Europa, tornamos a um conto de ficção científica mais, digamos, estrito; com ideias e conceitos estranhos e únicos.
Ainda sim, porém, mais uma vez o Sterling joga a ação central do conto para o diálogo (aqui bastante expositivo, sim, é normal nesse gênero) ressaltando talvez a única coisa que se repete ao longo dos contos, e não é uma crítica, que é a voz do narrador das histórias.
A protagonista é Lyle, uma amiga do Eddy. Uma “neuter”, mulher assexuada que participa dos novos – e diversos – movimentos de gênero que proliferaram nesse futuro (eu não disse que era um futuro-presente?), promovendo a “Deliberação Sexual”, a liberação para quem quiser de uma cirurgia que artificialmente erradica o desejo e impulso sexual das pessoas.
Como o título diz, ela também conserta e é obcecada por bicicletas. E é para essa loja que o Eddy sorrateiramente manda, recebe e comercia os seus specs-ware tecnológicos. Lyle recebe, como sempre, mais um desses pacotes, e julga ser só mais quincarias do Eddy. Até a loja ser invadida pelo segurança de um político que tenta roubar o pacote.
Aperte os cintos.
A partir daqui revela-se que o pacote tem relação com a NAFTA (que também aparece na conclusão do conto anterior) e com a União Europeia; mais especificamente: o pacote é uma gravação que pode revelar e incriminar o Senador da NAFTA como sendo um Mook. Isso significa que, um antigo software anteriormente utilizado para ser um assistente artificial do político na companha, sussurrando no seu ouvido uma retórica perfeita, valores morais firmes e políticas excelentes, tomou, roubou e assumiu identidade do homem. A inteligência artificial passou a crer ser o próprio Senador e agir como tal.
Lyle, não faz a mínima ideia de tudo isso, e as armadilhas (medidas de segurança pela região problemática onde aluga a lojja) pegam o agente do Senador. Ela não sabe bem o que fazer, e liga para o Pete, um amigo que faz parte das “Aranhas da Cidade”, um grupo de escaladores urbanos, altamente tecnológicos, que sobem os arranha-céus das megalópoles apenas pela emoção de subir; invadem prédios mega protegidos e classificados apenas pela adrenalina de trespassá-los
Com Pete, vem Mabel, e o conto se revolve a partir daí no diálogo ente os quatro personagens. Kitty (a agente capturada) passa a ser a interrogada; ninguém ali sabe muito bem o que fazer. Uma “Neuter”, um Escalador Urbano, uma Liberal-Progressista e uma Agente Esecial de um político. O que pode se esperar disso? Para onde isso vai?
Um pouco cansativo, mas no fim bem diveritdo..
Taklamakan
De longe o conto mais surpreendente, engenhoso e interessante da coleção. Em questões de enredo é o meu favorito. É ficção científica clássica e, sobretudo, boa.
Taklamakan é o nome do conto e do deserto real da Ásia Central onde se passa a história, que também encerra a trilogia narrativa iniciada em Deep Eddy. Passou-se dez anos desde os acontecimentos de Bicycle Repairman, e o que ressurge nesse conto são alguns isolados conceitos e instituições anteriormente utilizadas, podendo muito bem ser lido isoladamente.
Caçadores de Recompensas modernos (ex-escaladores urbanos) recebem uma informação que pode vir a ser muitíssimo lucrativa, e buscam se infiltrar em uma base de foguetes desativada que pentecia, supostamente, à União Asiática.
Encontram, no lugar, um enorme buraco artificial, que guardava um segredo assustadoramente estranho: com interesse em testar a viabilidade das viagens espaciais demasiado longas, e com as tribos do deserto incomodando, a NASA junto com essa União Asiática, enfiam três naves espaciais falsas em um buraco gigantesco no deserto, e convidam (não gentilmente) a população daquela região (não tão literalmente) a viajarem para o espaço.
O porém: as Naves não decolam, e sim afundam. É tudo ilusório. As paredes, o buraco e as naves foram preparadas para passar a sensação de que aquelas pessoas estavam realmente viajando no espaço (estrelas e galáxias móveis são projetadas nas paredes que encobrem as janelas), mas estavam mesmo paradas, no fundo de um buraco, no meio do deserto. Tudo a fim de testar vários aspectos de engenharia social, testar os efeitos de uma viagem espacial de centenas de ano sem arriscar a fazê-la.
É isso que os Caçadores de Recompensa encontram, e o desenvolvimento do enredo se dá na tentativa de entrar e de ter contato com a população das naves (que, spoiler, acontece). O povo, que inicialmente parecia alheio, julgando estarem viajando no espaço, dão indícios diferentes: uma nave está completamente silenciosa; outra, julga estar no espaço e sendo visitada por alienigenas ou espíritos; e, principalmente, na última nave algumas pessoas não parecem estar totalmente enganadas...
Outro final digno de filme de ação. Conto interessantíssimo e não é atoa que ganhou o Hugo e o Locus de Melhor Noveleta. Um ótimo fechamento para a Coletânea.
Coletânea de Contos (1999)
Contos de um futuro-à-moda-antiga; mas, ao mesmo tempo, de um futuro-próximo. Um futuro, em certas cenas e ideias, agora presente. Apesar de decisões estruturais duvidosas, o livro publicado pelo Bruce Sterling um ano antes da virada do milênio ainda é potente pela originalidade: faz um cyberpunk único, com menos cyber e mais punk; menos neon e luzes cromáticas, e mais revoluções tecnológicas e políticas. Cheio de conceitos e ideias originais que se passam em fronteiras geográficas bem delimitadas e reais.
Esse ano mesmo eu li uma ficção científica da década de 2010 (Blindsight, do Watts) que nem de perto fez soar (nem englobou) a sensação de viver nos dias de hoje, globalizado, fluído e flexível em todos os aspectos - para o bem ou mal -, desde o social até o tecnólogico, como faz o Sterling. Até mesmo em questão de estilo: a voz aqui é irreverente, ágil, quase de um jornalismo gonzo, nem um pouco pesada ou científica, ainda que seja ligeiramente densa.
Sterling, que foi um dos pais do Cyberpunk, é aqui bastante cético no exercício de futuro, e essas sete narrativas diversas apresentam incertezas sobre o futuro que, sob as penas de outros escritores do gênero, é muito exagerado ou idealizado; ele é límpido: nós não nós livraremos das nossas bagagens sociais, econômicas e psicológicas tão cedo. Esses outros futuros, mais fantasiosos e imaginativos, estão MUITO distantes ou nem mesmo chegarão próximos de acontecer.
Esse aqui, como você perceberá em certos aspectos ao longo do livro, já aconteceu.
Maneki Neko
Tokyo.
É difícil definir esse conto, que apesar da forma básica, tem um ponto central forte. Não por acaso acabou sendo indicado a diversos prêmios na literatura de gênero. Sterling imagina aqui um tipo de seita de favores, com leve influência da cultura oriental de dar e receber presentes, apoiada na velocidade de compartilhamento de informação no mundo moderno.
Em um “aplicativo de smartphone” o membro/participante deve realizar favores anônimos peculiares mas simples de realizar, e que em si mesmos mal parecem ter importância. Porém, no todo, apoiado por um algoritmo avançado por detrás, na inteligência artificial e também no vasto banco de dados, os pequenos favores (podemos, de certa forma, pensar nos nossos cliques) tem a capacidade de estragar a vida de uma pessoa que entre em conflito de interesse com o aplicativo - o tom e o modo, porém, beira o cômico.
Shimizu Tsuyoshi trabalha convertendo gravações obsoletas e atualizando-as para os novos formatos digitais com auxílio de IAs (como hoje virou coisa comum, bem lembrar: os contos daqui são anteriores a 99') e participa, por lazer, dessa rede de favores e tarefas. Isso significa que, frequentemente, chegam mensagens com instruções estranhas e enigmáticas, mas fáceis de serem realizadas, (ah!, como é antiga a gameficação da vida) que ele deve completar no aplicativo. Essas missõeszinhas diarias vão desde entregar um doce para um desconhecido nas proximidades até pegar o papel higiênico do banheiro público. A rede é automatizada e corre numa miríade de direções, sempre favorecendo aqueles que cumprem com as instruções.
Numa dessas empreitadas, Shimizu cruza com Louise, uma promotora federal dos EUA com ascendência japonesa, que declara histericamente que essa tal rede de presentes (ou favores) é uma conspiração criminosa. Ela se faz de detetive e é ela que puxa o fio da narrativa, com a investigação desse aplicativo logo após passar a ser "indiretamente" perseguida por seus membros. Poderia facilmente ser um conto de horror tecnólogico, mas o Sterling leva bem para o lado humorístico, a exemplo das seções que traduzi livremente:
“Ela suspira. — Eu sento nas cadeiras, e alguém deixou um chiclete colado. Recebo pizzas de graça, mas são de, um exemplo dessa semana mesmo, catupiry com abacaxi. Eu coloco a cabeça fora da janela e é quase certo que eu leve uma cusparada ou coisa pior. Sempre que estou com pressa, o meu lado da fila se enche de idosos que são preferencialmente passados à frente. (…)
— Na rua, a descarga nunca funciona, — diz Louise. — Minhas encomendas sempre se perdem nos correios. Quando passo do lado dos carros, os alarmes disparam. E todos os olhos me encontram. São sempre essas coisinhas. Coisinhas minúsculas, mas que nunca, nunca cessam. Eu estou remando contra algo muito maior que eu, e muito, muito paciente. Eles sabem tudo sobre mim. Possuem milhões de braços e pernas. E esses braços e pernas são cada uma dessas pessoas, cada um desses usuários.”
Maneki Neko é bem prosaico, mas não deixa de ser interessante. Integra nalgumas revistas de ficção científica "The Best of SF" da época. O interessante, ao menos para mim, foi mais a proximidade com o nosso presente que por qualidades narrativas/literárias: o aplicativo, que com ajuda de algoritmos, envia desafios e tarefas por notificações, e a realização destas faz com que o usuário passe a ser compensado facilitando a vida em geral de quem participa e, por consequência, atraindo ainda mais gente, poderia muito bem existir (se é que já não existe) hoje em dia.
Ganhou o Locus (1999) em Best Short Story
Segundo Lugar no Hugo (1999) Best Short Story
Big Jelly
California.
Apesar de não ser o meu favorito da antologia, esse é o meu tipo de conto de ficção científica favorito: totalmente maluco, mas maluco com base científica; de modo que, sem didatismo, lhe entretém e lhe ensina fatos novos e bastantes específicos sobre um certo assunto: nesse caso, sobre diversas espécimes e características das águas vivas. Sobre, também, experimentos biológicos e o Urschleim (o suposto fluido celular da mãe terra, o lodo primordial).
Um ciêntista gay com hiperfoco em águas-vivas artificiais e um barão do petróleo do Texas (a dupla é bem boa de se acompanhar) se unem para desenvolver uma nova patente e acabam por encontrar um líquido anômalo que pode ser ainda mais lucrativo que o ouro negro - porém, o governo não pode saber. Um conto ululante, com um ritmo maluco e uma reta final digna de filme de ação. Decepcionando para quem sempre espera por conclusões catastróficas ou grandiosas, mas agradável (como eu) para quem se diverte e se deixa levar pelas águas-vivas artificiais cheias de hélio.
The Littlest Jackal
Finlândia.
Numa narrativa que fica bem naquele limiar que ele mesmo nomeou (o slipstream) entre a ficção científica e a ficção entre aspas mainstream, acompanhamos Leggy Starlitz, Khoklov, Raf-Chacal e Aino num golpe político que toma como base nossas famigeradas "revoluções sulamericanas" e as junta com as runs tecnológicas num contexto de leste-europeu.
É um bom conto, talvez um pouco extenso e ligeiramente anticlimático, mas, como dizem, o que importa é experiência, e a ela é interessante. O ponto que o Sterling toca nesse conto é de que de certa maneira, nos já estamos vivendo em um cenário Cyberpunk.
Toda a tecnologia do conto é real, assim como as facções e organizações políticas, com um pluszinho a mais. Acrescenta-se aí, no entanto, algumas organizações e uma temática bem “shadowrun”: um culto apocalíptico japonês; uma equipe de ataque da Mossad; uma tentativa de montar banco/paraíso fiscal para lavagem dinheiro; e, no meito de tudo, uma organização social de finlandeses que quer estabelecer um estado livre na Finlândia, junto de ex-agentes da KGB. Há até, mais uma subnarrativa, um destauqe para uma escritora de livros infantis finalandesa que viralizou no Japão (referência aos Moonins). É um conto que exemplifica bem o conceito que o Sterling tem da globalização, vista de 99”.
Há uma contrapartida: é fácil perder-se, principalmente quando se descobre que o conto se insere e também finaliza uma sequência narrativa que provém de outros livros e outros contos. Isso explica, mas não exime, a falta de credibilidade (ou mesmo qualidade) do desfecho narrativo.
Por que razão montar, em uma antologia, um sequência de contos que é cronológica e bem amarrada (chegaremos lá, são as próximas histórias), e antes, um conto (este) que é o encerramento, deslocado, de um “outro universo”? Decisão estranha.
Sacred Cow
India/Inglaterra
De longe o pior conto da antologia. Em resumo, o ocidente foi dizimado pela doença da vaca louca, e só sobraram algumas sociedades asiáticas que tratavam a v cacaomo animal sagrado, ou seja, não a comiam, daí o título. A trama se desenvolve num teatro/cinema, Bollywood tornada Hollywood, e não me lembro mais de muita coisa além de envolve filmes baratos, cinema indiano, e que me entediou até a alma.
Deep Eddy
Düsseldorf
Eu consigo contar nos dedos da mão esquerda quantas narrativas de ficção científica conseguem se sustentar e sobressair apenas na relação ente personagens. Com só dois personagens, então, apenas essa: Deep Eddy do Sterling.
Eddy é um traficante de spex-ware (pelo que eu entendi, um tipo de óculos de realidade aumentada e integrada) e Sardelle, uma segurança proletariada, cansada e desgastada que deve levar Eddy até um comprador que o trouxe do Tennessee até Dusseldorf. Ela é extremamente direta e faz tudo para que seu trabalho seja facilitado, e é isso que deixa toda a interação entre ambos realmente divertida e engraçada de ler; a primeira metade do conto é praticamente só de turismo e interação, e é curiosamente bom.
Düsseldörf está tendo um dos infames Wendes, uma reunião espontânea, no contexto do conto, que mistura torcida organizada (Hooligans), cyberpunks libertários como o próprio Eddy, fornecedores e contrabandistas de pornografia ilegal, manuais para manufaturação de bombas, drogas e armas, info política, e outras pessoas tão esquisitas quanto. Isso tudo é inicialmente pano de fundo para a relação entre o Eddy e a Sardelle, e também entre o mundo real e o mundo visto através do spex (Eddy até este momento de sua vida vivia quase mergulhado num metaverso, onde até suas relações sexuais se davam por lá por lá), culminando no ideal disforme do Americano de querer se envolver na política dos outros países.
O Wende carnavalesco faz tudo se descabelar e cluminar em uma conclusão maluca e caótica, que eu não vou estragar, mas que tem a ver com manifestações sociais e políticas.É um outro conto bem bom, pau a pau, ou ligeiramente inferior, ao conto final do livro, que também faz parte desse mesmo universo, a “trilogia de Chattanooga”.
Alguns trechos livremente traduzidos:
“Sardelle suspirou. — Descobrimos que você é um homem solteiro, entre dezoito e trinta anos. Sem trabalho fixo. Sem teto fixo. Sem esposa, sem filhos. Inclinações politicas radicais; viaja com frequência. Sua demografia é altamente perigosa.‘’
"Eddy sentiu o feitiço da viagem tomá-lo; (…) Uma outra hora, um outro lugar: quaisquer que fossem o vasto conjunto de impossibilidades que militaram contra a sua presença ali, todas haviam sido derrotadas. Era uma noite de sexta feira em Düsseldorf, 13 de Julho, 2035… O relógio marcava dez e dez. A sincronicidade ganhava aspectos mágicos."
"Ela evitava encontrar seus olhos; sua cabeça lançava-se em todas direções como se estivesse mortalmente envergonhada. Eddy logo percebeu que ela estava, na verdade, escaneando metodicamente o rosto de cada estranho no ônibus.“
Bicycle Repairman
Tennessee, Chattanooga.
Nessa “sequência”, que cronologicamente se passa enquanto o Eddy do conto anterior está na Europa, tornamos a um conto de ficção científica mais, digamos, estrito; com ideias e conceitos estranhos e únicos.
Ainda sim, porém, mais uma vez o Sterling joga a ação central do conto para o diálogo (aqui bastante expositivo, sim, é normal nesse gênero) ressaltando talvez a única coisa que se repete ao longo dos contos, e não é uma crítica, que é a voz do narrador das histórias.
A protagonista é Lyle, uma amiga do Eddy. Uma “neuter”, mulher assexuada que participa dos novos – e diversos – movimentos de gênero que proliferaram nesse futuro (eu não disse que era um futuro-presente?), promovendo a “Deliberação Sexual”, a liberação para quem quiser de uma cirurgia que artificialmente erradica o desejo e impulso sexual das pessoas.
Como o título diz, ela também conserta e é obcecada por bicicletas. E é para essa loja que o Eddy sorrateiramente manda, recebe e comercia os seus specs-ware tecnológicos. Lyle recebe, como sempre, mais um desses pacotes, e julga ser só mais quincarias do Eddy. Até a loja ser invadida pelo segurança de um político que tenta roubar o pacote.
Aperte os cintos.
A partir daqui revela-se que o pacote tem relação com a NAFTA (que também aparece na conclusão do conto anterior) e com a União Europeia; mais especificamente: o pacote é uma gravação que pode revelar e incriminar o Senador da NAFTA como sendo um Mook. Isso significa que, um antigo software anteriormente utilizado para ser um assistente artificial do político na companha, sussurrando no seu ouvido uma retórica perfeita, valores morais firmes e políticas excelentes, tomou, roubou e assumiu identidade do homem. A inteligência artificial passou a crer ser o próprio Senador e agir como tal.
Lyle, não faz a mínima ideia de tudo isso, e as armadilhas (medidas de segurança pela região problemática onde aluga a lojja) pegam o agente do Senador. Ela não sabe bem o que fazer, e liga para o Pete, um amigo que faz parte das “Aranhas da Cidade”, um grupo de escaladores urbanos, altamente tecnológicos, que sobem os arranha-céus das megalópoles apenas pela emoção de subir; invadem prédios mega protegidos e classificados apenas pela adrenalina de trespassá-los
Com Pete, vem Mabel, e o conto se revolve a partir daí no diálogo ente os quatro personagens. Kitty (a agente capturada) passa a ser a interrogada; ninguém ali sabe muito bem o que fazer. Uma “Neuter”, um Escalador Urbano, uma Liberal-Progressista e uma Agente Esecial de um político. O que pode se esperar disso? Para onde isso vai?
Um pouco cansativo, mas no fim bem diveritdo..
Taklamakan
De longe o conto mais surpreendente, engenhoso e interessante da coleção. Em questões de enredo é o meu favorito. É ficção científica clássica e, sobretudo, boa.
Taklamakan é o nome do conto e do deserto real da Ásia Central onde se passa a história, que também encerra a trilogia narrativa iniciada em Deep Eddy. Passou-se dez anos desde os acontecimentos de Bicycle Repairman, e o que ressurge nesse conto são alguns isolados conceitos e instituições anteriormente utilizadas, podendo muito bem ser lido isoladamente.
Caçadores de Recompensas modernos (ex-escaladores urbanos) recebem uma informação que pode vir a ser muitíssimo lucrativa, e buscam se infiltrar em uma base de foguetes desativada que pentecia, supostamente, à União Asiática.
Encontram, no lugar, um enorme buraco artificial, que guardava um segredo assustadoramente estranho: com interesse em testar a viabilidade das viagens espaciais demasiado longas, e com as tribos do deserto incomodando, a NASA junto com essa União Asiática, enfiam três naves espaciais falsas em um buraco gigantesco no deserto, e convidam (não gentilmente) a população daquela região (não tão literalmente) a viajarem para o espaço.
O porém: as Naves não decolam, e sim afundam. É tudo ilusório. As paredes, o buraco e as naves foram preparadas para passar a sensação de que aquelas pessoas estavam realmente viajando no espaço (estrelas e galáxias móveis são projetadas nas paredes que encobrem as janelas), mas estavam mesmo paradas, no fundo de um buraco, no meio do deserto. Tudo a fim de testar vários aspectos de engenharia social, testar os efeitos de uma viagem espacial de centenas de ano sem arriscar a fazê-la.
É isso que os Caçadores de Recompensa encontram, e o desenvolvimento do enredo se dá na tentativa de entrar e de ter contato com a população das naves (que, spoiler, acontece). O povo, que inicialmente parecia alheio, julgando estarem viajando no espaço, dão indícios diferentes: uma nave está completamente silenciosa; outra, julga estar no espaço e sendo visitada por alienigenas ou espíritos; e, principalmente, na última nave algumas pessoas não parecem estar totalmente enganadas...
Outro final digno de filme de ação. Conto interessantíssimo e não é atoa que ganhou o Hugo e o Locus de Melhor Noveleta. Um ótimo fechamento para a Coletânea.