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rolandosmedeiros 's review for:

Koolau the Leper by Jack London
4.0

Koolau, o Leproso — 15pp
Um exército revolucionário de Leprosos


"Era aquélla la danza de los muertos vivos, porque la vida seguía amando y anhelando en sus cuerpos en desintegración."


Já li o London outras vezes — adoro o To Build a Fire —, e não lembro como cheguei a este conto. A este bom conto, por sinal. Ritmo frenético, ação, violência, e imagens claríssimas, muito visuais: quase se ouve o som das rajadas de metralhadora do Koolau ou dos bombardeios americanos à ilha os leprosos.

É, antes de tudo, uma ficção histórica (ficção, galera, ficção!)*. Koolau é um havaiano, que como muitos outros com quem convive, contraiu a lepra por conta do fluxo de pessoas devido à dominação e abertura das ilhas. O governo, vendo o número de aflitos só crescendo e sem muita certeza de como a doença se transmite ou se cura, abre um decreto que todos os leprosos devem ser enviados para Malokai — uma ilha-prisão.

O conto abre com um discurso de Koolau para outros leprosos justamente contra isso. Dá a entender que já passou algum tempo desde a decisão do governo, e Koolau e os poucos que conseguiu juntar e fugir para a Ilha de Kalalau já estão cansados, só querem viver o final de suas vezes como seres-humanos, amando, desejando, se divertindo, mesmo deformados pela doença (a quote inicial vem daí). O narrador até usa o termo "criaturas", a dado momento.

" — Nos privan de la libertad porque estamos enfermos. Hemos acatado la ley. No hemos hecho nada malo. Y, sin embargo, nos encierran en una prisión. Molokai es una cárcel. Vosotros lo sabéis. Ahí tenéis a Niuli. Mandaron a su hermana a Molokai hace siete años. Desde entonces no ha vuelto a verla ni volverá a verla jamás."


Isso, é claro, vira um problema para o governo. Eles enviam frequentemente pequenas patrulhas para a Ilha, mas Koolau domina o terreno do lugar, repetidamente rechaça ou mata-os. E isso começa a pesar para o governo: um bando de leprosos, deformados, vencendo-nos de novo e de novo?, não pode! Decidem, finalmente, mandar um pequeno exército para tomar a ilha, com morteiros e tudo.

Daí desenvolvem-se as melhores partes do conto: a última dança/festa dos Leprosos; a preparação para a chegada do exército; a carnificina completa na ilha, cenas dignas do melhor do cinema de ação/guerra; sobretudo a cena de Koolau protegendo a única ponte que dá acesso à parte de cima da Ilha. A caracterização da ilha, aliás, é muito boa. Há bombardeios, trocas de tiro em passagens estreitas, emboscadas na floresta, armadilhas… É o cinema de ação atomizado em quinze páginas.

Descrições muito boas — no meio da troca de tiro, Koolau sente o cheiro de carne queimada, e só então percebe que é a própria carne dele queimando sob a metralhadora —, do tipo
"Mientras Koolau seguía disparando sobre ellos, llegó a su olfato un olor a carne chamuscada. Miró en torno suyo, y al poco descubrió que procedía de sus propias manos. Era el calor del rifle. La lepra había destruido la mayor parte de los nervios de sus extremidades y aunque su propia carne se abrasaba y él sentía el olor, no experimentaba la menor sensación"


E se você acha que a narrativa acabará com algum tipo de moral — como nos filmecos —, você se engana. O conto sofre uma virada, e da destruição patente (buracos, deslizamentos, corpos despedaçados, bombas zunindo, "traição") o que fica são várias reflexões sobre liberdade interrompida; raiva, violência e revolta que une e que isola; o orgulho da liberdade e o encaminhamento para um fim solitário, trágico.

Eu cada vez mais gosto do London.

[[A tradução para o espanhol é do Luis López Nieves e está disponível na internet, btw]]

~ ~ ~

[*A narrativa é de 1900s. Enfatizei ficção histórica porque bati o olho numa análise gigantesca de um descendente (se não me engano) de Havaianos que fez praticamente uma tese de umas sessenta páginas de como o London mentiu e inventou e coisa e tal. Mas é claro, meu amigo, é ficção! Queria o quê?

Há realmente problemas de representação (o narrador utiliza algumas palavras estranhas quanto aos chineses), mas não está na narrativa de todo. Não importa que o nome dos lugares sejam reais, que a própria história seja BASEADA em um evento histórico real. Ele inventou um monte em cima, há narrador, há personagens, há uma finalidade estética. Até o uso da palavra "criaturas" para os leprosos tem um sentido, a desumanização deles reflete a desumanização que o próprio exército e governo fez deles. O narrador em terceira pessoa, na minha leitura, está imerso no fogo cruzado, ponto esse que é central no conto.]