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rolandosmedeiros

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"A depressão recaiu em seus espíritos. À noite, ficavam sentados na nova casa, após o cansaço de um dia, e não trocavam palavra, ou o silêncio era rompido pelas lamúrias repentinas de Kokua. Às vezes, rezavam juntos; às vezes, colocavam a garrafa no chão, e observavam por toda a noite como ele [o demônio] flutuava no meio. Nesses momentos, sentiam medo de descansar."


De acordo com o breve comentário que antecede a narrativa, o escocês Stevenson, em 1887, um escritor-celebridade, observou as dezenas de jornalistas que o esperavam ansiosos atracar no porto de Nova York e afirmou à esposa: "Se fosse a chegada de Jesus Cristo, não fariam tamanha balbúrdia"

Stevenson, que tem como título "Contador de Histórias (Tusitala)" faz em O Demônio na Garrafa um conto com uma narrativa interessante, linguagem clara, boa atmosfera, mas demasiado alongado. Gênios mágicos e desejos sendo realizados estão presentes e espalhados pela literatura praticamente desde sempre, e parece lógico que um escritor conhecido pelo seu dom de contar histórias também explore esse tema tão caro.

Aqui não há lâmpadas, limites de três pedidos ou desejos sendo levados ao pé da letra. Há uma garrafa, um diabo preso dentro dela e duas regras simples: se alguém morrer em posse da garrafa, irá direto para o inferno; e a garrafa precisa ser vendida, obrigatoriamente, por um valor menor do que aquele pelo qual ela foi comprada. A cada momento, portanto, ela está com o preço mais baixo, gera desconfiança em quem compra e dificultando a venda, ao contrário do que possa se pensar. Estar em posse da garrafa é (dependendo do ponto de vista, vide o final) uma benção ou uma maldição, e o Stevenson é extremamente em trabalhar com esse artefato no desenrolar da trama.

Em primeiro plano, desde a apresentação da garrafa, não há ilusão de que o artefato seja minimamente bom ou natural, desde a primeira vez que aparece fica claro que ele gera e atrai problemas. Torce pedidos a torto e a direito e, se o demônio que existe dentro dele é verdadeiro, sua única vontade é arrastar o portador do objeto ao inferno. Em segundo plano temos o protagonista lutando para se livrar da garrafa, o que abre espaço para nos aprofundarmos na relação entre ele e a esposa, e é o que faz correr a trama.

O desfecho, porém, não é tão interessante quanto todo o desenrolar do conto. Talvez na época fosse raro e surpreendente, mas hoje em dia é fácil imaginar que acabaria por aparecer um maluco que não liga para as consequências de usar e morrer com o objeto em mãos, o que torna a preocupação do protagonista — crucial pro impacto final — um pouco exagerada, nessa ótica.

No geral, é um bom conto; fantasioso e sobrenatural, mas com o pé no chão para falar sobre desejos, amor e frustração. E, além disso, valeu a pena por ter adicionado mais uma história dessa temática na minha lista de lidos, ao lado de outras ilustres como A Pata do Macaco, e outros contos do Tchekhov e do Kilping.

Beck — Volume 1 ao 5

Beck de Harold Sakuichi é um mangá majoritariamente sobre música, mas que não se restringe a demografias ou gêneros específicos, e funciona porque se transforma em uma experiência nostálgica, real e irreal, de momentos vividos e não vividos de nossas vidas. Se você já participou de uma banda, tentou aprender algum instrumento ou apenas se imaginou na pele daquele ou daquela vocalista cantando AQUELA música, é o mangá para você, para nós. Eu ponho minha mão no fogo: duvido que o mangá não te reaproxime da música e dessas memórias ternas da infância/adolescência. Só tem contraparte na literatura ou no cinema, a exemplos de Só Garotos, Mate-me por Favor ou Kino.

Em aspectos técnicos, questão de arte e de narrativa, nesses primeiros cinco volumes, Beck é bem abaixo do padrão, em geral; mas, você tem que dar uma chance, Beck se sustenta pelo tom, pela diversidade de emoções que despertam no leitor, pelas personagens em meio a uma vida que é simples e caótica ao mesmo tempo.

Beck gira em torno da banda formada por Ryuusuke e sua ascensão à fama; no entanto, é Koyuki que acompanhamos intimamente, e é ele que vai representar a gente. É um garoto que fissurado por música, que acompanha a cena da sua cidade, ouve discos importados, mas que se julga sem talento para ser músico. Até que ele se encontra com o Ryuusuke, e o foco se torna no garoto tentando aprender a tocar, descobrir sua própria voz e seu valor por meio da música; seus problemas, sua fobia social, sua dificuldade em aprender o violão, e seus problemas com bullyng na escola. Enquanto, em paralelo, a música vai crescendo dentro dele enquanto visita shows em bares sujos e subterrâneos ou festivais de música como fã da banda do Ryuusuke. Há sempre um embate duro com a tristeza e a falta de autoestima.

Beck não é só um shonen de esporte onde o esporte é trocado pelo música. O apoio, o carinho, e o humor que os integrantes da banda compartilham ao longo dos volumes, os shows e os amores juvenis, a diversão despojada e o perigo causado pela irresponsabilidade, tudo isso te faz sentir como parte de tudo aquilo, daquele círculo, daquela cena, daquela cidade. É revigorante, animador, e apesar dos clichês e do fanservice exagerado, torna o todo extremamente valioso; é algo muito maior que o simples amor pela música, é o amor de por meio dela fazer e experienciar novas conexões transformadoras com outras pessoas.

No primeiro volume temos apenas um vislumbre de tudo isso. Mas já fica evidente a qualidade da caracterização dos personagens e a fácil identificação com eles. A arte é competente, sem mudanças bruscas ao longo dessas primeiras edições; é cômica, utilizando bastante do exagero e de expressões faciais grotescas e cartunescas; mas, em balanço, as páginas-duplas dos shows, dos bares, dos personagens tocando, são feitas com esmero, belas e realistas. Tenho um monte de wallpappers salvos dessa cena.

É pertinente fazer o questionamento sobre como um mangá sobre música, sobre uma banda compondo, tocando e criando, daria certo em uma mídia que não possui áudio. E eu adianto, está aí um dos tesouros do mangá e grande exemplo da habilidade do Harold Sakuishi: funciona excepcionalmente bem, e, até, não por coincidência os shows são as melhores partes do mangá. É pelo conjunto e por como ele constrói tudo, junto das páginas duplas e da mistura entre reação do público, olhares entre os membros, composição de cena.

No entanto, como disse, é preciso muito do "feeling" para o mangá se sobressair. Recomendo assistirem o anime de Beck, que esse sim tem o componente do áudio (a OST é muuuito boa, com composições de uma banda original que encarna a banda do Mangá alá Scott Pilgrim), e é uma ótima adaptação dos primeiros volumes. Não se preocupem, o mangá não vai muito longe, e se você gostar vai ter de encarar o mangá para continuar a história.

Assim, Beck se faz uma peça única num mar de repetitivos slice of lifes e shounens genéricos de esporte — um panorama que só começou a mudar recentemente, quase 20 anos depois de seu lançamento. É quase impossível ele não lhe impulsionar a ouvir um som que você curte, ou até mesmo te tentar a aprender ou reaprender tocar aquele instrumento que você largou ou que sempre quis aprender instrumento. É cheio de referências ao Rock e o mangá transpira amor por ele.

Beck, uma história sobre música em uma mídia sem som, é um grito mudo ou o reverberar de uma guitarra silenciosa que ecoa dentro da gente, através de páginas preto e brancas, e ressoa na memória de todos aqueles que algum dia se conectaram com a história. Recomendadíssimo.

3.5

"– Posso realizar tudo que se passa na cabeça – afirmava Micromil, – porém não me lembro de tudo. Isso me limita, e a você também, pois não somos capazes de imaginar tudo que pode ser imaginado; e é muito possível de que exista alguma coisa que não seja exatamente aquilo que estamos imaginando e construindo e que valha a pena ser feita. Não acha?"


A curiosa teogonia do Stanislaw Lem. Um conto curioso que tenta explicar — com uma clareza fictícia — como a disputa entre dois mestres da arte da criação cosmogônica resultou na gênese, expansão, e motivo de tudo no universo girar em torno de si.

É uma pequena vignette que mistura mitologia, alegoria e fábula e que, apesar do tamanho, suscita diversos pensamentos e reflexões acerca do universo, tudo coroado pelo bom humor e imaginação do Lem. Uma boa leitura.

"– Para que serve esta nulidade? Caçoou. O que ele pode diante deste gigantesco poço de sabedoria galática, o que pode contra sua compreensão feita de nebulosas, cujos pensamentos são transmitidos de um sol para outro, reforçando sua poderosa gravidade, até que as estrelas explodindo conferem o resplendor das ideias, e a escuridão interplanetária agiganta sua reflexão?"

"Yondo é aquele que está mais próximo dos extremos do mundo; e estranhos ventos, provenientes de um golfo que nenhum astrônomo jamais sondou, esparramaram sobre os seus campos devastados a poeira cinzenta de planetas corroídos, as cinzas negras de sóis extintos"


Amigo de Robert Howard e de Lovecraft, Ashton (que também escreveu no Mythos) praticamente parou com a prosa quando o primeiro se suicidou e o segundo morreu. Infelizmente, porque em "Abominações de Yondo" vemos um escritor muito competente nas descrições crípticas e bem menos prolixo que o Lovecraft.

Porém, ao menos nesse conto em específico, tudo que há é exposição. A narrativa é inflada com a construção de mundo e a ambientação de um tipo de horror cósmico não mais implícito. O desenvolvimento se assemelha, estranhamente, a breves encontros sem conflitos que acompanharíamos em um documentário de biologia especulativa ou em um encontro narrado pelo mestre de RPGs tradicionais.

À deriva no deserto de Yondo após cometer heresia contra um culto de sacerdotes, o protagonista sem nome deve encarar a ambientação insólita de areia negra, com asteroides sobrepostos que alcançam o tamanho de montanhas e que chegam a formar longas cordilheiras.

A conclusão é pouco satisfatória, mas dá para se fazer um paralelo com um conto francês bem anterior que já resenhei aqui: The Torture By Hope. Ambos possuem uma conclusão bastante parecida, mas, a história francesa tem um foco diferente e melhor. No geral é uma leitura rápida e interessante. Futuramente pretendo ler os outros contos dessa coletânea e atualizar essa review.

''— Meu caro amigo — disse Sherlock Holmes enquanto nos sentávamos um de cada lado da lareira em seu apartamento da Baker Street —, a vida é infinitamente mais estranha do que qualquer outra coisa que a mente humana possa arquitetar. Não ousaríamos imaginar aquilo que é verdadeiramente corriqueiro na existência. ''


Não estou lendo os causos do Sherlock Holmes e do Dr. Watson cronologicamente, apenas pego algum conto quando dá na telha. Quero experimentar as histórias do detetive mais famoso do mundo direto na fonte. Antes, só o conhecia pelo cinema e televisão.

O fio narrativo dessa história vem daquela citação acima, a discussão entre Sherlock e Watson. O detetive acredita que a vida real revela fatos mais estranhos que a ficção, enquanto o médico e amigo discorda e diz que os acontecimentos corriqueiros que figuram os jornais são todos estúpidos e facilmente dedutíveis.

Holmes usa, com astúcia, o exemplo um caso de divórcio que encontra aleatoriamente no jornal, pedindo para que Watson desvende o motivo da separação. Watson conclui imediatamente que a causa do divórcio é a traição, embriaguez, agressão física ou algo próximo. Mas Holmes lhe refuta e esclarece que o motivo do divórcio é que o homem tinha o estranho hábito de, após terminar sua refeição, arremessar sua dentadura na esposa.

Voltando ao acontecimento central do conto, "O Caso de Identidade", ele trata sobre uma jovem moça que procura por seu noivo que desapareceu da carruagem no dia do casamento. O caso é demasiadamente simples, não tão interessante assim nem nos meios nem nos modos em como o Sherlock chega à resolução, mas a conclusão fica bem amarrada quando ela retoma a discussão inicial: de que um caso aparentemente corriqueiro, pode trazer consigo uma resolução fora do normal.

No geral, tem uma ótima abertura, mas um desenrolar razoável.

“Você me humilhou aos olhos de um alienígena. Você me reduziu à idiotice diante da mente alienígena”


A Mente Alienígena é um conto curtinho sobre a viagem de um homem para entregar no espaço uma vacina feita na terra. A jornada, porém, é atrasada quanto o gato do tripulante único zanza por cima do painel de controle. O homem chega, atrasado, ao seu destino. Olham-no estranho. O gato não está mais na nave. Eles parecem entender o que aconteceu. A Mente Alienígena, preocupada em salvar vidas (por isso a necessidade da vacina) se mostrará preocupada com todos os tipos de vida, gatos inclusos. Publicado originalmente em um jornal, a narrativa é uma breve mensagem que resume o amor do autor pelos seres vivos e sua crença de que há a necessidade entre solidariedade entre todas as espécies que habitam nosso planeta. Props pelo amor aos gatos.

“A mente alienígena, Bedford pensou. Misteriosa e cruel. ”

''Fui acusado, numa crítica inglesa recente, de ter plagiado a ideia desta história de um capítulo de um dos romances de Alexandre Dumas. Não há dúvida que houve plágio, fosse de um lado ou de outro; porém, como a minha história foi escrita há mais de vinte anos, e como o romance é de data muito mais recente, regozijo-me ao pensar que o Sr. Dumas me deu a honra de se apropriar de uma das concepções fantasistas dos meus primeiros tempos. Dou lha de bom grado. Não é este o caso único em que o grande romancista francês exerceu o privilégio dos gênios de confiscar a propriedade intelectual de escritores menos famosos, para seu próprio uso e proveito.''


Não foi uma experiência de leitura ruim, longe disso, mas beirou uma fábula moral que não me tocou intimamente. A patada — uma nota do Hawthorne — no Alexandre Dumas ofuscou todo o conto e me botou um sorriso no rosto.

Em uma abordagem do clássico motif do elixir da longa vida, o conto é uma reflexão sobre passado, experiência dos anos, erros juvenis, efemeridade da juventude e envelhecimento. O fantástico é utilizado como um meio para questionar a sociedade, criticando o comportamento humano real através da possibilidade da existência de uma fonte da juventude. É uma mistura de horror gótico com um fantástico mais cotidiano. Ja vi um Hawthorne muito melhor em outras histórias, que valem mais o investimento, e isso talvez tenha contribuído a meu quase tédio enquanto lia.
O Poe, porém, rasgava elogios para essa história aqui, logo quem sou eu para dizer que você não deve lê-la. Vale a tentativa, caso interesse.

2.5

Alastair Baffles Emporium of Wonders — Mike Resnick

"Seriously, how did you pull that off?” I persisted.
“Seriously?” he repeated, arching an eyebrow and seeming to look right through me to some interior spot that nobody was ever supposed to see. “You take two well-meaning but unexceptional lives, stir in all the might-have-beens and never-weres, baste lightly with the optimism of youth, the cynicism of maturity, and the pessimism of age, add a soupaon of triumph and a cup of failure, heat the oven with vanished passion, sprinkle with just the tiniest pinch of wisdom, and there you have it.” He smiled, as if totally pleased with his explanation. “Works every time.”


É a primeira vez que leio algo do Mike Resnick, nunca tinha ouvido falar dele antes de dar de cara com esse conto aleatoriamente. Ele é famoso pelos prêmios que ganhou, dezenas de indicações e vitórias no Hugo e no Nebula, dá para se dizer merecidamente.

É um conto fantástico bem escrito, simpático e cheio de sentimento. Não consigo não pensar que a fantasia e a ficção científica que surgia e papava prêmios há dez, vinte anos atrás era tão diferente das de hoje em dia. A narrativa corre por diversos temas: envelhecimento, memória, crença, desejo. Nessa história, dois garotos, Silver e Gold, se encontram na loja que dá título ao livro: O Empório das Maravilhas de Alastair Baffle. Eles testemunham truques baratos de mágica por alguns centavos e tornam-se amigos inseparáveis. Agora, velhos de noventa anos em um asilo, com os ossos estalando e órgãos falhando, decidem revisitar a loja uma última vez aquele lugar tão importante na vida deles (que está sempre mudando de endereço). A primeira parte do conto, relativamente longo, é a vida dos homens no asilo e a escapada para procurar pela loja.

Como era de se esperar, eles conseguem encontrá-la, e surpreendem-se quando Alastair, o mágico, parece não ter envelhecido nem um fio de cabelo desde a última visita — quase meio século atrás. Só pode ser um parente, pensam. Ele ainda performa seus truques por alguns centavos, mas os idosos não se impressionam tão fácil quanto quando eram crianças, então Alastair precisa recorrer a truques mais extraordinários. A partir daí, os dois velhos começam a ter reações diferentes sobre tudo que experimentam, e se dá início um embate entre a credulidade e a incredulidade, com ambos, os velhos amigos, seguindo caminhos diferentes.

Além do pacing agradável e o contraste entre a interação dos dois, o Alastair é um personagem incrível, memorável e com certeza um dos destaques da história. A inflexibilidade de um dos velhos perante aos acontecimentos é um pouco chata de se ler, mas é algo inerente a ele, trata-se de velhos de noventa anos, ranzinzas e presos num asilo.

O final não é surpreendente nem extremamente inspirado, mas é leve e casa perfeitamente com a atmosfera da história; não é excepcional, mas, ao mesmo tempo, é legal de ler e facilmente integraria qualquer antologia mais leve de fantasia. É uma boa apresentação do gênero.

“I already told you,” answered Baffle with a smug smile. “You live in a changing universe, Master Silver. You must never assume that all things change at the same pace.”