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3.0

Relido em 2022 — 3.5*

Comentário breve: talvez esse tenha sido o conto do Poe com a temática e mote mais interessante que li: um hipnotista, que tem por objetivo, mesmerizar um homem que está prestes a morrer, e sanar sua curiosidade acerca das consequências e efeitos que essa hipnose…? esse animal magnetism…? teria em um momento delicado como o expirar da vida.

O que mais quer, nosso protagonista, é sobretudo descobrir "em que medida, ou por qual duração de tempo, os avanços da Morte podiam ser detidos (por esse) processo."

Encadeia-se aí, uma sequência interessantíssima, mórbida, misteriosa, muito bem escrita, que por vezes soa quase como um exemplo de como "descrever (BEM!) o indescritível".
Ao contrário, por exemplo, das descrições densas e exageradas do Lovecraft (que eu gosto, mas, com ressalvas), o Poe aqui é límpido, e não apenas pela cientificidade com que reveste o conto, pois não evita pesar a mão nas descrições do estado do paciente; ele é límpido, no sentido de que, cria uma atmosfera naturalmente, a partir do tema inicial; sem recorrer à adjetivos ou à um horror demasiadamente sugestivo.

O Poe, aqui, é sucinto e quase tão mesmerizador quanto o narrador-protagonista. A narrativa, porém, não é tão bem bolada feito alguns outros de seus contos que tive o prazer de ler (Berenice, William Wilson e Barril de Amontilado permanecem meus favoritos). O desenvolvimento é muito bom, talvez a melhor parte do conto, mas o desfecho é estranhamento decepcionante, no sentido de que: o que o Poe viu como climax, conclusão, é uma cena que suscita lá algumas coisas, é imagem interessante, mas fraca. É um conto no geral, competente, acima da média.

Há, no entanto, alguns problemas. Por alto, as perguntas feitas pelo protagonista, o médico e os assistentes, ao moribundo-mesmerizado são rasas e improváveis dada a situação que se encontram; o relato é escrito como uma "desmentira" de outros relatos exagerados que andam correndo sobre esse evento, a pergunta que fica é, como pode ter sido MAIS exagerado que o que vemos transcorrer através do próprio participante?; (esse aqui eu assumo, pode ser falta de imaginação minha), mas é extremamente difícil seguir o texto e formar as cenas e imagens de quando o moribundo-morto começa a falar, a construção é estranha (como deve de fato ser), mas a ponto de atrapalhar um pouco a imersão; e por fim, o último e para mim o maior problema do conto como conto ficcional: a tentativa do Poe em dar uma verossimilhança não Aristotélica-Poética, mas sim uma verossimilhança de “Relato-Factual".

Como disse antes, a história é contada por um narrador-protagonista, que censura tanto seu nome quanto dos outros participantes; segue-se assim até o fim, e não há problemas quanto à forma. No entanto, quando a história aproxima-se do clímax, há uma intromissão, realizada para manter esse caráter "realista" da narrativa, que interrompe abruptamente o fluxo narrativo — logo em uma das melhores partes, onde o clima soturno está em ascensão, e você já está imerso no conto. Ao meu ver, é uma inserção totalmente desnecessária: O narrador-personagem fala de "choque", de "incredulidade" e até de "narrativa"; não deixando que a coisa flua e aconteça por si só, ou que o choque e a incredulidade também façam-se por si; purgando toda aquela limpidez elogiável do inicio do desenvolvimento que citei antes.

Na minha opinião, não precisava disso. Bastava que, no início, o Poe fizesse as suas artimanhas e peripécias (li, por alto, que esse conto foi lido na época como um evento que realmente aconteceu), e seguisse, a partir da abertura, a forma de um conto ficcional normal. O próprio Laclos, nas Liaisons Dangeresues que li recentemente, faz o mesmo ao suscitar a dúvida de que seu romance são cartas encontradas, e mesmo num romance de quinhentas páginas, não há NENHUMA intromissão problemática desse tipo, que quebre o fluxo narrativo, o que ocorre aqui, nesse conto BEM mais curto.

Enfim, é claro, não é isso o que se sobressaí nessa história, é apenas o ponto que me incomodou. De resto, é um bom conto, não dos melhores do autor, mas um bom conto.