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rolandosmedeiros 's review for:

Mushishi, Vol. 1 by Yuki Urushibara
5.0

Reconfortante, com beleza mesmo nos traços simples e nas cenas puramente introspectivas, Mushishi, da japonesa Yuki Urushibara, é uma experiência única que exige, sobretudo nos dias de hoje, um desacelerar, uma calma e uma sensibilidade para acompanhar o Mushishi Ginko — um tipo de médico num mundo de fantasia que mistura o Japão atual com o Japão Edo — simplesmente viajando pela terra dele para tratar de doenças causadas pelos Mushi. É menos entretenimento e mais algo semelhante a observar uma aquarela, uma pintura em movimento, com muito mais silêncio do que som, muito mais cenários que pessoas; e, ainda sim, com histórias tocantes. Nesse primeiro volume a gente tem cinco histórias diferentes.

Mushishi é episódico, mas há uma sequência e um desenvolvimento que aponta para frente, conforme mais mistérios desse mundo são revelados. Mushis são pequenas formas de vida que são na mesma proporção místicas e naturais, e cada episódio trata de um Mushi novo que o Ginko encontra. Cada episódio, também, revela um pouco mais sobre esses seres, mas tudo é muito implícito e cifrado. Até a forma deles no traço da autora é curiosa. Às vezes, o Ginko faz o papel literalmente de médico, matando ou expulsando o Mushi com remédios, receitas ou rituais; em outros, quando a coisa é mais complexa, ou quando envolve não uma pessoa afetada, mas toda uma região, uma floresta, um lago, etc., ele age como um conciliador. Nem sempre, porém, ele consegue resolver as coisas. É um vagante e está sempre aprendendo, tendo que lidar com o suicídio de pacientes, o ostracismo, o fato de não ser capaz mais de se fixar em lugar nenhum, e outros problemas.

A vida e a relação entre Mushis e seres humanos é o tema aqui — e, em geral, da série. A relação entre o mundo natural e o mundo humano, e entre o real e o sobrenatural. A adaptação em anime (mais os filmes) é incrivelmente bem feita, com um lance genial de adicionar uma narração meio folclórica nos episódios, sendo um ótimo complemento ao mangá. O tom de mistério e misticismo é patente em ambos: muita coisa fica em aberto às nossas próprias interpretações. Como cada episódio só tem um fiapo de enredo, vou me abster de falar muito sobre trama aqui. A graça é ler.

As cinco histórias do volume são:

The Green Seat: a história de um menino que tem um dom: seus kanjis esboçados no papel ganham vida. Qual a origem da capacidade desse menino? Que eles, os Mushi, são de verdade? Há um grupo onipotente de Mushis? Donde surgiram? Eles são sencientes ou só existem?

The Soft Horns: Aqui somos convidados a cobrir nossos ouvidos e mergulhar pelos místicos sons internos do corpo. Nos aprofundamos no conceito de som e silêncio (e também do som do silêncio) por meio da história de um menino surdo, sua mãe, e um vilarejo quieto cercado por montanhas.

The Pillow Pathway: Um capítulo mais melancólico, que difere um pouco dos anteriores, com um Ginko impotente. Dessa vez, trata-se de um homem que sonha com eventos que se realizam. Há um Mushi preso em seus sonhos.

The Light of the Eyelid: A história que premiou a auora e fez o mangá ser publicado. Ginko visita uma garota chamada Sui, que sofre de uma doença causada pelos Mushi que torna seus olhos hipersensíveis à luz; por isso, ela começa a viver em um galpão escuro. Por ficar tanto tempo na escuridão, e devido ao Mushi que a aflige, ela começa a vislumbrar o maravilhoso Rio da Vida, ou, Rio dos Mushis. Que é esse rio, que só pode ser visto quando alguém ''fecha a segunda pálpebra’’ e se desliga do mundano? É a pergunta deste episódio; que, aliás, tem grandes consequências para as histórias seguintes.

The Travelling Swamp: Ginko está viajando pelas montanhas para ver seu amigo, Adashino, um doutor, assim como ele, e colecionador de objetos que tenham relação com os Mushis. O pincel da primeira história, um dos chifres da segunda, por exemplo, são comprados por ele e é assim que o Ginko arruma grana. Ao longo do caminho, ele conhece uma garota chamada Io, que vive dentro de um pântano viajante, um pântano vivo que desce a montanha em direção ao mar.

O posfácio da autora no término desse primeiro volume também é bastante interessante e revelador do tom do mangá:"Após deixar o material pronto para publicação, estava imersa em sentimentalismo, como 'puxa, acho que depois disso, não terei mais oportunidade de publicar nada.' Consciente do limite da minha capacidade, comecei a procurar um emprego que não envolvia desenhar. E, quando já tinha esquecido completamente do concurso, fui informada que havia sido premiada. Pensei comigo 'A realidade as vezes é maluca'. E mesmo após meu trabalho virar uma publicação regular na revista, minha capacidade não mudou em nada, fazendo com que o meu editor passasse por maus bocados… e sendo honesta, ainda passa. Os mushi são seres complexos, mas adoráveis. Ficaria contente que, através das histórias, as pessoas pudessem sentir a existência desses pequenos seres a sua volta.’’