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rolandosmedeiros 's review for:

To Build a Fire by Jack London
5.0

Em trinta e tantas páginas, com uma ambientação densa, opressiva e evocadora de sensações como apreensão, medo e frio, o Jack London faz uma ótima história de terror. Terror natural, sem precisar de fantasmas ou seres inomináveis. O frio mortal que o protagonista — e o cãozinho que o acompanha — enfrenta já é adversário o suficiente.

Adversário, digo, do ponto de vista do protagonista. As planícies do Yukon são e serão as planícies do Yukon. Se há algum enfrentamento, vem por parte do homem.

As longas e evocativas descrições daquele ambiente tocou especialmente em mim (carioca que nunca sentiu frio de verdade); a prosa densa é contrabalanceada por um arranjo de ações relativamente simples, mas que ainda te mantêm lendo tanto pela descrição como pela necessidade de saber o que vai acontecer com o homem e o cão.

''O problema dele era a falta de imaginação. Era esperto e estava atento às coisas da vida, mas apenas às coisas e não ao significado delas. Cinquenta graus negativos significavam oitenta e tal graus de congelação. Tal facto, para ele, significava frio e desconforto, e apenas isso. Não o levava a meditar sobre a sua fragilidade como criatura de temperatura que era, ou sobre a fragilidade do homem em geral, apenas capaz de viver dentro de certos limites muito estreitos de calor e frio; e não o levava, daí para a frente, para o campo das conjecturas sobre a imortalidade e sobre o lugar do homem no universo. Cinquenta graus negativos representavam uma picada do frio, que faz doer e de que a gente se deve resguardar usando luvas, lobos de orelha, botas quentes de pele e meias grossas. Cinquenta graus negativos, para ele, eram apenas e só cinquenta graus negativos. Nunca lhe passara pela cabeça que pudessem ser mais alguma coisa.''


A narrativa trata de um homem sem nome que decide contra o conselho de mais sábios (estava atrasado no encontro anual com amigos) e contra a palpitação da sua própria fisiologia, vagar pelas planícies absurdamente frias do Yukon no auge do inverno. Um homem que acredita na inteligência humana acima de tudo, que não se importa com significados ou significações profundas, "nada de metafísica", como diz o texto.

Observamos as reflexões do homem, captamos as percepções do cão; sentimos fome e frio à medida que avançamos junto deles através do gelo, compreendemos a imensidão do Mar Branco que é o Alasca, e a fragilidade da condição humana perante a natureza; e, também, a sabedoria natural do c cão contrastada com a arrogância do homem.

Formalmente simples e bem feito, acho que dá para chamar de clássico. É, no mínimo, exemplo quintessencial da "literatura/gênero de sobrevivência". Li outras narrativas do London e aqui também ficou evidente a habilidade dele de fazer imagens claras, quase que como um filme mesmo, só com o uso do narrador, e também o potencial de criar ambientações e cenários densos que são muito além de ser apenas plano de fundo para as histórias.

É uma das minhas cinco estrelas afetivas. Foi um dos primeiros contos que li, e daqueles que me fez gostar e enxergar o potencial da literatura. Lembro até do lugar de onde o li. Num dia frio, tomando um café, em uma casa que não fiquei nem três meses mas que dela me ficaram essa e outras memórias. Sabe como é... a vida moderna de nômade.

''Subitamente o gelo quebrou e o cão debateu-se por momentos, desequilibrado para um dos lados, mas depois conseguiu sair para piso mais firme. Tinha molhado as patas e pernas da frente, e quase imediatamente a água que ficara agarrada ao pelo transformou-se em gelo. Fez rápidos esforços para o remover lambendo as pernas e depois sentou-se na neve começando a morder o gelo que se tinha formado entre os dedos para o tirar também. Fez isto apenas por instinto. Deixar ficar o gelo significaria pés em ferida e ele não sabia isso. Apenas obedeceu à misteriosa indicação vinda das profundezas ocultas do seu ser.''