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173 reviews by:
rolandosmedeiros
(Lido na Antologia da Literatura Fantástica)
Horror, mistério e comédia. De 1890 e nem um pouco avariado pelo tempo. É junto com alguns outros um dos mais agradáveis de se ler da coleção. Leve, breve e agradável; se bem que, até agora, tudo que eu li do Maupassant foi assim. Aqui, é tudo bastante imaginativo e o fator sobrenatural apesar de tentar ser atemorizante acaba sendo mais engraçado do que tudo; o conto, porém, está tão bem escrito que faz com que, apesar de todos os clichês, dos exageros sentimentais típicos da época e do terror que vira comédia, que é difícil considerá-lo outra coisa que não bom.
''Sempre fui um solitário, um sonhador, uma espécie de filósofo isolado, benévolo, que se satisfaz com pouco, sem amargura contra os homens, sem rancor contra o céu''
Horror, mistério e comédia. De 1890 e nem um pouco avariado pelo tempo. É junto com alguns outros um dos mais agradáveis de se ler da coleção. Leve, breve e agradável; se bem que, até agora, tudo que eu li do Maupassant foi assim. Aqui, é tudo bastante imaginativo e o fator sobrenatural apesar de tentar ser atemorizante acaba sendo mais engraçado do que tudo; o conto, porém, está tão bem escrito que faz com que, apesar de todos os clichês, dos exageros sentimentais típicos da época e do terror que vira comédia, que é difícil considerá-lo outra coisa que não bom.
''Vivi sozinho, continuamente, porque a presença dos outros me causa certo desconforto. Como explicar isso? Não sei. Não renego a sociedade, o diálogo, os jantares com amigos, mas é só passar um tempo com eles, até com os mais familiares, e me aborrecem, me cansam, me enervam, e sinto uma vontade enorme de vê-los partir ou de ir embora, de ficar sozinho. Mais que vontade, é uma necessidade incontrolável. Se a presença das pessoas com quem estou perdurasse, se me obrigassem, não só a escutar, mas a continuar prestando atenção a suas conversas, eu sofreria, sem dúvida alguma, um acidente.''
(Lido na Antologia da Literatura Fantástica)
Como dito pelo próprio autor, ele estava ''seguindo as pegadas do gato preto de Poe'', mas, dosando com uma característica própria: a ironia e a crueldade. Tanto é que esse é o nome com que batizou uma antologia sua: ''Contos Cruéis''. Essa curta — mas ótima — história se passa durante a Inquisição, o prisioneiro e protagonista é um rabino que recebe a notícia que será ''salvo'' pela fogueira. Isso depois de já ter passado um ano sendo submetido a torturas diárias. No entanto, ele encontra uma pequena brecha, que poderá salvar sua vida, uma luz no fim do túnel - que logo descobrirá não ser o que parece. É uma narrativa bela e brutal, mas o caráter fantástico é totalmente subjetivo e mental. Integraria facilmente qualquer outra antologia contos não-fantásticos
''No conto cruel — em cujo cerne o fantástico e o sobrenatural raramente se imiscuem — releva-se a face mais hedionda da tragédia e da miséria humanas; sublinha-se a impiedosa frustração de todas as expectativas delirantes; gizem-se os mais excruciantes tormentos físicos e — sobremodo — psicológicos.''
Como dito pelo próprio autor, ele estava ''seguindo as pegadas do gato preto de Poe'', mas, dosando com uma característica própria: a ironia e a crueldade. Tanto é que esse é o nome com que batizou uma antologia sua: ''Contos Cruéis''. Essa curta — mas ótima — história se passa durante a Inquisição, o prisioneiro e protagonista é um rabino que recebe a notícia que será ''salvo'' pela fogueira. Isso depois de já ter passado um ano sendo submetido a torturas diárias. No entanto, ele encontra uma pequena brecha, que poderá salvar sua vida, uma luz no fim do túnel - que logo descobrirá não ser o que parece. É uma narrativa bela e brutal, mas o caráter fantástico é totalmente subjetivo e mental. Integraria facilmente qualquer outra antologia contos não-fantásticos
“- Ah que coisa, meu filho! À véspera, talvez, da salvação, vós queríeis nos deixar!”
O, entre muitas aspas, fundador do conto americano.
Vale um comentário porque a partir dele dá para se levantar algumas breves questões sobre o gênero conto (que, noutros países, a terminação diferente geralmente facilita a discussão [Short Story vs Folk Tale]).
Não vou me demorar no enredo porque você certamente já o viu replicado em algum lugar. É aquele tipo de viagem no tempo mística, que geralmente envolve magia ou qualquer outra coisa inexplicada, um lugar ou mesmo um sonho. O personagem atravessa algum lugar, ou dorme, ou enche a cara, ou usa alguma substância, e a partir disso entra num outro plano ou num outro tempo, não sabe se está desperto ou sonhando, e quando retorna de lá, não está mais ao mesmo lugar de onde inicialmente partiu. Quer dizer, não exatamente. O lugar inicial muda ou o tempo mudou. Apesar dele não ter viajado grandes distâncias ou apagado por muitos dias. Tem, então, de andar por aquele lugar estranho e tentar descobrir alguma coisa.
Eu li a fonte do Washington Irving, o conto folclórico germânico ''Peter Klaus, The Goatherd.'' E... diria que é até melhor que o conto americano. Tem uma atmosfera mais interessante (o personagem principal, perseguindo uma cabra que se perdeu, entra numa caverna e se depara com doze cavaleiros anciões, jogando um tipo de jogo com pinos de madeira num tabuleiro, todos em silêncio... e daí vem a complicação)
Mas, o ponto não é esse, o ponto é que o fato da gente chamar um de Short Story e outro de Folk Tale, nesse caso, remete mais às intenções diversas dos dois ''autores'' que qualquer outro aspecto mais objetivo ou formal que a gente pode pinçar dos textos. O Nachtigal estava mais preocupado em reunir essas histórias folclóricas; o Washington Irving em escrever ou reescrevê-las bem.
As duas são enredos com acontecimentos organizados em uma linha no tempo, com personagens planos e esféricos, com complicação e resolução… Há no conto popular/folclórico: trama, personagens, cenário, ponto de vista, estilo/dicção (mesmo que simples), e tema. Tudo que também há no ''conto literário''.
Enfim, não sei onde queria chegar, acho que, talvez, expor um caso onde a diferenciação entre o que é conto e o que é folclore/lenda popular reside só na intenção e nos dizeres dos autores, porque os conteúdos praticamente batem um com outro… E eu acho que concordo com a separação.
Vale um comentário porque a partir dele dá para se levantar algumas breves questões sobre o gênero conto (que, noutros países, a terminação diferente geralmente facilita a discussão [Short Story vs Folk Tale]).
Não vou me demorar no enredo porque você certamente já o viu replicado em algum lugar. É aquele tipo de viagem no tempo mística, que geralmente envolve magia ou qualquer outra coisa inexplicada, um lugar ou mesmo um sonho. O personagem atravessa algum lugar, ou dorme, ou enche a cara, ou usa alguma substância, e a partir disso entra num outro plano ou num outro tempo, não sabe se está desperto ou sonhando, e quando retorna de lá, não está mais ao mesmo lugar de onde inicialmente partiu. Quer dizer, não exatamente. O lugar inicial muda ou o tempo mudou. Apesar dele não ter viajado grandes distâncias ou apagado por muitos dias. Tem, então, de andar por aquele lugar estranho e tentar descobrir alguma coisa.
Eu li a fonte do Washington Irving, o conto folclórico germânico ''Peter Klaus, The Goatherd.'' E... diria que é até melhor que o conto americano. Tem uma atmosfera mais interessante (o personagem principal, perseguindo uma cabra que se perdeu, entra numa caverna e se depara com doze cavaleiros anciões, jogando um tipo de jogo com pinos de madeira num tabuleiro, todos em silêncio... e daí vem a complicação)
Mas, o ponto não é esse, o ponto é que o fato da gente chamar um de Short Story e outro de Folk Tale, nesse caso, remete mais às intenções diversas dos dois ''autores'' que qualquer outro aspecto mais objetivo ou formal que a gente pode pinçar dos textos. O Nachtigal estava mais preocupado em reunir essas histórias folclóricas; o Washington Irving em escrever ou reescrevê-las bem.
As duas são enredos com acontecimentos organizados em uma linha no tempo, com personagens planos e esféricos, com complicação e resolução… Há no conto popular/folclórico: trama, personagens, cenário, ponto de vista, estilo/dicção (mesmo que simples), e tema. Tudo que também há no ''conto literário''.
Enfim, não sei onde queria chegar, acho que, talvez, expor um caso onde a diferenciação entre o que é conto e o que é folclore/lenda popular reside só na intenção e nos dizeres dos autores, porque os conteúdos praticamente batem um com outro… E eu acho que concordo com a separação.
Mesmo quando se conhece pouquíssimo sobre a escrita do William Gibson (o meu caso), você sabe sobre o quão influente ele é, afinal, é o criador de um subgênero e de uma estética visual que permanece em alta (e só tende a subir), quarenta anos depois da primeira incursão do autor por aquele mundo criado por ele. Sincronicamente, enquanto eu escrevia essa resenha, as redes fervilhavam com a adaptação da Netflix de uma história no universo do Cyberpunk 2077, jogo que bebe bastante deste conto aqui. Por exemplo, no jogo da CD PROJEKT, um conceito principal da trama, o protagonista e até o mesmo ator (Keanu Reeves) de uma antiga adaptação fílmica de Johnny Mnemonic são utilizados.
Neon, megacorporações, chuva refletida em cores cromáticas, tecnologias peculiares e avançadas, segregação social, capitalismo levado ao extremo; quase tudo já enraizado no imaginário popular quando se toca no nome Cyberpunk plana de alguma maneira por aqui, en passant.
E vai além: a gente tem aqui o Jones, um golfinho veterano de guerra da Marinha, viciado em heroína por causa do PTSD, que vive num tanque de madeira estreito e se comunica por meio de um painel de pisca-piscas de natal reciclados. (Ele era utilizado pela marinha para desamar minas aquáticas.)
Ele é de longe o personagem mais marcante de uma narrativa que é simples em questão de trama. O Johnny — o personagem principal —, em contrapartida, consegue ser mais desinteressante que alguns dos figurantes — há no bar, cenário principal da primeira parte, um Iggy Pop-esque de pele lisa, sintética e dentes podres; uma dupla de mulheres porradeiras (uma, inclusive, transgênero) — que somem ou morrem em poucas páginas e, ainda sim, ofuscam o Jhonny.
Não costuma ser do meu feitio um conto que se paute quase total e unicamente na exposição e descrição, onde o encadeamento narrativo consegue ser mais simples que a já batida estrutura de jornada do herói; mas, é elogiável a maneira com que o Gibson abre a narrativa e imerge o leitor em um mundo único, antes inexistente e inimaginável, e, depois de um conto curtíssimo, agora completamente coerente é marcante. É um exercício de livre imaginação louvavél, mais próximo da tecnologia, porém sem largar mão da construção de mundo herdada da fantasia.
Um exercício saudável ao se ler esta história é: constantemente se lembrar de que para quem leu na época, não havia nada como aquilo antes, o Gibson estava inserindo os leitores em um mundo totalmente novo, liquido e conceitual. E isso ele faz muito bem. Você lê a primeira página, e está lá o Cyberpunk que conhecemos, difícil até imaginar que ninguém houvesse feito antes. Soa natural, em consonância com o avanço tecnológico da sociedade; é como disse um cientista famoso: "as verdades absolutas são perfeitamente fáceis e compreensíveis, depois de descobertas; o difícil é descobri-las." O mesmo vale para o mundo criado por Gibson & Co.
**
Mesmo que as páginas seguintes fossem a mais pura porcaria (adianto, apesar da simplicidade, não são), o trabalho de inserção e ambientação — acrescentados de uma curta imersão — já é vale a pena. Mesmo que o Gibson tivesse morrido após "dropar essa bomba", a raiz de tudo está aqui; e entrando num desses what ifs malucos, mesmo que Neuromancer não existisse depois daqui, nossa “linha temporal” não mudaria tanto, Johnny Mnemonic concentra muito em poucas páginas, basta ter olhos para ver; muitos viriam beber diretamente daqui, como o fez a CD PROJEKT, que espremeu até a última palavra das dezessete páginas desse conto aqui.
A exemplo da construção, uns excertos da primeira página (coloquem em mente, como disse, que isso aqui é praticamente a inauguração do Cyberpunk, e notem como ainda é próximo do que vemos atualmente no cinema ou nos jogos):
[~]
[~]
Eu dei uma volta, e não falei do Johnny, mas, resumidamente, ele é um traficante/contrabandista de memória: num mundo onde a informação em dados está sempre a mercê de ser facilmente quebrada e decodificada, Johnny, que não sabe o que armazena, que só transporta (-se) de um lado a outro, que só com uma senha do contratante tira a informação da cabeça dele (ele fica inconsciente nesse processo), faz-se de ferramente útil nesse futuro.
A trama revolve-se em torno de um desses trabalhos que deu errado, Johnny pegou informações demais, e o contratante não veio retirar. Isso para o Johnny significa perigo. A sua memória (ou o que restou) começa a se diluir e se misturar por causa do excesso de informações. Esquece quem é; sofre lapsos de (ir)realidade; deve, portanto, imediatamente procurar o contratante e resolver isso de uma vez.
Molly Millions, apesar de "cool", é inserida de modo totalmente caótico na história, que combina com a função da personagem, mas não a grega nem eleva muito o conto; é ela que dá ação à história e carrega o Johnny literal e figuradamente: é uma personagem central para os trabalhos seguintes do Gibson. É aqui que a vemos em ação pela primeira vez.
Outro ponto apenas suscitado aqui e bem explorado nas diversas adaptações desse subgênero, é a decadência camuflada pela alta tecnologia; aqui temos, por exemplo, o próprio painel de luzes de
natal recicladas do golfinho Jones, o grupo de revolucários LoTeks (lê-se, low-techs) e a cidade deles, suspensa em vigas e cordas acima de Nightcity; a cirurgia plástica para adquirir o rosto perfeito e o contraste com a imagem de seus dentes podres e decantes; o Neon avariado, crivado de tiros e a desistência das equipes de manutenção a continuar a repará-los; os arcos da cidade, consequentemente, cobertos de fuligem… Até o embate final, que se dá numa espécie de arena suspensa (que também serve de distoce para os habitantes dali).
Em aspectos literários e estílisticos, apesar de eu recomendar o conto, retirando os objetos (fictícios, fantasiosos) e os fenômenos (idem), o que se tem é apenas descrição; quase como um passeio, uma noite em Nightcity, que retirando todo este caráter mencionado, influente e inaugural, não tem muita potência; é o tipo de história que só funcionaria nas mãos de um escritor com um GRANDE domínio sob a linguagem, que não é o caso do Gibson. As coisas funcionam, acontecem, mas nada além disso.
A estrutura é bem bobinha; no entanto, quando a história é colocada numa coleção ou situada num universo mais amplo, reaparecendo em fragmentos, a exemplo do que ocorre aqui, até que ganha contornos mais interessantes. Por exemplo, o final: quando o Johnny decide Vale a leitura.
Neon, megacorporações, chuva refletida em cores cromáticas, tecnologias peculiares e avançadas, segregação social, capitalismo levado ao extremo; quase tudo já enraizado no imaginário popular quando se toca no nome Cyberpunk plana de alguma maneira por aqui, en passant.
E vai além: a gente tem aqui o Jones, um golfinho veterano de guerra da Marinha, viciado em heroína por causa do PTSD, que vive num tanque de madeira estreito e se comunica por meio de um painel de pisca-piscas de natal reciclados. (Ele era utilizado pela marinha para desamar minas aquáticas.)
Ele é de longe o personagem mais marcante de uma narrativa que é simples em questão de trama. O Johnny — o personagem principal —, em contrapartida, consegue ser mais desinteressante que alguns dos figurantes — há no bar, cenário principal da primeira parte, um Iggy Pop-esque de pele lisa, sintética e dentes podres; uma dupla de mulheres porradeiras (uma, inclusive, transgênero) — que somem ou morrem em poucas páginas e, ainda sim, ofuscam o Jhonny.
Não costuma ser do meu feitio um conto que se paute quase total e unicamente na exposição e descrição, onde o encadeamento narrativo consegue ser mais simples que a já batida estrutura de jornada do herói; mas, é elogiável a maneira com que o Gibson abre a narrativa e imerge o leitor em um mundo único, antes inexistente e inimaginável, e, depois de um conto curtíssimo, agora completamente coerente é marcante. É um exercício de livre imaginação louvavél, mais próximo da tecnologia, porém sem largar mão da construção de mundo herdada da fantasia.
Um exercício saudável ao se ler esta história é: constantemente se lembrar de que para quem leu na época, não havia nada como aquilo antes, o Gibson estava inserindo os leitores em um mundo totalmente novo, liquido e conceitual. E isso ele faz muito bem. Você lê a primeira página, e está lá o Cyberpunk que conhecemos, difícil até imaginar que ninguém houvesse feito antes. Soa natural, em consonância com o avanço tecnológico da sociedade; é como disse um cientista famoso: "as verdades absolutas são perfeitamente fáceis e compreensíveis, depois de descobertas; o difícil é descobri-las." O mesmo vale para o mundo criado por Gibson & Co.
**
Mesmo que as páginas seguintes fossem a mais pura porcaria (adianto, apesar da simplicidade, não são), o trabalho de inserção e ambientação — acrescentados de uma curta imersão — já é vale a pena. Mesmo que o Gibson tivesse morrido após "dropar essa bomba", a raiz de tudo está aqui; e entrando num desses what ifs malucos, mesmo que Neuromancer não existisse depois daqui, nossa “linha temporal” não mudaria tanto, Johnny Mnemonic concentra muito em poucas páginas, basta ter olhos para ver; muitos viriam beber diretamente daqui, como o fez a CD PROJEKT, que espremeu até a última palavra das dezessete páginas desse conto aqui.
A exemplo da construção, uns excertos da primeira página (coloquem em mente, como disse, que isso aqui é praticamente a inauguração do Cyberpunk, e notem como ainda é próximo do que vemos atualmente no cinema ou nos jogos):
"Desci do metrô três estações adiante da plataforma mais próxima e voltei esse trecho na caminhada. Procedimento a prova de falhas. Chequei meu visual refletido no tapume cromado de um quiosque de café: rosto caucasóide básico com uma coleira de pêlo duro e escuro.
As meninas do Na Ponta da Faca curtem muito o Sony Mao e foi difícil convencê-las a não me implantarem olhos puxados. Minha fachada provavelmente não enganaria Ralfi, mas poderia me ajudar a chegar perto da mesa dele."
[~]
"O Drome tem um ambiente único e estreito com um bar ao fundo e mesinhas na lateral, carregado de cafetões, empresários de lutadores e uma sinistra variedade de traficantes.
As Cadelas Magnéticas tomavam conta da porta naquela noite e não me agradava a ideia de ter de passar por elas caso as coisas dessem errado e eu tivesse que fugir correndo. Elas tinham dois metros de altura e eram magras como cães galgos. Uma era branca; a outra, preta. À parte essa diferença, eram tão idênticas quanto possível ser com ajuda de cirurgia plástica. Amantes há anos, eram barra pesada quando o pau quebrava. Eu nunca me lembrava ao certo qual das duas tinha sido homem."
[~]
(...) Ralfi estava em sua mesa de sempre. Devia-me muita grana. Eu tinha centenas megabytes armazenados na cabeça no sistema idiota/sábio. Não tinha acesso a essas informações. Ralfi as tinha postas lá, mas não havia voltado para buscá-las. Só ele poderia recuperar os dados utilizando uma frase código. Já não sou barato, pra começo de conversa, e minha hora extra para armazenagem de dados é bem cara."
Eu dei uma volta, e não falei do Johnny, mas, resumidamente, ele é um traficante/contrabandista de memória: num mundo onde a informação em dados está sempre a mercê de ser facilmente quebrada e decodificada, Johnny, que não sabe o que armazena, que só transporta (-se) de um lado a outro, que só com uma senha do contratante tira a informação da cabeça dele (ele fica inconsciente nesse processo), faz-se de ferramente útil nesse futuro.
A trama revolve-se em torno de um desses trabalhos que deu errado, Johnny pegou informações demais, e o contratante não veio retirar. Isso para o Johnny significa perigo. A sua memória (ou o que restou) começa a se diluir e se misturar por causa do excesso de informações. Esquece quem é; sofre lapsos de (ir)realidade; deve, portanto, imediatamente procurar o contratante e resolver isso de uma vez.
Molly Millions, apesar de "cool", é inserida de modo totalmente caótico na história, que combina com a função da personagem, mas não a grega nem eleva muito o conto; é ela que dá ação à história e carrega o Johnny literal e figuradamente: é uma personagem central para os trabalhos seguintes do Gibson. É aqui que a vemos em ação pela primeira vez.
Outro ponto apenas suscitado aqui e bem explorado nas diversas adaptações desse subgênero, é a decadência camuflada pela alta tecnologia; aqui temos, por exemplo, o próprio painel de luzes de
natal recicladas do golfinho Jones, o grupo de revolucários LoTeks (lê-se, low-techs) e a cidade deles, suspensa em vigas e cordas acima de Nightcity; a cirurgia plástica para adquirir o rosto perfeito e o contraste com a imagem de seus dentes podres e decantes; o Neon avariado, crivado de tiros e a desistência das equipes de manutenção a continuar a repará-los; os arcos da cidade, consequentemente, cobertos de fuligem… Até o embate final, que se dá numa espécie de arena suspensa (que também serve de distoce para os habitantes dali).
Em aspectos literários e estílisticos, apesar de eu recomendar o conto, retirando os objetos (fictícios, fantasiosos) e os fenômenos (idem), o que se tem é apenas descrição; quase como um passeio, uma noite em Nightcity, que retirando todo este caráter mencionado, influente e inaugural, não tem muita potência; é o tipo de história que só funcionaria nas mãos de um escritor com um GRANDE domínio sob a linguagem, que não é o caso do Gibson. As coisas funcionam, acontecem, mas nada além disso.
A estrutura é bem bobinha; no entanto, quando a história é colocada numa coleção ou situada num universo mais amplo, reaparecendo em fragmentos, a exemplo do que ocorre aqui, até que ganha contornos mais interessantes. Por exemplo, o final: quando o Johnny decide
Spoiler
se enfiar ainda mais na merda: agora ele não mais contrabandeia informação simplesmente, ele a partir do fim do conto, torna-se um subornador, a conclusão da história de Jhonny é dada nos livros seguintes: ele foi não surpreendentemente morto pela Yakuza. Isso, de certa forma, meio que quebra um pouco a estrutura engessada dessa narrativa como pedaço solto; mas quando emendada em outra é um acontecimento ilustrativo do microcosmo da Nightcity.
Peregrinação: Susan Sontag e Thomas Mann.
Lido no New Yorker — 2.5
Esse é um relato que fica emprateleirado como uma ficção breve, mas está formalmente distante de sê-lo. É mais uma autobiografia, que, como a maioria das outras, inescapa um grauzinho de ficcionalização.
Pilgrimage, seja uma tentativa de imbuir forma de conto ou apenas a leve ficionalização de uma memória, é um relato em primeira pessoa do encontro da própria Susan, ainda adolescente, no Ensino Médio, com o gigantesco — pós Montanha Mágica — Thomas Mann, de quem ela era leitora fervorosa.
O relato, no entanto, é frágil formal e narrativamente, ainda que no seu miolo, ela consiga revelar um bom olhar para as minúcias; sentimentos, ansiedades e idealizações adolescentes oriundos de uma conversa com seu ídolo. O contraste do “small talk” que os adolescentes fazem para manter a conversa, com as respostas lentas e carregadas do autor é o ponto alto do conto, assim como as reações compreensíveis, e a atmosfera de vergonha: tanto de se envergonhar perante o outro, quanto de envergonhar o outro. O mote do conto é que ela nem mesmo queria estar ali. Para quê seguir o amigo em uma visita à casa dos Mann, se ela já o tinha nos livros; para quê se por de frente com um gigante, quando ela ainda não era ninguém?
A escrita, entretanto, arrasta tanto para se pôr em movimento, quanto para encerrar esse movimento: na minha opinião, o relato acaba bem "depois do ponto". A decisão, também, de mesclar sentimentos de um passado nebuloso com o de um presente onde ela já é mais crítica, foi pouco efetivo, a não ser para provar pontos — ‘‘devemos sempre tratar autor e obra separados?‘’ — e utilizar isso com esse fim, escapa da “gramática elementar” da ficção.
Paira no ar a dúvida se é de fato pura ficção ou uma reflexão memorial/biográfica — mesmo que no quesito de qualidade literária isso pouco importe. Não fica muito claro. A descrição do Thomas Mann é real? Seu comportamento, suas perguntas, a aceitação estranha do convite…? A curiosidade dele acerca dos jovens americanos é verdadeira? A pergunta sobre o Heimingway realmente aconteceu?
A recordação e as pinceladas com que ela remonta a infância é tão lenta, e o recorte, tão mundano, que eu duvido que seja uma história totalmente ficcional: entrevistas ficcionais, ao menos as que já li, — há uma do Braulio Tavares com o Córtazar, e outra do Autran Dourado com o Godofredo Rangel —, são, no geral, melhores, e funcionam melhor como ficção do que esse "relato". Então, arrisco dizer que sim, é real, e esse é o Thomas Mann visto por uma Sontag de dezesseis anos.
É a primeira vez que a leio, e eu sei que ela era muito mais popular como ensaísta que como ficcionista, então fica aqui, demarcado, pois, nosso primeiro encontro, mesmo que insosso.
Lido no New Yorker — 2.5
Esse é um relato que fica emprateleirado como uma ficção breve, mas está formalmente distante de sê-lo. É mais uma autobiografia, que, como a maioria das outras, inescapa um grauzinho de ficcionalização.
Pilgrimage, seja uma tentativa de imbuir forma de conto ou apenas a leve ficionalização de uma memória, é um relato em primeira pessoa do encontro da própria Susan, ainda adolescente, no Ensino Médio, com o gigantesco — pós Montanha Mágica — Thomas Mann, de quem ela era leitora fervorosa.
O relato, no entanto, é frágil formal e narrativamente, ainda que no seu miolo, ela consiga revelar um bom olhar para as minúcias; sentimentos, ansiedades e idealizações adolescentes oriundos de uma conversa com seu ídolo. O contraste do “small talk” que os adolescentes fazem para manter a conversa, com as respostas lentas e carregadas do autor é o ponto alto do conto, assim como as reações compreensíveis, e a atmosfera de vergonha: tanto de se envergonhar perante o outro, quanto de envergonhar o outro. O mote do conto é que ela nem mesmo queria estar ali. Para quê seguir o amigo em uma visita à casa dos Mann, se ela já o tinha nos livros; para quê se por de frente com um gigante, quando ela ainda não era ninguém?
A escrita, entretanto, arrasta tanto para se pôr em movimento, quanto para encerrar esse movimento: na minha opinião, o relato acaba bem "depois do ponto". A decisão, também, de mesclar sentimentos de um passado nebuloso com o de um presente onde ela já é mais crítica, foi pouco efetivo, a não ser para provar pontos — ‘‘devemos sempre tratar autor e obra separados?‘’ — e utilizar isso com esse fim, escapa da “gramática elementar” da ficção.
Paira no ar a dúvida se é de fato pura ficção ou uma reflexão memorial/biográfica — mesmo que no quesito de qualidade literária isso pouco importe. Não fica muito claro. A descrição do Thomas Mann é real? Seu comportamento, suas perguntas, a aceitação estranha do convite…? A curiosidade dele acerca dos jovens americanos é verdadeira? A pergunta sobre o Heimingway realmente aconteceu?
A recordação e as pinceladas com que ela remonta a infância é tão lenta, e o recorte, tão mundano, que eu duvido que seja uma história totalmente ficcional: entrevistas ficcionais, ao menos as que já li, — há uma do Braulio Tavares com o Córtazar, e outra do Autran Dourado com o Godofredo Rangel —, são, no geral, melhores, e funcionam melhor como ficção do que esse "relato". Então, arrisco dizer que sim, é real, e esse é o Thomas Mann visto por uma Sontag de dezesseis anos.
É a primeira vez que a leio, e eu sei que ela era muito mais popular como ensaísta que como ficcionista, então fica aqui, demarcado, pois, nosso primeiro encontro, mesmo que insosso.
Nenhum Caminho para o Paraíso — 2.0/5.0
Bukowski é um autor que de uns tempos para cá, principalmente através dos fanclubes das redes-sociais, tem se tornado difícil de evitar. Tanto o lado dos perfis com fotos preto & branco (alguns estranhamente pelados) que o endeusam, como o dos eruditos que o pisoteiam, são dois lados numerosos e eloquentes, que provavelmente influenciarão as primeiras leituras que alguém poderá fazer deste autor. Um primeiro contato puro (do tipo que eu gosto — idealizado, eu sei — e que fiz recentemente com o D.H Lawrence) não existe com o velho Buk. Seus temas já são esperados, e sua linguagem conhecida: xingamentos, sexo, bebida e cigarro. Tudo isso, por exemplo, já imbuído no meu imaginário por osmose, se mostra factual aqui, a ponto de se aproximar da caricatura.
Mas, mesmo assim, me esforcei o máximo para olhar esse conto de um ponto de vista afastado, longe dos que imediatamente caracterizam o Bukowski como porcaria, e também dos que o elevam ao patamar de arauto de todos os homens.
Lido, pois, Nenhum Caminho para o Paraíso é ligeiramente decepcionante.
Tem um início muito promissor, com a inserção de um caráter fantasioso no meio de um hiper-realismo de bar escuro e esfumaçado de cigarro, justapostos, fazendo um contraste interessante. Uma mulher é apresentada, e tira da bolsa homúnculos — pequenos homenzinhos — que vivem suas próprias vidas quando colocados na mesa do bar, e as personagens ali, como se fosse a coisa mais normal do mundo, num estranho voyeur.
O conto desenvolve então narrando a vida e amorios daqueles homúnculos, um duplo casal em miniatura, na mesa do bar; um influciando o outro — humanos no bar, e homúnculos na mesa — a coisa esquenta no motel rodeado de gigantes copos. É inteligente a utilização dos homúnculos para falar sobre voyeurismo, motif central; e, pela parte da mulher protagonista que observa aquilo, vê-se uma espécie de afastamento das relações “táteis”, para se imergir e escapar dentro das mesmíssimas relações, só que sob outra ótica, a partir da observação. Vemos isso hoje, por exemplo, no alto consumo da pornografia visual e literária.
É verdadeiramente interessante, mas a escrita do Bukowski não desenvolve nada, e não ajuda em nada, parece que não há esforço algum para deixar o conto palatável. Os comentários do narrador/personagem então, nem se fala, a linguagem chula soa muito deslocada, forçada, principalmente neste conto que exigiria mais afinação para tratar dos temas. A sensação que fica do encerramento, é que o Buk ficou no limiar entre o “se levar a sério demais” e o “não se levar a sério absolutamente”. Um exemplo explícito para mim, da falha de construção, é que ele tenta propositalmente engessar e planificar o diálogo dos homúnculos, mas o tiro sai pela culatra quando seus próprios diálogos "sérios" soam do mesmo modo; parece tudo uma grandiosíssima caricatura.
Eu não gosto dos se's — se minha mãe fosse homem, seria meu pai; ditado do meu irmão — mas, se o Bukowski tivesse investido um pouco mais de esforço nesse conto, e o construísse com um pouco mais de apuro, teria saído daqui um bom relato fantástico ou meio hiper-realista; um misto da sujeira característica do autor, com uma inserção "estranha", para tratar de temas próprios e caros dele: fetiches, relacionamentos, e sexo.
Curiosamente, e, criminosamente, encontrei esse conto numa lista dos cem melhores da literatura universal, o que é loucura. Deixe-me dar estrelinhas, gosto de estrelinhas: duas, forçando um pouco.
(Nota Ulterior: sei lá porque cliquei nessa resenha de novo, mas quando me dei por conta já estava editando os erros; agora, a nota: não sei se é porque parei de usar o facebook, mas faz tempo que não vejo esses homens bukowskianos; acho, espero, que entraram em extinção)
Bukowski é um autor que de uns tempos para cá, principalmente através dos fanclubes das redes-sociais, tem se tornado difícil de evitar. Tanto o lado dos perfis com fotos preto & branco (alguns estranhamente pelados) que o endeusam, como o dos eruditos que o pisoteiam, são dois lados numerosos e eloquentes, que provavelmente influenciarão as primeiras leituras que alguém poderá fazer deste autor. Um primeiro contato puro (do tipo que eu gosto — idealizado, eu sei — e que fiz recentemente com o D.H Lawrence) não existe com o velho Buk. Seus temas já são esperados, e sua linguagem conhecida: xingamentos, sexo, bebida e cigarro. Tudo isso, por exemplo, já imbuído no meu imaginário por osmose, se mostra factual aqui, a ponto de se aproximar da caricatura.
Mas, mesmo assim, me esforcei o máximo para olhar esse conto de um ponto de vista afastado, longe dos que imediatamente caracterizam o Bukowski como porcaria, e também dos que o elevam ao patamar de arauto de todos os homens.
Lido, pois, Nenhum Caminho para o Paraíso é ligeiramente decepcionante.
Tem um início muito promissor, com a inserção de um caráter fantasioso no meio de um hiper-realismo de bar escuro e esfumaçado de cigarro, justapostos, fazendo um contraste interessante. Uma mulher é apresentada, e tira da bolsa homúnculos — pequenos homenzinhos — que vivem suas próprias vidas quando colocados na mesa do bar, e as personagens ali, como se fosse a coisa mais normal do mundo, num estranho voyeur.
O conto desenvolve então narrando a vida e amorios daqueles homúnculos, um duplo casal em miniatura, na mesa do bar; um influciando o outro — humanos no bar, e homúnculos na mesa — a coisa esquenta no motel rodeado de gigantes copos. É inteligente a utilização dos homúnculos para falar sobre voyeurismo, motif central; e, pela parte da mulher protagonista que observa aquilo, vê-se uma espécie de afastamento das relações “táteis”, para se imergir e escapar dentro das mesmíssimas relações, só que sob outra ótica, a partir da observação. Vemos isso hoje, por exemplo, no alto consumo da pornografia visual e literária.
É verdadeiramente interessante, mas a escrita do Bukowski não desenvolve nada, e não ajuda em nada, parece que não há esforço algum para deixar o conto palatável. Os comentários do narrador/personagem então, nem se fala, a linguagem chula soa muito deslocada, forçada, principalmente neste conto que exigiria mais afinação para tratar dos temas. A sensação que fica do encerramento, é que o Buk ficou no limiar entre o “se levar a sério demais” e o “não se levar a sério absolutamente”. Um exemplo explícito para mim, da falha de construção, é que ele tenta propositalmente engessar e planificar o diálogo dos homúnculos, mas o tiro sai pela culatra quando seus próprios diálogos "sérios" soam do mesmo modo; parece tudo uma grandiosíssima caricatura.
Eu não gosto dos se's — se minha mãe fosse homem, seria meu pai; ditado do meu irmão — mas, se o Bukowski tivesse investido um pouco mais de esforço nesse conto, e o construísse com um pouco mais de apuro, teria saído daqui um bom relato fantástico ou meio hiper-realista; um misto da sujeira característica do autor, com uma inserção "estranha", para tratar de temas próprios e caros dele: fetiches, relacionamentos, e sexo.
Curiosamente, e, criminosamente, encontrei esse conto numa lista dos cem melhores da literatura universal, o que é loucura. Deixe-me dar estrelinhas, gosto de estrelinhas: duas, forçando um pouco.
(Nota Ulterior: sei lá porque cliquei nessa resenha de novo, mas quando me dei por conta já estava editando os erros; agora, a nota: não sei se é porque parei de usar o facebook, mas faz tempo que não vejo esses homens bukowskianos; acho, espero, que entraram em extinção)
“It’s only a dream.” She was amused.
“Keep your silly, feminine dreams to yourself!”
Se a forma e o estilo de “Verão do Foguete” cedia pistas de que as Crônicas Marcianas não seguiriam para o lado usual da ficção científica, em "Ylla" isso fica evidente. Este primeiro conto, um dos poucos narrados da perspectiva dos marcianos, aborda temas como sonhos, ciúme, opressão e machismo em uma interessante construção de mundo, mais fantasiosa que especulativa.
Ylla e Sr. K são um casal de marcianos cujo relacionamento esfriou — a época em que a bela marciana de pele amarronzada e olhos como moedas de ouro saía com o marido e juntos pintavam quadros com chamas químicas, nadavam nos canais de Marte, ou ficavam em casa de bobeira bebendo o licor esverdeado das árvores de vinho, conversando até a hora morta da madrugada, se foi.
Restou apenas a frieza e o marasmo cotidiano de uma relação sem diálogos. A razão pelo qual os romances e novelas inteligentes não vão muito além do casamento.
Conseguimos traçar e imaginar: vem se aproximando a nave do “Verão do Foguete”, mencionada no conto anterior, singrando horizontes, e quanto mais perto da atmosfera de Marte, Ylla — uma das marcianas psiquicamente sensíveis — começa a ter estranhos e enigmáticos sonhos, ligados aos astronautas dessa primeira expedição. Algo como interferência psíquica começa a acontecer em solo marciano.
Tudo é muito estranho para a Ylla, sempre que acorda nela permanece uma sensação que é um misto de novidade, estranheza e nostalgia. Não entende o que vêm sentindo no “entrelace de mentes” que tem com um humano específico a cada noite de sono; tanto que não há maldade em Ylla, para ela são apenas isso, sonhos. Não pensa duas vezes em contar ao marido sobre o homem que lhe aparece na mente todas as noites, e murmura indiferente as músicas terráqueas que por ele lhe chegam, em língua completamente estranha, mas ainda magnetizante para ela. Assobia-as descontraidamente enquanto faz a faxina. O marido, emburrado, solta frases secas ou observa.
Logo menos, Ylla se vê atraída e apaixonada — pelas músicas e pelo homem. Numa fina ironia do Bradbury, o marido passa a demonstrar cada vez mais ciúme dos sonhos da esposa. Inclusive, em uma das cenas memoráveis do conto, Ylla sonha com o homem da terra e, ao acordar, encontra o marido bufando sobre ela, encarando-a intensamente, com o rosto muito, muito próximo ao dela. Ela acabara de ter alguns sonhos beeeem carinhosos com o humano, e suspeita que tenha falado demais dormindo, dada a empolgação. O marido, como ela mesmo diz, parecia parado ali há muito tempo, e calhou de ouvir tudo. O Marciano, no clássico estilo do "homem traído", a faz contar cada detalhe a ele novamente.
Em dado momento, o humano, Capitão Nathaniel York, revela quando e onde está previsto o pouso no Planeta Vermelho. A trama, antes de descrição lenta e vagarosa, ganha tons opressivos e urgentes, à medida que o ciúme e a raiva do marciano cresce. Sem entregar todo o ouro, digo que há boas passagens deste lado do conto também.
Junto ao que sabemos sobre a gênese do livro, as cenas exemplificam bem como a narrativa marciana do Bradbury é um espelho, um reflexo da sociedade americana daquele tempo. Eu acabei de ler uma série de contos do Machado, e não pude deixar de sentir um pouco do “Realismo Machadiano” na marte do Bradbury, no sentido de ser um reflexo crítico da sociedade em que ele estava inserido; digo isso para tentar transmitir a sensação que tenho de que a divisão rígida e o emprateleiramento de autores em (sub)gêneros e escolas ou movimentos literários estritos, me parece uma pura convenção historiográfica.
Mas, tornando ao conto, em meio a tensão e a descrição fantasiosa de marte, sobra espaço para a comédia, há interessantes tiradas na conversa dos marcianos, sobre a aparência humana e sobre o planeta de onde dizem estarem vindo os "alienígenas brancos": "The third planet is incapable of supporting life,” stated the husband patiently. “Our scientists have said there’s far too much oxygen in their atmosphere.''
E entre o tom opressivo e sentimentos conflituosos — escorrerá, no fim do conto, melancolia pelas areias do planeta vermelho.
O Bradbury faz o uso de muitas descrições e impressões visuais vagas, por isso aproximando o conto mais da fantasia que da ficção científica. Há, em função de carga tecnológica, descrições evocativas, suaves e inexplicadas; a casa que seguia o sol feito uma flor, retratos fosforosos ou frutas que dão em paredes da casa. Quando há elementos da tecnologia marciana, são mais estranhos e fantasiosos que concretos e explicados: a arma que zumbia ao usar abelhas como munição, ou o pó magnético que Ylla usa para limpar a casa, aspirando e levando consigo toda a poeira e sujeira para fora. Pode-se até fazer uma leitura em que a arma ''tecnológica" que o Sr. K usa representa o potencial da tecnologia para causar perda e sofrimento, assim como as Naves Espaciais culminarão na colonização e destruição da velha Marte. Não dá para negar que essa visão é consoante com o espelho americano que é a Marte do Bradbury.
Ele utiliza da imagética e das sensações despertadas pela Era Espacial, sem se prender nada a lógica científica. É uma obra intuitivamente surreal, explorando sentimentos humanos, numa ordem e paisagem de sonho. Neste conto, são justamente os sonhos de Ylla que movem a ação ao enciumar o marido.
No fim, o clímax catártico clássico também muda ligeiramente, já que a sensação de perda e tragicidade não fica tão claro e óbvio para nós ou para a personagem. O conto encerra com Ylla se sentido como se uma luz tivesse apagado, mas nalgum outro lugar que não ali; é uma sensação interna, de que algo aconteceu, e ela sabe que aconteceu, mas não vê. Termina que paira no ar do planeta vermelho uma melancolia, emergindo da casa de Ylla, agora não só um lar pesado, denso, mas um lar que frequentemente a lembra de uma relação que já foi boa e que agora terminou de vez; o conto termina, também, cheio de luto, mas luto por algo que ela não chegou a ter — ou teve, mas de um jeito muito estranho e passageiro: em sonho.
Os Marcianos e a sazonada e cansada Marte, com seus rios já secos, mostram sua face; a primeira expedição humana chega ao fim; mas vem vindo a segunda, e os humanos chegam com sede colinizadora…
“Keep your silly, feminine dreams to yourself!”
Se a forma e o estilo de “Verão do Foguete” cedia pistas de que as Crônicas Marcianas não seguiriam para o lado usual da ficção científica, em "Ylla" isso fica evidente. Este primeiro conto, um dos poucos narrados da perspectiva dos marcianos, aborda temas como sonhos, ciúme, opressão e machismo em uma interessante construção de mundo, mais fantasiosa que especulativa.
Ylla e Sr. K são um casal de marcianos cujo relacionamento esfriou — a época em que a bela marciana de pele amarronzada e olhos como moedas de ouro saía com o marido e juntos pintavam quadros com chamas químicas, nadavam nos canais de Marte, ou ficavam em casa de bobeira bebendo o licor esverdeado das árvores de vinho, conversando até a hora morta da madrugada, se foi.
Restou apenas a frieza e o marasmo cotidiano de uma relação sem diálogos. A razão pelo qual os romances e novelas inteligentes não vão muito além do casamento.
Conseguimos traçar e imaginar: vem se aproximando a nave do “Verão do Foguete”, mencionada no conto anterior, singrando horizontes, e quanto mais perto da atmosfera de Marte, Ylla — uma das marcianas psiquicamente sensíveis — começa a ter estranhos e enigmáticos sonhos, ligados aos astronautas dessa primeira expedição. Algo como interferência psíquica começa a acontecer em solo marciano.
Tudo é muito estranho para a Ylla, sempre que acorda nela permanece uma sensação que é um misto de novidade, estranheza e nostalgia. Não entende o que vêm sentindo no “entrelace de mentes” que tem com um humano específico a cada noite de sono; tanto que não há maldade em Ylla, para ela são apenas isso, sonhos. Não pensa duas vezes em contar ao marido sobre o homem que lhe aparece na mente todas as noites, e murmura indiferente as músicas terráqueas que por ele lhe chegam, em língua completamente estranha, mas ainda magnetizante para ela. Assobia-as descontraidamente enquanto faz a faxina. O marido, emburrado, solta frases secas ou observa.
“I dreamed about a man.”
“A man?”
“A tall man, six feet one inch tall.”
“How absurd; a giant, a misshapen giant.”
“Somehow”—she tried the words—“he looked all right. In spite of being tall. And he had—oh, I know you’ll think it silly—he had blue eyes!”
“Blue eyes! Gods!” cried Mr. K. “What’ll you dream next? I suppose he had black hair?”
“How did you guess?” She was excited.
“I picked the most unlikely color,” he replied coldly."
Logo menos, Ylla se vê atraída e apaixonada — pelas músicas e pelo homem. Numa fina ironia do Bradbury, o marido passa a demonstrar cada vez mais ciúme dos sonhos da esposa. Inclusive, em uma das cenas memoráveis do conto, Ylla sonha com o homem da terra e, ao acordar, encontra o marido bufando sobre ela, encarando-a intensamente, com o rosto muito, muito próximo ao dela. Ela acabara de ter alguns sonhos beeeem carinhosos com o humano, e suspeita que tenha falado demais dormindo, dada a empolgação. O marido, como ela mesmo diz, parecia parado ali há muito tempo, e calhou de ouvir tudo. O Marciano, no clássico estilo do "homem traído", a faz contar cada detalhe a ele novamente.
She opened her eyes. Her husband stood over her. He looked as if he had stood there for hours, watching. […]
“You’ve been dreaming again!” he said. […]
“I’ll be all right.”
“You talked a lot in your sleep!”
“Did I?” She started up. […]
“What was your dream?” (...)
“And then,” she said, “this man, who said his strange name was Nathaniel York, told me I was beautiful and—and kissed me.”
“Ha!” cried the husband, turning violently away, his jaw working.
“It’s only a dream.” She was amused.
Em dado momento, o humano, Capitão Nathaniel York, revela quando e onde está previsto o pouso no Planeta Vermelho. A trama, antes de descrição lenta e vagarosa, ganha tons opressivos e urgentes, à medida que o ciúme e a raiva do marciano cresce. Sem entregar todo o ouro, digo que há boas passagens deste lado do conto também.
Junto ao que sabemos sobre a gênese do livro, as cenas exemplificam bem como a narrativa marciana do Bradbury é um espelho, um reflexo da sociedade americana daquele tempo. Eu acabei de ler uma série de contos do Machado, e não pude deixar de sentir um pouco do “Realismo Machadiano” na marte do Bradbury, no sentido de ser um reflexo crítico da sociedade em que ele estava inserido; digo isso para tentar transmitir a sensação que tenho de que a divisão rígida e o emprateleiramento de autores em (sub)gêneros e escolas ou movimentos literários estritos, me parece uma pura convenção historiográfica.
Mas, tornando ao conto, em meio a tensão e a descrição fantasiosa de marte, sobra espaço para a comédia, há interessantes tiradas na conversa dos marcianos, sobre a aparência humana e sobre o planeta de onde dizem estarem vindo os "alienígenas brancos": "The third planet is incapable of supporting life,” stated the husband patiently. “Our scientists have said there’s far too much oxygen in their atmosphere.''
E entre o tom opressivo e sentimentos conflituosos — escorrerá, no fim do conto, melancolia pelas areias do planeta vermelho.
O Bradbury faz o uso de muitas descrições e impressões visuais vagas, por isso aproximando o conto mais da fantasia que da ficção científica. Há, em função de carga tecnológica, descrições evocativas, suaves e inexplicadas; a casa que seguia o sol feito uma flor, retratos fosforosos ou frutas que dão em paredes da casa. Quando há elementos da tecnologia marciana, são mais estranhos e fantasiosos que concretos e explicados: a arma que zumbia ao usar abelhas como munição, ou o pó magnético que Ylla usa para limpar a casa, aspirando e levando consigo toda a poeira e sujeira para fora. Pode-se até fazer uma leitura em que a arma ''tecnológica" que o Sr. K usa representa o potencial da tecnologia para causar perda e sofrimento, assim como as Naves Espaciais culminarão na colonização e destruição da velha Marte. Não dá para negar que essa visão é consoante com o espelho americano que é a Marte do Bradbury.
Ele utiliza da imagética e das sensações despertadas pela Era Espacial, sem se prender nada a lógica científica. É uma obra intuitivamente surreal, explorando sentimentos humanos, numa ordem e paisagem de sonho. Neste conto, são justamente os sonhos de Ylla que movem a ação ao enciumar o marido.
No fim, o clímax catártico clássico também muda ligeiramente, já que a sensação de perda e tragicidade não fica tão claro e óbvio para nós ou para a personagem. O conto encerra com Ylla se sentido como se uma luz tivesse apagado, mas nalgum outro lugar que não ali; é uma sensação interna, de que algo aconteceu, e ela sabe que aconteceu, mas não vê. Termina que paira no ar do planeta vermelho uma melancolia, emergindo da casa de Ylla, agora não só um lar pesado, denso, mas um lar que frequentemente a lembra de uma relação que já foi boa e que agora terminou de vez; o conto termina, também, cheio de luto, mas luto por algo que ela não chegou a ter — ou teve, mas de um jeito muito estranho e passageiro: em sonho.
Os Marcianos e a sazonada e cansada Marte, com seus rios já secos, mostram sua face; a primeira expedição humana chega ao fim; mas vem vindo a segunda, e os humanos chegam com sede colinizadora…
Conto das Crônicas Marcianas
15~25pp — ✲ 3.5/5.0
Releitura de 2024. [Edit. só agora percebi que eu tinha invertido o nome dos personagens, obg dislexia]
Se você quer reparar um mal que lhe foi imposto, você não deve devolver na mesma moeda, mas deve retribuir em um tom acima e, ainda por cima, sair impune. Nos diz o Montressor, personagem principal do conto, já no primeiro parágrafo da história — no meio de uma interlocução com alguém que também calha de ser a gente, os leitores.
Li em inglês dessa vez e a maior diferença foi que o sadismo e a frieza do Montressor se tornaram ainda mais explícitos. Já era um conto memorável desde que o lera pela primeira vez quando engatinhava no mundo literatura com o "Contos de Imaginação e Mistério" (capa linda, por sinal). Eu coloco ele junto do "Bebê de Tarlatana Rosa", do João do Rio, como exemplo de um tipo de subgênero peculiar que me é bastante apelativo: terror/horror carnavalesco.
Ainda que nessa releitura eu tenha sentido que perdi um pedaço imenso do prazer que é ler esse conto sem saber o que é que está acontecendo e o que é que vai acontecer, eu ganhei um outro: que é pescar as ironias, prenúncios e acenos que o comportamento do Montressor dá quando ele encontra o homem vagando no meio daquele feriado de festas e máscaras e em (quase literalmente) todo diálogo da narrativa. O Montressor está sempre lambendo os beiços e desferindo facadas invisíveis no amigo: dá para quase imaginar seu rosto se torcendo em um sorriso sádico quando a todo tempo tenta desiludir por fora (atrair por dentro) o amigo a não seguir com ele tão fundo nas catacumbas, afinal, a saúde dele não está tão boa, e ele pode achar outro especialista em vinhos...
Ele não cansa de sorrir ao encontrar o velho "amigo", que "não percebe que o sorriso era, naquele momento, fruto do pensamento da futura imolação"; de tanta felicidade pela vingança e pelo assassinato vindouro, aperta a mão do homem e fica sacudindo-a durante um longo tempo.
Depois disso, da trama do vinho, até a descida até às catacumbas do castelo do Montressor para que o "amigo" veja o estoque de Amontillado que comprou, os diálogos e a narração é recheada de menções e referências implícitas sobre vingança e morte, proferidas pelo Montressor à vítima, que nada percebe: e ele se delicia com isso. Vale mencionar também a atmosfera do conto, a ambientação, desde às menções ao carnaval na rua, do lado de fora, até a unidade dos túneis subterrâneos da mansão/castelo.
Daí, até o desfecho, tão surpreendente e intrigante da primeira vez lido, a leitura acontece sem sobressaltos. Continuo achando bem bom, mas não dos melhores do Poe. Ele, porém, cimenta bem fundo o Poe como um dos grandes contistas da litratura mundial. Em resumo, não foi das melhores releituras que fiz, valeu a revisita.
✲ 4.0/5.0
"At length I would be avenged; this was a point definitely, settled — but the very definitiveness with which it was resolved precluded the idea of risk. I must not only punish but punish with impunity. A wrong is unredressed when retribution overtakes its redresser."
Se você quer reparar um mal que lhe foi imposto, você não deve devolver na mesma moeda, mas deve retribuir em um tom acima e, ainda por cima, sair impune. Nos diz o Montressor, personagem principal do conto, já no primeiro parágrafo da história — no meio de uma interlocução com alguém que também calha de ser a gente, os leitores.
Li em inglês dessa vez e a maior diferença foi que o sadismo e a frieza do Montressor se tornaram ainda mais explícitos. Já era um conto memorável desde que o lera pela primeira vez quando engatinhava no mundo literatura com o "Contos de Imaginação e Mistério" (capa linda, por sinal). Eu coloco ele junto do "Bebê de Tarlatana Rosa", do João do Rio, como exemplo de um tipo de subgênero peculiar que me é bastante apelativo: terror/horror carnavalesco.
Ainda que nessa releitura eu tenha sentido que perdi um pedaço imenso do prazer que é ler esse conto sem saber o que é que está acontecendo e o que é que vai acontecer, eu ganhei um outro: que é pescar as ironias, prenúncios e acenos que o comportamento do Montressor dá quando ele encontra o homem vagando no meio daquele feriado de festas e máscaras e em (quase literalmente) todo diálogo da narrativa. O Montressor está sempre lambendo os beiços e desferindo facadas invisíveis no amigo: dá para quase imaginar seu rosto se torcendo em um sorriso sádico quando a todo tempo tenta desiludir por fora (atrair por dentro) o amigo a não seguir com ele tão fundo nas catacumbas, afinal, a saúde dele não está tão boa, e ele pode achar outro especialista em vinhos...
Ele não cansa de sorrir ao encontrar o velho "amigo", que "não percebe que o sorriso era, naquele momento, fruto do pensamento da futura imolação"; de tanta felicidade pela vingança e pelo assassinato vindouro, aperta a mão do homem e fica sacudindo-a durante um longo tempo.
Depois disso, da trama do vinho, até a descida até às catacumbas do castelo do Montressor para que o "amigo" veja o estoque de Amontillado que comprou, os diálogos e a narração é recheada de menções e referências implícitas sobre vingança e morte, proferidas pelo Montressor à vítima, que nada percebe: e ele se delicia com isso. Vale mencionar também a atmosfera do conto, a ambientação, desde às menções ao carnaval na rua, do lado de fora, até a unidade dos túneis subterrâneos da mansão/castelo.
Daí, até o desfecho, tão surpreendente e intrigante da primeira vez lido, a leitura acontece sem sobressaltos. Continuo achando bem bom, mas não dos melhores do Poe. Ele, porém, cimenta bem fundo o Poe como um dos grandes contistas da litratura mundial. Em resumo, não foi das melhores releituras que fiz, valeu a revisita.
✲ 4.0/5.0
O Verão do Foguete — ✲ 3.5/5.0
(Conto/Vignette)
“Então durante alguns anos [após a decisão de fazer o livro] compus diversos pensées Marcianos, apartes alá Shakespeare, pensamentos divagantes, e visões que tinha no tardar das noites, meio-sonhos no despontar do dia.”
A gênese do livro que esse conto integra é bastante interessante: inspirado pelo St. John Perse (um esquecido Nobel francês), que, segundo o Bradbury, realizou com perfeição a forma literária vislumbrada por ele para compor as suas Crônicas Marcianas — inspirado, também, por "Winesburg, Ohio" de Sherwood Anderson —, ele desenvolve, ao modo daquele francês, pequenos pensées situados em Marte.
Os "pensées" são algo como breves pensamentos transpostos em texto literário, podendo ocupar um parágrafo ou até uma página inteira. Essa forma literária foi muito popular na França. São parágrafos metade prosa e metade poesia, sobre qualquer assunto ou um assunto mais específico, desde o clima, a arquitetura, vinho, a vista do mar, rápidos ocasos ou longas alvoradas. Bradbury utilizou esses pensées como base para moldar os contos e vignettes que iriam compor o livro.
As vignettes literárias (não sei se há tradução) são passagens-esboço, em prosa, que abrem um capítulo ou funcionam como interlúdios. Nas "Crônicas Marcianas", elas são elípticas, trabalhando na construção de uma atmosfera sugestiva.
"O Verão do Foguete" e outras onze vignettes ao longo do livro são o fio adicional com que Bradbury costura: primeiro, seus pensées em contos e, posteriormente, esses contos em uma obra fechada. O resultado final é uma forma literária que se situa entre um romance e uma coletânea de histórias, apresentando uma unidade narrativa que é significativa quando em conjunto.
A fim de finalmente ler até o fim as Crônicas, dei uma olhada nas traduções disponíveis, e percebi que nenhuma delas consegue transmitir plenamente a prosa e a musicalidade dos pensées e vignettes Bradburyanos. E se você só o leu pela e se você só chegou a lê-lo pela distopia (veja que há críticos extremos que dizem que distopia por si só implique em não-literatura) não estranhe esse apontamento: o Bradbury destas "Crônicas Marcianas" ou de "Licor Dente-de-Leão" é quase um outro autor; ao ponto de que sim, importam bastante as opções e decisões do tradutor. A tradução portuguesa mais recente, embora seja visualmente atraente com sua capa vermelha, parece ser a melhor, mas pelo título: “O Verão do Foguetão”, eu não consigo levá-la a sério. Desculpa Portugal.
"O Verão do Foguete" abre esse lado da literatura do Bradbury com belas imagens e uma linguagem bem lírica. É o decolar das naves especiais em direção a novas viagens, e a uma era de descoberta que guarda o desconhecido tanto para os leitores quanto para os astronautas americanos ou os amarronzados marcianos que protagonizarão as histórias. Os propulsores do foguete da primeira decolagem das naves espaciais, em Ohio, transforma brevemente o inverno em verão, derretendo o gelo e revelando os antigos gramados verdes do último verão — o último verão antes das primeiras viagens siderais.
É uma boa cena, frequentemente ilustrada pelos artstations da vida. Já aqui na abertura pegamos uma sensação e um toque muito diferente na escrita do Bradbury. Vale notar que a influência exercida pelos franceses no estilo e na forma, foi notada pelos próprios: já na época de publicação (por volta da decáda de 1940s) As Crônicas tornaram-se populares na França por seu tom surrealista — e não só em França. A edição espanhola conta com prefácio de Jorge Luis Borges; além de ser um livro presente nas escolas inglesas e americanas. A influência segue em nossos tempos, no recém-adaptado para a TV "Lovecraft Country", há uma ótima cena no livro que é construída em torno de dois leitores d’As Crônicas.
Na minha edição (Harper Collins), o próprio Bradbury se pergunta, com tudo isso em cheque, o porquê das Crônicas Marcianas serem frequentemente descritas e incluídas em listas de Ficção Científica?
Na abertura — significativamente intitulada: ‘‘Green Town, Somewhere on Mars; Mars, Somewhere in Egypt’'' —, por exemplo, ele relata como, durante uma visita o Museu de Tutankamon, quando conseguia algum intervalo no teatro, se viu reescrevendo hieroglifos daqueles tempos; quando olhava para o palco da sua adaptação, e via na mente lembrança do reflexo da máscara de Tutancâmon, via nela a mesma máscara prateada de seus marcianos; via na Marte representada no palco, o Antigo Egito, e nos atores, os fantasmas daquele velho rei.
Conlui na abertura que histórias de ficção científica e outras histórias tecnológicas e práticas e demasiado eficientes, tendem a perder seu brilho, enferrujar, e ir deixando pedaços com o tempo. Enquanto isso: Myth, seen in mirrors, incapable of being touched, stays on. If it is not immortal, it almost seems such.”
- - -
Eu decidi por ler em inglês mesmo, A tradução do José Sans se aproxima, com algumas poucas perdas, da prosa original do Bradbury,se quiser ler em português opte por ela; mas não é a mesma coisa. Se você puder ler no original, opte pelo original:
A obra é cheia dessas passagens descritivas que servem para dar o tom meio nostálgico, quase infantil, combinado com as possibilidades proporcionadas pela viagem espacial — não é à toa que, logo após a dedicatória, Bradbury coloque a frase: "A viagem espacial nos fez crianças novamente". Essa relação entre o passado nostálgico e um futuro além dos limites do horizonte, ditará muito do tom do livro.
(Conto/Vignette)
“Então durante alguns anos [após a decisão de fazer o livro] compus diversos pensées Marcianos, apartes alá Shakespeare, pensamentos divagantes, e visões que tinha no tardar das noites, meio-sonhos no despontar do dia.”
A gênese do livro que esse conto integra é bastante interessante: inspirado pelo St. John Perse (um esquecido Nobel francês), que, segundo o Bradbury, realizou com perfeição a forma literária vislumbrada por ele para compor as suas Crônicas Marcianas — inspirado, também, por "Winesburg, Ohio" de Sherwood Anderson —, ele desenvolve, ao modo daquele francês, pequenos pensées situados em Marte.
Os "pensées" são algo como breves pensamentos transpostos em texto literário, podendo ocupar um parágrafo ou até uma página inteira. Essa forma literária foi muito popular na França. São parágrafos metade prosa e metade poesia, sobre qualquer assunto ou um assunto mais específico, desde o clima, a arquitetura, vinho, a vista do mar, rápidos ocasos ou longas alvoradas. Bradbury utilizou esses pensées como base para moldar os contos e vignettes que iriam compor o livro.
As vignettes literárias (não sei se há tradução) são passagens-esboço, em prosa, que abrem um capítulo ou funcionam como interlúdios. Nas "Crônicas Marcianas", elas são elípticas, trabalhando na construção de uma atmosfera sugestiva.
"O Verão do Foguete" e outras onze vignettes ao longo do livro são o fio adicional com que Bradbury costura: primeiro, seus pensées em contos e, posteriormente, esses contos em uma obra fechada. O resultado final é uma forma literária que se situa entre um romance e uma coletânea de histórias, apresentando uma unidade narrativa que é significativa quando em conjunto.
A fim de finalmente ler até o fim as Crônicas, dei uma olhada nas traduções disponíveis, e percebi que nenhuma delas consegue transmitir plenamente a prosa e a musicalidade dos pensées e vignettes Bradburyanos. E se você só o leu pela e se você só chegou a lê-lo pela distopia (veja que há críticos extremos que dizem que distopia por si só implique em não-literatura) não estranhe esse apontamento: o Bradbury destas "Crônicas Marcianas" ou de "Licor Dente-de-Leão" é quase um outro autor; ao ponto de que sim, importam bastante as opções e decisões do tradutor. A tradução portuguesa mais recente, embora seja visualmente atraente com sua capa vermelha, parece ser a melhor, mas pelo título: “O Verão do Foguetão”, eu não consigo levá-la a sério. Desculpa Portugal.
"O Verão do Foguete" abre esse lado da literatura do Bradbury com belas imagens e uma linguagem bem lírica. É o decolar das naves especiais em direção a novas viagens, e a uma era de descoberta que guarda o desconhecido tanto para os leitores quanto para os astronautas americanos ou os amarronzados marcianos que protagonizarão as histórias. Os propulsores do foguete da primeira decolagem das naves espaciais, em Ohio, transforma brevemente o inverno em verão, derretendo o gelo e revelando os antigos gramados verdes do último verão — o último verão antes das primeiras viagens siderais.
''One minute it was Ohio winter, with doors closed, windows locked, the panes blind with frost, icicles fringing every roof, children skiing on slopes, housewives lumbering like great black bears in their furs along the icy streets. […] And then a long wave of warmth crossed the small town. A flooding sea of hot air; it seemed as if someone had left a bakery door open. The heat pulsed among the cottages and bushes and children. The icicles dropped, shattering, to melt. The doors flew open. The windows flew up. […] The snow dissolved and showed last summer’s ancient green lawns.''
É uma boa cena, frequentemente ilustrada pelos artstations da vida. Já aqui na abertura pegamos uma sensação e um toque muito diferente na escrita do Bradbury. Vale notar que a influência exercida pelos franceses no estilo e na forma, foi notada pelos próprios: já na época de publicação (por volta da decáda de 1940s) As Crônicas tornaram-se populares na França por seu tom surrealista — e não só em França. A edição espanhola conta com prefácio de Jorge Luis Borges; além de ser um livro presente nas escolas inglesas e americanas. A influência segue em nossos tempos, no recém-adaptado para a TV "Lovecraft Country", há uma ótima cena no livro que é construída em torno de dois leitores d’As Crônicas.
Na minha edição (Harper Collins), o próprio Bradbury se pergunta, com tudo isso em cheque, o porquê das Crônicas Marcianas serem frequentemente descritas e incluídas em listas de Ficção Científica?
Na abertura — significativamente intitulada: ‘‘Green Town, Somewhere on Mars; Mars, Somewhere in Egypt’'' —, por exemplo, ele relata como, durante uma visita o Museu de Tutankamon, quando conseguia algum intervalo no teatro, se viu reescrevendo hieroglifos daqueles tempos; quando olhava para o palco da sua adaptação, e via na mente lembrança do reflexo da máscara de Tutancâmon, via nela a mesma máscara prateada de seus marcianos; via na Marte representada no palco, o Antigo Egito, e nos atores, os fantasmas daquele velho rei.
Conlui na abertura que histórias de ficção científica e outras histórias tecnológicas e práticas e demasiado eficientes, tendem a perder seu brilho, enferrujar, e ir deixando pedaços com o tempo. Enquanto isso: Myth, seen in mirrors, incapable of being touched, stays on. If it is not immortal, it almost seems such.”
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Eu decidi por ler em inglês mesmo, A tradução do José Sans se aproxima, com algumas poucas perdas, da prosa original do Bradbury,se quiser ler em português opte por ela; mas não é a mesma coisa. Se você puder ler no original, opte pelo original:
"Rocket summer. The words passed among the people in the open, airing houses. Rocket summer. The warm desert air changing the frost patterns on the windows, erasing the art work. The skis and sleds suddenly useless. The snow, falling from the cold sky upon the town, turned to a hot rain before it touched the ground. Rocket summer. People leaned from their dripping porches and watched the reddening sky."
A obra é cheia dessas passagens descritivas que servem para dar o tom meio nostálgico, quase infantil, combinado com as possibilidades proporcionadas pela viagem espacial — não é à toa que, logo após a dedicatória, Bradbury coloque a frase: "A viagem espacial nos fez crianças novamente". Essa relação entre o passado nostálgico e um futuro além dos limites do horizonte, ditará muito do tom do livro.