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rolandosmedeiros 's review for:

Pilgrimage by Susan Sontag
2.0

Peregrinação: Susan Sontag e Thomas Mann.
Lido no New Yorker — 2.5


Esse é um relato que fica emprateleirado como uma ficção breve, mas está formalmente distante de sê-lo. É mais uma autobiografia, que, como a maioria das outras, inescapa um grauzinho de ficcionalização.

Pilgrimage, seja uma tentativa de imbuir forma de conto ou apenas a leve ficionalização de uma memória, é um relato em primeira pessoa do encontro da própria Susan, ainda adolescente, no Ensino Médio, com o gigantesco — pós Montanha Mágica — Thomas Mann, de quem ela era leitora fervorosa.

O relato, no entanto, é frágil formal e narrativamente, ainda que no seu miolo, ela consiga revelar um bom olhar para as minúcias; sentimentos, ansiedades e idealizações adolescentes oriundos de uma conversa com seu ídolo. O contraste do “small talk” que os adolescentes fazem para manter a conversa, com as respostas lentas e carregadas do autor é o ponto alto do conto, assim como as reações compreensíveis, e a atmosfera de vergonha: tanto de se envergonhar perante o outro, quanto de envergonhar o outro. O mote do conto é que ela nem mesmo queria estar ali. Para quê seguir o amigo em uma visita à casa dos Mann, se ela já o tinha nos livros; para quê se por de frente com um gigante, quando ela ainda não era ninguém?

A escrita, entretanto, arrasta tanto para se pôr em movimento, quanto para encerrar esse movimento: na minha opinião, o relato acaba bem "depois do ponto". A decisão, também, de mesclar sentimentos de um passado nebuloso com o de um presente onde ela já é mais crítica, foi pouco efetivo, a não ser para provar pontos — ‘‘devemos sempre tratar autor e obra separados?‘’ — e utilizar isso com esse fim, escapa da “gramática elementar” da ficção.

Paira no ar a dúvida se é de fato pura ficção ou uma reflexão memorial/biográfica — mesmo que no quesito de qualidade literária isso pouco importe. Não fica muito claro. A descrição do Thomas Mann é real? Seu comportamento, suas perguntas, a aceitação estranha do convite…? A curiosidade dele acerca dos jovens americanos é verdadeira? A pergunta sobre o Heimingway realmente aconteceu?

A recordação e as pinceladas com que ela remonta a infância é tão lenta, e o recorte, tão mundano, que eu duvido que seja uma história totalmente ficcional: entrevistas ficcionais, ao menos as que já li, — há uma do Braulio Tavares com o Córtazar, e outra do Autran Dourado com o Godofredo Rangel —, são, no geral, melhores, e funcionam melhor como ficção do que esse "relato". Então, arrisco dizer que sim, é real, e esse é o Thomas Mann visto por uma Sontag de dezesseis anos.

É a primeira vez que a leio, e eu sei que ela era muito mais popular como ensaísta que como ficcionista, então fica aqui, demarcado, pois, nosso primeiro encontro, mesmo que insosso.