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rolandosmedeiros 's review for:
The Cask of Amontillado
by Edgar Allan Poe
Releitura de 2024. [Edit. só agora percebi que eu tinha invertido o nome dos personagens, obg dislexia]
Se você quer reparar um mal que lhe foi imposto, você não deve devolver na mesma moeda, mas deve retribuir em um tom acima e, ainda por cima, sair impune. Nos diz o Montressor, personagem principal do conto, já no primeiro parágrafo da história — no meio de uma interlocução com alguém que também calha de ser a gente, os leitores.
Li em inglês dessa vez e a maior diferença foi que o sadismo e a frieza do Montressor se tornaram ainda mais explícitos. Já era um conto memorável desde que o lera pela primeira vez quando engatinhava no mundo literatura com o "Contos de Imaginação e Mistério" (capa linda, por sinal). Eu coloco ele junto do "Bebê de Tarlatana Rosa", do João do Rio, como exemplo de um tipo de subgênero peculiar que me é bastante apelativo: terror/horror carnavalesco.
Ainda que nessa releitura eu tenha sentido que perdi um pedaço imenso do prazer que é ler esse conto sem saber o que é que está acontecendo e o que é que vai acontecer, eu ganhei um outro: que é pescar as ironias, prenúncios e acenos que o comportamento do Montressor dá quando ele encontra o homem vagando no meio daquele feriado de festas e máscaras e em (quase literalmente) todo diálogo da narrativa. O Montressor está sempre lambendo os beiços e desferindo facadas invisíveis no amigo: dá para quase imaginar seu rosto se torcendo em um sorriso sádico quando a todo tempo tenta desiludir por fora (atrair por dentro) o amigo a não seguir com ele tão fundo nas catacumbas, afinal, a saúde dele não está tão boa, e ele pode achar outro especialista em vinhos...
Ele não cansa de sorrir ao encontrar o velho "amigo", que "não percebe que o sorriso era, naquele momento, fruto do pensamento da futura imolação"; de tanta felicidade pela vingança e pelo assassinato vindouro, aperta a mão do homem e fica sacudindo-a durante um longo tempo.
Depois disso, da trama do vinho, até a descida até às catacumbas do castelo do Montressor para que o "amigo" veja o estoque de Amontillado que comprou, os diálogos e a narração é recheada de menções e referências implícitas sobre vingança e morte, proferidas pelo Montressor à vítima, que nada percebe: e ele se delicia com isso. Vale mencionar também a atmosfera do conto, a ambientação, desde às menções ao carnaval na rua, do lado de fora, até a unidade dos túneis subterrâneos da mansão/castelo.
Daí, até o desfecho, tão surpreendente e intrigante da primeira vez lido, a leitura acontece sem sobressaltos. Continuo achando bem bom, mas não dos melhores do Poe. Ele, porém, cimenta bem fundo o Poe como um dos grandes contistas da litratura mundial. Em resumo, não foi das melhores releituras que fiz, valeu a revisita.
✲ 4.0/5.0
"At length I would be avenged; this was a point definitely, settled — but the very definitiveness with which it was resolved precluded the idea of risk. I must not only punish but punish with impunity. A wrong is unredressed when retribution overtakes its redresser."
Se você quer reparar um mal que lhe foi imposto, você não deve devolver na mesma moeda, mas deve retribuir em um tom acima e, ainda por cima, sair impune. Nos diz o Montressor, personagem principal do conto, já no primeiro parágrafo da história — no meio de uma interlocução com alguém que também calha de ser a gente, os leitores.
Li em inglês dessa vez e a maior diferença foi que o sadismo e a frieza do Montressor se tornaram ainda mais explícitos. Já era um conto memorável desde que o lera pela primeira vez quando engatinhava no mundo literatura com o "Contos de Imaginação e Mistério" (capa linda, por sinal). Eu coloco ele junto do "Bebê de Tarlatana Rosa", do João do Rio, como exemplo de um tipo de subgênero peculiar que me é bastante apelativo: terror/horror carnavalesco.
Ainda que nessa releitura eu tenha sentido que perdi um pedaço imenso do prazer que é ler esse conto sem saber o que é que está acontecendo e o que é que vai acontecer, eu ganhei um outro: que é pescar as ironias, prenúncios e acenos que o comportamento do Montressor dá quando ele encontra o homem vagando no meio daquele feriado de festas e máscaras e em (quase literalmente) todo diálogo da narrativa. O Montressor está sempre lambendo os beiços e desferindo facadas invisíveis no amigo: dá para quase imaginar seu rosto se torcendo em um sorriso sádico quando a todo tempo tenta desiludir por fora (atrair por dentro) o amigo a não seguir com ele tão fundo nas catacumbas, afinal, a saúde dele não está tão boa, e ele pode achar outro especialista em vinhos...
Ele não cansa de sorrir ao encontrar o velho "amigo", que "não percebe que o sorriso era, naquele momento, fruto do pensamento da futura imolação"; de tanta felicidade pela vingança e pelo assassinato vindouro, aperta a mão do homem e fica sacudindo-a durante um longo tempo.
Depois disso, da trama do vinho, até a descida até às catacumbas do castelo do Montressor para que o "amigo" veja o estoque de Amontillado que comprou, os diálogos e a narração é recheada de menções e referências implícitas sobre vingança e morte, proferidas pelo Montressor à vítima, que nada percebe: e ele se delicia com isso. Vale mencionar também a atmosfera do conto, a ambientação, desde às menções ao carnaval na rua, do lado de fora, até a unidade dos túneis subterrâneos da mansão/castelo.
Daí, até o desfecho, tão surpreendente e intrigante da primeira vez lido, a leitura acontece sem sobressaltos. Continuo achando bem bom, mas não dos melhores do Poe. Ele, porém, cimenta bem fundo o Poe como um dos grandes contistas da litratura mundial. Em resumo, não foi das melhores releituras que fiz, valeu a revisita.
✲ 4.0/5.0