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rolandosmedeiros 's review for:
Ylla [February 1999/2030]
by Ray Bradbury
“It’s only a dream.” She was amused.
“Keep your silly, feminine dreams to yourself!”
Se a forma e o estilo de “Verão do Foguete” cedia pistas de que as Crônicas Marcianas não seguiriam para o lado usual da ficção científica, em "Ylla" isso fica evidente. Este primeiro conto, um dos poucos narrados da perspectiva dos marcianos, aborda temas como sonhos, ciúme, opressão e machismo em uma interessante construção de mundo, mais fantasiosa que especulativa.
Ylla e Sr. K são um casal de marcianos cujo relacionamento esfriou — a época em que a bela marciana de pele amarronzada e olhos como moedas de ouro saía com o marido e juntos pintavam quadros com chamas químicas, nadavam nos canais de Marte, ou ficavam em casa de bobeira bebendo o licor esverdeado das árvores de vinho, conversando até a hora morta da madrugada, se foi.
Restou apenas a frieza e o marasmo cotidiano de uma relação sem diálogos. A razão pelo qual os romances e novelas inteligentes não vão muito além do casamento.
Conseguimos traçar e imaginar: vem se aproximando a nave do “Verão do Foguete”, mencionada no conto anterior, singrando horizontes, e quanto mais perto da atmosfera de Marte, Ylla — uma das marcianas psiquicamente sensíveis — começa a ter estranhos e enigmáticos sonhos, ligados aos astronautas dessa primeira expedição. Algo como interferência psíquica começa a acontecer em solo marciano.
Tudo é muito estranho para a Ylla, sempre que acorda nela permanece uma sensação que é um misto de novidade, estranheza e nostalgia. Não entende o que vêm sentindo no “entrelace de mentes” que tem com um humano específico a cada noite de sono; tanto que não há maldade em Ylla, para ela são apenas isso, sonhos. Não pensa duas vezes em contar ao marido sobre o homem que lhe aparece na mente todas as noites, e murmura indiferente as músicas terráqueas que por ele lhe chegam, em língua completamente estranha, mas ainda magnetizante para ela. Assobia-as descontraidamente enquanto faz a faxina. O marido, emburrado, solta frases secas ou observa.
Logo menos, Ylla se vê atraída e apaixonada — pelas músicas e pelo homem. Numa fina ironia do Bradbury, o marido passa a demonstrar cada vez mais ciúme dos sonhos da esposa. Inclusive, em uma das cenas memoráveis do conto, Ylla sonha com o homem da terra e, ao acordar, encontra o marido bufando sobre ela, encarando-a intensamente, com o rosto muito, muito próximo ao dela. Ela acabara de ter alguns sonhos beeeem carinhosos com o humano, e suspeita que tenha falado demais dormindo, dada a empolgação. O marido, como ela mesmo diz, parecia parado ali há muito tempo, e calhou de ouvir tudo. O Marciano, no clássico estilo do "homem traído", a faz contar cada detalhe a ele novamente.
Em dado momento, o humano, Capitão Nathaniel York, revela quando e onde está previsto o pouso no Planeta Vermelho. A trama, antes de descrição lenta e vagarosa, ganha tons opressivos e urgentes, à medida que o ciúme e a raiva do marciano cresce. Sem entregar todo o ouro, digo que há boas passagens deste lado do conto também.
Junto ao que sabemos sobre a gênese do livro, as cenas exemplificam bem como a narrativa marciana do Bradbury é um espelho, um reflexo da sociedade americana daquele tempo. Eu acabei de ler uma série de contos do Machado, e não pude deixar de sentir um pouco do “Realismo Machadiano” na marte do Bradbury, no sentido de ser um reflexo crítico da sociedade em que ele estava inserido; digo isso para tentar transmitir a sensação que tenho de que a divisão rígida e o emprateleiramento de autores em (sub)gêneros e escolas ou movimentos literários estritos, me parece uma pura convenção historiográfica.
Mas, tornando ao conto, em meio a tensão e a descrição fantasiosa de marte, sobra espaço para a comédia, há interessantes tiradas na conversa dos marcianos, sobre a aparência humana e sobre o planeta de onde dizem estarem vindo os "alienígenas brancos": "The third planet is incapable of supporting life,” stated the husband patiently. “Our scientists have said there’s far too much oxygen in their atmosphere.''
E entre o tom opressivo e sentimentos conflituosos — escorrerá, no fim do conto, melancolia pelas areias do planeta vermelho.
O Bradbury faz o uso de muitas descrições e impressões visuais vagas, por isso aproximando o conto mais da fantasia que da ficção científica. Há, em função de carga tecnológica, descrições evocativas, suaves e inexplicadas; a casa que seguia o sol feito uma flor, retratos fosforosos ou frutas que dão em paredes da casa. Quando há elementos da tecnologia marciana, são mais estranhos e fantasiosos que concretos e explicados: a arma que zumbia ao usar abelhas como munição, ou o pó magnético que Ylla usa para limpar a casa, aspirando e levando consigo toda a poeira e sujeira para fora. Pode-se até fazer uma leitura em que a arma ''tecnológica" que o Sr. K usa representa o potencial da tecnologia para causar perda e sofrimento, assim como as Naves Espaciais culminarão na colonização e destruição da velha Marte. Não dá para negar que essa visão é consoante com o espelho americano que é a Marte do Bradbury.
Ele utiliza da imagética e das sensações despertadas pela Era Espacial, sem se prender nada a lógica científica. É uma obra intuitivamente surreal, explorando sentimentos humanos, numa ordem e paisagem de sonho. Neste conto, são justamente os sonhos de Ylla que movem a ação ao enciumar o marido.
No fim, o clímax catártico clássico também muda ligeiramente, já que a sensação de perda e tragicidade não fica tão claro e óbvio para nós ou para a personagem. O conto encerra com Ylla se sentido como se uma luz tivesse apagado, mas nalgum outro lugar que não ali; é uma sensação interna, de que algo aconteceu, e ela sabe que aconteceu, mas não vê. Termina que paira no ar do planeta vermelho uma melancolia, emergindo da casa de Ylla, agora não só um lar pesado, denso, mas um lar que frequentemente a lembra de uma relação que já foi boa e que agora terminou de vez; o conto termina, também, cheio de luto, mas luto por algo que ela não chegou a ter — ou teve, mas de um jeito muito estranho e passageiro: em sonho.
Os Marcianos e a sazonada e cansada Marte, com seus rios já secos, mostram sua face; a primeira expedição humana chega ao fim; mas vem vindo a segunda, e os humanos chegam com sede colinizadora…
“Keep your silly, feminine dreams to yourself!”
Se a forma e o estilo de “Verão do Foguete” cedia pistas de que as Crônicas Marcianas não seguiriam para o lado usual da ficção científica, em "Ylla" isso fica evidente. Este primeiro conto, um dos poucos narrados da perspectiva dos marcianos, aborda temas como sonhos, ciúme, opressão e machismo em uma interessante construção de mundo, mais fantasiosa que especulativa.
Ylla e Sr. K são um casal de marcianos cujo relacionamento esfriou — a época em que a bela marciana de pele amarronzada e olhos como moedas de ouro saía com o marido e juntos pintavam quadros com chamas químicas, nadavam nos canais de Marte, ou ficavam em casa de bobeira bebendo o licor esverdeado das árvores de vinho, conversando até a hora morta da madrugada, se foi.
Restou apenas a frieza e o marasmo cotidiano de uma relação sem diálogos. A razão pelo qual os romances e novelas inteligentes não vão muito além do casamento.
Conseguimos traçar e imaginar: vem se aproximando a nave do “Verão do Foguete”, mencionada no conto anterior, singrando horizontes, e quanto mais perto da atmosfera de Marte, Ylla — uma das marcianas psiquicamente sensíveis — começa a ter estranhos e enigmáticos sonhos, ligados aos astronautas dessa primeira expedição. Algo como interferência psíquica começa a acontecer em solo marciano.
Tudo é muito estranho para a Ylla, sempre que acorda nela permanece uma sensação que é um misto de novidade, estranheza e nostalgia. Não entende o que vêm sentindo no “entrelace de mentes” que tem com um humano específico a cada noite de sono; tanto que não há maldade em Ylla, para ela são apenas isso, sonhos. Não pensa duas vezes em contar ao marido sobre o homem que lhe aparece na mente todas as noites, e murmura indiferente as músicas terráqueas que por ele lhe chegam, em língua completamente estranha, mas ainda magnetizante para ela. Assobia-as descontraidamente enquanto faz a faxina. O marido, emburrado, solta frases secas ou observa.
“I dreamed about a man.”
“A man?”
“A tall man, six feet one inch tall.”
“How absurd; a giant, a misshapen giant.”
“Somehow”—she tried the words—“he looked all right. In spite of being tall. And he had—oh, I know you’ll think it silly—he had blue eyes!”
“Blue eyes! Gods!” cried Mr. K. “What’ll you dream next? I suppose he had black hair?”
“How did you guess?” She was excited.
“I picked the most unlikely color,” he replied coldly."
Logo menos, Ylla se vê atraída e apaixonada — pelas músicas e pelo homem. Numa fina ironia do Bradbury, o marido passa a demonstrar cada vez mais ciúme dos sonhos da esposa. Inclusive, em uma das cenas memoráveis do conto, Ylla sonha com o homem da terra e, ao acordar, encontra o marido bufando sobre ela, encarando-a intensamente, com o rosto muito, muito próximo ao dela. Ela acabara de ter alguns sonhos beeeem carinhosos com o humano, e suspeita que tenha falado demais dormindo, dada a empolgação. O marido, como ela mesmo diz, parecia parado ali há muito tempo, e calhou de ouvir tudo. O Marciano, no clássico estilo do "homem traído", a faz contar cada detalhe a ele novamente.
She opened her eyes. Her husband stood over her. He looked as if he had stood there for hours, watching. […]
“You’ve been dreaming again!” he said. […]
“I’ll be all right.”
“You talked a lot in your sleep!”
“Did I?” She started up. […]
“What was your dream?” (...)
“And then,” she said, “this man, who said his strange name was Nathaniel York, told me I was beautiful and—and kissed me.”
“Ha!” cried the husband, turning violently away, his jaw working.
“It’s only a dream.” She was amused.
Em dado momento, o humano, Capitão Nathaniel York, revela quando e onde está previsto o pouso no Planeta Vermelho. A trama, antes de descrição lenta e vagarosa, ganha tons opressivos e urgentes, à medida que o ciúme e a raiva do marciano cresce. Sem entregar todo o ouro, digo que há boas passagens deste lado do conto também.
Junto ao que sabemos sobre a gênese do livro, as cenas exemplificam bem como a narrativa marciana do Bradbury é um espelho, um reflexo da sociedade americana daquele tempo. Eu acabei de ler uma série de contos do Machado, e não pude deixar de sentir um pouco do “Realismo Machadiano” na marte do Bradbury, no sentido de ser um reflexo crítico da sociedade em que ele estava inserido; digo isso para tentar transmitir a sensação que tenho de que a divisão rígida e o emprateleiramento de autores em (sub)gêneros e escolas ou movimentos literários estritos, me parece uma pura convenção historiográfica.
Mas, tornando ao conto, em meio a tensão e a descrição fantasiosa de marte, sobra espaço para a comédia, há interessantes tiradas na conversa dos marcianos, sobre a aparência humana e sobre o planeta de onde dizem estarem vindo os "alienígenas brancos": "The third planet is incapable of supporting life,” stated the husband patiently. “Our scientists have said there’s far too much oxygen in their atmosphere.''
E entre o tom opressivo e sentimentos conflituosos — escorrerá, no fim do conto, melancolia pelas areias do planeta vermelho.
O Bradbury faz o uso de muitas descrições e impressões visuais vagas, por isso aproximando o conto mais da fantasia que da ficção científica. Há, em função de carga tecnológica, descrições evocativas, suaves e inexplicadas; a casa que seguia o sol feito uma flor, retratos fosforosos ou frutas que dão em paredes da casa. Quando há elementos da tecnologia marciana, são mais estranhos e fantasiosos que concretos e explicados: a arma que zumbia ao usar abelhas como munição, ou o pó magnético que Ylla usa para limpar a casa, aspirando e levando consigo toda a poeira e sujeira para fora. Pode-se até fazer uma leitura em que a arma ''tecnológica" que o Sr. K usa representa o potencial da tecnologia para causar perda e sofrimento, assim como as Naves Espaciais culminarão na colonização e destruição da velha Marte. Não dá para negar que essa visão é consoante com o espelho americano que é a Marte do Bradbury.
Ele utiliza da imagética e das sensações despertadas pela Era Espacial, sem se prender nada a lógica científica. É uma obra intuitivamente surreal, explorando sentimentos humanos, numa ordem e paisagem de sonho. Neste conto, são justamente os sonhos de Ylla que movem a ação ao enciumar o marido.
No fim, o clímax catártico clássico também muda ligeiramente, já que a sensação de perda e tragicidade não fica tão claro e óbvio para nós ou para a personagem. O conto encerra com Ylla se sentido como se uma luz tivesse apagado, mas nalgum outro lugar que não ali; é uma sensação interna, de que algo aconteceu, e ela sabe que aconteceu, mas não vê. Termina que paira no ar do planeta vermelho uma melancolia, emergindo da casa de Ylla, agora não só um lar pesado, denso, mas um lar que frequentemente a lembra de uma relação que já foi boa e que agora terminou de vez; o conto termina, também, cheio de luto, mas luto por algo que ela não chegou a ter — ou teve, mas de um jeito muito estranho e passageiro: em sonho.
Os Marcianos e a sazonada e cansada Marte, com seus rios já secos, mostram sua face; a primeira expedição humana chega ao fim; mas vem vindo a segunda, e os humanos chegam com sede colinizadora…
Conto das Crônicas Marcianas
15~25pp — ✲ 3.5/5.0