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3.0

O Verão do Foguete — ✲ 3.5/5.0
(Conto/Vignette)

“Então durante alguns anos [após a decisão de fazer o livro] compus diversos pensées Marcianos, apartes alá Shakespeare, pensamentos divagantes, e visões que tinha no tardar das noites, meio-sonhos no despontar do dia.”

A gênese do livro que esse conto integra é bastante interessante: inspirado pelo St. John Perse (um esquecido Nobel francês), que, segundo o Bradbury, realizou com perfeição a forma literária vislumbrada por ele para compor as suas Crônicas Marcianas — inspirado, também, por "Winesburg, Ohio" de Sherwood Anderson —, ele desenvolve, ao modo daquele francês, pequenos pensées situados em Marte.

Os "pensées" são algo como breves pensamentos transpostos em texto literário, podendo ocupar um parágrafo ou até uma página inteira. Essa forma literária foi muito popular na França. São parágrafos metade prosa e metade poesia, sobre qualquer assunto ou um assunto mais específico, desde o clima, a arquitetura, vinho, a vista do mar, rápidos ocasos ou longas alvoradas. Bradbury utilizou esses pensées como base para moldar os contos e vignettes que iriam compor o livro.

As vignettes literárias (não sei se há tradução) são passagens-esboço, em prosa, que abrem um capítulo ou funcionam como interlúdios. Nas "Crônicas Marcianas", elas são elípticas, trabalhando na construção de uma atmosfera sugestiva.

"O Verão do Foguete" e outras onze vignettes ao longo do livro são o fio adicional com que Bradbury costura: primeiro, seus pensées em contos e, posteriormente, esses contos em uma obra fechada. O resultado final é uma forma literária que se situa entre um romance e uma coletânea de histórias, apresentando uma unidade narrativa que é significativa quando em conjunto.

A fim de finalmente ler até o fim as Crônicas, dei uma olhada nas traduções disponíveis, e percebi que nenhuma delas consegue transmitir plenamente a prosa e a musicalidade dos pensées e vignettes Bradburyanos. E se você só o leu pela e se você só chegou a lê-lo pela distopia (veja que há críticos extremos que dizem que distopia por si só implique em não-literatura) não estranhe esse apontamento: o Bradbury destas "Crônicas Marcianas" ou de "Licor Dente-de-Leão" é quase um outro autor; ao ponto de que sim, importam bastante as opções e decisões do tradutor. A tradução portuguesa mais recente, embora seja visualmente atraente com sua capa vermelha, parece ser a melhor, mas pelo título: “O Verão do Foguetão”, eu não consigo levá-la a sério. Desculpa Portugal.

"O Verão do Foguete" abre esse lado da literatura do Bradbury com belas imagens e uma linguagem bem lírica. É o decolar das naves especiais em direção a novas viagens, e a uma era de descoberta que guarda o desconhecido tanto para os leitores quanto para os astronautas americanos ou os amarronzados marcianos que protagonizarão as histórias. Os propulsores do foguete da primeira decolagem das naves espaciais, em Ohio, transforma brevemente o inverno em verão, derretendo o gelo e revelando os antigos gramados verdes do último verão — o último verão antes das primeiras viagens siderais.

''One minute it was Ohio winter, with doors closed, windows locked, the panes blind with frost, icicles fringing every roof, children skiing on slopes, housewives lumbering like great black bears in their furs along the icy streets. […] And then a long wave of warmth crossed the small town. A flooding sea of hot air; it seemed as if someone had left a bakery door open. The heat pulsed among the cottages and bushes and children. The icicles dropped, shattering, to melt. The doors flew open. The windows flew up. […] The snow dissolved and showed last summer’s ancient green lawns.''


É uma boa cena, frequentemente ilustrada pelos artstations da vida. Já aqui na abertura pegamos uma sensação e um toque muito diferente na escrita do Bradbury. Vale notar que a influência exercida pelos franceses no estilo e na forma, foi notada pelos próprios: já na época de publicação (por volta da decáda de 1940s) As Crônicas tornaram-se populares na França por seu tom surrealista — e não só em França. A edição espanhola conta com prefácio de Jorge Luis Borges; além de ser um livro presente nas escolas inglesas e americanas. A influência segue em nossos tempos, no recém-adaptado para a TV "Lovecraft Country", há uma ótima cena no livro que é construída em torno de dois leitores d’As Crônicas.

Na minha edição (Harper Collins), o próprio Bradbury se pergunta, com tudo isso em cheque, o porquê das Crônicas Marcianas serem frequentemente descritas e incluídas em listas de Ficção Científica?

Na abertura — significativamente intitulada: ‘‘Green Town, Somewhere on Mars; Mars, Somewhere in Egypt’'' —, por exemplo, ele relata como, durante uma visita o Museu de Tutankamon, quando conseguia algum intervalo no teatro, se viu reescrevendo hieroglifos daqueles tempos; quando olhava para o palco da sua adaptação, e via na mente lembrança do reflexo da máscara de Tutancâmon, via nela a mesma máscara prateada de seus marcianos; via na Marte representada no palco, o Antigo Egito, e nos atores, os fantasmas daquele velho rei.

Conlui na abertura que histórias de ficção científica e outras histórias tecnológicas e práticas e demasiado eficientes, tendem a perder seu brilho, enferrujar, e ir deixando pedaços com o tempo. Enquanto isso: Myth, seen in mirrors, incapable of being touched, stays on. If it is not immortal, it almost seems such.”


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Eu decidi por ler em inglês mesmo, A tradução do José Sans se aproxima, com algumas poucas perdas, da prosa original do Bradbury,se quiser ler em português opte por ela; mas não é a mesma coisa. Se você puder ler no original, opte pelo original:

"Rocket summer. The words passed among the people in the open, airing houses. Rocket summer. The warm desert air changing the frost patterns on the windows, erasing the art work. The skis and sleds suddenly useless. The snow, falling from the cold sky upon the town, turned to a hot rain before it touched the ground. Rocket summer. People leaned from their dripping porches and watched the reddening sky."


A obra é cheia dessas passagens descritivas que servem para dar o tom meio nostálgico, quase infantil, combinado com as possibilidades proporcionadas pela viagem espacial — não é à toa que, logo após a dedicatória, Bradbury coloque a frase: "A viagem espacial nos fez crianças novamente". Essa relação entre o passado nostálgico e um futuro além dos limites do horizonte, ditará muito do tom do livro.