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rolandosmedeiros

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Coincidentemente, logo após ler O Horla, cruzei de novo com esse conto aqui em uma outra coletânea e meio que mudei minha opinião. Não sobre o esqueleto da narrativa: ainda acho que é um tipo de narrativa que você deve ler se quer aprender como fazer, porque é possível visualizar, destrinchar, de alguma maneira, o processo criativo, o porquê funciona. Isso, é claro, depois de experimentar a história como deve ser experimentada: lendo-a como fosse uma criança sentada
perto de uma fogueira.

Estou com o George Saunders nessa, ele falou sobre isso recentemente no Substack dele (que deixo recomendado, as respostas dele aos leitores são quase que mini-ensaios sobre ler e escrever): a leitura por prazer e a leitura mais analítica (a obra bateu para mim versus o porquê a obra bateu para mim) não se anulam. A primeira é, com certeza, suficiente. Mais do suficiente. "É a que importa." ele diz. Ainda, é absolutamente necessária à segunda. Mas, nada disso implica que também não haja prazer na segunda, e que não acarrete consequências positivas para quem o faz.

Deve ser a terceira vez que leio esse conto que, é verdade, nem é dos que gosto tanto assim; mas é também a terceira vez que ele aparece na minha frente e eu não sinto vontade de pular mesmo já o tendo lido. Se a voz interior diz pulo eu pulo, se diz leia eu leio. E foi, eu acho, também a terceira vez que, mesmo encarando com diferentes olhos daqueles da primeira leitura, mesmo mais desligado e nem tão focado assim na experiência, ainda me vi imerso de alguma maneira na narrativa.

É uma narrativa cronológica, com conflitos internos (a mulher consigo mesma) e externos (a mulher com o marido, a mulher com o meio social, a mulher com a amiga…) bastante claros, sem muitas pirotecnias. A mulher é frívola, materialista e, ainda que pense nela da mesma maneira crítica que o fiz nas outras leituras, agora penso também que ela encarou "bem" a situação, a perda de algo (do Colar de Diamantes) que se deu justamente por conta da frivolidade dela. Por sua culpa tiveram, ela e o marido, passar anos em miséria, em dívidas, contando gastos, brigando com comerciantes por centavos, e outras dificuldades mil que não vemos.

Mas, acho que agora vejo um pouco da mão astuta do Maupassant, se esse enobrecimento pelo trabalho, pela dificuldade, é permanente ou não, não sabemos. Porque o conto acaba bem na revelação final. Só podemos imaginar o diálogo que viria a seguir. E se criticamos a Mathilde, é a Mathilde de dez anos atrás, antes da virada principal do conto.

Too long; didn't read: Para mim, agora, a desgraçada da história é a dita amiga rica, que, aí você pode especular, por viver naquele meio materialista ou por pura vaidade, egoísmo e maldade (spoiler de quase trezentos anos atrás e de um conto que você lê em menos de uma hora) ocultou que emprestou uma joia falsa para a amiga (e pior, ainda mais desgraçada!, lembrei agora, ainda cobrou que a Mathilde atrasou a entrega!). Ela faz a revelação bombástica, dez anos depois de tudo, meio que rindo, dando tapinhas e no "oh, sua bobinha…”.

É canônico na minha cabeça que depois do último ponto final o que aconteça seja ou um ou outro: ou, como a protagonista da "História de uma Hora", ao ouvir aquilo ela caia no chão e tenha um ataque do coração; ou, que ela tenha tremeliques como de um pinscher, e avance no pescoço da outra.

Torço pelo último.

O Colar
Conto ~10pp — ✲ 3.5/5.0
Do autor: The Horla

(Att. 2022: saiu aqui no Brasil mais uma coleção de contos da Ocampo, estou com ela em mãos, e talvez comece logo logo)

Oníricos, fantasiosos, imaginativos, misteriosos, extravagantes, cruéis, ou junção de tudo isso e muito mais: são diversos os adjetivos que podemos dar aos contos da Ocampo, que correm em variadas direções, levados pelo estilo bastante particular da autora, subvertendo o cotidiano pelos olhos de homens, mulheres, crianças e até animais.

Ocampo quebra todos os clichês sobre o amor, bondade, caridade, lealdade, e todos os outros ''ades'' e bons sentimentos. Nos adultos ou nas crianças. Embarcando na estranheza, no bizarro, no nojo, na repulsa e na perversidade, de diferentes formas: cartas, relatos, memórias, sonhos ou fantasias — que você, no entanto, dificilmente saberá se localizar em qual deles está: será memória, fantasia, ou sonho?

De aura mística, halo nostálgico e crianças infernais, Ocampo faz um realismo mágico bastante característico, com um estilo que certas vezes pode até engessar a narrativa, mas que outras vezes a faz fluir como um sonho, levitar como uma lembranç ou, habilmente, estender-se como pesadelo.

São contos curtos, e no meu caso, especificamente, foi uma leitura interessante, mas truncada, tanto que até larguei o livro por um tempo antes de retornar e terminá-lo. A disparidade entre os contos é notável, mas agora que terminei, vejo que o esforcinho que fiz valeu a pena, termino o livro com um gosto bom na boca. E talvez a experiência de leitura desse livro tenha se tornado melhor assim, degustado aos poucos, e não devorado de uma vez.

Comentários conto a conto:


Spoiler A sequência dos cinco primeiros contos é um exemplo dos altos e baixos do livro. Apesar deste primeiro também passar a aura onírica que permeará o restante da obra, não consegue marcar muita coisa além de uma inexplicável atração por sua estranheza (que também permeará o restante da obra). Não o vejo sendo atraente para muitos primeiros leitores. Nem como um passo adentro à estranheza da Ocampo, é mais como um vislumbre do sonho de algumas de suas personagens. A Lebre Dourada, portanto, é uma fábula sobre o encontro do sobrenatural com o natural, foge dos torcidos temas cotidianos, frequentes na maior parte do livro, e abre a obra de um modo no mínimo curioso. 2/5



“Somos um compêndio de contradições, de afetos, de amigos, de mal-entendidos – me dizia Elena. Certamente pensando em mim, acrescentava: — Somos monstros. (...) Somos também o que as pessoas fazem de nós. Não amamos as pessoas pelo que são, e sim pelo que nos obrigam a ser”

Nesse conto — um de meus preferidos — a mudança de tom é brusca comparado com o conto da lebre. A disparidade aqui, num momento inicial, faz-se agradável. Em A Continuação, uma pessoa — no inicio não sabemos ser homem ou mulher (Ocampo em muitos contos brinca com a identidade de gênero) — envia uma carta à outra com quem se relacionava. Raiva, ciúme, posse e delírio começam a se revelar, e logo o real e o ficcional começam a se embaralhar; arte e vida vão se metamorfoseando em uma coisa só. 4/5



“Que preço tem um corpo. Vivemos como se ele nada valesse, impondo-lhe sacrifícios, até que entra em pane. A enfermidade é uma lição de anatomia”.

O Mal nos convida a conhecer as últimas horas de vidas de um enfermo no hospital, a situação, o delírio, o torpor, e a viagem dentro de um coma; seus últimos momentos. 3/5



Outro ótimo é O Rebento, onde dois irmãos maltratados pelo avô, estimulam o filho de um deles a brincar com a arma do velho. O avô adora ver o neto imitando a si mesmo, numa pantomima de poder e violência; os irmãos deixam que o faça, com um objetivo de se libertarem de um tipo de opressão. 3/5



"As superstições não deixavam Cristina viver. Uma moeda com a efígie apagada, uma mancha de tinta, a lua vista através de dois vidros, as iniciais de seu nome gravadas por acaso no tronco de um cedro a deixavam louca de medo [...] Quando ficamos noivos, tivemos que procurar um apartamento novo, pois, segundo suas crenças, o destino dos moradores anteriores influiria sobre sua vida (em nenhum momento mencionava a minha, como se o perigo ameaçasse só a ela e como se nossas vidas não estivessem unidas pelo amor).''

Em A Casa de Açúcar — preferido de Cortázar — figura o suspense e o insólito. Um casal se muda para uma casa tão bonita que parece ser feita de açúcar, mas uma das superstições da esposa é não morar em um lugar onde outras famílias tenham tido histórias trágicas: segundo o raciocínio dela, os novos moradores (eles) agirão como esponjas.

Coisas estranhas começam a ocorrer, pessoas batem a porta identificando a mulher com o nome da antiga moradora, progressivamente a história vai tomando um rumo quase de terror até a virada narrativa da história: a nova inquilina começa a adquirir a personalidade da antiga moradora da casa — que morreu louca —, e ressurgem também amores do seu passo (de qual deles?!) Com certeza é um dos melhores do livro. 4/5



Sem deixar a bola cair, Ocampo emenda com A Casa dos Relógios, que se inicia como um doce sonho, e termina como um terrível pesadelo; é um conto perturbador sobre o assassinato macabro sob o ponto de vista de um menino de nove anos. 3/5



Odiado por Borges não pela qualidade, e sim por sua perversidade, Mimosoé um cachorro insanamente amado por sua dona, que manda embalsamá-lo quando o animal falece. Parece algo normal, mas há algo de insano no afeto da mulher pelo animal. Ela começa a agir estranho, e o marido recebe um bilhete anônimo denunciando certas ações da mulher e insinuando coisas terríveis; ele, então, destrói o cachorro, pensando dar fim á um amor bestial. Mas ela não aceita fácil, descobre o autor do bilhete, resolve se vingar, e Mimoso terá que defender sua dona, mesmo em pedaços, mesmo após morto. É cruel, extremo e perverso, com um final chocante. 4/5



Em O Caderno vemos um pouco cotidiano menos distorcido, e se trata de uma superstição não muito distante das que temos aqui na nossa terra tupiniquim: lá é dito que se uma grávida olhar demais para um rosto, seu filho nasce com a aparência similar ao alvo de sua atenção. Uma mulher joga cartas durante todo o período de gestação; dose homeopática de sorrisos e ironia. 2/5



Em A Sibila, todo o planejamento de um assalto começa a dar errado quando o ladrão se depara com Aurora, uma jovem sibila, e vira alvo de premonições e adivinhações. É um conto com uma construção bastante curiosa, mística, em que nada parecer ser o que realmente é; vou além, nada parece "concreto"; nem mesmo os acontecimentos não-oráculares; e o fim abrupto é bem bom. Não é dos melhores, mas tem uma aura única que o torna bem iteressante. 3/5



O Porão é protagonizado por uma mulher, possivelmente uma prostituta, que vive reclusa no porão de uma casa, sem luz nem água, e é alimentada pela dona. Ratos também compartilham o lugar com ela. Os ratos só aparecem quando ela está sozinha. Eles não têm medo dela e ela não tem medo deles. Na verdade, ela nem se incomoda com a presença destes animais, exceto quando ela está "acompanhada", ou quando eles chegam à comida antes que ela tenha oportunidade de comê-la. As pessoas na cidade são más e a chamam de Fermina, a Dama dos Ratos, o que ela se ressente. Embora ela realmente os alimente e tenha dado nomes à cada um deles.

A única maneira de Fermina sobreviver em uma sociedade que a marginalizou é por meio de algum malabarismo mental que permita-lhe transformar aquele espaço frio e escuro em um mundo belo e mágico. As últimas linhas da história sugerem que iniciou-se uma demolicação e Fermina morrerá sob os escombros. Entendi que o modo como ela vive, é um jeito dela de fugir do lado de fora, do mundo que é ameaçador para ela. É um conto triste, que termina com desesperança. 3/5



Em As Fotografias comemora-se a festa de aniversário de uma menina paralítica, registrada em uma inusitada sessão de fotos, que vai drenando a energia da aniversariante até um final trágico, ignorado pelos convidados. A ironia com que é narrado o desenrolar da festa e como a família se preocupa com tudo menos com a aniversariante e seu bem-estar não faz rir, mas passa uma certa comicidade, misturado que une-se com a tragicidade do conto. 3/5


“O destino é como um tigre que já provou carne humana e vigia o seu dono”. Em Magush, um adolescente adivinha o futuro nas janelas de um prédio vazio.
Você não entendeu errado, é isso mesmo.
Ele lê o futuro conforme as luzes acendem-se e apagam-se nos prédios. 2/5


No conto A Propriedade vemos um pequeno excerto da vida de uma empregada na casa de uma mulher rica, consumista, e vaidosa, e o baque que ocorre em sua vida quando uma outra pessoa chega e começa a mudar todas as opiniões da sua antes tão querida dona de casa. No fim, confusa, a empregada terá que decidir como se comportar em relação ao personagem que acabou com sua ''vida mansa''. 2/5



Uma mulher é levada a loucura em uma história sobre a perda e o reencontro de bens materiais, no conto intitulado Os Objetos. 3/5



Em Nós, temos dois irmãos gêmeos idênticos, que gostam de aventuras, e principalmente, de confundir suas vidas. Apaixonam-se pelas mesmas mulheres, dividem as namoradas (sem que elas saibam, claro), e quando são pegos nesse jogo perigoso, terminam e partem para a próxima, pois a vida , de outra maneira, é para eles tediosa e sem sentido. 3/5



Todo o assombro, surpresas e ocultismo que envolvem as insólitas narrativas de Ocampo estão delineadas em A Fúria. São diversos os contos sobre crianças malignas ao longo do livro, e isso não podia faltar no conto que dá nome a obra, sobre uma menina que coloca fogo em sua amiga, e um homem que comete um assassinato para não provocar um escândalo. É um conto interessante, misterioso, com uma reta final interessante, mas um fim um pouco desfocado. 3/5



''Faz quanto tempo que não penso em outra coisa a não ser em você, imbecil?, você, que se intromete nas linhas do livro que leio, na música que escuto, dentro dos objetos que vejo. Não creio ser possível que o revestimento do meu esqueleto seja igual ao seu. Suspeito que você pertence a outro planeta, que seu Deus é diferente do meu, que o anjo da guarda da sua infância não se parecia com o meu...''

Em Carta Perdida em uma Gaveta, alguém — Ocampo novamente brinca com identidade de gênero — escreve uma carta de ódio (tão próximo do amor obsessivo: “[...] você, que se intromete nas linhas do livro que leio, na música que escuto, dentro dos objetos que vejo. [...] Tudo era menos imundo do que a sua cara”) para outro alguém (que só saberemos ser outra mulher depois de várias linhas). Descobrimos, então, que o ressentimento nasceu na infância, espaço de todos os males posteriormente desenvolvidos (“Não há criança infeliz que depois seja feliz”). Não há empatia; há paixão desprezada, avesso, e até planejamento de vingança não executada. (“Descartei a ideia porque a morte não me pareceu um castigo.”). 3/5



O Carrasco é um conto bem curto e confuso, situado no passado, onde em uma festa, um imperador mata presos políticos em caixas. Achei um dos mais destoantes, e me perdi completamente, não consegui pescar nada. 1/5



Para recompensar, em Azeviche, temos um relacionamento gostoso de ler, de um homem que larga tudo para começar uma nova vida com sua esposa no interior. E a mulher, pouco instruida, que é fascinada por cavalos, cuida deles, os desenha, passeia com eles pelos campos; quando está sozinha com seu animais, é quase como se conseguisse se comunicar com os equinos, ou talvez até fosse hipnotizada por eles... 4/5



A Última Tarde talvez seja o mais onírico de todos os contos, na história de um irmão que vive a vida do outro, o sonho se mistura com a realidade, paredes se desmancham, animais passeiam livres, e mansões caras possuem chão de terra batida nos quartos. No fim, um dos irmãos é despertado desse sonho de maneira brutal, por quem menos esperava. Sem a roupagem de sonho, é uma história triste, de um homem ingênuo. 3/5


O Vestido de Veludoé um conto estranho, sobre uma velha e seus tecidos caros e apertados, que suas criadas mais novas experimentam nela. Há algo aqui, relacionado as classes sociais ou ao consumismo, quando a mulher rica morre estrangulada pelo seu vestido em meio à diversas roupas caras, enquanto uma das criadas repete sem parar ''Que divertido!'', mas não foi do meu agrado, e esse é um dos que menos gostei de toda a antologia. 1/5



Embarcando no realismo mágico que estamos acostumados, contada por um ''garotinho'', Sonhos de Leopoldina é a história de uma anciã de 120 anos, que consegue tirar objetos de seus sonhos. Ao sonhar com uma praia, por exemplo, ela encontrará conchas a seus pés. Ludovica e Leonor, suas filhas-netas, são interesseiras e invejosas, e sempre ouviram falar que Leopoldina era uma sábia senhora, apesar dos hábitos simples, e que possuía algum tipo de poder sobrenatural. É aí que elas descobrem que os sonhos da senhora se materializam no mundo físico. Começam a ver nisso um atalho para sairem da pobreza, querem tirar proveito da habilidade da senhora. Elas querem que Leopoldina sonhe com carros, bijuterias, anéis, brincos dourados, etc. Mas, elas acabam esbarrando na simplicidade da mulher, incapaz de pensar em riquezas ou bens materiais. A trama vai rodando, e cada parágrafo se torna mais estranho, Leopoldina vai ficando mais tensa, e as jovens, mais despreziveis, até o derradeiro penultimo sonho de Leopoldina. É um conto extremamente sensível, e um dos melhores do livro. 4/5



Em seguida engatamos com o ótimo As Ondas, onde temos um refresco e uma pausa nos contos oníricos e fantasiosos. Aqui temos uma ficção científica, ou distopia, situada em 1975, onde as pessoas começam a ser divididas em grupos pela disposição de suas moléculas. Um casal falsifica documentos para permanecerem juntos, mas seu crime é descoberto quando um casaco é emprestado à uma amiga do casal. Nesse mundo, por causa de uma lei, familia foram divididas, lares desfeitos e cidades praticamente tiveram que começar do 0, com outras pessoas, tudo ordenado pelas moléculas.

O final também é bem bom. A mulher, depois da separação, encontra um sábio (ou um charlatão) e decide fazer uma operação para mudar a disposição de suas moléculas a fim de combinar com a de seu marido, definitivamente; ela não sabe como é feita a cirurgia, e nem sobre os seus perigos, mas decide encarar mesmo assim, e o que fica subentendido após isso é cruel. 4/5



Novamente com as crianças perversas de Ocampo, O Casamento é interessante, mas há descrições exageradas de moda e salão, sem um baque que transformasse o conto em algo mais. Uma menina de sete anos, enfia uma aranha venenosa no coque da vizinha que vai se casar; isso não é um spoiler, se você chegou até aqui na sua leitura, com o aparecimento da aranha você já suspeita o que vai acontecer, meio que tornou-se previsível o fim, para mim foi bem abaixo dos outros contos no geral. 2/5



Em compensação, novamente, A Paciente e o Médico, que vem em seguida, é ótimo, e um dos meus favoritos da antologia. Relacionamentos unilaterais, obsessão, personagens pertubados e bizarros, depêndencia emocional, ponto de vistas diferentes; tudo isso é uma amostra da habilidade da autora em abordar diversos temas e ao mesmo tempo desenvolver uma história bem compassada e com um bonita dicção. A paciente, uma mulher sem propósito, acaba se apaixonando pelo médico que a atende. A partir de então entramos na jornada romântica da mulher, que tenta atrair a atenção do homem lhe dando diversos presentes. A escala vai aumentando e os limites de uma paixão normal começam a ser quebrados: ela chega a se prostituir para comprar presentes cada vez mais caros para seu amado. Partimos então, para a mesma história sob o ponto de vista do médico, e o que era apenas um amor extremo, torna-se bizarro. 4/5



Bem, a fim de deixar marcado aqui na resenha, depois do conto anterior, que é ótimo, não entenda errado, não foi ele o motivo da pausa, e sim um acúmulo de coisas, o livro tornou-se um pouco cansativo para mim, então deixei-o de lado por uns bons quatro meses. Mas, retorno agora em Julho (2021) para terminá-lo, e o conto que me recebe de volta é Voz ao Telefone, uma conversa em primeira pessoa, onde o protagonista explica o motivo de festas infantis entristecê-lo e o medo que tem por fósforos. Bem, escrevendo agora depois de terminar, juntando os dois fatos citados anteriormente, acho que fica claro a tragédia, mas durante a leitura, não ficou explicito para onde o conto se encaminhava — ou talvez minha pausa me deixou destreinado na narrativa da Ocampo —, mas felizmente a narrativa é curtinha e fluída, e apesar de cruel, é um bom jeito de ser reinserido ao mundo da Ocampo novamente. 2/5



O Castigo é o nebuloso conto de uma mulher iludida, que resolve expor a tona ao marido toda a sua infelicidade com o relacionamento. Seu marido é raivoso, ciumento e impulsivo, mas hipnotizado pela história, deixa a mulher deitada em seus joelhos colocar para fora tudo que está sentindo, embarcando no passado junto com ela. O final é abrupto, e misterioso, o homem é envelhecido literal e metaforicamente, pelos longos, transcendentes e melancólicos da mulher. 3/5



A Oração, é a confissão de uma bela mulher que necessita que Deus a recompense pelos seus ''atos bondosos''. Mesmo que ela cometa adultério, minta, observe um (ou mais) assassinato sem agir, e muito mais. Lavinia é uma mulher insatisfeita no casamento e acaba tentando descobrir uma razão para sua vida no convívio social e na igreja. Ela acaba adotando um menino de rua o qual ela salva de alguns agressores e o leva para casa. A partir daí a narrativa começa a tomar tons bem estranhos. É muito explicito o motivo da desconfiança e ódios das outras pessoas pelo garoto, mas Lavinia acaba insistindo na premissa de que o menino é um ser puro, mas ela não consegue tirar da cabeça que ele pode cometer algum ato de violência a qualquer momento. A forma de confissão com que é narrado o conto é interessante, mas ao longo da leitura você vai se desprendendo, e logo ele perde o caráter único que o pauta. Mas no geral é um bom conto, bastante intrigante. 3/5

Bingo de Ficção Especulativa do Reddit 2024~2025
First in a Series: Read the first book in a series 1/2
[Modo Fácil: Série de Três Livros ou Menos]

Para alguém como eu, ser forçado, por forças externas, a mudar a rotina significa abandonar um monte de coisa e atividade (quem mais sofreu foi, justamente, meu sono e as leituras) até que tudo esteja encaixadinho, cada qual em sua prateleira, a fim de que eu consiga fazer um pouco de tudo. E esse desafio de leitura que me meti até que ajudou no processo, porque há categorias com livros que não exigem tanto assim do leitor, e eu leio no meio tempo que tenho entre o dia-a-dia corrido sem medo de estar deixando passar muita coisa. No caso da Bússola de Ouro, o livro foi bem mais prazeroso do que eu esperava, ao contrário das prequels (que também decidi encarar) Once Upon a Time in the North e The Imaginary Chamber, sem vergonha lançados, certamente, para vender: essa entrada as representa todas.

Once Upon a Time in the North uma novelinha que tenta fazer comédia com o Lee (personagem bastante interessante do Northern Lights). Ele faz um pouso forçado com seu balão em uma cidade quieta e gelada próxima dos polos que está no meio de uma eleição municipal e de uma recém-descoberta jazida de petróleo. Você consegue imaginar a trama: um político mau, o nosso anti-herói, a filha do tal político que é bonita e meio burrinha, etc. Não senti vontade de continuar, porque o humor é bem ruim, e a prosa sem enfeites ou adornos, então nunca saberei qual a virada (ou se há virada) na trama. The Imaginary Chamber são pequenas vignettes do mundo da Lyra, demasiado simples para que sejam interessantes ou incisivos (penso nas vignettes do Bradbury em Crônicas Marcianas), e muito curtos para que nos forneça boas pepitas de Worldbuilding.

Das três prequels, esta, The Collectors é a melhor, e tem uma razão: era um conto normal que (novamente, dinheiro) os editores forçaram o Pullman a transformar em uma história de dentro do universo. E calhou de ficar bom.

Pullman faz aqui uma mistura de A Pata do Macaco (o conto famoso), um tipo de Monalisa e os daemons de seu universo. Funciona bem como uma narrativa fantástica solta, porque o que é necessário saber desse universo para o conto funcionar é exposto em um diálogo no meio do conto. Ademais, é uma narrativa fantástica bem feita, ainda que bem seca e direta ao ponto.

Dois interessados em artes plásticas, um deles um vendedor, em um encontro numa universidade conversam e comentam seus atuais interesses e negócios; o do vendedor: um quadro genial de um pintor obscuro, a figura de uma pálida e bonita mulher com um olhar enigmático, e mais: acompanhado do quadro vem uma pequena escultura de um macaco raivoso. Segundo o vendedor, são inseparáveis. E mesmo que algum possível comprador resolva não adquirir o macaco junto, ele dará um jeito de aparecer no inventário do comprador — dobrando, no caminho, uma série de acontecimentos para que tenha sucesso. Aquele que conta essa história acredita porque o mesmo se passou com ele depois de comprar o quadro. Daí o conto se desenrola, os dois sobem até o quarto para olharem e comentarem o quadro e a escultura do macaco, e entre descrições, vinhos e estranhas coincidência, perpassa um mistério e um assassinato; há uma ótima virada narrativa final que não explica nem subestima o leitor. É um conto redondinho.

“What a very pretty girl. D’you know who she is?”
“No idea,” said the bursar, “but she looks mighty pleased with herself.”


E como eles não conseguiriam vender muito bem só um continho que nem é lá tão bem amarrado na famosa trilogia do Pullman, vem com uma notinha final dele sobre a criação literária:

"A coisa mais valiosa que aprendi sobre escrever é que você deve continuar mesmo quando está difícil e complicado (...) Você já ouviu falar de algum pedreiro que parou de trabalhar porque está com bloqueio? Ou um gari, um médico? É claro que não. Eles são obrigados a trabalhar mesmo quando não querem." E, segundo o Pullman, são três as leis universais de uma narrativa. Elas nada tem a ver com regras do universos, apesar de serem chamadas leis, são exemplos alá um ‘‘permitido fumar’’ que pode virar um ‘‘proibido fumar’’, não algo como a lei da gravidade:

I. Uma narrativa que não se resolve é insatisfatória;
II. Uma cena que não avança a história, hora ou outra a atrapalhará;
III. Há de se saber exatamente onde começar.

Once Upon a Time in the North;
Imaginary Chamber; The Collectors
Novela, Vignnetes e Conto
2008s/2014s
✲ 2.5/5.0 —✲ 3.0/5.0
Outros Comentários: A Bússola de Ouro (mais tarde)

"Pipipi popo não leio clássicos porque são chatos". Então tome um proto-romance espanhol de 1500 onde o protagonista casa com a amante de um padre que é virgem mas já têm três filhos.

Menos de duzentas páginas, escrito por um completo anônimo, e divido em pequenos tratados, Lazarillo de Tormes se apresenta como uma falsa-epístola — ou epístola falada, segundo a introdução —, que delineia mas não limita a narração a uma estreita primeira pessoa. O livro é, antes de tudo, uma narrativa ficcional aos moldes modernos: precursora do Quixote e do Romance, com uma forma intricada e talvez o primeiro narrador não-confiável da literatura. Ele coloca as cartas na mesa e deixa que o leitor tire suas próprias conclusões.

O anônimo-autor, astutamente, além de se diluir no próprio Lázaro — tanto por segurança (a crítica social é dura) como pela forma — salpica detalhes, usa de artifícios e escreve, há mais de quinhentos anos, de um ponto de vista social a ser retomado pelos autores da ascensão do gênero como conhecemos hoje.

Lázaro, como narrador-personagem, conta a sua conturbada história de vida, desde o seu nascimento, à beira do Rio Tormes, até o momento da escrita da carta, que é o livro que temos em mãos. Como mencionado, já nos tempos de publicação essa experimentação com a forma fez com que o povo acreditasse que o livro era uma verdadeira carta, uma denúncia verdadeira, e que o Lázaro era realmente uma pessoa de carne e osso e o escritor do livro. Fator que com certeza ajudou na fixação da história no imaginário do povo e na censura secular.

Mas esse artifício não é tudo. O livro se sustenta por si, como uma narrativa bastante agradável. Presumimos — erroneamente — pela idade do livro, que a linguagem seja densa, ou que o livro seja difícil, pelo contrário, o autor é bastante comedido, sabe como conduzir a história, com supressões engenhosas, pouca exposição e sem explicações desnecessárias. Ele mescla tudo e torna tudo crível: a narração em primeira pessoa, a memória do Lázaro, o tom da carta, e até os cortes e avanços no tempo são fluídos e bem amarrados com aquilo que se conta. Um exemplo da construção de cenas e da criação literária do autor: um desmaio — e por consequência o período de recuperação da personagem, por exemplo — serve como gancho para a passagem de diversos dias, uma mudança de cena e também uma acelerada no ritmo da história.

Um detalhe que me agradou, mas que na reta final vai se perdendo, é que ele não lhe entrega o ouro, mas o mantém lá para ser encontrado. Retoma passagens e temas anteriores conforme o Lázaro vai se tornando menos ingênuo e mais parecido com aqueles a quem crítica.

A paródia, a comédia e a sátira se fazem presentes, não é à toa que o Lazarillo é tido como, também, o precursor dos pícaros. Em mim, a comédia não bateu. Há uma dose de repetição que vai cansando conforme a narrativa vai afunilando, assim como a maioria dos problemas do livro decorrem da mesma raiz. Em contrapartida, na questão da crítica, há a boa justaposição da dicção religiosa com a crítica à própria decadência dos religiosos e da sociedade no geral, perdurando até a última palavra da narrativa.

O meu tratado-capítulo favorito, é quando o Lázaro vai fundo na psicologia do Escudeiro, com quem passou um tempo, passagem que representa um período de sua vida (cada tratado-capítulo se trata de um desses períodos), e o faz de certa maneira semelhante a um narrador mergulhando em uma personagem — e por isso disse inicialmente que não é o anônimo autor não faz uma primeira pessoa estrita. Este Escudeiro é um homem com delírio de honra e grandeza, dissociado com a realidade, pensando numa Era de Ouro que já não é mais: mora em uma casa completamente vazia, passa dias e dias faminto, mas toda manhã, lava o rosto, se arruma todo, põe a espada ao lado do corpo, e saí altivo pelas ruas, não suportando desaforos ou falta de respeito. Prefere passar fome do que revelar a sua pobreza.

Em questão do relacionamento e entre os dois, ele, curiosamente, é o que melhor se dá com o pequeno Lázaro: se nos compadecemos do garoto, no começo do livro, o garoto se compadece do Escudeiro — e também é dele que sai uma das melhores passagens do livro, ainda muitíssimo atual e por isso que é um clássico:

"Vim para esta cidade pensando que encontraria aqui melhores condições, mas não aconteceu como eu esperava. Cônegos e dignitários da igreja encontro muitos, mas é gente tão bitolada que nada no mundo poderia tirá-los de sua limitação. Cavalheiros de meia-tigela também me solicitam, mas dá muito trabalho servi-los como escudeiro. Porque é preciso virar coringa e, senão, dizem: “Vá com Deus”. Geralmente, os salários são pagos atrasados e o mais certo é que trabalhe apenas em troca de comida. Já quando querem ficar em paz com sua consciência e pagar o nosso suor, chamam-nos à antecâmara e oferecemnos um suado gibão, ou uma capa ou um saio surrados. Até quando um homem se põe a serviço de um senhor de título, também passa necessidades. Mas, porventura, não terei eu aptidões para servir e contentar a um desses? Por Deus, se topasse com um, penso que cativaria a sua maior confiança e que lhe prestaria mil serviços. Porque eu saberia mentir-lhe tão bem como qualquer outro e agradá-lo às mil maravilhas. Haveria de rir muito com as suas graças e hábitos, ainda que nada valessem. Nunca lhe diria palavra que o desgostasse, mesmo que fosse necessário para seu bem; seria muito diligente na sua presença, em palavras e atos. Não me mataria em fazer bem aquilo que ele não visse. Eu ralharia com os criados, onde pudesse ouvir-me, para que ele pensasse que eu zelava por seus interesses. Se ele repreendesse algum criado, eu atiçaria a sua ira com agudas alfinetadas, que parecessem em favor do culpado. Falaria bem do que para ele estivesse bem e, ao contrário, seria malicioso, mofador; e delataria as pessoas da casa e os de fora dela. Bisbilhotaria e procuraria saber da vida alheia, para lhe contar tudo, e teria muitos outros dotes semelhantes, que atualmente se usam nos palácios e que muito agradam aos senhores. Eles não querem ver em suas casas homens virtuosos, pelo contrário, detestam-nos e os menosprezam. Chamam-nos de tolos e dizem que não são pessoas de negócios, nem merecem a confiança do senhor. É assim que, hoje em dia, procedem os astutos, conforme digo, como eu procederia no lugar deles (...)"

De outro lado, um dos pontos a criticar, cuidadosamente, é o caráter panfletário-ideológico da história, feita justamente para correr de mãos em mãos, o que pelo conteúdo, mais a disseminação na Inquisição Espanhola, deu vazão para a censura (de centenas de anos!). Também é este caráter da história uma das razões para o escritor ter preferido o anonimato. O personagem-narrador faz duras críticas ao clero e à "baixa sociedade" religiosa espanhola, mediante eclesiásticos avarentos, falsos pastores e falsos milagres; em relação a esse último, com todo um teatro intricado e elaborado, para fazer parecer que uma falsa punição divina havia tornado-se real, com fins — para surpresa de um total de zero pessoas — comerciais. Bem boa essa cena.

No fim, quando a crítica está feita, o narrador amarra tudo muito frouxamente, e no final a boa, divertida e engenhosa narração fica como plano de fundo dessa crítica à religiosidade; soou para mim como se a história tivesse sido abandonada, como se o autor tivesse desanimado. Ou algo da vida pessoal o atrapalhou a continuar, não sei.

Mas, até nas partes ruins, há partes boas. É também no final que culmina todo o foreshadowing deixado pelo velho-cego, e também é onde o narrador “se desprende” do Lázaro — não literalmente — com um tom meio naturalista/determinista, que o mostra resignado, quando o rapaz já crescido, escolhe a ignorância, o conformismo, para conseguir se encaixar na sociedade que criticava (ou justificava, a depender do seu ponto de vista). Apesar do final apressado, a conclusão ainda é notável pois a pintura da vida do Lázaro é tão interessante, e acostumamo-nos tanto com a voz sarcástica e pueril do garoto, que, pelo menos no meu caso, me fez me apiedar dele até nessa má decisão, a escolha da ignorância, em vez de terminar o livro incomodado.

Talvez o Lazarillo não só inaugure o narrador não confiável, como também plante a semente de aquilo que implica deste ponto de vista e jeito de contar uma história.

Notas aleatórias

— Um caso onde o clássico literário se integra com a cultura; por exemplo: até hoje há uma estátua em Tormes de Lázaro e o o Velho Cego; na mesma linha, Lazarillo, entrou no dicionário espanhol, significando um "guia de cegos".

— Também uma pedra basilar no gênero romanesco, com meio milênio de idade; e, digno de nota, uma leitura fluída, ainda atual, que pode ser despachado numa assentada, com o acompanhamento que quiser. Sinceramente, não vejo razões para não lê-lo.

— Além de ser uma das primeiras manifestações do gênero romanesco, inaugura também o gênero picaresco, precedendo o grande Quixote, que pisa sob as fundações do nosso anônimo-narrador; há uma suposição de que o adjetivo pejorativo "picareta" do nosso idioma, tenha surgido daí, do pícaro. Porém, como sabemos, são muitos anos e uma travessia idiomática conturbada a mutou; Lázaro não é bem o "picareta", no sentido que concebemos hoje em dia, ele é astuto, irônico, bem humorado, que só quer encher a barriga; não o faz por maldade ou ganância.

— O anônimo-autor, supõe-se, era da elite espanhola e por isso escolheu o anonimato; demonstra ser bastante culto, há muito dos clássicos gregos, romanos e até hebraicos em sua escrita. Ou, ainda que do povão, mantinha relações estreitas com o clero.

Lazarillo de Tormes
Romance/Novela
Lido na antiga edição da Collecion Orellana. Trad e Nots. de Pedro Câncio da Silva.
176pp — ✲ 4.0/5.0
Outros Comentários: Nas Margens da Renascença

À Deriva além de ser um dos primeiros contos que li desde que retomei [ou adquiri de vez] o hábito da leitura, é também o primeiro que li do autor, considerado um Poe sul-americano. Tenho uma antologia dele que nunca cheguei a ler.

Eu tendo a favorecê-lo um pouco por causa disso, o conto é conciso, intrigante e interessante, mas é… demasiadamente simples. Alguns até consideram essa a história mais fraca do Quiroga. O conto trata de um homem picado por uma cobra e seus últimos minutos de vida, talvez por isso o Quiroga o tenha escrito dessa maneira, simples e acelerada, ainda que entremeado por boas descrições, para nos passar a mesma sensação de urgência sentida pelo personagem principal do conto ao tentar se salvar. Ao encarar a morte, que vem rápida, num bote no meio do rio Paraná.

No geral, é simples, mas é bom, principalmente pelo fato do autor conseguir explorar a psique do homem em seu último momento de vida, e passar uma sensação única com pouquíssimas páginas.
SpoilerPaulino vai progressivamente perdendo a força e as sensações corpóreas até se entregar às recordações, para enfim seguir à deriva, sem vida.

No Continente (assim é chamado o mundo de The Witcher), a magia é uma força sempre presente, mas não comum à maioria das pessoas. Ela tem ares de superstição e é vista com maus olhos. Monstros que precisam ser mortos, maldições que precisam ser quebradas, feitiços que precisam ser desfeitos, essa é a rotina de trabalho de um bruxo.

Capazes de feitos absurdos, eles são temidos e utilizados como empregados, ou meras ferramentas, conforme necessário. Cada bruxo tem seu próprio código, mas algo comum a maioria é que eles costumam não se meter na política dos reinos. O que não é o caso do Geralt, que apesar de sua neutralidade inicial, mostra na prática que tentar se isentar dos problemas não é lá uma boa saída. (Isso é muito bem adaptado pela CD Projekt em um CG do Witcher 3, "Killing Monsters.")

Geralt divide suas capacidades e conhecimentos com os humanos por um preço, paga esse preço sendo odiado, exilado socialmente e ilhado moralmente. É temido e evitado, já que a maior parte das pessoas sente aversão da mera presença dele, vendo-o como uma figura um ser deformado, uma figura mitológica perigosa, quase que amaldiçoada.

Ele é um excepcional estrategista, mas como todo humano, comete erros. Apesar do planejamento meticuloso, nem tudo sempre sai como o planejado - assim é a vida; e se ele alcança a vitória, guarda a alegria para si próprio. Ele é imperfeito, mas extremamente profissional no seu trabalho.

Outro ponto a ser destacado, o Andrzej Sapkowski conscientemente queria se diferenciar e ir além do Senhor dos Anéis (isso é comentado pelo nosso grande tradutor, que viveu aquela época, e como ele mesmo diz entrou pela porta e saiu pela janela de diversas editores até conseguir publicar a sua tradução), porque a Cortina Vermelha não deixava os livros do Tolkien chegarem lá traduzidos. Queria escrever "O" livro de fantasia da Polônia, acrescentando muitos temas caros e muito da mitologia daquela região. Uma dessas diferenças é a dicotomia dos monstros que ele enfrenta. Eles são complexos, com motivações válidas ou vítimas do mundo daquele mundo. Nivellen e a Estrige são dois exemplos perfeitos de como há camadas nos monstros a serem descobertas pelo leitor e pelo protagonista. E mesmo os menos desenvolvidos, mesmo os que apenas ilustram os bestiários, nos dizem muita coisa daquele mundo: são frutos de morte, poluição, assassinato, incesto...

O leitor é a todo tempo forçado a tomar a tomar partido, se igualando ao Geralt, já que ele é forçado a fazer isso constantemente, enquanto desafia a sociedade, a magia, os monstros, as leis e a morte. Andrzej consegue moldar e descrever magistralmente o protagonista e suas emoções. Lendo com atenção, é possível enxergar como Geralt sente cada baque da vida diante de ele ser o que ele é — um ''mutante'' —, e como ele evolui ao longo da série.

Outro ponto a se elogiar são os diálogos, para mim o Andrezj é exímio nisso, e isso fica claro para quem leu o conto do Nivellen. Seco, direto, chulo, reflexivo, ofensivo; tudo isso auxilia em deixar o mundo muito mais interessante e natural.

A abordagem da religião também é interessante, mas, ao mesmo tempo, curiosa, já que a própria existência dos monstros seria uma heresia. Outra ironia é que o Geralt mantém uma dose de incredulidade, mesmo que veja a magia intimamente, seja na forma dos monstros que enfrenta, ou dos sinais que utiliza. Ele debocha, ignora e até mesmo discute alguns temas religiosos.

Não preciso nem dizer que é meu livro de fantasia favorito. Principalmente os dois primeiros livros de contos. Dando uma pincelada em todos, o nível da qualidade, da variações de temas, e do domínio com que cada seguimento é trabalhado, é incrível. Ação, terror, horror, thriller, pitadas de gore, contos de fada renovados, misturas de mitologia, comédia onde as conversas ácidas e até mesmo as cenas de ação são feitas para você dar risada: tem de tudo aqui.

Outros pontos positivos vão também para a descrição da exploração política, a moeda e seus valores entre os povos, mudanças nos paradigmas sociais nas formas que se enxergam os monstros, racismo e xenofobia, toques machistas que refletem o pensamento daquele mundo e daquele tempo, enquanto, por outro lado, também há a busca das mulheres por serem protagonistas de si mesmas, monstros como cortina de fumaça para a maldade do homem... Andrzej não negligencia nenhum tema, desde ecologia até nazismoe massacres, é um fantasia que funciona muito bem desse jeito, como fantasia, mas que não suga o leitor a ponto dele não ver muito dos problemas do nosso mundo refletido ali.

[A Voz da Razão I]

Essa introdução, nomeada pelo Andrzej de ''A Voz da Razão'' foi uma forma literária que ele encontrou de amarrar todos os contos, inicialmente foram escritos separadamente, dando uma coerência e colocando-os dentro de uma narrativa maior. A última voz da razão é um prenúncio não só do livro seguinte, como de toda a série. A voz da razão são as memórias de Geralt durante a sua estadia no templo de Melitele e é, na realidade, o tempo presente, enquanto os outros contos estão dispostos de maneira não cronológica.

Esta primeira parte serve para expor uma das principais características do personagem, que foi mais elevada nos jogos: O bruxo deixando-se aproveitar dos prazeres da carne. Descansando no templo da deusa Melitele, em uma manhã de sol, ele é surpreendido pela jovem Iola, e ambos tem uma relação sexual. Uma parte interessante dessa relação, é que o Geralt está sob o efeito de várias ervas medicinais, e ainda meio grogue. O destaque ao cheiro de camomila que ele sente durante o ato não é atoa, Geralt está sonhando, mas não com Iola, e sim com o Yennefer, por isso o destaque no cheiro, que deveria ser de Lilás e Groselha. Um foreshadowing bastante interessante.

E fica um aviso aqui, a obra do Sapkowski é repleta de misoginia, mas, a abordagem dele é crítica, ele usa e expõe desta cultura para criticar, como veremos em alguns contos desse livro, e como é visto aqui, Geralt se envolve com várias mulheres, projetando nelas a figura de uma outra mulher. Iola aqui, quis estar com Geralt, e talvez fosse até fosse uma parte do tratamento do Templo. Mas, o fato de uma pessoa querer não retira a responsabilidade de alguém no ato e nas consequências do mesmo.

Tanto é que Geralt percebe a situação, o que aconteceu e sente culpa. Ele olha para Iola e se ressente porque ela não era a Yennefer. Percebe o quanto isso era injusto, aquilo pode deixar marcas na garota. E é disso que se trata. Quando se sabe que algo pode ser danoso para uma pessoa, mesmo que ela queira, é digno conversar e tentar fazê-la perceber algo que, provavelmente, ela não está conseguindo perceber sozinha.

As sacerdotisas de Melitele não são impedidas no que diz respeito à sexualidade, ela é a deusa da fertilidade, do parto. Qualquer uma delas é livre para servir a deusa ou deixar de servir. A qualquer momento. Qualquer uma é livre para decidir com quem se deita. Iola fez uso deste direito, que cabe a ela. Mas, isso não quer dizer que não haverá nocividades nas escolhas delas, porque elas são, em sua maioria jovens. A responsabilidade cai sob Geralt.

O Bruxo: Começando de fato, o primeiro conto nos leva a um reinado chamado Vizíma, que tem bastante influência política na região e um grande problema para resolver: a algum tempo, uma maldição fez com que a princesa recém-nascida se transformasse em uma estriga. Aqui o trabalho do bruxo consiste em tentar desfazer a maldição, mas sem matar a princesa. É possível sentir o clima soturno que envolve o castelo abandonado onde está o sarcófago da estriga.

Esse conto apresenta o personagem e seus métodos. A estriga — uma besta enorme que mede quatro côvados, lembra uma barrica de cerveja, tem uma bocarra que vai de orelha a orelha e é cheia de dentes afiados como estiletes, olhos vermelhos e cabelos ruivos. — é extremamente perigosa. Muitos outros, até mesmo bruxos, haviam tentado e falhado.

Ele também não aceita a missão só porque tem bom coração, fazendo questão do pagamento ser prontamente acertado com antecedência. Sua cautela e investigação também é mostrada de modo eficiente: o leitor observará o protagonista estudando o ambiente e o caso que tem a frente. Preparando poções que modificam suas feições e traços fisiológicos para completar aquela tarefa específica. Como a luta era a noite, em um castelo abandonado, uma poção que dilata sua pupila ainda mais (ele já possui olhos de gato normalmente) e o faz enxergar perfeitamente no escuro é extremamente útil. Uma característica de seu combate também é mostrado, ele costuma girar em torno de seus inimigos, estudando seus padrões, para enfim definir a luta em alguns poucos movimentos rápidos e impetuosos (na teoria, já que no caso da estrige, Geralt comete alguns erros e é duramente castigado por isso.)

Para mim uma das coisas mais interessantes nesse conto é a questão da Estriga, que apesar de ter devorado muitas pessoas, não seria um adversário tão complicado para o Geralt derrotar com a espada, porém, ela é a filha do Foltest, ele não pode simplesmente mata-la. Há o próprio sentimento do Geralt em jogo ao descobrir mais sobre a história da maldição da Estriga, com todo seu conhecimento de maldições e feitiços, ele sabe que tem uma jovem inocente ali no fundo. E tendo lido todos os livros, creio que mesmo que ela não fosse filha do Foltest, fosse a filha de um camponês qualquer, o Geralt não a mataria e tentaria desenfeitiçá-la igualmente.

Neste conto vemos também todo tipo de interesse em relação à Estriga, ela devorou de dezenas a centenas de pessoas durante os anos que se passaram, mas o Foltest ainda a quer viva, é a sua filha com o amor da sua vida, sua própria irmã. Ostrit não quer que nada mude ou seja resolvido, já que com as mortes continuando a acontecer pelas mãos da estrige, seria mais fácil depor o Rei. Velerad e Segelin ''apoiam'' o Rei, mas sabem que se o Geralt fosse embora as mortes continuariam acontecendo, e decidem tentar subornar o Geralt, assim como outros que vieram antes dele, a forçar um ''acidente de trabalho''

Expor os lados sombrios da humanidade é um tema comum ao longo da série e introduzi-lo logo no primeiro conto, já define o tom do resto das histórias. Não é uma história só sobre a caça de monstros, quotando o próximo livro: é algo mais.

O que esse conto também faz é introduzir a natureza estoica de Geralt de Rivia. Como é curta, não há nada sobre quem ele era, apenas o esboço básico do que é ser um Witcher e porque eles são frequentemente odiados pela sociedade em geral. Sua excelência está na simplicidade, que apresenta aos leitores o mundo, o sistema e o personagem principal ao mesmo tempo que conta uma história simples e sólida, mas incrivelmente humana. Com certeza uma das melhores introduções de personagem que já li.

A Voz da Razão II: Aqui fica claro que Geralt estava em transe quando teve a relação com a Iola, e sente-se culpado e envergonhado. E por meio do arrependimento, fica implícito que apesar de ele estar grogue e pensar na Yeneffer, no fundo ele sabia sim que se tratava de outra pessoa, o que não o isenta da culpa.

Essa é uma característica ruim do personagem, da pessoa Geralt de Rívia que merece ser destacada. Ele no fim é um ser humano falho como todos os outros, não é perfeito. E a relação que ele possui com as mulheres merece ser criticada, a forma como ele as usa, e as objetifica, para lidar com as frustrações que tem com a Yennefer. Esse interlúdio expõe isso.

Um Grão de Veracidade: Desbravando uma trilha na floresta com Roach, Carpeado, ou Plotka, chame como quiser o cavalo do Bruxo, ele descobre dois cadáveres, um mercador e uma jovem. Ele é atraído por um detalhe incomum, uma rosa azul presa na roupa da moça. Um jardim com as mesmas flores cresce em um castelo abandonado próximo dali. O resto já é sabido por vocês, que leram o conto.

Aqui o conto mostra uma grande qualidade do autor de elevar os contos de fada ao limite, e transforma-los em algo novo e refrescante. O monstro não é um monstro, e até mesmo o clichê do amor verdadeiro é refeito e revisitado de modo belo e trágico. Nivellen tentou se apaixonar por várias mulheres, mas muitas delas eram atraídas pelo poder mágico que acompanha sua maldição, e não por ele próprio. Andrzej emprega uma ótima reviravolta nesse conto, pois o amor verdadeiro que quebra a maldição no final da história provém de um monstro.

Vereena controlava Nivellen, os pesadelos dele, não eram pesadelos, eram lembranças, ela o controlava para matar as pessoas que passavam por lá. E por pura crueldade, já que quando Geralt encontra os corpos, eles estavam super ensanguentados e dilacerados, então parece que Vereena realmente não queria se alimentar deles, mas apenas matá-los por prazer.

No fim, Nivellen percebe isso, por isso a mata, mesmo sabendo que ela o amava (um senso distorcido de amor, talvez, já que ambos são monstros) e mesmo após Nivellen apunhalá-la no peito, ela continua amando-o, se não fosse o caso, a maldição não seria quebrada. ''Meu. Ou de ninguém. Amo-te. Amo.'' Tanto que depois dessas palavras, ela tenta levá-lo junto com ele.

Eu adoro o Nivellen, ele é um ótimo personagem, divertido e interessante. Adoro a disparidade entre sua qualidade monstruosa e seu temperamento bastante dócil. Mas há uma discussão que deve ser feita, ele estuprou uma sacerdotisa inocente, depois disso ele realmente merecia ser curado da maldição? Bem, eu tenho minha própria opinião, que não.

Ele não merecia ser curado da maldição. Todas as pessoas que se arrependem merecem uma segunda chance, mas quando o Nivellen conta a história para o Geralt, não parece que ele sente vergonha ou arrependimento do que fez. Não chegamos a ver nenhum remorso da parte do monstro em relação ao que ele fez com a sacerdotisa que estuprou; o pesar que ele sente é apenas em relação a ele mesmo (Nivellen está longe de ser altruísta). O resultado das ações (a maldição que a sacerdotisa colocou nele) parece ser para ele um inconveniente maior do que a ação que ele fez em sí, entendem?

Ele preocupou-se mais com a maldição do que com o fato de ele ter estuprado uma sacerdotisa inocente (mesmo que tenha sido sob pressão). A história, na minha opinião, tinha que terminar com a morte de ambos, tanto Veereena quanto Nivellen. O Geralt ao ouvir o relato, demonstra apatia porque isso normalmente é típico e esperado dele. Estuprar é algo que o bruxo não faria e despreza, e se a cena estivesse acontecendo em sua frente certamente iria tentar impedir. Mas, ao mesmo tempo, ele não age como um cavaleiro justiceiro que pune os malfeitores, na maior parte do tempo ele procura não se envolver. No início da obra, Geralt era excessivamente neutro em relação a tudo, e isso só muda mais adiante na obra, quando algumas questões relacionadas a Ciri colocaram ele na parede e ele precisou tomar decisões.

É um mundo sombrio, a maioria dos contos e acontecimentos deixam o leitor com um gosto amargo na boca.

A Voz da Razão III: Logo nesse inicio, já temos algo bastante interessante. Falwick e Tailles, cavaleiros a serviço do Regente de Ellander, servindo como alegoria a intolerância religiosa e ao racismo. Percebe-se isso pelo jeito como entram no templo, e em também como eles olham para Geralt e para Nenneke. Esse dois também pertencem á uma ordem corrupta, onde os cargos são comprados, e não recebidos por mérito.

O que é interessante aqui, é em como pessoas se apoiam em seus representantes, e utilizam isso como uma base para violentar e perseguir pessoas ou crenças diferentes. Se dependessem desses dois, eles ateariam fogo no templo e passariam na espada todas as pessoas ali dentro. Outro paralelo com a vida real.

Wild Cards (que será [ou seria, já faz 5 anos desde que isso foi anunciado] adaptado para a TV pela Universal) é uma série de dezenas de livros que recontam a história da humanidade a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, quando uma nave cai nos Estados Unidos e traz consigo um vírus alienígena.

Essa série de livros, conceitualizada e editada pelo George R. R. Martin, são estruturados de forma similar a uma coletânea de contos: cada capítulo é escrito por um autor diferente e narra sua própria história, servindo como plataforma de lançamento para autores promissores e aberto aos já consagrados. Os capítulos são organizados cronologicamente, abarcando um grande lapso temporal cronologicamente, e, assim, constroem um estilo chamado de romance mosaico, em que a narrativa é construída sob perspectivas completamente diferentes, mas que, quando reunidas, montam uma história principal.

É uma ideia fascinante, mas que tem seus pontos negativos. O principal deles sendo a disparidade de qualidade entre contos e a gigantesca variação de tom. Alguns autores trabalham exemplarmente com os temas apresentados, outros nem tanto.

Mas, apesar desse pequeno ponto, O Começo de Tudo é um grande inicio para a série, uma ótima representação realista dos superpoderes junto de uma reescrição da história americana, com as estórias se entrelaçando com o mundo real ou sendo modificadas de forma bastante orgânica e convincente.

Esse primeiro livro tende bastante para a política e para o noir. Seus capítulos quase sempre são protagonizados por anti-heróis, e transcorrem em cidades sujas dominadas pelo crime e pela corrupção, enfatizando o cinismo geral que permeia a história, provavelmente inspirado por Watchmen, que saiu no mesmo ano.

Prólogo (3/5): O livro abre com um divertido prólogo, escrito pelo Martin, imitando o estilo do Studs Terkel (radialista considerado o maior exponenciador da história oral norte-americana) apresentando um dos personagens mais importantes de toda a saga: o alienígena Tachyon. Excêntrico, sempre vestindo roupas circenses e de cores vibrantes, Tachyon viaja para Terra para impedir que um vírus criado por sua família infecte a população. Seu plano, porém, falha; e devido a sua aparência humana e trejeitos estranhos, que poucos o levam a sério, ele decide permanecer no planeta para ajudar aqueles que foram afetados pelo Carta Selvagem. O prólogo faz um bom trabalho em intrigar e atrair o leitor para a história, além de definir a estrutura geral do livro, preparando para as diversas mudanças de ponto de vista ao longo da história.

Trinta Minutos sobre a Brodway (2/5): Escrito por Howard Waldrop, Trinta minutos sobre a Broadway é insosso, apesar de apresentar o importante ''herói'' pré-vírus, Jetboy, um jovem e famoso aviador que precisa sair da aposentadoria para uma última missão. Conta também como o vírus alienígenafoi liberado nos céus da cidade de Nova York, em 1946, e mudou toda a história mundial.

A escrita é divertidinha, mas a visão de 'herói americano que o autor deixa transparecer é muito teatral (apesar de provavelmente intencional). A missão de Jetboy é impedir o perturbado Dr. Tod de liberar o vírus. Escrevendo a premissa desse jeito o conto parece ainda pior, mas ele não é tão ruim assim.

O garoto é uma figura importante na narrativa, sendo mencionado diversas vezes ao longo do livro. O estrago não foi maior por causa dele. Os pontos positivos da história, além da leveza narrativa, é a maneira com que o autor fundamenta seus personagens em lugares e tempos reais (você entenderá quando ler), e também a sacada de mostrar e tornar real aquilo naquele universo o que nos Estados Unidos foi a substituição dos Pulps pelos Supers.

O Dorminhoco (3/5): É Roger Zelazny que de fato abre o horizonte e mostra o potencial que o universo de Wild Cards tem, com a história de Croyd - o Dorminhoco. Um garoto de quatorze anos afetado pelos vírus, mas de um modo excepcionalmente incomum: sua mutação faz com que ele hiberne frequentemente, e toda vez que desperta, transforma-se em algo totalmente diferente. Às vezes ele é um Às (abençoado com superpoderes), às vezes ele é um Curinga (deformado de alguma forma estranha).

O autor utiliza de maneira muito inteligente o personagem para apresentar o mundo e os eventos imediatos pós liberação do vírus em Nova York; a visão de crianças numa escola esperando o sinal tocar no dia do Prólogo; a lei Marshall em pleno vigor; a quebra da paz pós guerra mundial; a clínica do Doutor Tachyon; e, principalmente, a adaptação que ocorre no país por causa da chegada do vírus.

É um conto acelerado e divertido, que aborda desde o vício até a defesa dos direitos dos Curingas, enquanto ao mesmo tempo mostra o Croyd enfrentando os problemas de suas transformações e ganhando a vida como um ladrão.

Ele também descreve bastante bem a aleatoriedade dos efeitos do Carta Selvagem, com muitas descrições das mutações. O autor nos mostra o caos nas ruas de maneira brutal e surpreendente, mas com uma condução leve e pitadas de comédia, principalmente pelo fato do protagonista ser uma criança forçada a crescer. Temos também o primeiro vislumbre que Wild Cards vai na contra mão das séries de super-heróis comuns, com Croyd tornando-se um ladrão e usuário de drogas. No geral, é uma ótima história para abrir a era pós-vírus da Carta Selvagem.

Testemunha (4/5): É aqui, com Testemunha, de Walter Jon Willians, e logo em sequência, com Ritos de Dragadação, que o livro abraça todo seu potencial, misturando política com super-heróis, e realidade com ficção. Você pode até achar a mudança chata, preferir algo mais apolítico, mas não há como negar que estes dois contos são os mais importantes de todo o livro e formam uma boa base para todas as histórias seguintes.

Logo após o caos inicial da Carta Selvagem, quatro Àses são recrutados pelo governo, e acompanhamos a Ascensão e Queda desses ''hérois''. Há muitos personagens interessantes, e até pequenos arcos de desenvolvimento; como por exemplo, o arco do Garoto Dourado, um ás com poderes semelhantes ao do Superman, mas que arruina sua própria vida não pela falta de força, mas pela falta de tato e integridade como pessoa. Vemos intimamente e entendemos o motivo de Braun ter feito as coisas que fez, mas ao mesmo tempo sentimos seu arrependimento. Mais uma vez, o protagonista não é um herói, ainda que ele desesperadamente deseje ser um, uma história recheada de profundidade e humanidade.

O autor também explora todas as consequências que super-heróis negros, judeus e mulheres têm na preconceituosa América dos anos 1950, e diversas mudanças em aspecto histórico: Àses capturam todos os criminosos nazistas que tentaram fugir para outros países, evitam a construção do Muro de Berlim, salvam Ghandi de um assassinato e subjulgam o exército norte-coreano. Ainda que alguns eventos - não por falta de tentativa - permancem os mesmos: a China continua comunista; e a América do Sul continua infestada de ditadores fascistas.

Os grupos de Àses formado para melhorar mundo, prevenir guerras e resolver incidentes internacionais, logo sofre perseguição dentro do próprio País, tornam-se alvos, e incapazes de combater a corrupção dentro do próprio governo.

Rituais de Degradação (8/10): Este é um complemento muito bom para a história anterior, com uma visão muito diferente das outras apresentadas na antologia até agora, bem mais emocional, principalmente no personagem do trágico e simpático doutor Tachyon, mostrando quem ele é e o que está disposto a fazer.

Somos (re)introduzidos a três personagens, e a maneira que suas vidas e relações um com o outro são utilizadas contra eles: Dr. Tachyon, a instável Às Blythe, e David, outro Às.

A amizade entre os três, e a ligação romântica de dois deles é muito bem desenvolvida, a autora também escreve e usa muito bem o poder da Blythe, narrando com desenvoltura o funcionamento interno da mente de diversos personagens, sem medo de revelar seus aspectos positivos e negativos ou de ir fundo na irreal absorção e simbiose de mentes. Embora o foco se encaminhe para a história trágica de amor, David, O Embaixador, também não é deixado de lado, e se mostra uma parte forte da interessante história. É um conto extremamente triste, mas necessário, e um dos melhores do livro.

Interlúdio Um - Áses Vermelhos, Anos Negros: Um breve mas interessante resumo dos anos após a audiência que declarava aberta a ''caça às bruxas'' moderna contra os infectados pelo vírus. Bem detalhado, revelador e educativo, a caça aos Àses no Interlúdio faz bastante paralelos com história real dos Estados Unidos, uma mistura da chamada onda do ''Medo Vermelho'' da Era McCarthy com a Gestapo de Hitler perseguindo a comunidade judaica.

Capitão Cátodo e o Às Secreto (6/10): Ao tentar cobrir um longo período da história americana, O Começo de Tudo deixa alguns ''buracos'' no seu todo, porém, a edição mais recente do livro tenta corrigir isso com a adição de alguns contos inéditos.

Esse é o caso do Capítão Cátodo, uma história relativamente boa, que se passa na decáda de 1950 e faz um bom trabalho ao se vincular com eventos históricos daquela época. Dessa vez, acompanhamos Karl, um produtor, e vemos a influência do vírus em Hollywood. O produtor tem que esconder sua identidade como um às, ao mesmo tempo que lida com atores mimados, pressões financeiras e o assassino em série Medusa que tem como alvo coringas.

Tudo citado no interlúdio anterior ainda está em vigência na história, a vida infâme dos Coringas, a necessidade de Karl esconder sua habilidade, etc. Os personagens são bem escritos, principalmente a apresentação da senhora invisível Esteller, que é muito boa.

O conto, entretanto, por ter sido inserido depois, não tem tanta liberdade para moldar o mundo como os outros, e serve mais como uma preparação de terreno. Se você for um leitor atento, a história torna-se previsível: a narrativa o leva a suspeitar de um certo personagem o tempo todo, e no final apenas confirma isso. É boa, mas nada além disso.

Powers (7/10): Mais uma das histórias da nova edição, aqui David Levine utiliza como base o Acidente U-2 em 1960, que aconteceu na vida real, e reconta os fatos pela ótica do mundo de Wild Cards. O conto passa uma ótima visão dos anos 60 e da guerra fria, com a corrida armamentista sendo representada pelo arsenal de áses que cada país possui. O Powers do título é um ótimo duplo sentido com o nome do real piloto do U-2.

O protagonista é um analista estatístico da CIA, que se vê no meio de uma operação internacional onde suas habilidades ocultas de Às talvez possam auxiliar a situação. Frank, também conhecido como Cronômetro, é um personagem interessante, cheio de dúvidas e hesitação, mas com um dos poderes mais insanos mostrados até aqui, o de congelar/desacelerar o tempo enquanto ele ainda consegue se mover e realizar ações por até onze minutos, porém, em contrapartida acelerando o seu envelhecimento enquanto usa a habilidade.


O conto sofre bastante do mesmo problema do anterior, por ter sido adicionado depois, são poucas as consequências que ele verdadeiramente causa no mundo do livro, em resumo, o conto é bom, exemplifica bem o tema e tem um ótimo protagonista, talvez sendo o runner up dos adicionados posteriormente, mas falha em interferir de maneira sólida em qualquer um dos elementos ou temas já apresentados nos outros contos.

O Jogo da Carapaça (8/10): Neste conto, Martin não só nos dá uma ótima e divertida historieta, mas também coloca o Tachyon de volta no centro de eventos, estimulando todos os contos seguintes.

A história acompanha o Grande e Poderoso Tartaruga, um nerd tímido que sofria bullyng, fã de quadrinhos e que idealiza os super-heróis. Agora, ele consegue usar poderes telecinéticos, mas apenas quando se sente seguro dentro de sua carapaça: um Fusca quebrado, modificado e blindado. Ele é um Às diria até ingênuo, que acredita que deve fazer o bem mesmo na época que eles estão sendo desacreditados, Tom Tudbury difere bruscamente dos outros Àses descritos até aqui na antologia, e seu amigo Joey, um maluco sessentista durão, além de ser um ótimo parceiro, também é um grande amigo do protagonista.

Temos aqui também uma continuação da "vida" do Dr. Tachyon após os eventos de Rituais de Degradação, e o que aconteceu nos anos intermediários, bem como a introdução de Desmond, Angelical e um vislumbre na vida noturna no Bairro dos Coringas, retratando os diversos abusos que eles sofrem por causa de suas deformidades.

Quando a amiga de longa data do Doutor, Angelical, é sequestrada durante uma invasão em sua boate na Cidade dos Coringas, Tachyon deve trabalhar com o Tartaruga, superar sua dor, recuperar sua sobriedade e redescobrir seu propósito de vida, para salvá-la de ser abusada e asassinada por policiais corruptos em uma comovente história de redenção.

O resultado de tudo é uma ótima narrativa, e um belo exemplo de como a conexão e coesão entre as histórias é um dos pontos mais fortes de Wild Cards. O Grande e Poderoso Tartaruga puxa consigo e detalha o surgimento de toda uma nova era de Àses.

Interlúdio Dois - Clínica no Bairro dos Curingas abre no Dia da Carta Selvagem: George R.R. Martin continua logo após os eventos do conto anterior com esse pequeno enxerto detalhando a nova fase da vida do Dr. Tachyon: a abertura de sua clinica com o nome de Blythe, que pretende ajudar os Coringas fornecendo gratuitamente auxilio médico e emocional.

A Noite Longa e Obscura de Fortunato (7/10): Uma coisa que com certeza não podemos dizer que faltou ao Lewis Shiner é coragem. Ele escreveu talvez a história e o personagem mais insálubre e inquietante do livro.

Fortunado é um cafetão negro meio-asiático, cujos poderes incluem projeção astral, desaceleração do tempo e talvez até telepatia. Mas, ele só pode recarregar suas habilidades por meio do sexo tântrico, absorvendo o poder de seus parceiros, desde que não permita que ele próprio... bem... orgasme.

A coisa escalona e vai ficando cada vez mais estranha, principalmente quando ele mergulha fundo no livro ocultista do Crowley, e tem um vislumbre de utilizar seu poder em uma pessoa morta (sim, é isso mesmo que entendeu, um homem que adquire poder através do sexo utilizando isso em uma pessoa morta) apenas para descobrir descobrir um terror cômisco que provavelmente nunca mais será retomado no livro, não sei se foi uma boa idéia adicionar um conto que envolva o Cthulhu no meio de um livro de super heróis e política. Mas a deixa no final dá a entender que ao menos o Fortunato retornará, o que é no mínimo interessante, pois o personagem é bem peculiar.

Transfigurações (7/10): Apesar de demorar para emplacar, a história do Victor Milan é boa. O conto é sobre Mark, um estudante tentando entender e mergulhar na contracultura da Costa Oeste dos anos 60, já que deve fazer seu TCC sobre drogas psicotrópicas. É uma bela mistura de super-heróis, com o movimento hippie, e o rock n 'roll dos anos 60. Além de mostrar como os comícios anti-Vietnã do final dos anos 60 e início dos anos 70 foram alterados pela presença do vírus Carta Selvagem.

Ele apresenta três novos interessantes Áses: O Rei-Lagarto, um violento manifestante anti-Vietnã que simpatiza com o Presidente Mao e quer desencadear uma revolução. O Operário, um imigrante polonês que sofreu sob o regime soviético e acredita nos valores tradicionais americanos. E Radical, que só quer dar mais uma chance a vibe paz e amor.

Ambas as histórias que se passam nos Anos 60 (Transfigurações e Fortunato) impulsionaram a série em uma direção mais realista. Mas acho que essa funciona muito melhor. É apresentado aqui uma interessante visão da cultura hippe dessa época, com personagens bem definidos interessantes. E ainda termina com uma ótima deixa para os personagens serem utilizados em histórias seguintes.

Interlúdio Três - Wild Cards Chic: Em um ótimo interlúdio que retoma diversos personagens dos contos anteriores, Martin mostra a virada de chave para os Àses, eles estão famosos, Tachyon está feliz, e até possuem o especial e recém construído restaurante Aces HIgh, finissimo, apenas para Áses e seus acompanhantes.

Bem Fundo (6/10): Escrita por Eward Bryant e Leanne Harper, esse conto é literalmente ame ou odeie, disputando com o Fortunato a posição de história mais estranha da antologia, a narrativa envolve guerra de mafiosos, uma mulher que fala com animais, um crocodilosomem e até um vagão fantasma de metro que é senciente. E não me surpreenderia se esses personagens se tornassem recorrentes na série, dado a todo o plot dos Coringas do subterrâneo.

Jack Esgoto é um crocodilo assassino gigante que vive nos metrôs da cidade de Nova York. Nômada é uma senhora sem-teto com a habilidade de se comunicar com animais (mas seu próprio uso de drogas e colapso mental contribuem de modo tão importante quanto a Carta Selvagem ao desempenhar essa habilidade). CC Ryder, que apareceu brevemente em Transfigurações, é uma ativista vítima de estupro que se transformou em um vagão de metrô após ser empurrada nos trilhos. E por fim, Rosemary Muldoon, é filha de um chefe da máfia e se tornou assistente social para se reconciliar com os pecados cometidos pela sua familia.

A história é verdadeiramente uma bagunça, recheada de clichês e esteriotipos, circulando em torno dos personagens sem formar um enredo coerente; coisas demais tentam ser agrupadas, e uma porcentagem dessas coisas agrupadas não são nem ao menos boas ou interessantes. Entretanto, sendo bem honesto, para uma história que envolve todos esses elementos citados, e ao mesmo tempo tenta funcionar por si só e não comprometer demais o universo, Bem Fundo não me parece tão ruim quanto poderia ou dizem ser. Ainda prefiro ela à história inicial do Jetboy.

Interlúdio Quatro - Medo e Delíro no Bairro dos Coringas: O Interlúdio Quatro e as histórias seguintes nos dão bastante insights na política e vida dos Coringas, e nos apresentam alguns Coringas tão interessantes quanto os famosos Àses.

Fios (7/10): Com o Titereiro, um senador democrata que deseja ser presidente, Stephen Leigh faz um ótimo trabalho representado um às-vilão sociopata, com habilidade de manipular pessoas, tornando tudo ainda mais aterrorizante.

O autor consegue fugir dos clichês do gênero de ''super-heróis'', e nem ao menos foca toda a história no personagem central, os protestos políticos que irrompem no Bairro dos Coringas, a ação e o tumulto racial, são tão importantes quanto o Titereiro e servem para nos colocar no olho do furacão; e toda desordem manipulada por essa figura sombria.

''Desde então, ouvi Zann todas as noites e, embora ele me mantivesse desperto, a esquisitice de sua música me fascinava. Conhecendo pouco dessa arte, ainda assim eu estava certo de que nenhuma de suas modulações tinha qualquer relação com a música que eu ouvira antes e concluía que ele era um compositor de gênio altamente original. Quanto mais eu ouvia, mais ficava enleado, até que depois de uma semana resolvi conhecer o homem pessoalmente.''


Tenso e desconcertante. O foco desse conto é um musicista mudo que sempre toca composições bizarras e desagradáveis, mas que estranhamente atraem o protagonista, morador da enigmática Rue d’Auseil. A atmosfera de loucura é como uma orquestra que vai crescendo gradualmente, e sufoca até a derradeira conclusão explosiva.

Até agora, junto do "The Shadow Out of Time", é um dos melhores que li do Lovecraft, usa magistralmente de um horror sugerido, e não do ''longo parágrafo para descrever algo que não pode ser descrito''.

Apesar de imensamente influente diversas mídias, Lovecraft vem se tornando cada vez menos desfrutável na visão de novos leitores, tanto pela escrita densa quanto pelo caráter questionável do indivíduo escritor. Como disse, virou até brincadeira dizer que tudo que ele fala é "indescritível"; no entanto, para quem o ler em outras frentes, a exemplo deste conto, vai perceber que há casos que ele vai contra todos esses preceitos: a escrita é leve e fluída, o cenário é enigmático no ponto certo, a trama e a ambientação são muito boas, a loucura é bem dosada e o terror e horror é muito mais sugestivo, totalmente relatável e compreensível.

É uma sinuca de bico que, eu entendo, muito dos preconceitos primitivos e bárbaros do Lovecraft influíram na escrita e moldaram o seu tão interessante mundo literário, então até compreendo que para alguns possa ser intragável lê-lo. Mas é impossível jogá-lo fora, um cara que inspirou até o Borges. E sou até suspeito para falar, pois até gosto da escrita mais densa e da construção e mundo maluca, até repetiva, dele. Mas é curioso pensar que num espaço de menos de dez anos ele passou de amado a odiado na internet, ao mesmo tempo que floresceu diversas obras, de video-games a seriados, que utilizam do seu trabalho como inspiração.

''Não utilizou o suporte para partituras, mas, sem pedir opinião e tocando de memória, me enlevou por mais de uma hora com acordes que eu nunca ouvira antes — acordes que deviam ser de sua própria invenção. Descrever sua exata natureza é impossível para alguém não versado em música. Constituíam uma espécie de fuga, com passagens recorrentes de um teor cativante, mas que para mim eram notáveis devido à ausência de quaisquer das notas que eu escutara embaixo, em meu quarto, noutras ocasiões.''

—Para o resto da Galáxia, se é que notam a nossa existência, a Terra é apenas uma pedra no céu. Para nós é o nosso lar, e o único que conhecemos. No entanto, não somos diferentes de vocês dos mundos siderais; somos apenas mais desafortunados. Estamos apinhados em um mundo morto, imersos entre paredes de radiação que nos prendem, cercados por uma imensa Galáxia que nos rejeita. O que podemos fazer contra o sentimento de frustração que nos consome?”


Honestamente, eu não faço ideia do motivo que me fez ler esse livro, ou até mesmo o que me fez chegar até ele. Não sabia sobre o nome-duplo (Era Galática ou A Pedra no Céu), nem que fazia parte de uma série de livros (#3 do Império Galático) ou, o principal, que tinha sido o primeiro livro escrito pelo Asimov. Por isso, talvez essa tenha sido uma das experiências literárias mais puras ― no quesito de não ser influenciado externamente ― que tive nos últimos tempos.

É um livro cafona, a trama é completamente: uns cientistas estão testando um negócio, e o laser deles atravessa a parede, acerta um cara passeando no parque, e o teletransporta para o futuro, onde ele vira cobaia e ganha superpoderes. Completamente, sim. E ele consegue, ainda, enfiar um romance e um final cafona nisso. E não sei como, mesmo querendo, não consigo não gostar do livro. Sendo justo, ele aborda diversos assuntos interessantes e pertinentes, pendendo entre o mediano e o bom ao longo de quase toda sua extensão.

Mâs... Não tem como negar que é um impressionante livro de estreia para o Asimov, bem escrito e altamente imaginativo, ainda não li as obras máximas do autor, mas imagino que esse seja um vislumbre do gigantesco potencial que ele mostraria nas décadas seguintes.

Apesar dos problemas, com certeza não falta entretenimento, até mesmo os acontecimentos mais imaginativos e improváveis são no mínimo divertidos. Há também muito conflito, de todos os tipos, desde o conflito interno quando Joseph, o protagonista, questiona sua própria sanidade repetidas vezes, até conflitos planetários, pessoais, e sociais. Isso tudo junto de ótimas pinceladas de construção de mundo feitas pelo Asimov alancavam a leitura e mantém o livro ainda atraente mesmo após quase setenta anos desde sua publicação.

Pedra no Céu, no entanto, é curto para o escopo que tenta abarcar, não tem a extensão necessária para fazer justiça às ideias jogadas no livro, que provavelmente serão expandidas em outros trabalhos do autor. Por exemplo, temos a questão da radioatividade que influenciou Asimov, permeou o livro e origina o seu título (a terra radioativa desprezada pelo vasto império galático); a teoria (esquecida no período que o livro se passa) de um arqueólogo do Império de que toda a vida se originou na terra; e até questões como discriminação, eutanásia, superpopulação, e velhice. Tudo isso é abordado muito por alto, de modo que não chega a ser um grande problema, mas é um tremendo desperdício de potencial.

Por fim, o livro não é uma experiência ruim, a primeira parte possui um tom de mistério que faz bem em prender o leitor, a escrita é bastante boa e divertida, e nem o final irritante e insosso consegue estragar a experiência totalitária do livro. No geral, demais novelesco, mas um bom livro.

Estou escrevendo só agora depois de muito tempo de ter lido o conto, então sou obrigado a ser breve e não dar muitos detalhes; vou direto ao ponto, gostei bastante de ambos contos da coleção, tanto Um Artista da Fome quanto Josefina. O estilo do Kafka e a estranheza dos contos ficaram comigo durante todos esses anos que se decorreram, ainda que eu os tenha lido apenas uma única vez. Tenho que relê-los, e tenho que ler mais Kafka, com certeza. Lembro que na época os dois contos me pareceram falar sobre arte e artistas no geral; é mais óbvio no caso de Josefina, apesar de ser construído envolto daquele véu fantástico. Em todo o caso, dois ótimos contos.