rolandosmedeiros's profile picture

rolandosmedeiros 's review for:

The Necklace by Guy de Maupassant
3.0

Coincidentemente, logo após ler O Horla, cruzei de novo com esse conto aqui em uma outra coletânea e meio que mudei minha opinião. Não sobre o esqueleto da narrativa: ainda acho que é um tipo de narrativa que você deve ler se quer aprender como fazer, porque é possível visualizar, destrinchar, de alguma maneira, o processo criativo, o porquê funciona. Isso, é claro, depois de experimentar a história como deve ser experimentada: lendo-a como fosse uma criança sentada
perto de uma fogueira.

Estou com o George Saunders nessa, ele falou sobre isso recentemente no Substack dele (que deixo recomendado, as respostas dele aos leitores são quase que mini-ensaios sobre ler e escrever): a leitura por prazer e a leitura mais analítica (a obra bateu para mim versus o porquê a obra bateu para mim) não se anulam. A primeira é, com certeza, suficiente. Mais do suficiente. "É a que importa." ele diz. Ainda, é absolutamente necessária à segunda. Mas, nada disso implica que também não haja prazer na segunda, e que não acarrete consequências positivas para quem o faz.

Deve ser a terceira vez que leio esse conto que, é verdade, nem é dos que gosto tanto assim; mas é também a terceira vez que ele aparece na minha frente e eu não sinto vontade de pular mesmo já o tendo lido. Se a voz interior diz pulo eu pulo, se diz leia eu leio. E foi, eu acho, também a terceira vez que, mesmo encarando com diferentes olhos daqueles da primeira leitura, mesmo mais desligado e nem tão focado assim na experiência, ainda me vi imerso de alguma maneira na narrativa.

É uma narrativa cronológica, com conflitos internos (a mulher consigo mesma) e externos (a mulher com o marido, a mulher com o meio social, a mulher com a amiga…) bastante claros, sem muitas pirotecnias. A mulher é frívola, materialista e, ainda que pense nela da mesma maneira crítica que o fiz nas outras leituras, agora penso também que ela encarou "bem" a situação, a perda de algo (do Colar de Diamantes) que se deu justamente por conta da frivolidade dela. Por sua culpa tiveram, ela e o marido, passar anos em miséria, em dívidas, contando gastos, brigando com comerciantes por centavos, e outras dificuldades mil que não vemos.

Mas, acho que agora vejo um pouco da mão astuta do Maupassant, se esse enobrecimento pelo trabalho, pela dificuldade, é permanente ou não, não sabemos. Porque o conto acaba bem na revelação final. Só podemos imaginar o diálogo que viria a seguir. E se criticamos a Mathilde, é a Mathilde de dez anos atrás, antes da virada principal do conto.

Too long; didn't read: Para mim, agora, a desgraçada da história é a dita amiga rica, que, aí você pode especular, por viver naquele meio materialista ou por pura vaidade, egoísmo e maldade (spoiler de quase trezentos anos atrás e de um conto que você lê em menos de uma hora) ocultou que emprestou uma joia falsa para a amiga (e pior, ainda mais desgraçada!, lembrei agora, ainda cobrou que a Mathilde atrasou a entrega!). Ela faz a revelação bombástica, dez anos depois de tudo, meio que rindo, dando tapinhas e no "oh, sua bobinha…”.

É canônico na minha cabeça que depois do último ponto final o que aconteça seja ou um ou outro: ou, como a protagonista da "História de uma Hora", ao ouvir aquilo ela caia no chão e tenha um ataque do coração; ou, que ela tenha tremeliques como de um pinscher, e avance no pescoço da outra.

Torço pelo último.

O Colar
Conto ~10pp — ✲ 3.5/5.0
Do autor: The Horla