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rolandosmedeiros 's review for:
La música de Erich Zann
by H.P. Lovecraft
''Desde então, ouvi Zann todas as noites e, embora ele me mantivesse desperto, a esquisitice de sua música me fascinava. Conhecendo pouco dessa arte, ainda assim eu estava certo de que nenhuma de suas modulações tinha qualquer relação com a música que eu ouvira antes e concluía que ele era um compositor de gênio altamente original. Quanto mais eu ouvia, mais ficava enleado, até que depois de uma semana resolvi conhecer o homem pessoalmente.''
Tenso e desconcertante. O foco desse conto é um musicista mudo que sempre toca composições bizarras e desagradáveis, mas que estranhamente atraem o protagonista, morador da enigmática Rue d’Auseil. A atmosfera de loucura é como uma orquestra que vai crescendo gradualmente, e sufoca até a derradeira conclusão explosiva.
Até agora, junto do "The Shadow Out of Time", é um dos melhores que li do Lovecraft, usa magistralmente de um horror sugerido, e não do ''longo parágrafo para descrever algo que não pode ser descrito''.
Apesar de imensamente influente diversas mídias, Lovecraft vem se tornando cada vez menos desfrutável na visão de novos leitores, tanto pela escrita densa quanto pelo caráter questionável do indivíduo escritor. Como disse, virou até brincadeira dizer que tudo que ele fala é "indescritível"; no entanto, para quem o ler em outras frentes, a exemplo deste conto, vai perceber que há casos que ele vai contra todos esses preceitos: a escrita é leve e fluída, o cenário é enigmático no ponto certo, a trama e a ambientação são muito boas, a loucura é bem dosada e o terror e horror é muito mais sugestivo, totalmente relatável e compreensível.
É uma sinuca de bico que, eu entendo, muito dos preconceitos primitivos e bárbaros do Lovecraft influíram na escrita e moldaram o seu tão interessante mundo literário, então até compreendo que para alguns possa ser intragável lê-lo. Mas é impossível jogá-lo fora, um cara que inspirou até o Borges. E sou até suspeito para falar, pois até gosto da escrita mais densa e da construção e mundo maluca, até repetiva, dele. Mas é curioso pensar que num espaço de menos de dez anos ele passou de amado a odiado na internet, ao mesmo tempo que floresceu diversas obras, de video-games a seriados, que utilizam do seu trabalho como inspiração.
''Não utilizou o suporte para partituras, mas, sem pedir opinião e tocando de memória, me enlevou por mais de uma hora com acordes que eu nunca ouvira antes — acordes que deviam ser de sua própria invenção. Descrever sua exata natureza é impossível para alguém não versado em música. Constituíam uma espécie de fuga, com passagens recorrentes de um teor cativante, mas que para mim eram notáveis devido à ausência de quaisquer das notas que eu escutara embaixo, em meu quarto, noutras ocasiões.''