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rolandosmedeiros 's review for:
The Last Wish
by Andrzej Sapkowski
No Continente (assim é chamado o mundo de The Witcher), a magia é uma força sempre presente, mas não comum à maioria das pessoas. Ela tem ares de superstição e é vista com maus olhos. Monstros que precisam ser mortos, maldições que precisam ser quebradas, feitiços que precisam ser desfeitos, essa é a rotina de trabalho de um bruxo.
Capazes de feitos absurdos, eles são temidos e utilizados como empregados, ou meras ferramentas, conforme necessário. Cada bruxo tem seu próprio código, mas algo comum a maioria é que eles costumam não se meter na política dos reinos. O que não é o caso do Geralt, que apesar de sua neutralidade inicial, mostra na prática que tentar se isentar dos problemas não é lá uma boa saída. (Isso é muito bem adaptado pela CD Projekt em um CG do Witcher 3, "Killing Monsters.")
Geralt divide suas capacidades e conhecimentos com os humanos por um preço, paga esse preço sendo odiado, exilado socialmente e ilhado moralmente. É temido e evitado, já que a maior parte das pessoas sente aversão da mera presença dele, vendo-o como uma figura um ser deformado, uma figura mitológica perigosa, quase que amaldiçoada.
Ele é um excepcional estrategista, mas como todo humano, comete erros. Apesar do planejamento meticuloso, nem tudo sempre sai como o planejado - assim é a vida; e se ele alcança a vitória, guarda a alegria para si próprio. Ele é imperfeito, mas extremamente profissional no seu trabalho.
Outro ponto a ser destacado, o Andrzej Sapkowski conscientemente queria se diferenciar e ir além do Senhor dos Anéis (isso é comentado pelo nosso grande tradutor, que viveu aquela época, e como ele mesmo diz entrou pela porta e saiu pela janela de diversas editores até conseguir publicar a sua tradução), porque a Cortina Vermelha não deixava os livros do Tolkien chegarem lá traduzidos. Queria escrever "O" livro de fantasia da Polônia, acrescentando muitos temas caros e muito da mitologia daquela região. Uma dessas diferenças é a dicotomia dos monstros que ele enfrenta. Eles são complexos, com motivações válidas ou vítimas do mundo daquele mundo. Nivellen e a Estrige são dois exemplos perfeitos de como há camadas nos monstros a serem descobertas pelo leitor e pelo protagonista. E mesmo os menos desenvolvidos, mesmo os que apenas ilustram os bestiários, nos dizem muita coisa daquele mundo: são frutos de morte, poluição, assassinato, incesto...
O leitor é a todo tempo forçado a tomar a tomar partido, se igualando ao Geralt, já que ele é forçado a fazer isso constantemente, enquanto desafia a sociedade, a magia, os monstros, as leis e a morte. Andrzej consegue moldar e descrever magistralmente o protagonista e suas emoções. Lendo com atenção, é possível enxergar como Geralt sente cada baque da vida diante de ele ser o que ele é — um ''mutante'' —, e como ele evolui ao longo da série.
Outro ponto a se elogiar são os diálogos, para mim o Andrezj é exímio nisso, e isso fica claro para quem leu o conto do Nivellen. Seco, direto, chulo, reflexivo, ofensivo; tudo isso auxilia em deixar o mundo muito mais interessante e natural.
A abordagem da religião também é interessante, mas, ao mesmo tempo, curiosa, já que a própria existência dos monstros seria uma heresia. Outra ironia é que o Geralt mantém uma dose de incredulidade, mesmo que veja a magia intimamente, seja na forma dos monstros que enfrenta, ou dos sinais que utiliza. Ele debocha, ignora e até mesmo discute alguns temas religiosos.
Não preciso nem dizer que é meu livro de fantasia favorito. Principalmente os dois primeiros livros de contos. Dando uma pincelada em todos, o nível da qualidade, da variações de temas, e do domínio com que cada seguimento é trabalhado, é incrível. Ação, terror, horror, thriller, pitadas de gore, contos de fada renovados, misturas de mitologia, comédia onde as conversas ácidas e até mesmo as cenas de ação são feitas para você dar risada: tem de tudo aqui.
Outros pontos positivos vão também para a descrição da exploração política, a moeda e seus valores entre os povos, mudanças nos paradigmas sociais nas formas que se enxergam os monstros, racismo e xenofobia, toques machistas que refletem o pensamento daquele mundo e daquele tempo, enquanto, por outro lado, também há a busca das mulheres por serem protagonistas de si mesmas, monstros como cortina de fumaça para a maldade do homem... Andrzej não negligencia nenhum tema, desde ecologia até nazismoe massacres, é um fantasia que funciona muito bem desse jeito, como fantasia, mas que não suga o leitor a ponto dele não ver muito dos problemas do nosso mundo refletido ali.
[A Voz da Razão I]
Essa introdução, nomeada pelo Andrzej de ''A Voz da Razão'' foi uma forma literária que ele encontrou de amarrar todos os contos, inicialmente foram escritos separadamente, dando uma coerência e colocando-os dentro de uma narrativa maior. A última voz da razão é um prenúncio não só do livro seguinte, como de toda a série. A voz da razão são as memórias de Geralt durante a sua estadia no templo de Melitele e é, na realidade, o tempo presente, enquanto os outros contos estão dispostos de maneira não cronológica.
Esta primeira parte serve para expor uma das principais características do personagem, que foi mais elevada nos jogos: O bruxo deixando-se aproveitar dos prazeres da carne. Descansando no templo da deusa Melitele, em uma manhã de sol, ele é surpreendido pela jovem Iola, e ambos tem uma relação sexual. Uma parte interessante dessa relação, é que o Geralt está sob o efeito de várias ervas medicinais, e ainda meio grogue. O destaque ao cheiro de camomila que ele sente durante o ato não é atoa, Geralt está sonhando, mas não com Iola, e sim com o Yennefer, por isso o destaque no cheiro, que deveria ser de Lilás e Groselha. Um foreshadowing bastante interessante.
E fica um aviso aqui, a obra do Sapkowski é repleta de misoginia, mas, a abordagem dele é crítica, ele usa e expõe desta cultura para criticar, como veremos em alguns contos desse livro, e como é visto aqui, Geralt se envolve com várias mulheres, projetando nelas a figura de uma outra mulher. Iola aqui, quis estar com Geralt, e talvez fosse até fosse uma parte do tratamento do Templo. Mas, o fato de uma pessoa querer não retira a responsabilidade de alguém no ato e nas consequências do mesmo.
Tanto é que Geralt percebe a situação, o que aconteceu e sente culpa. Ele olha para Iola e se ressente porque ela não era a Yennefer. Percebe o quanto isso era injusto, aquilo pode deixar marcas na garota. E é disso que se trata. Quando se sabe que algo pode ser danoso para uma pessoa, mesmo que ela queira, é digno conversar e tentar fazê-la perceber algo que, provavelmente, ela não está conseguindo perceber sozinha.
As sacerdotisas de Melitele não são impedidas no que diz respeito à sexualidade, ela é a deusa da fertilidade, do parto. Qualquer uma delas é livre para servir a deusa ou deixar de servir. A qualquer momento. Qualquer uma é livre para decidir com quem se deita. Iola fez uso deste direito, que cabe a ela. Mas, isso não quer dizer que não haverá nocividades nas escolhas delas, porque elas são, em sua maioria jovens. A responsabilidade cai sob Geralt.
O Bruxo: Começando de fato, o primeiro conto nos leva a um reinado chamado Vizíma, que tem bastante influência política na região e um grande problema para resolver: a algum tempo, uma maldição fez com que a princesa recém-nascida se transformasse em uma estriga. Aqui o trabalho do bruxo consiste em tentar desfazer a maldição, mas sem matar a princesa. É possível sentir o clima soturno que envolve o castelo abandonado onde está o sarcófago da estriga.
Esse conto apresenta o personagem e seus métodos. A estriga — uma besta enorme que mede quatro côvados, lembra uma barrica de cerveja, tem uma bocarra que vai de orelha a orelha e é cheia de dentes afiados como estiletes, olhos vermelhos e cabelos ruivos. — é extremamente perigosa. Muitos outros, até mesmo bruxos, haviam tentado e falhado.
Ele também não aceita a missão só porque tem bom coração, fazendo questão do pagamento ser prontamente acertado com antecedência. Sua cautela e investigação também é mostrada de modo eficiente: o leitor observará o protagonista estudando o ambiente e o caso que tem a frente. Preparando poções que modificam suas feições e traços fisiológicos para completar aquela tarefa específica. Como a luta era a noite, em um castelo abandonado, uma poção que dilata sua pupila ainda mais (ele já possui olhos de gato normalmente) e o faz enxergar perfeitamente no escuro é extremamente útil. Uma característica de seu combate também é mostrado, ele costuma girar em torno de seus inimigos, estudando seus padrões, para enfim definir a luta em alguns poucos movimentos rápidos e impetuosos (na teoria, já que no caso da estrige, Geralt comete alguns erros e é duramente castigado por isso.)
Para mim uma das coisas mais interessantes nesse conto é a questão da Estriga, que apesar de ter devorado muitas pessoas, não seria um adversário tão complicado para o Geralt derrotar com a espada, porém, ela é a filha do Foltest, ele não pode simplesmente mata-la. Há o próprio sentimento do Geralt em jogo ao descobrir mais sobre a história da maldição da Estriga, com todo seu conhecimento de maldições e feitiços, ele sabe que tem uma jovem inocente ali no fundo. E tendo lido todos os livros, creio que mesmo que ela não fosse filha do Foltest, fosse a filha de um camponês qualquer, o Geralt não a mataria e tentaria desenfeitiçá-la igualmente.
Neste conto vemos também todo tipo de interesse em relação à Estriga, ela devorou de dezenas a centenas de pessoas durante os anos que se passaram, mas o Foltest ainda a quer viva, é a sua filha com o amor da sua vida, sua própria irmã. Ostrit não quer que nada mude ou seja resolvido, já que com as mortes continuando a acontecer pelas mãos da estrige, seria mais fácil depor o Rei. Velerad e Segelin ''apoiam'' o Rei, mas sabem que se o Geralt fosse embora as mortes continuariam acontecendo, e decidem tentar subornar o Geralt, assim como outros que vieram antes dele, a forçar um ''acidente de trabalho''
Expor os lados sombrios da humanidade é um tema comum ao longo da série e introduzi-lo logo no primeiro conto, já define o tom do resto das histórias. Não é uma história só sobre a caça de monstros, quotando o próximo livro: é algo mais.
O que esse conto também faz é introduzir a natureza estoica de Geralt de Rivia. Como é curta, não há nada sobre quem ele era, apenas o esboço básico do que é ser um Witcher e porque eles são frequentemente odiados pela sociedade em geral. Sua excelência está na simplicidade, que apresenta aos leitores o mundo, o sistema e o personagem principal ao mesmo tempo que conta uma história simples e sólida, mas incrivelmente humana. Com certeza uma das melhores introduções de personagem que já li.
A Voz da Razão II: Aqui fica claro que Geralt estava em transe quando teve a relação com a Iola, e sente-se culpado e envergonhado. E por meio do arrependimento, fica implícito que apesar de ele estar grogue e pensar na Yeneffer, no fundo ele sabia sim que se tratava de outra pessoa, o que não o isenta da culpa.
Essa é uma característica ruim do personagem, da pessoa Geralt de Rívia que merece ser destacada. Ele no fim é um ser humano falho como todos os outros, não é perfeito. E a relação que ele possui com as mulheres merece ser criticada, a forma como ele as usa, e as objetifica, para lidar com as frustrações que tem com a Yennefer. Esse interlúdio expõe isso.
Um Grão de Veracidade: Desbravando uma trilha na floresta com Roach, Carpeado, ou Plotka, chame como quiser o cavalo do Bruxo, ele descobre dois cadáveres, um mercador e uma jovem. Ele é atraído por um detalhe incomum, uma rosa azul presa na roupa da moça. Um jardim com as mesmas flores cresce em um castelo abandonado próximo dali. O resto já é sabido por vocês, que leram o conto.
Aqui o conto mostra uma grande qualidade do autor de elevar os contos de fada ao limite, e transforma-los em algo novo e refrescante. O monstro não é um monstro, e até mesmo o clichê do amor verdadeiro é refeito e revisitado de modo belo e trágico. Nivellen tentou se apaixonar por várias mulheres, mas muitas delas eram atraídas pelo poder mágico que acompanha sua maldição, e não por ele próprio. Andrzej emprega uma ótima reviravolta nesse conto, pois o amor verdadeiro que quebra a maldição no final da história provém de um monstro.
Vereena controlava Nivellen, os pesadelos dele, não eram pesadelos, eram lembranças, ela o controlava para matar as pessoas que passavam por lá. E por pura crueldade, já que quando Geralt encontra os corpos, eles estavam super ensanguentados e dilacerados, então parece que Vereena realmente não queria se alimentar deles, mas apenas matá-los por prazer.
No fim, Nivellen percebe isso, por isso a mata, mesmo sabendo que ela o amava (um senso distorcido de amor, talvez, já que ambos são monstros) e mesmo após Nivellen apunhalá-la no peito, ela continua amando-o, se não fosse o caso, a maldição não seria quebrada. ''Meu. Ou de ninguém. Amo-te. Amo.'' Tanto que depois dessas palavras, ela tenta levá-lo junto com ele.
Eu adoro o Nivellen, ele é um ótimo personagem, divertido e interessante. Adoro a disparidade entre sua qualidade monstruosa e seu temperamento bastante dócil. Mas há uma discussão que deve ser feita, ele estuprou uma sacerdotisa inocente, depois disso ele realmente merecia ser curado da maldição? Bem, eu tenho minha própria opinião, que não.
Ele não merecia ser curado da maldição. Todas as pessoas que se arrependem merecem uma segunda chance, mas quando o Nivellen conta a história para o Geralt, não parece que ele sente vergonha ou arrependimento do que fez. Não chegamos a ver nenhum remorso da parte do monstro em relação ao que ele fez com a sacerdotisa que estuprou; o pesar que ele sente é apenas em relação a ele mesmo (Nivellen está longe de ser altruísta). O resultado das ações (a maldição que a sacerdotisa colocou nele) parece ser para ele um inconveniente maior do que a ação que ele fez em sí, entendem?
Ele preocupou-se mais com a maldição do que com o fato de ele ter estuprado uma sacerdotisa inocente (mesmo que tenha sido sob pressão). A história, na minha opinião, tinha que terminar com a morte de ambos, tanto Veereena quanto Nivellen. O Geralt ao ouvir o relato, demonstra apatia porque isso normalmente é típico e esperado dele. Estuprar é algo que o bruxo não faria e despreza, e se a cena estivesse acontecendo em sua frente certamente iria tentar impedir. Mas, ao mesmo tempo, ele não age como um cavaleiro justiceiro que pune os malfeitores, na maior parte do tempo ele procura não se envolver. No início da obra, Geralt era excessivamente neutro em relação a tudo, e isso só muda mais adiante na obra, quando algumas questões relacionadas a Ciri colocaram ele na parede e ele precisou tomar decisões.
É um mundo sombrio, a maioria dos contos e acontecimentos deixam o leitor com um gosto amargo na boca.
A Voz da Razão III: Logo nesse inicio, já temos algo bastante interessante. Falwick e Tailles, cavaleiros a serviço do Regente de Ellander, servindo como alegoria a intolerância religiosa e ao racismo. Percebe-se isso pelo jeito como entram no templo, e em também como eles olham para Geralt e para Nenneke. Esse dois também pertencem á uma ordem corrupta, onde os cargos são comprados, e não recebidos por mérito.
O que é interessante aqui, é em como pessoas se apoiam em seus representantes, e utilizam isso como uma base para violentar e perseguir pessoas ou crenças diferentes. Se dependessem desses dois, eles ateariam fogo no templo e passariam na espada todas as pessoas ali dentro. Outro paralelo com a vida real.
Capazes de feitos absurdos, eles são temidos e utilizados como empregados, ou meras ferramentas, conforme necessário. Cada bruxo tem seu próprio código, mas algo comum a maioria é que eles costumam não se meter na política dos reinos. O que não é o caso do Geralt, que apesar de sua neutralidade inicial, mostra na prática que tentar se isentar dos problemas não é lá uma boa saída. (Isso é muito bem adaptado pela CD Projekt em um CG do Witcher 3, "Killing Monsters.")
Geralt divide suas capacidades e conhecimentos com os humanos por um preço, paga esse preço sendo odiado, exilado socialmente e ilhado moralmente. É temido e evitado, já que a maior parte das pessoas sente aversão da mera presença dele, vendo-o como uma figura um ser deformado, uma figura mitológica perigosa, quase que amaldiçoada.
Ele é um excepcional estrategista, mas como todo humano, comete erros. Apesar do planejamento meticuloso, nem tudo sempre sai como o planejado - assim é a vida; e se ele alcança a vitória, guarda a alegria para si próprio. Ele é imperfeito, mas extremamente profissional no seu trabalho.
Outro ponto a ser destacado, o Andrzej Sapkowski conscientemente queria se diferenciar e ir além do Senhor dos Anéis (isso é comentado pelo nosso grande tradutor, que viveu aquela época, e como ele mesmo diz entrou pela porta e saiu pela janela de diversas editores até conseguir publicar a sua tradução), porque a Cortina Vermelha não deixava os livros do Tolkien chegarem lá traduzidos. Queria escrever "O" livro de fantasia da Polônia, acrescentando muitos temas caros e muito da mitologia daquela região. Uma dessas diferenças é a dicotomia dos monstros que ele enfrenta. Eles são complexos, com motivações válidas ou vítimas do mundo daquele mundo. Nivellen e a Estrige são dois exemplos perfeitos de como há camadas nos monstros a serem descobertas pelo leitor e pelo protagonista. E mesmo os menos desenvolvidos, mesmo os que apenas ilustram os bestiários, nos dizem muita coisa daquele mundo: são frutos de morte, poluição, assassinato, incesto...
O leitor é a todo tempo forçado a tomar a tomar partido, se igualando ao Geralt, já que ele é forçado a fazer isso constantemente, enquanto desafia a sociedade, a magia, os monstros, as leis e a morte. Andrzej consegue moldar e descrever magistralmente o protagonista e suas emoções. Lendo com atenção, é possível enxergar como Geralt sente cada baque da vida diante de ele ser o que ele é — um ''mutante'' —, e como ele evolui ao longo da série.
Outro ponto a se elogiar são os diálogos, para mim o Andrezj é exímio nisso, e isso fica claro para quem leu o conto do Nivellen. Seco, direto, chulo, reflexivo, ofensivo; tudo isso auxilia em deixar o mundo muito mais interessante e natural.
A abordagem da religião também é interessante, mas, ao mesmo tempo, curiosa, já que a própria existência dos monstros seria uma heresia. Outra ironia é que o Geralt mantém uma dose de incredulidade, mesmo que veja a magia intimamente, seja na forma dos monstros que enfrenta, ou dos sinais que utiliza. Ele debocha, ignora e até mesmo discute alguns temas religiosos.
Não preciso nem dizer que é meu livro de fantasia favorito. Principalmente os dois primeiros livros de contos. Dando uma pincelada em todos, o nível da qualidade, da variações de temas, e do domínio com que cada seguimento é trabalhado, é incrível. Ação, terror, horror, thriller, pitadas de gore, contos de fada renovados, misturas de mitologia, comédia onde as conversas ácidas e até mesmo as cenas de ação são feitas para você dar risada: tem de tudo aqui.
Outros pontos positivos vão também para a descrição da exploração política, a moeda e seus valores entre os povos, mudanças nos paradigmas sociais nas formas que se enxergam os monstros, racismo e xenofobia, toques machistas que refletem o pensamento daquele mundo e daquele tempo, enquanto, por outro lado, também há a busca das mulheres por serem protagonistas de si mesmas, monstros como cortina de fumaça para a maldade do homem... Andrzej não negligencia nenhum tema, desde ecologia até nazismoe massacres, é um fantasia que funciona muito bem desse jeito, como fantasia, mas que não suga o leitor a ponto dele não ver muito dos problemas do nosso mundo refletido ali.
[A Voz da Razão I]
Essa introdução, nomeada pelo Andrzej de ''A Voz da Razão'' foi uma forma literária que ele encontrou de amarrar todos os contos, inicialmente foram escritos separadamente, dando uma coerência e colocando-os dentro de uma narrativa maior. A última voz da razão é um prenúncio não só do livro seguinte, como de toda a série. A voz da razão são as memórias de Geralt durante a sua estadia no templo de Melitele e é, na realidade, o tempo presente, enquanto os outros contos estão dispostos de maneira não cronológica.
Esta primeira parte serve para expor uma das principais características do personagem, que foi mais elevada nos jogos: O bruxo deixando-se aproveitar dos prazeres da carne. Descansando no templo da deusa Melitele, em uma manhã de sol, ele é surpreendido pela jovem Iola, e ambos tem uma relação sexual. Uma parte interessante dessa relação, é que o Geralt está sob o efeito de várias ervas medicinais, e ainda meio grogue. O destaque ao cheiro de camomila que ele sente durante o ato não é atoa, Geralt está sonhando, mas não com Iola, e sim com o Yennefer, por isso o destaque no cheiro, que deveria ser de Lilás e Groselha. Um foreshadowing bastante interessante.
E fica um aviso aqui, a obra do Sapkowski é repleta de misoginia, mas, a abordagem dele é crítica, ele usa e expõe desta cultura para criticar, como veremos em alguns contos desse livro, e como é visto aqui, Geralt se envolve com várias mulheres, projetando nelas a figura de uma outra mulher. Iola aqui, quis estar com Geralt, e talvez fosse até fosse uma parte do tratamento do Templo. Mas, o fato de uma pessoa querer não retira a responsabilidade de alguém no ato e nas consequências do mesmo.
Tanto é que Geralt percebe a situação, o que aconteceu e sente culpa. Ele olha para Iola e se ressente porque ela não era a Yennefer. Percebe o quanto isso era injusto, aquilo pode deixar marcas na garota. E é disso que se trata. Quando se sabe que algo pode ser danoso para uma pessoa, mesmo que ela queira, é digno conversar e tentar fazê-la perceber algo que, provavelmente, ela não está conseguindo perceber sozinha.
As sacerdotisas de Melitele não são impedidas no que diz respeito à sexualidade, ela é a deusa da fertilidade, do parto. Qualquer uma delas é livre para servir a deusa ou deixar de servir. A qualquer momento. Qualquer uma é livre para decidir com quem se deita. Iola fez uso deste direito, que cabe a ela. Mas, isso não quer dizer que não haverá nocividades nas escolhas delas, porque elas são, em sua maioria jovens. A responsabilidade cai sob Geralt.
O Bruxo: Começando de fato, o primeiro conto nos leva a um reinado chamado Vizíma, que tem bastante influência política na região e um grande problema para resolver: a algum tempo, uma maldição fez com que a princesa recém-nascida se transformasse em uma estriga. Aqui o trabalho do bruxo consiste em tentar desfazer a maldição, mas sem matar a princesa. É possível sentir o clima soturno que envolve o castelo abandonado onde está o sarcófago da estriga.
Esse conto apresenta o personagem e seus métodos. A estriga — uma besta enorme que mede quatro côvados, lembra uma barrica de cerveja, tem uma bocarra que vai de orelha a orelha e é cheia de dentes afiados como estiletes, olhos vermelhos e cabelos ruivos. — é extremamente perigosa. Muitos outros, até mesmo bruxos, haviam tentado e falhado.
Ele também não aceita a missão só porque tem bom coração, fazendo questão do pagamento ser prontamente acertado com antecedência. Sua cautela e investigação também é mostrada de modo eficiente: o leitor observará o protagonista estudando o ambiente e o caso que tem a frente. Preparando poções que modificam suas feições e traços fisiológicos para completar aquela tarefa específica. Como a luta era a noite, em um castelo abandonado, uma poção que dilata sua pupila ainda mais (ele já possui olhos de gato normalmente) e o faz enxergar perfeitamente no escuro é extremamente útil. Uma característica de seu combate também é mostrado, ele costuma girar em torno de seus inimigos, estudando seus padrões, para enfim definir a luta em alguns poucos movimentos rápidos e impetuosos (na teoria, já que no caso da estrige, Geralt comete alguns erros e é duramente castigado por isso.)
Para mim uma das coisas mais interessantes nesse conto é a questão da Estriga, que apesar de ter devorado muitas pessoas, não seria um adversário tão complicado para o Geralt derrotar com a espada, porém, ela é a filha do Foltest, ele não pode simplesmente mata-la. Há o próprio sentimento do Geralt em jogo ao descobrir mais sobre a história da maldição da Estriga, com todo seu conhecimento de maldições e feitiços, ele sabe que tem uma jovem inocente ali no fundo. E tendo lido todos os livros, creio que mesmo que ela não fosse filha do Foltest, fosse a filha de um camponês qualquer, o Geralt não a mataria e tentaria desenfeitiçá-la igualmente.
Neste conto vemos também todo tipo de interesse em relação à Estriga, ela devorou de dezenas a centenas de pessoas durante os anos que se passaram, mas o Foltest ainda a quer viva, é a sua filha com o amor da sua vida, sua própria irmã. Ostrit não quer que nada mude ou seja resolvido, já que com as mortes continuando a acontecer pelas mãos da estrige, seria mais fácil depor o Rei. Velerad e Segelin ''apoiam'' o Rei, mas sabem que se o Geralt fosse embora as mortes continuariam acontecendo, e decidem tentar subornar o Geralt, assim como outros que vieram antes dele, a forçar um ''acidente de trabalho''
Expor os lados sombrios da humanidade é um tema comum ao longo da série e introduzi-lo logo no primeiro conto, já define o tom do resto das histórias. Não é uma história só sobre a caça de monstros, quotando o próximo livro: é algo mais.
O que esse conto também faz é introduzir a natureza estoica de Geralt de Rivia. Como é curta, não há nada sobre quem ele era, apenas o esboço básico do que é ser um Witcher e porque eles são frequentemente odiados pela sociedade em geral. Sua excelência está na simplicidade, que apresenta aos leitores o mundo, o sistema e o personagem principal ao mesmo tempo que conta uma história simples e sólida, mas incrivelmente humana. Com certeza uma das melhores introduções de personagem que já li.
A Voz da Razão II: Aqui fica claro que Geralt estava em transe quando teve a relação com a Iola, e sente-se culpado e envergonhado. E por meio do arrependimento, fica implícito que apesar de ele estar grogue e pensar na Yeneffer, no fundo ele sabia sim que se tratava de outra pessoa, o que não o isenta da culpa.
Essa é uma característica ruim do personagem, da pessoa Geralt de Rívia que merece ser destacada. Ele no fim é um ser humano falho como todos os outros, não é perfeito. E a relação que ele possui com as mulheres merece ser criticada, a forma como ele as usa, e as objetifica, para lidar com as frustrações que tem com a Yennefer. Esse interlúdio expõe isso.
Um Grão de Veracidade: Desbravando uma trilha na floresta com Roach, Carpeado, ou Plotka, chame como quiser o cavalo do Bruxo, ele descobre dois cadáveres, um mercador e uma jovem. Ele é atraído por um detalhe incomum, uma rosa azul presa na roupa da moça. Um jardim com as mesmas flores cresce em um castelo abandonado próximo dali. O resto já é sabido por vocês, que leram o conto.
Aqui o conto mostra uma grande qualidade do autor de elevar os contos de fada ao limite, e transforma-los em algo novo e refrescante. O monstro não é um monstro, e até mesmo o clichê do amor verdadeiro é refeito e revisitado de modo belo e trágico. Nivellen tentou se apaixonar por várias mulheres, mas muitas delas eram atraídas pelo poder mágico que acompanha sua maldição, e não por ele próprio. Andrzej emprega uma ótima reviravolta nesse conto, pois o amor verdadeiro que quebra a maldição no final da história provém de um monstro.
Vereena controlava Nivellen, os pesadelos dele, não eram pesadelos, eram lembranças, ela o controlava para matar as pessoas que passavam por lá. E por pura crueldade, já que quando Geralt encontra os corpos, eles estavam super ensanguentados e dilacerados, então parece que Vereena realmente não queria se alimentar deles, mas apenas matá-los por prazer.
No fim, Nivellen percebe isso, por isso a mata, mesmo sabendo que ela o amava (um senso distorcido de amor, talvez, já que ambos são monstros) e mesmo após Nivellen apunhalá-la no peito, ela continua amando-o, se não fosse o caso, a maldição não seria quebrada. ''Meu. Ou de ninguém. Amo-te. Amo.'' Tanto que depois dessas palavras, ela tenta levá-lo junto com ele.
Eu adoro o Nivellen, ele é um ótimo personagem, divertido e interessante. Adoro a disparidade entre sua qualidade monstruosa e seu temperamento bastante dócil. Mas há uma discussão que deve ser feita, ele estuprou uma sacerdotisa inocente, depois disso ele realmente merecia ser curado da maldição? Bem, eu tenho minha própria opinião, que não.
Ele não merecia ser curado da maldição. Todas as pessoas que se arrependem merecem uma segunda chance, mas quando o Nivellen conta a história para o Geralt, não parece que ele sente vergonha ou arrependimento do que fez. Não chegamos a ver nenhum remorso da parte do monstro em relação ao que ele fez com a sacerdotisa que estuprou; o pesar que ele sente é apenas em relação a ele mesmo (Nivellen está longe de ser altruísta). O resultado das ações (a maldição que a sacerdotisa colocou nele) parece ser para ele um inconveniente maior do que a ação que ele fez em sí, entendem?
Ele preocupou-se mais com a maldição do que com o fato de ele ter estuprado uma sacerdotisa inocente (mesmo que tenha sido sob pressão). A história, na minha opinião, tinha que terminar com a morte de ambos, tanto Veereena quanto Nivellen. O Geralt ao ouvir o relato, demonstra apatia porque isso normalmente é típico e esperado dele. Estuprar é algo que o bruxo não faria e despreza, e se a cena estivesse acontecendo em sua frente certamente iria tentar impedir. Mas, ao mesmo tempo, ele não age como um cavaleiro justiceiro que pune os malfeitores, na maior parte do tempo ele procura não se envolver. No início da obra, Geralt era excessivamente neutro em relação a tudo, e isso só muda mais adiante na obra, quando algumas questões relacionadas a Ciri colocaram ele na parede e ele precisou tomar decisões.
É um mundo sombrio, a maioria dos contos e acontecimentos deixam o leitor com um gosto amargo na boca.
A Voz da Razão III: Logo nesse inicio, já temos algo bastante interessante. Falwick e Tailles, cavaleiros a serviço do Regente de Ellander, servindo como alegoria a intolerância religiosa e ao racismo. Percebe-se isso pelo jeito como entram no templo, e em também como eles olham para Geralt e para Nenneke. Esse dois também pertencem á uma ordem corrupta, onde os cargos são comprados, e não recebidos por mérito.
O que é interessante aqui, é em como pessoas se apoiam em seus representantes, e utilizam isso como uma base para violentar e perseguir pessoas ou crenças diferentes. Se dependessem desses dois, eles ateariam fogo no templo e passariam na espada todas as pessoas ali dentro. Outro paralelo com a vida real.