Take a photo of a barcode or cover
173 reviews by:
rolandosmedeiros
Ler D.H. Lawrence pela primeira vez foi uma grata surpresa. E adiantando, só não dou as tão estimadas cinco estrelas, pois para mim, ficou claro que isto aqui são em sua maioria exercícios do autor, de linguagem, narração e temática; Lawrence escreve com uma facilidade invejável, e toda a extensão dessa coleção é uma aula de diálogos conflituosos mas sutis, onde sempre há algo subtendido, uma entrelinha, uma tensão palpável, que imprimem ação e ritmo à narrativa, vão desvelando as personagens e sustentam todos os fiapos de história.
E não digo “fiapos de história” de modo pejorativo, pelo contrário, é que com exceção de “Apenas uma Mulher”, a novela que toma quase metade do livro, as outras histórias são bem diferentes do conceito que temos de conto hoje em dia, nas bases de Tchekov, com o Borges ou Córtazar. Não há uma grande ação curta e sequencial, ou narrativas ágeis e centradas que acabam em nocaute; o que há, é uma prosa quase poética, uma linguagem que busca sempre o não-dito, com conclusões surpreendentemente humanas.
Há também, muito bem definido, um plano onde se passam as histórias, em que se incidem certas semelhanças ao longo de todas narrativas: o interior da Inglaterra, com sua natureza abundante e cenário muito bem descrito e amarrado à psicologia das personagem; personagens estas que são em sua maioria intelectuais simples, mineiros laboriosos ou magistrados brutos.
Uma definição ligeiramente confusa, mas que aqueles que leram de pronto pegarão, é que: são histórias com temas similares, que entretanto concluem sempre de forma diferente, e a partir de um mesmo fio unificador: a ação através do diálogo, e a relação entre o homem e a mulher:
— Em Apenas uma Mulher, é a relação de amizade e independência de duas amigas (ou será amantes?) postas em cheque pela chegada de um homem manipulador.
— Em A Sombra do Roseiral, uma mulher de casamento infeliz, que evita o oaristo como a peste, visita um jardim nostálgico na cidade de sua infância; um encontro inesperado marca a história e exige a quebra do silêncio entre marido e mulher.
— A Vez da Sra. Redford trata da pressão que caí sob o homem (nesse caso pela própria esposa) quando este temporariamente deixa de ser o provedor.
— Em A Subvenção do Sindicado, a relação entre um mineiro, a sogra, e a jovem esposa, em um casamento ainda nos primeiros passos.
— Em Segundo Lugar, duas irmãs caem no ciclo de segundas opções, sempre o segundo melhor pretendente.
— As Sombras da Primavera, para mim a melhor história da coleção, um triângulo amoroso sem nada de blasé ou clichês, o ápice do diálogo Lawrenciano, onde a tensão e o conflito da relação faz tremer o cenário bucólico em que ele se passa.
— O Velho Adão, por fim, outra muito boa, trata da amizade, tensão e animosidade de um inquilino com o casal da casa que habita. Tem a melhor cena de ação (aqui, ação no sentido físico e não literário) e talvez, também a mais marcante de toda a coleção.
É um ótimo livro, e considerá-lo APENAS um aperitivo para os seus estimados romances, é diminuí-lo, coisa que não o farei; mas… se tem curiosidade sobre a escrita do Lawrence, e não quer investir (por enquanto) em suas narrativas longas, que geralmente me soam como demasiado focadas e desmedidas; em comparação, esta aqui é a porta de entrada perfeita.
Pessoalmente, vou tentar desenvolver algumas palavras sobre cada história enquanto estão frescas na minha cabeça, assim como fiz com novela que encabeça o livro, portanto, vou atualizando aqui, aos poucos (assim espero):
Apenas uma Mulher (The Fox): https://www.goodreads.com/review/show/4823652413?book_show_action=false
E não digo “fiapos de história” de modo pejorativo, pelo contrário, é que com exceção de “Apenas uma Mulher”, a novela que toma quase metade do livro, as outras histórias são bem diferentes do conceito que temos de conto hoje em dia, nas bases de Tchekov, com o Borges ou Córtazar. Não há uma grande ação curta e sequencial, ou narrativas ágeis e centradas que acabam em nocaute; o que há, é uma prosa quase poética, uma linguagem que busca sempre o não-dito, com conclusões surpreendentemente humanas.
Há também, muito bem definido, um plano onde se passam as histórias, em que se incidem certas semelhanças ao longo de todas narrativas: o interior da Inglaterra, com sua natureza abundante e cenário muito bem descrito e amarrado à psicologia das personagem; personagens estas que são em sua maioria intelectuais simples, mineiros laboriosos ou magistrados brutos.
Uma definição ligeiramente confusa, mas que aqueles que leram de pronto pegarão, é que: são histórias com temas similares, que entretanto concluem sempre de forma diferente, e a partir de um mesmo fio unificador: a ação através do diálogo, e a relação entre o homem e a mulher:
— Em Apenas uma Mulher, é a relação de amizade e independência de duas amigas (ou será amantes?) postas em cheque pela chegada de um homem manipulador.
— Em A Sombra do Roseiral, uma mulher de casamento infeliz, que evita o oaristo como a peste, visita um jardim nostálgico na cidade de sua infância; um encontro inesperado marca a história e exige a quebra do silêncio entre marido e mulher.
— A Vez da Sra. Redford trata da pressão que caí sob o homem (nesse caso pela própria esposa) quando este temporariamente deixa de ser o provedor.
— Em A Subvenção do Sindicado, a relação entre um mineiro, a sogra, e a jovem esposa, em um casamento ainda nos primeiros passos.
— Em Segundo Lugar, duas irmãs caem no ciclo de segundas opções, sempre o segundo melhor pretendente.
— As Sombras da Primavera, para mim a melhor história da coleção, um triângulo amoroso sem nada de blasé ou clichês, o ápice do diálogo Lawrenciano, onde a tensão e o conflito da relação faz tremer o cenário bucólico em que ele se passa.
— O Velho Adão, por fim, outra muito boa, trata da amizade, tensão e animosidade de um inquilino com o casal da casa que habita. Tem a melhor cena de ação (aqui, ação no sentido físico e não literário) e talvez, também a mais marcante de toda a coleção.
É um ótimo livro, e considerá-lo APENAS um aperitivo para os seus estimados romances, é diminuí-lo, coisa que não o farei; mas… se tem curiosidade sobre a escrita do Lawrence, e não quer investir (por enquanto) em suas narrativas longas, que geralmente me soam como demasiado focadas e desmedidas; em comparação, esta aqui é a porta de entrada perfeita.
Pessoalmente, vou tentar desenvolver algumas palavras sobre cada história enquanto estão frescas na minha cabeça, assim como fiz com novela que encabeça o livro, portanto, vou atualizando aqui, aos poucos (assim espero):
Apenas uma Mulher (The Fox): https://www.goodreads.com/review/show/4823652413?book_show_action=false
Black Song — 3.0✲
A Canção Negra de uma Jovem Polonesa /
The Black Song of a Young Polish Poet
96pp
Conhecendo todo o contexto do livro, Canción Negra é agradável. Ao que se propõe — mostrar um outro lado da poeta polaca — é exímio; a edição é lindíssima, com lindas ilustrações, é um must para qualquer admirador da Wislawa. Em contrapartida, veementemente desaconselho-o a alguém que está começando na obra da polaca: é um livro que necessita de contexto, fruto de sua época conturbada, e até renegado pela autora. "Este livro deve ser lido de uma forma impossível, como se fosse uma coleção de poemas de estreia. Mas se assim fosse, é provável que ninguém continuasse a ler a Szymborska"; não podia ser mais perfeita a colocação da tradução castelhana (a edição da Nórdica Libros é um primor.)
A introdução, dessa mesma edição, ainda acrescenta, vulgarmente: é verdadeiramente um abismo que separa a obra da polaca, há aqui e ali lapsos da poeta vencedora do Nobel, mas são raros, e entrecortados por diversos poemas de guerra e de vanguarda pouco inspirados. A maioria desses poemas são datados de imediatamente após a Segunda Guerra Mundial e o peso desse pesadelo está, inevitavelmente, sempre presente; não que seja este um tema ruim — ou que exista algo como um tema ruim — a gente encontra, veremos abaixo, um bom poema sobre a situação dos judeus, mas por menos afinidade ou por inexperiência, não parece ser uma área em que ela consiga se sobressair (isso com base nos primeiros e “verdadeiros” livros dela que li).
Indiretamente, este livro também conta uma lição de humildade; que uma das maiores poetas do leste-europeu não nasceu pronta de uma forma; seus versos foram destilados, escritos, reescritos, amassados e jogados no lixo, um após o outro, até encontrar a sua voz. Temos aqui dezenas de poemas que são essas tentativas, exemplos da eterna curiosidade e busca com que ela fala sobre em "Poeta e o Mundo", ou nos inspirados e ácidos conselhos literários reunidos no "How to Start Writing (and When to Stop)" que deixo recomendado a todos que escrevem, seja como passatempo ou como ambição. Ela têm, fora da poesia, uma prosa ácida, astuta e engraçada, que fica claro em suas “Prosas Reunidas”, que reúne resenhas que vão desde "o calendário do ano vigente" até um “dicionário chinês”. (eu traduzi alguns livremente: aqui e aqui.)
Voltando a Canção Negra, a disparidade entre poemas é muito grande mesmo dentro desse livro, imagina então quando comparado com toda obra da polaca, chega a ser injusto. Mas, seleciono aqui alguns que foram meus favoritos dessa pequena coletânea:
BUSCO LA PALABRA: A sua estreia em meio a guerra, com aproximadamente vinte e um anos, surpreende por ser um ótimo vislumbre da Wislawa que posteriormente venceria o Nobel.
Em Busco la Palabra ela nos diz que sozinha, uma palavra não basta para transmitir ou descrever a dor, a solidão, a desgraça, o abuso. Mas junto da poesia, isso é possível; transcrever a linguagem de um relâmpago, um olhar de espanto, o momento do susto, a falta de razão.
A busca por voz própria também é refletida, mesmo que ela estivesse alheia à isso; buscava ela a palavra exata que melhor ressoaria o seu eu, e que conquistaria o mundo.
"La (palavra) más valiente – cobarde,
La más desdeñosa – aún santa
La más cruel – demasiado
misericordiosa,
La más odiosa - poco porfiada"
DEDICADO A LA POESÍA: Um dos melhores. Sobre trocar os olhos por palavras defronte a uma cena; também sobre o medo da morte e do "pátio vazio", imagem que me lembra um pouco do Borges em seu "Fervor de Buenos Aires", caminhando entre pátios, ocasos, sombras, cemitérios...
"Antes que o jardim seja ofuscado pelas sombras, antes que as nuvens negras cubram o céu azul, antes que o sol se ponha e o mar escureça; devo transformar meus olhos em palavras."
TRANSPORTE DE JUDÍOS: Um bom modo de vislumbrar o peso da guerra sobre esses poemas, é pensar que a Cracóvia em que a Wislawa escrevia esses versos é a mesma da "Lista de Schindler" e todas suas "personas"; é inevitável que esse acontecimento flua para seus textos, e Transporte de Judeus é um dos bons exemplos.
"Fuera está el mundo entero:
la lejanía repleta de bosque,
las colinas abrevadas en sus fuentes
y la muerte en la plenitud del aire.
Pero a ellos (-encerrados en el desenfreno de los raíles-)
les cambiaron los rostros por una estrecha oscuridad.
Enmudecieron los gritos en el sordo plomo.
Testimonio de la profundidad de la tierra."
ERÓTICO BURLESCO: Curto, sucinto, enigmático e com bons versos.
"Não existo em mim, sou a função de uma força. Um símbolo no ar ou os círculos na água…"
BALADA HOY: Talvez meu favorito, junto com Busco la Palabra e Dedicado a la Poesia.
"Sacode as flores das árvores,
e o sol sempre emociona
como a primeira alegria de um menino
que tenta capturar em suas mãos
a mais vaporosa das nuvens."
ONCE WE HAD THE WORLD: Outro dos que mais remetem ao futuro estilo em que a Wislawa se consagraria; LEAVING THE MOVIE THEATER: O final de um filme, e o retorno ao mundo real. Onde há a tristeza sem ensaio, o luto não pode existir sem perda. O garoto, sem os braços. A garota, com olhos vazios.
Há quem se interesse pelos “poemas históricos” da invasão nazista e guerra na Polônia, então apenas enumerarei alguns que apesar de não terem atraído minha atenção, podem ser interessantes para outros: La Cruzada de Los Ninos, Memoria de Enero, Memoria de Septiembre e Carta a Occidente.
Após esse primeiro volume, tenho acesso apenas a alguns poemas espaçados, dá até para contá-los nos dedos, daqui até sua estreia oficial transcorrem-se quase dez anos, e pouca ou nenhuma tradução, então permita-me aglutiná-los (os dois que mais gostei) aqui:
In Trite Rhymes (do Why We Live):
“Uma grande felicidade: botões sobre botões de flores,
galhos que se estendem em prístino azul,
mas há uma felicidade maior: hoje é segunda
e o amanhã trará uma mensagem sua.”
"A great joy: flower upon flower,
the branches stretch in pristine blue,
but there’s a greater: today’s Tuesday,
tomorrow will bring mail from you"
Questions You Ask Yourself: O poema que batiza o volume. Alguns bons versos, sobre amizade e primeiras impressões.
"How do you tally your losses?
Stunted friendships,
frozen worlds."
ps. as tentativas de tradução do espanhol e do inglês são minhas, e antes de julgar a qualidade dos poemas, ou, nos links, da prosa da polaca, julgue a minha como tradutor por hobby.
Desde que retomei o hábito da leitura lá pelo fim de 2019, tenho vontade de superar meu "medo" de poesia. Sempre que dava de cara com algum bom poema ou coleção interessante, eu apreciava, mas então corria, me escondia e postergava.
Até que, por coincidência, num dos blogs literários aleatórios da internet, encontrei o discurso do Nobel de Literatura da Wislawa (acha-se facilmente no google, recomendo). E cara, aquilo foi o basta.
A Polonesa me deu um tapa na cara e me tomou pela mão; em direção, é claro, aos seus enxutos, engraçados, casuais e profundos volumes.
Volumes estes que foram reunidos — parcialmente — em diversos idiomas. Tenho aqui comigo, para o plano de leitura: View with Grain of Sand, Map e Poems New and Collected (Inglês). Poesia no Completa e Cancion Negra (Espanhol). Poemas e Um Amor Feliz (Português).
Peguei tudo emprestado no Z Library (hihihi).
Com tudo em mãos (figuradamente), decidi começar cronologicamente; do pior para o melhor.
E não, não sou eu que digo isso, não tenho propriedade nem auto-estima suficiente para chamar algo de pior, é a própria autora quem diz; a velhinha simpática até queimou a maioria dos manuscritos antigos pouco antes de morrer, e se não com um sorriso no rosto, com a sensação de justiça e um olhar concentrado.
Ela considerava que sua verdadeira estreia só havia ocorrido praticamente dez anos e três livros depois, com “Chamando pelo Yeti”, que marca uma clara mudança em seu estilo de poesia, que passava a ser mais pessoal e existencial, ainda que universal.
A nota dos tradutores espanhóis exemplificam bem o motivo de eu querer ler um livro que foi duramente criticado e rejeitado pela própria autora: "(…) primeros poemas, poemas de juventud que sorprenderán a muchos de los lectores por el abismo que los separa de la obra hasta este momento publicada en español."
Eu já havia dado uma rápida espiada em alguns poemas do Chamado do Yeti (1957) e Sál (1962): Museus, Elegia de Viagem e Nada Duas Vezes (em Português), e, Poetry Reading, e Notes from a Nonexistent Himalayan Expedition (em Inglês); todos estes extremamente bonitos, singelos e/ou interessantes.
Então, antes de prosseguir, prefiro retroceder, e dar uma olhada no "abismo" que, segundo os espanhóis, separa a obra da polaca.
Hora de ouvir suas primeiras palavras; escutar a canção negra, e:
«permite echar una mirada a ese crisol en el que empezaba a conformarse la noble amalgama de su poesía» (vislumbrar o caldeirão onde o nobre amálgama da sua poesia começava a se formar).
Síntese de Bar (mais para mim do que para vocês): É um livro que eu dificilmente recomendaria, a não ser a outro admirador da poeta polaca, mas ainda sim, com ressalvas. Mas é interessante, ainda sim, e não é como se não houvesse NENHUM poema bonito ou inspirado. É só que, é uma poetisa iniciante, em meio à guerra, buscando por sua voz. E a guerra, como sabemos, suga tudo.
É uma coleção póstuma, que a autora, sempre cínica e mordaz, não conseguiu queimar antes de ir de comes e bebes, e a publicação se dá por parte da editora. Ainda sim, deve ter um outro peso - mais profundo - para os poloneses e outrém daquela época; e acho que sim, dessa vez a editora fez bem em publicar a coleção, mesmo que isso envolva ganhar dinheiro com o selo “Nobel” na capa do livro póstumo. Mais uma vez, relevo pela lindeza da edição.
A Canção Negra de uma Jovem Polonesa /
The Black Song of a Young Polish Poet
96pp
Conhecendo todo o contexto do livro, Canción Negra é agradável. Ao que se propõe — mostrar um outro lado da poeta polaca — é exímio; a edição é lindíssima, com lindas ilustrações, é um must para qualquer admirador da Wislawa. Em contrapartida, veementemente desaconselho-o a alguém que está começando na obra da polaca: é um livro que necessita de contexto, fruto de sua época conturbada, e até renegado pela autora. "Este livro deve ser lido de uma forma impossível, como se fosse uma coleção de poemas de estreia. Mas se assim fosse, é provável que ninguém continuasse a ler a Szymborska"; não podia ser mais perfeita a colocação da tradução castelhana (a edição da Nórdica Libros é um primor.)
A introdução, dessa mesma edição, ainda acrescenta, vulgarmente: é verdadeiramente um abismo que separa a obra da polaca, há aqui e ali lapsos da poeta vencedora do Nobel, mas são raros, e entrecortados por diversos poemas de guerra e de vanguarda pouco inspirados. A maioria desses poemas são datados de imediatamente após a Segunda Guerra Mundial e o peso desse pesadelo está, inevitavelmente, sempre presente; não que seja este um tema ruim — ou que exista algo como um tema ruim — a gente encontra, veremos abaixo, um bom poema sobre a situação dos judeus, mas por menos afinidade ou por inexperiência, não parece ser uma área em que ela consiga se sobressair (isso com base nos primeiros e “verdadeiros” livros dela que li).
Indiretamente, este livro também conta uma lição de humildade; que uma das maiores poetas do leste-europeu não nasceu pronta de uma forma; seus versos foram destilados, escritos, reescritos, amassados e jogados no lixo, um após o outro, até encontrar a sua voz. Temos aqui dezenas de poemas que são essas tentativas, exemplos da eterna curiosidade e busca com que ela fala sobre em "Poeta e o Mundo", ou nos inspirados e ácidos conselhos literários reunidos no "How to Start Writing (and When to Stop)" que deixo recomendado a todos que escrevem, seja como passatempo ou como ambição. Ela têm, fora da poesia, uma prosa ácida, astuta e engraçada, que fica claro em suas “Prosas Reunidas”, que reúne resenhas que vão desde "o calendário do ano vigente" até um “dicionário chinês”. (eu traduzi alguns livremente: aqui e aqui.)
Voltando a Canção Negra, a disparidade entre poemas é muito grande mesmo dentro desse livro, imagina então quando comparado com toda obra da polaca, chega a ser injusto. Mas, seleciono aqui alguns que foram meus favoritos dessa pequena coletânea:
BUSCO LA PALABRA: A sua estreia em meio a guerra, com aproximadamente vinte e um anos, surpreende por ser um ótimo vislumbre da Wislawa que posteriormente venceria o Nobel.
Em Busco la Palabra ela nos diz que sozinha, uma palavra não basta para transmitir ou descrever a dor, a solidão, a desgraça, o abuso. Mas junto da poesia, isso é possível; transcrever a linguagem de um relâmpago, um olhar de espanto, o momento do susto, a falta de razão.
A busca por voz própria também é refletida, mesmo que ela estivesse alheia à isso; buscava ela a palavra exata que melhor ressoaria o seu eu, e que conquistaria o mundo.
"La (palavra) más valiente – cobarde,
La más desdeñosa – aún santa
La más cruel – demasiado
misericordiosa,
La más odiosa - poco porfiada"
DEDICADO A LA POESÍA: Um dos melhores. Sobre trocar os olhos por palavras defronte a uma cena; também sobre o medo da morte e do "pátio vazio", imagem que me lembra um pouco do Borges em seu "Fervor de Buenos Aires", caminhando entre pátios, ocasos, sombras, cemitérios...
"Antes que o jardim seja ofuscado pelas sombras, antes que as nuvens negras cubram o céu azul, antes que o sol se ponha e o mar escureça; devo transformar meus olhos em palavras."
TRANSPORTE DE JUDÍOS: Um bom modo de vislumbrar o peso da guerra sobre esses poemas, é pensar que a Cracóvia em que a Wislawa escrevia esses versos é a mesma da "Lista de Schindler" e todas suas "personas"; é inevitável que esse acontecimento flua para seus textos, e Transporte de Judeus é um dos bons exemplos.
"Fuera está el mundo entero:
la lejanía repleta de bosque,
las colinas abrevadas en sus fuentes
y la muerte en la plenitud del aire.
Pero a ellos (-encerrados en el desenfreno de los raíles-)
les cambiaron los rostros por una estrecha oscuridad.
Enmudecieron los gritos en el sordo plomo.
Testimonio de la profundidad de la tierra."
ERÓTICO BURLESCO: Curto, sucinto, enigmático e com bons versos.
"Não existo em mim, sou a função de uma força. Um símbolo no ar ou os círculos na água…"
BALADA HOY: Talvez meu favorito, junto com Busco la Palabra e Dedicado a la Poesia.
"Sacode as flores das árvores,
e o sol sempre emociona
como a primeira alegria de um menino
que tenta capturar em suas mãos
a mais vaporosa das nuvens."
ONCE WE HAD THE WORLD: Outro dos que mais remetem ao futuro estilo em que a Wislawa se consagraria; LEAVING THE MOVIE THEATER: O final de um filme, e o retorno ao mundo real. Onde há a tristeza sem ensaio, o luto não pode existir sem perda. O garoto, sem os braços. A garota, com olhos vazios.
Há quem se interesse pelos “poemas históricos” da invasão nazista e guerra na Polônia, então apenas enumerarei alguns que apesar de não terem atraído minha atenção, podem ser interessantes para outros: La Cruzada de Los Ninos, Memoria de Enero, Memoria de Septiembre e Carta a Occidente.
- - - -
Após esse primeiro volume, tenho acesso apenas a alguns poemas espaçados, dá até para contá-los nos dedos, daqui até sua estreia oficial transcorrem-se quase dez anos, e pouca ou nenhuma tradução, então permita-me aglutiná-los (os dois que mais gostei) aqui:
In Trite Rhymes (do Why We Live):
“Uma grande felicidade: botões sobre botões de flores,
galhos que se estendem em prístino azul,
mas há uma felicidade maior: hoje é segunda
e o amanhã trará uma mensagem sua.”
"A great joy: flower upon flower,
the branches stretch in pristine blue,
but there’s a greater: today’s Tuesday,
tomorrow will bring mail from you"
Questions You Ask Yourself: O poema que batiza o volume. Alguns bons versos, sobre amizade e primeiras impressões.
"How do you tally your losses?
Stunted friendships,
frozen worlds."
ps. as tentativas de tradução do espanhol e do inglês são minhas, e antes de julgar a qualidade dos poemas, ou, nos links, da prosa da polaca, julgue a minha como tradutor por hobby.
- - - -
Desde que retomei o hábito da leitura lá pelo fim de 2019, tenho vontade de superar meu "medo" de poesia. Sempre que dava de cara com algum bom poema ou coleção interessante, eu apreciava, mas então corria, me escondia e postergava.
Até que, por coincidência, num dos blogs literários aleatórios da internet, encontrei o discurso do Nobel de Literatura da Wislawa (acha-se facilmente no google, recomendo). E cara, aquilo foi o basta.
A Polonesa me deu um tapa na cara e me tomou pela mão; em direção, é claro, aos seus enxutos, engraçados, casuais e profundos volumes.
Volumes estes que foram reunidos — parcialmente — em diversos idiomas. Tenho aqui comigo, para o plano de leitura: View with Grain of Sand, Map e Poems New and Collected (Inglês). Poesia no Completa e Cancion Negra (Espanhol). Poemas e Um Amor Feliz (Português).
Peguei tudo emprestado no Z Library (hihihi).
Com tudo em mãos (figuradamente), decidi começar cronologicamente; do pior para o melhor.
E não, não sou eu que digo isso, não tenho propriedade nem auto-estima suficiente para chamar algo de pior, é a própria autora quem diz; a velhinha simpática até queimou a maioria dos manuscritos antigos pouco antes de morrer, e se não com um sorriso no rosto, com a sensação de justiça e um olhar concentrado.
Ela considerava que sua verdadeira estreia só havia ocorrido praticamente dez anos e três livros depois, com “Chamando pelo Yeti”, que marca uma clara mudança em seu estilo de poesia, que passava a ser mais pessoal e existencial, ainda que universal.
A nota dos tradutores espanhóis exemplificam bem o motivo de eu querer ler um livro que foi duramente criticado e rejeitado pela própria autora: "(…) primeros poemas, poemas de juventud que sorprenderán a muchos de los lectores por el abismo que los separa de la obra hasta este momento publicada en español."
Eu já havia dado uma rápida espiada em alguns poemas do Chamado do Yeti (1957) e Sál (1962): Museus, Elegia de Viagem e Nada Duas Vezes (em Português), e, Poetry Reading, e Notes from a Nonexistent Himalayan Expedition (em Inglês); todos estes extremamente bonitos, singelos e/ou interessantes.
Então, antes de prosseguir, prefiro retroceder, e dar uma olhada no "abismo" que, segundo os espanhóis, separa a obra da polaca.
Hora de ouvir suas primeiras palavras; escutar a canção negra, e:
«permite echar una mirada a ese crisol en el que empezaba a conformarse la noble amalgama de su poesía» (vislumbrar o caldeirão onde o nobre amálgama da sua poesia começava a se formar).
- - - -
Síntese de Bar (mais para mim do que para vocês): É um livro que eu dificilmente recomendaria, a não ser a outro admirador da poeta polaca, mas ainda sim, com ressalvas. Mas é interessante, ainda sim, e não é como se não houvesse NENHUM poema bonito ou inspirado. É só que, é uma poetisa iniciante, em meio à guerra, buscando por sua voz. E a guerra, como sabemos, suga tudo.
É uma coleção póstuma, que a autora, sempre cínica e mordaz, não conseguiu queimar antes de ir de comes e bebes, e a publicação se dá por parte da editora. Ainda sim, deve ter um outro peso - mais profundo - para os poloneses e outrém daquela época; e acho que sim, dessa vez a editora fez bem em publicar a coleção, mesmo que isso envolva ganhar dinheiro com o selo “Nobel” na capa do livro póstumo. Mais uma vez, relevo pela lindeza da edição.
Orgulho e Preconceito — 4.0✲
Dissolvendo Preconceitos (Literários) /
Dissolving (Literary) Preconceptions
Uma lição que ficou dos dois últimos romances que li de cabo a rabo (Liaisons Dangereseus e Orgulho e Preconceito) foi o de não sonegar a MINHA leitura de um livro; não ceder algo tão importante a ninguém. Que sejam opiniões positivas ou negativas, de críticos estudados ou meros palpiteiros. Se eu me detivesse em assuntos menores, como tema e gênero (na verdade, subgênero), não teria lido esses dois romances que foram, respectivamente, minhas melhores leituras recentes de ficção.
Eu entrei no livro justamente cheio de preconceitos, o primeiro deles por conta da quantidade de meninas que votaram para que fosse este o livro que abriria o clube de leitura da faculdade; pensei que: mais clichê, impossível.
Mas, quando o assunto é ler, nunca faço corpo mole, não passou pela minha cabeça abandonar a participação ou fazer algo como leitura dinâmica, procurar resumo na internet, nem nada disso. Até seria interessante para fazer contraponto na hora da discussão, que houvesse uma pessoa ali que não tivesse gostado, e que eu imaginei que seria eu. Mas, a literatura tem disso, e na hora da discussão, ocorreu o inverso: eu tinha sido o que mais gostei, e algumas das meninas que fizeram um VOTANAÇO para Orgulho e Preconceito ganhar, haviam gostado menos numa segunda leitura.
Meu preconceito para com a obra durou menos que o do Sr. Darcy para com Elizabeth, e nas primeiras páginas, logo na primeira cena e abertura, que é uma das grandes aberturas da literatura mundial, por A + B eu percebi que não estava diante do clichezão que havia construído na minha mente. Antes, era essa a impressão que sempre tinha quando alguém citava Orgulho e Preconceito (filme ou livro); e eu era tão ignorante quanto a narrativa, que para mim, foi uma surpresa quando o foco da narrativo saiu de Jane e Bingley (que protagonizam os primeiros "conflitos do livro"), pra uma aproximação maior com a Elizabeth, que primeiro está ali como inteligente observadora, e isso é bastante significativo.
Mas, enfim, a abertura, na tradução que escolhi (Roberto Leal Ferreira/Martin Claret), depois de bater e compará-la com algumas outras, a clássica do Lúcio Cardoso, a da Penguin Companhia (essa é muito boa em notas), se sobressaiu pra mim a do Roberto Leal Ferreira:
A minha primeira boa impressão, e isso vai ficar comprovado ao longo do livro, é a utilização de um narrador que está imerso na geografia local, nas fofocas do lugarejo, nos preconceitos das famílias, mas ainda sim, posicionado a uma distância pungente, salpicando ironia, indo e vindo de personagens, acelerando e desacelerando a narrativa. "É uma verdade universalmente reconhecida" daquele lugar e daquela sociedade tão e unicamente. Já se percebe que o narrador fala com sua voz “demiúrgica” mas o que ele expressa é uma “verdade” do povo ali circundante.
O narrador aproxima-se, certas vezes, mais de uns que de outros personagens — apesar da maior parte do tempo, de braços dados, acompanhar a Lizzy — numa terceira pessoa que não é de maneira nenhuma muito descritiva ou demasiadamente datada (há quem veja lampejos do discurso indireto em certas partes) a ação se dá num modo quase de drama (gênero), a partir de diálogos representativos, ou cartas (que é onde se dá a maior parte da ação fora do diálogo, apesar de de certa forma, também ser um tipo de diálogo) e isso aproxima a Jane Austen das minhas últimas leituras prediletas, do Laclos e do conterrâneo dela D.H. Lawrence.
Ainda no primeiro capítulo, já temos posta uma das muitas questões dramáticas do romance, que vai perdurar por alguns capítulos, um pouco morosa, sim, em comparação com outras, mas que será interessante quando essas questões forem se resolvendo, se alternando, e gerando outras.
É, esta, a chegada do Bingley (acompanhado de Darcy), e a questão: como se dará o relacionamento do homem com a vizinhança? Principalmente, com a família que acompanhamos na abertura?
Vemos tudo, nesse primeiro capítulo, da perspectiva do Sr. e da Sra. Bennet, o que não é gratuito, e que serve para já num primeiro capítulo mostrar muito do contraste entre esse pai e essa mãe (e vosso próprio casamento em comparação com outros casamentos), que vai perdurar ao longo de todo o livro; é um prelúdio para os múltiplos conflitos e relações antagônicas, partindo inicialmente desse lar, e então indo para outros, abrindo-se em mais personagens, sem nunca abandoná-lo: afinal, é o lar de Lizzy.
Em poucas páginas, a caracterização, apesar de um pouco expositiva demais — no sentido de, ela definir com adjetivos algo que percebemos facilmente através dos bons diálogos (esse é um dos problemas que tenho com a poética da Austen), coloca em evidência a personalidade de ambos e nos diz muito com pouca "descrição de ações"; é quase como num Drama mesmo, a autora faz-nos imaginar muito bem, só com o discurso direto, a disposição de uma cena e da atuação e disposição dos personagens em cena. Apesar de no fim, ela “entregar o ouro” aos leitores, e faz isso com alguma frequência que incomoda, certas vezes numa caracterização e certas vezes (mais problemáticas) em questões de desenlace de narrativa.
A demarcação desse primeiro "conflito" entre marido e mulher é interessantíssimo. Já diz muito e ilustra uma faceta dos casamentos, assunto que cortará por todo o livro, desde o casamento de Jane (a irmã), Charlotte (a amiga) e Lidya (a outra irmã) e suas diferenças: necessidade, interesse, erro, ingenuidade. Observados pela ótica da Elizabeth, uma grande observadora de caráteres, mas que pisa em falso muitas vezes, e demonstra que a grande observadora vêm mesmo por detrás dela — e vale retificar, uma não é a outra —: a Jane Austen.
Avançando no primeiro capítulo, a Sra. Bennet ferve com a notícia do homem solteiro de mudança e não cessa de confabular planos, antes mesmo do primeiro diálogo do romance acontecer ela já tem planejada uma apresentação em mente: "— Meu caro sr. Bennet — disse-lhe a esposa certo dia —, sabia que Netherfield Park foi enfim alugado? (…) Ora, meu querido, como você sabe, a sra. Long diz que Netherfield foi alugado por um jovem de amplas posses do norte da Inglaterra (…)." Enquanto o Sr. Bennet, pelo contrário, de nada sabe. Imaginamos-o tomando um café e lendo seu jornal. Não mede palavras para falar das filhas, e não esconde a preferência por Lizzy; mais um conflito óbvio entre marido e mulher: a Jane Austen vai salpicando tudo isso já no conciso primeiro capítulo: "— Não quero que você faça isso. Lizzy não é nem um pouco melhor do que as outras; e tenho certeza de que não tem a metade da beleza de Jane, nem metade do bom humor de Lydia. Mas você sempre dá a ela a preferência."
A preocupação extrema com o casamento das suas meninas e a falta de tato é o que define a personalidade da Sra. Bennet; e a distância e o isolamento irônico do Sr. Bennet (é o personagem com as linhas de diálogo mais engraçados de todo o livro) ilustra um casamento que “deu errado”, e mais para frente saberemos por quê.
A Jane Austen não mede palavras na descrição da Inglesa "média", que tem como consolo visitas e fofocas, e como único plano de vida casar as filhas. E da mesma maneira que coloca na voz do Sr. Bennet, um patriarca que diz: "Nenhuma delas tem muita coisa que as recomende replicou ele —; são todas tolas e ignorantes, como as meninas sempre são", coloca também no narrador, sobre a Sra. Bennet: "A mente dela era menos difícil de descrever. Era uma mulher de inteligência medíocre, pouca cultura e temperamento inconstante. Quando se contrariava, imaginava estar doente dos nervos. Seu objetivo na vida era ver as filhas casadas; seu consolo, as visitas e as fofocas.". E é esta a família da nossa protagonista.
Sobre isto, há de se ter algum cuidado:
Mesmo que o casamento fosse uma das únicas saídas para as mulheres daquela época, e a Sra. Bennet, por ter quatro filhas mulheres, e um testamento que impediria que elas — com a morte do marido — herdassem algo (tornando imporatntíssimo o casamento das filhas) é jogada uma luz muito mais crítica na Sra. Bennet do que, por exemplo, no casamento “frio” entre Collins e Charlotte.
Ao longo de todo o romance é a mãe-casadeira que expõe-se muito mais aos olhares irônicos do narrador. Se conseguimos encarar o romance como em consonância com as ideias da Mary Wolstonecraft, publicando poucos anos antes da Jane, principalmente na personagem da Lizzy (e de sua graça que vêm da personalidade forte e da razão sobre a sensibilidade), podemos também suspeitar que além da crítica a uma Aristocracia altiva que quer mais utilizar da sua posição para se meter na vida de todo mundo (vemos isso na personagem da Lady Chaterine), há também uma crítica às mulheres obcecadas pelo casamento e que vivem sob função disso (a mãe e Lidya, por exemplo, “caem” no erro por conta disso), em comparação com o casamento observado a partir da razão e do afeto — obviamente, o de Lizzy. Mas, incluo em relação a esse primeiro, também o casamento de Charlotte (fiquei na minha cabeça que se a Austen — e não a Elizabeth, cheia de seus preconceitos, futuramente superados — estivesse realmente criticando a decisão da Charlotte, veríamos, durante a visita de Lizzy a amiga, algo muito pior do que vemos em relação a seu casamento). E isso deixo para quem mais leu tirar as próprias conclusões.
Enfim, é um livro feliz, ponto. Então não vou nem falar sobre a idealização de Elizabeth que um casamento, mesmo que meticulosamente pensado e investigado (sentimentalmente e racionalmente), signifique felicidade: sabemos, hoje em dia, que não. E por isso o livro faz bem em acabar antes do casamento em si e seus dias subsequentes.
O final, muito novelesco - no sentido de novela mesmo (não atoa pode-se considerar a Austen mãe de grande parte do sub-gênero do romance no cinema -, entretanto, me colocou um sorriso bobo no rosto; e a semana que passei naquela inglaterra, nos bailes, nos passeios de Orgulho e Preconceito, com seus personagens, suas maneiras, sua sociedade muito diferente mas também muito parecida com a nossa, valeu a pena.
Percebe-se também a habilidade da Jane Austen como uma grande romancista na maneira como ela constrói e amarra a narrativa, se você ler atentamente, perceberá como muito do que virá a seguir, se você imaginar que aqueles personagens estão vivos, e estão atuando naquele mundo, enquanto outra coisa está sendo narrada, quando outra coisa está em evidência, você pegará muito dos pequenos desenlaces antes mesmo que a Austen os resolva, e é muito recompensador — quando a autora não dúvida dos "elfos ignorates*" e entrega todo o ouro no final do parágrafo.
Grande livro, e quando terminei ele, lembro da sensação de que se a "tia de Steventon", que preferia muito mais ser boa para com seus sobrinhos do que uma famosa escritora, que viajou pouco na vida além das quatro paredes dos lares e dos bailes, que não precisou de grandes excitações e só a partir da observação, da ironia para com o seu tempo e seus costumes, construiu um microcosmo tão gostoso de ler, e uma visão tão interessante, senti que todo mundo deveria escrever mesmo, e não que há literatura de mais, e leitores de menos; e sim, autores de mais, e visões de mundo de menos. (Mas bem que pode ser só uma bonita ilusão criada em mim pelas qualidades intrínsecas da Jane Austen; talvez se o mesmo tema de Orgulho e Preconceito fosse observado por outros olhos e escrito por outra mão que não a dela, pensaria o oposto. Não sei.)
Tinha mais coisa para falar aqui, sobre a comparação com o Choderlos de Laclos, sobre como ambos utilizam as cartas, sobre como ambos vêem a educação das mulheres, como ambos são diferentes nas abordagens, mesmo que ambos se apoiem sobre o Richardson (o Laclos têm Clarissa como uma obra-prima — apesar de ele ter superado e muito o Richardson com suas Liaisons Dangereuses —, e a Austen têm como seus romances favoritos Sir Charles Grandison — que muito a inspirou —, e Pamela, também do Richardson), mas por enquanto é isso.
-x-
*Jane Austen: "Eu não escrevo para elfos estúpidos. (...) Nem eles são lá tão ingênuos"
Dissolvendo Preconceitos (Literários) /
Dissolving (Literary) Preconceptions
Uma lição que ficou dos dois últimos romances que li de cabo a rabo (Liaisons Dangereseus e Orgulho e Preconceito) foi o de não sonegar a MINHA leitura de um livro; não ceder algo tão importante a ninguém. Que sejam opiniões positivas ou negativas, de críticos estudados ou meros palpiteiros. Se eu me detivesse em assuntos menores, como tema e gênero (na verdade, subgênero), não teria lido esses dois romances que foram, respectivamente, minhas melhores leituras recentes de ficção.
Eu entrei no livro justamente cheio de preconceitos, o primeiro deles por conta da quantidade de meninas que votaram para que fosse este o livro que abriria o clube de leitura da faculdade; pensei que: mais clichê, impossível.
Mas, quando o assunto é ler, nunca faço corpo mole, não passou pela minha cabeça abandonar a participação ou fazer algo como leitura dinâmica, procurar resumo na internet, nem nada disso. Até seria interessante para fazer contraponto na hora da discussão, que houvesse uma pessoa ali que não tivesse gostado, e que eu imaginei que seria eu. Mas, a literatura tem disso, e na hora da discussão, ocorreu o inverso: eu tinha sido o que mais gostei, e algumas das meninas que fizeram um VOTANAÇO para Orgulho e Preconceito ganhar, haviam gostado menos numa segunda leitura.
Meu preconceito para com a obra durou menos que o do Sr. Darcy para com Elizabeth, e nas primeiras páginas, logo na primeira cena e abertura, que é uma das grandes aberturas da literatura mundial, por A + B eu percebi que não estava diante do clichezão que havia construído na minha mente. Antes, era essa a impressão que sempre tinha quando alguém citava Orgulho e Preconceito (filme ou livro); e eu era tão ignorante quanto a narrativa, que para mim, foi uma surpresa quando o foco da narrativo saiu de Jane e Bingley (que protagonizam os primeiros "conflitos do livro"), pra uma aproximação maior com a Elizabeth, que primeiro está ali como inteligente observadora, e isso é bastante significativo.
Mas, enfim, a abertura, na tradução que escolhi (Roberto Leal Ferreira/Martin Claret), depois de bater e compará-la com algumas outras, a clássica do Lúcio Cardoso, a da Penguin Companhia (essa é muito boa em notas), se sobressaiu pra mim a do Roberto Leal Ferreira:
"É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro e muito rico precisa de uma esposa.
Por menos conhecidos que sejam os sentimentos ou as ideias de tal homem ao entrar pela primeira vez em certo lugarejo, tal verdade está tão bem arraigada na mente das famílias que o rodeiam, que ele vem a ser considerado propriedade legítima de uma ou outra de suas filhas. "
A minha primeira boa impressão, e isso vai ficar comprovado ao longo do livro, é a utilização de um narrador que está imerso na geografia local, nas fofocas do lugarejo, nos preconceitos das famílias, mas ainda sim, posicionado a uma distância pungente, salpicando ironia, indo e vindo de personagens, acelerando e desacelerando a narrativa. "É uma verdade universalmente reconhecida" daquele lugar e daquela sociedade tão e unicamente. Já se percebe que o narrador fala com sua voz “demiúrgica” mas o que ele expressa é uma “verdade” do povo ali circundante.
O narrador aproxima-se, certas vezes, mais de uns que de outros personagens — apesar da maior parte do tempo, de braços dados, acompanhar a Lizzy — numa terceira pessoa que não é de maneira nenhuma muito descritiva ou demasiadamente datada (há quem veja lampejos do discurso indireto em certas partes) a ação se dá num modo quase de drama (gênero), a partir de diálogos representativos, ou cartas (que é onde se dá a maior parte da ação fora do diálogo, apesar de de certa forma, também ser um tipo de diálogo) e isso aproxima a Jane Austen das minhas últimas leituras prediletas, do Laclos e do conterrâneo dela D.H. Lawrence.
Ainda no primeiro capítulo, já temos posta uma das muitas questões dramáticas do romance, que vai perdurar por alguns capítulos, um pouco morosa, sim, em comparação com outras, mas que será interessante quando essas questões forem se resolvendo, se alternando, e gerando outras.
É, esta, a chegada do Bingley (acompanhado de Darcy), e a questão: como se dará o relacionamento do homem com a vizinhança? Principalmente, com a família que acompanhamos na abertura?
Vemos tudo, nesse primeiro capítulo, da perspectiva do Sr. e da Sra. Bennet, o que não é gratuito, e que serve para já num primeiro capítulo mostrar muito do contraste entre esse pai e essa mãe (e vosso próprio casamento em comparação com outros casamentos), que vai perdurar ao longo de todo o livro; é um prelúdio para os múltiplos conflitos e relações antagônicas, partindo inicialmente desse lar, e então indo para outros, abrindo-se em mais personagens, sem nunca abandoná-lo: afinal, é o lar de Lizzy.
Em poucas páginas, a caracterização, apesar de um pouco expositiva demais — no sentido de, ela definir com adjetivos algo que percebemos facilmente através dos bons diálogos (esse é um dos problemas que tenho com a poética da Austen), coloca em evidência a personalidade de ambos e nos diz muito com pouca "descrição de ações"; é quase como num Drama mesmo, a autora faz-nos imaginar muito bem, só com o discurso direto, a disposição de uma cena e da atuação e disposição dos personagens em cena. Apesar de no fim, ela “entregar o ouro” aos leitores, e faz isso com alguma frequência que incomoda, certas vezes numa caracterização e certas vezes (mais problemáticas) em questões de desenlace de narrativa.
A demarcação desse primeiro "conflito" entre marido e mulher é interessantíssimo. Já diz muito e ilustra uma faceta dos casamentos, assunto que cortará por todo o livro, desde o casamento de Jane (a irmã), Charlotte (a amiga) e Lidya (a outra irmã) e suas diferenças: necessidade, interesse, erro, ingenuidade. Observados pela ótica da Elizabeth, uma grande observadora de caráteres, mas que pisa em falso muitas vezes, e demonstra que a grande observadora vêm mesmo por detrás dela — e vale retificar, uma não é a outra —: a Jane Austen.
Avançando no primeiro capítulo, a Sra. Bennet ferve com a notícia do homem solteiro de mudança e não cessa de confabular planos, antes mesmo do primeiro diálogo do romance acontecer ela já tem planejada uma apresentação em mente: "— Meu caro sr. Bennet — disse-lhe a esposa certo dia —, sabia que Netherfield Park foi enfim alugado? (…) Ora, meu querido, como você sabe, a sra. Long diz que Netherfield foi alugado por um jovem de amplas posses do norte da Inglaterra (…)." Enquanto o Sr. Bennet, pelo contrário, de nada sabe. Imaginamos-o tomando um café e lendo seu jornal. Não mede palavras para falar das filhas, e não esconde a preferência por Lizzy; mais um conflito óbvio entre marido e mulher: a Jane Austen vai salpicando tudo isso já no conciso primeiro capítulo: "— Não quero que você faça isso. Lizzy não é nem um pouco melhor do que as outras; e tenho certeza de que não tem a metade da beleza de Jane, nem metade do bom humor de Lydia. Mas você sempre dá a ela a preferência."
A preocupação extrema com o casamento das suas meninas e a falta de tato é o que define a personalidade da Sra. Bennet; e a distância e o isolamento irônico do Sr. Bennet (é o personagem com as linhas de diálogo mais engraçados de todo o livro) ilustra um casamento que “deu errado”, e mais para frente saberemos por quê.
A Jane Austen não mede palavras na descrição da Inglesa "média", que tem como consolo visitas e fofocas, e como único plano de vida casar as filhas. E da mesma maneira que coloca na voz do Sr. Bennet, um patriarca que diz: "Nenhuma delas tem muita coisa que as recomende replicou ele —; são todas tolas e ignorantes, como as meninas sempre são", coloca também no narrador, sobre a Sra. Bennet: "A mente dela era menos difícil de descrever. Era uma mulher de inteligência medíocre, pouca cultura e temperamento inconstante. Quando se contrariava, imaginava estar doente dos nervos. Seu objetivo na vida era ver as filhas casadas; seu consolo, as visitas e as fofocas.". E é esta a família da nossa protagonista.
Sobre isto, há de se ter algum cuidado:
Mesmo que o casamento fosse uma das únicas saídas para as mulheres daquela época, e a Sra. Bennet, por ter quatro filhas mulheres, e um testamento que impediria que elas — com a morte do marido — herdassem algo (tornando imporatntíssimo o casamento das filhas) é jogada uma luz muito mais crítica na Sra. Bennet do que, por exemplo, no casamento “frio” entre Collins e Charlotte.
Ao longo de todo o romance é a mãe-casadeira que expõe-se muito mais aos olhares irônicos do narrador. Se conseguimos encarar o romance como em consonância com as ideias da Mary Wolstonecraft, publicando poucos anos antes da Jane, principalmente na personagem da Lizzy (e de sua graça que vêm da personalidade forte e da razão sobre a sensibilidade), podemos também suspeitar que além da crítica a uma Aristocracia altiva que quer mais utilizar da sua posição para se meter na vida de todo mundo (vemos isso na personagem da Lady Chaterine), há também uma crítica às mulheres obcecadas pelo casamento e que vivem sob função disso (a mãe e Lidya, por exemplo, “caem” no erro por conta disso), em comparação com o casamento observado a partir da razão e do afeto — obviamente, o de Lizzy. Mas, incluo em relação a esse primeiro, também o casamento de Charlotte (fiquei na minha cabeça que se a Austen — e não a Elizabeth, cheia de seus preconceitos, futuramente superados — estivesse realmente criticando a decisão da Charlotte, veríamos, durante a visita de Lizzy a amiga, algo muito pior do que vemos em relação a seu casamento). E isso deixo para quem mais leu tirar as próprias conclusões.
Enfim, é um livro feliz, ponto. Então não vou nem falar sobre a idealização de Elizabeth que um casamento, mesmo que meticulosamente pensado e investigado (sentimentalmente e racionalmente), signifique felicidade: sabemos, hoje em dia, que não. E por isso o livro faz bem em acabar antes do casamento em si e seus dias subsequentes.
O final, muito novelesco - no sentido de novela mesmo (não atoa pode-se considerar a Austen mãe de grande parte do sub-gênero do romance no cinema -, entretanto, me colocou um sorriso bobo no rosto; e a semana que passei naquela inglaterra, nos bailes, nos passeios de Orgulho e Preconceito, com seus personagens, suas maneiras, sua sociedade muito diferente mas também muito parecida com a nossa, valeu a pena.
Percebe-se também a habilidade da Jane Austen como uma grande romancista na maneira como ela constrói e amarra a narrativa, se você ler atentamente, perceberá como muito do que virá a seguir, se você imaginar que aqueles personagens estão vivos, e estão atuando naquele mundo, enquanto outra coisa está sendo narrada, quando outra coisa está em evidência, você pegará muito dos pequenos desenlaces antes mesmo que a Austen os resolva, e é muito recompensador — quando a autora não dúvida dos "elfos ignorates*" e entrega todo o ouro no final do parágrafo.
Grande livro, e quando terminei ele, lembro da sensação de que se a "tia de Steventon", que preferia muito mais ser boa para com seus sobrinhos do que uma famosa escritora, que viajou pouco na vida além das quatro paredes dos lares e dos bailes, que não precisou de grandes excitações e só a partir da observação, da ironia para com o seu tempo e seus costumes, construiu um microcosmo tão gostoso de ler, e uma visão tão interessante, senti que todo mundo deveria escrever mesmo, e não que há literatura de mais, e leitores de menos; e sim, autores de mais, e visões de mundo de menos. (Mas bem que pode ser só uma bonita ilusão criada em mim pelas qualidades intrínsecas da Jane Austen; talvez se o mesmo tema de Orgulho e Preconceito fosse observado por outros olhos e escrito por outra mão que não a dela, pensaria o oposto. Não sei.)
Tinha mais coisa para falar aqui, sobre a comparação com o Choderlos de Laclos, sobre como ambos utilizam as cartas, sobre como ambos vêem a educação das mulheres, como ambos são diferentes nas abordagens, mesmo que ambos se apoiem sobre o Richardson (o Laclos têm Clarissa como uma obra-prima — apesar de ele ter superado e muito o Richardson com suas Liaisons Dangereuses —, e a Austen têm como seus romances favoritos Sir Charles Grandison — que muito a inspirou —, e Pamela, também do Richardson), mas por enquanto é isso.
-x-
*Jane Austen: "Eu não escrevo para elfos estúpidos. (...) Nem eles são lá tão ingênuos"
É, realmente, um soco no estômago. Com a velocidade de um Lomachenko e a potência de um Sam Langford: “When Sam hit me to the body, I looked behind me to see if his fist had come out the other side”.
Pois, se o estilo é o homem, não foi só punho, mas Clarice inteirinha me atravessou, peito, veias, até às cordas vocais. Um soco estranhíssimo, em que alguém lhe diz quando, como e onde lhe golpeará, narra enquanto o faz, e, ainda sim, saber tudo isso em nada o alivia ou o prepara para o derradeiro — talvez o torne até torne mais incisivo.
Feliz dia das mães.
Pois, se o estilo é o homem, não foi só punho, mas Clarice inteirinha me atravessou, peito, veias, até às cordas vocais. Um soco estranhíssimo, em que alguém lhe diz quando, como e onde lhe golpeará, narra enquanto o faz, e, ainda sim, saber tudo isso em nada o alivia ou o prepara para o derradeiro — talvez o torne até torne mais incisivo.
"E agora — agora só me resta acender um cigarro e ir para casa. Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre. Mas — mas eu também?!
Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos.
Sim."
Feliz dia das mães.
Não é à toa que o jovem Jorge Luis Borges, de maneira precoce, com dez ou nove anos, tenha decidido se empenhar em traduzir do inglês este conto do Oscar Wilde.
É uma fábula lindíssima; e triste: do jeitinho que a gente gosta.
É coincidência, no entanto, que já na sua primeira publicação assinada contenha virtualmente um tema que Borges será obrigado a encarar quase toda a sua vida: a cegueira. A certo momento O príncipe feliz cede seus olhos esmeraldinos para os necessitados da cidade, assim o faz com todo o seu corpo dourado, o rubi de sua espada, tudo que fosse "útil" para ajudar os outros.
É estranho ler esse conto depois de ter lido o famoso prefácio de Dorian Gray e toda a questão da amoralidade da arte. "El príncipe feliz" — na tradução do Borges — está imerso em crítica social e, principalmente, moralidade (cristã). Wilde ainda por cima brinca com a ideia de utilidade da arte, colocando alguns personagens-tipo na narrativa que se saem com colocações do naipe: “[El principe feliz] Ya que habiendo dejado de ser hermoso, ya tampoco era útil”; dijo el Profesor de Estetica de la Universidad". O contraponto utilidade versus inutilidade aparece também num outro personagem-tipo que se refreia de elogiar o príncipe feliz porque "depois de ter se tornado estátua, apesar de bela, já não era mais tão útil quanto costumava ser quando vivo."
Aí é que, para mim, reside a ironia. O melancólico conto de fadas, além de bonito — toda a sequência de cenas com a pequena andorinha que se apaixona por uma árvore dita egoísta, deseja superar o relacionamento voando pro Egito, e acaba magnetizada pela benevolência do Príncipe Feliz, é muito gostosa de se ler —, tem uma moral e um fim "útil". No fim, a conclusão da narrativa me parece a de que o povão não percebeu a "utilidade" ou o "bem" que fizeram a Andorinha e o Príncipe.
Isso de alguma forma anula a narrativa como peça artística? De jeito nenhum. Mas é interessante de se olhar para essas duas facetas do mesmo autor: isto aqui foi publicado apenas dois anos antes do Dorian Gray. E ambas as obras me parecem estranhamente díspares, apesar de ambas serem iguais no quesito de serem factualmente boas. Talvez caiamos aqui justamente no que Wilde aponta no prefácio de Dorian Gray: não há livros morais ou imorais, e sim boa literatura ou má literatura.
É um dos contos que vou levar comigo até a paternidade. É daquele tipo que tem de ser lido para outra pessoa, sobretudo para uma criança. Da turma do "Presente dos Reis Magos" do O. Henry, "As Nuvens" do Tabucchi e outras narrativas seletas.
É uma fábula lindíssima; e triste: do jeitinho que a gente gosta.
É coincidência, no entanto, que já na sua primeira publicação assinada contenha virtualmente um tema que Borges será obrigado a encarar quase toda a sua vida: a cegueira. A certo momento O príncipe feliz cede seus olhos esmeraldinos para os necessitados da cidade, assim o faz com todo o seu corpo dourado, o rubi de sua espada, tudo que fosse "útil" para ajudar os outros.
É estranho ler esse conto depois de ter lido o famoso prefácio de Dorian Gray e toda a questão da amoralidade da arte. "El príncipe feliz" — na tradução do Borges — está imerso em crítica social e, principalmente, moralidade (cristã). Wilde ainda por cima brinca com a ideia de utilidade da arte, colocando alguns personagens-tipo na narrativa que se saem com colocações do naipe: “[El principe feliz] Ya que habiendo dejado de ser hermoso, ya tampoco era útil”; dijo el Profesor de Estetica de la Universidad". O contraponto utilidade versus inutilidade aparece também num outro personagem-tipo que se refreia de elogiar o príncipe feliz porque "depois de ter se tornado estátua, apesar de bela, já não era mais tão útil quanto costumava ser quando vivo."
Aí é que, para mim, reside a ironia. O melancólico conto de fadas, além de bonito — toda a sequência de cenas com a pequena andorinha que se apaixona por uma árvore dita egoísta, deseja superar o relacionamento voando pro Egito, e acaba magnetizada pela benevolência do Príncipe Feliz, é muito gostosa de se ler —, tem uma moral e um fim "útil". No fim, a conclusão da narrativa me parece a de que o povão não percebeu a "utilidade" ou o "bem" que fizeram a Andorinha e o Príncipe.
Isso de alguma forma anula a narrativa como peça artística? De jeito nenhum. Mas é interessante de se olhar para essas duas facetas do mesmo autor: isto aqui foi publicado apenas dois anos antes do Dorian Gray. E ambas as obras me parecem estranhamente díspares, apesar de ambas serem iguais no quesito de serem factualmente boas. Talvez caiamos aqui justamente no que Wilde aponta no prefácio de Dorian Gray: não há livros morais ou imorais, e sim boa literatura ou má literatura.
É um dos contos que vou levar comigo até a paternidade. É daquele tipo que tem de ser lido para outra pessoa, sobretudo para uma criança. Da turma do "Presente dos Reis Magos" do O. Henry, "As Nuvens" do Tabucchi e outras narrativas seletas.
"Não trocaria a minha vida [no campo] pela vossa; é certo que vivemos com alguma rudeza, mas, pelo menos, não estamos sempre ansiosos"
Apesar da citação atualíssima sobre a vida na cidade, o conto de 1886 (!) vai além do contraste simplista de citadinos endinheirados e egoístas com lavradores e trabalhadores puros e benevolentes. O egoismo inerente de nossa espécie é mais profundo que isso e Tolstoi sabe bem.
E se você espera uma narrativa realista do Tolstoi, erra por muito. A narrativa não está longe do que chamamos de contos fantásticos, lembra avant la lettre certos contos do Tchekhov ou do Maupassant, e isso ilustra bastante bem o fato que desde sempre existiu esse tipo de literatura, e antes nem mesmo se diferenciava "a literatura séria barra realista" da "literatura imaginativa". Tolstoi envolve na narrativa diabos, sonhos, profecias, prenúncios de morte.
"só o que nos consome é não termos terra bastante; se tivesse toda a terra que quero, nem o Diabo seria capaz de meter-me medo.»"
A primeira parte termina com o diabo sentado na lareira. Ele escuta toda a conversa das mulheres (que, numa sacada inteligente do Tolstoi, abrem em diálogo o pano da ação) e o pensamento dos homens. A fagulha do desejo de terra, de propriedade, e o egoísmo faz o demônio rir com seus dentes pontudos, gargalhar, até, quando o homem diz que "só lhe bastava mesmo era mais terra..." A ilusão, ou o desejo, ou o egoismo, ou tudo isso junto é a condenação do homem.
No fim, depois de comprar terra, vender, enganar os outros, tornar-se um homem completamente diferente daquele que começou a história, faz um acordo com alguns baquires por terra e o final... bem, você tem de ler o final.
É daqueles que ficam com você pela eternidade.
How Much Land Does a Man Need? — ✲ 4.5/5.0
Da Minha Terra à Terra: Pela Primeira Vez, o Maior Fotojornalista do Mundo Conta sua História
Isabelle Francq, Sebastião Salgado
Esse é um livro que (vou poupar seu tempo dizendo isso) só deve ser lido se você esgotou tudo que há sobre o Sebastião por aí. Apesar das poucas páginas, e da escrita sóbria, é mais útil para os gringos do que para gente. É uma seção de Wikipedia ligeiramente mais expandido. Em vez disso, há, além do muito, muito bom "O Sal da Terra", as três entrevistas do Sebastião no Roda Viva que são mais interessantes e profundas que este livro — além das próprias exposições e livros de fotografia do homi'. Se você fala ou entende português (ou encara as legendas automáticas, substitua esse livro pesquisando: "Sebastião Salgado", "Roda Viva" no google). Você vai me agradecer.
[Agora, a antiga resenha de quando ainda não tinha t o erminado o livro]
José Saramago diz: “Sentamo-nos ao redor da mesa da cozinha, fomos passando as fotografias de mão em mão, quase em silêncio, com um nó na garganta e os olhos afogados. Sebastião Salgado veio aqui para me pedir que escreva umas páginas para o livro. Assim farei, embora de antemão saiba que, diante do que acabei de ver, todas as palavras sobram, todas são de mais. Ou de menos”. Sebastião foi atrás dele em uma das ilhas que ele morava, não só o encontrou como também o trouxe para o Brasil e juntou-o com Chico Buarque em uma trinca poderosa, para a finalização do seu livro de fotografia ''Terra'', em prol do MST. Livro icônico e premiado com o Jabuti de Literatura.
"Os retratos de Salgado oferecem um retrato múltiplo da dor humana. Ao mesmo tempo, convidam-nos a celebrar a dignidade humana. São de uma franqueza brutal essas imagens de fome e de pena, e, no entanto, têm respeito e pudor. Nada a ver com o turismo da miséria…" Dessa vez quem diz é Eduardo Galeano, e é impossível discordar.
Em Outras Américas, já havia fotografado "Estas Américas Latinas tão misteriosas e sofridas, tão heroicas e nobres."; Em África, tentou mostrar que ''A África não é um continente subdesenvolvido, tem o desenvolvimento que tem. Está buscando sua identidade. Os pobres não necessitam piedade ou caridade, mas compressão e assistência."; Em Êxodos, escancara devastação, campos de refugiados, repressão, guerras e favelas; Em Trabalhadores, dignifica os trabalhadores manuais, que julga prestes a desaparecer, com a veloz industrialização que vem vindo a todo vapor; até culminar em Gênesis, uma carta de amor à humanidade e ao mundo.
Em alguns minutos procurando por alguns desses trabalhos ou algumas fotografias avulsas você já sente o impacto do Tião. Indiscutivelmente o maior fotógrafo brasileiro e um ser humano iluminado: vê-se a exemplo a criação do Instituto Terra, onde com sua esposa, replantaram dois milhões de mudas de árvores, restituindo parte da Mata Atlântica antes devastada, na sua terra em Minas Gerais.
No entanto, pouco disso é visto nessas míseras cento e trinta e poucas páginas. O Documentário sobre seu trabalho, feito pelo grande cineasta alemão Wim Wenders junto do filho do Sebastião, ''O Sal da Terra'', faz surpreendetemente um papel muito melhor que o livro biográfico (digo surpresa porque geralmente os filmes "biográficos" são resumos de resumos). O filme chegou a concorrer ao Oscar, e dado os concorrentes podia muito bem ter vencido; as fotos e narração do Sebastião, com a direção e edição do Wim Wenders, são exuberantes, me emocionei em diversas partes documentário, o que eu cravo com absoluta certa ser impossível de acontecer nessas páginas, secas. As três vezes que foi entrevistado no Roda Viva, por exemplo, foram melhores, mais úteis e fazem mais jus ao grande homem Sebastião.
Esse livro aqui podia ter sido escrito por mim, ou por você, não é um trabalho biográfico. Ponto.
O Sebastião ditou e a Isabelle Francq escreveu da maneira mais simples e prosaica possível, formulaica ao extremo. O livro é disparadamente fraco em comparação com tudo que se tem por aí sobre o Sebastião. Só não considero uma perda de tempo pois ao menos a autora não enrola e não comete grandes erros ou gafes. É um livro só… meio inútil. Faz com que permaneça a necessidade de uma outra (e verdadeira) biografia escrita do Sebastião; na realidade, será mais prazeroso para você conhecer o Sebastião através dos seus próprios livros-reportagens, com fotografias soltas mais sutis, singelas e emocionantes, que todo esse livro aqui, que não passa de uma grande página da Wikipedia.
Por último, um crime cometido por esse livro, uma censura ou cesura deliberada: ocultar a maior qualidade do Sebastião Salgado… não é dito que ele torce para o mais belo clube do Rio de Janeiro: O Fluminense Futebol Clube. É um homem lúcido em todos os aspectos da vida, até na escolha de que para qual time torcer… O motivo dessa ocultação só pode ser um: a francesa que escreveu a biografia, além de péssima biógrafa, é flamenguista.
[Agora, a antiga resenha de quando ainda não tinha t o erminado o livro]
José Saramago diz: “Sentamo-nos ao redor da mesa da cozinha, fomos passando as fotografias de mão em mão, quase em silêncio, com um nó na garganta e os olhos afogados. Sebastião Salgado veio aqui para me pedir que escreva umas páginas para o livro. Assim farei, embora de antemão saiba que, diante do que acabei de ver, todas as palavras sobram, todas são de mais. Ou de menos”. Sebastião foi atrás dele em uma das ilhas que ele morava, não só o encontrou como também o trouxe para o Brasil e juntou-o com Chico Buarque em uma trinca poderosa, para a finalização do seu livro de fotografia ''Terra'', em prol do MST. Livro icônico e premiado com o Jabuti de Literatura.
"Os retratos de Salgado oferecem um retrato múltiplo da dor humana. Ao mesmo tempo, convidam-nos a celebrar a dignidade humana. São de uma franqueza brutal essas imagens de fome e de pena, e, no entanto, têm respeito e pudor. Nada a ver com o turismo da miséria…" Dessa vez quem diz é Eduardo Galeano, e é impossível discordar.
Em Outras Américas, já havia fotografado "Estas Américas Latinas tão misteriosas e sofridas, tão heroicas e nobres."; Em África, tentou mostrar que ''A África não é um continente subdesenvolvido, tem o desenvolvimento que tem. Está buscando sua identidade. Os pobres não necessitam piedade ou caridade, mas compressão e assistência."; Em Êxodos, escancara devastação, campos de refugiados, repressão, guerras e favelas; Em Trabalhadores, dignifica os trabalhadores manuais, que julga prestes a desaparecer, com a veloz industrialização que vem vindo a todo vapor; até culminar em Gênesis, uma carta de amor à humanidade e ao mundo.
Em alguns minutos procurando por alguns desses trabalhos ou algumas fotografias avulsas você já sente o impacto do Tião. Indiscutivelmente o maior fotógrafo brasileiro e um ser humano iluminado: vê-se a exemplo a criação do Instituto Terra, onde com sua esposa, replantaram dois milhões de mudas de árvores, restituindo parte da Mata Atlântica antes devastada, na sua terra em Minas Gerais.
No entanto, pouco disso é visto nessas míseras cento e trinta e poucas páginas. O Documentário sobre seu trabalho, feito pelo grande cineasta alemão Wim Wenders junto do filho do Sebastião, ''O Sal da Terra'', faz surpreendetemente um papel muito melhor que o livro biográfico (digo surpresa porque geralmente os filmes "biográficos" são resumos de resumos). O filme chegou a concorrer ao Oscar, e dado os concorrentes podia muito bem ter vencido; as fotos e narração do Sebastião, com a direção e edição do Wim Wenders, são exuberantes, me emocionei em diversas partes documentário, o que eu cravo com absoluta certa ser impossível de acontecer nessas páginas, secas. As três vezes que foi entrevistado no Roda Viva, por exemplo, foram melhores, mais úteis e fazem mais jus ao grande homem Sebastião.
Esse livro aqui podia ter sido escrito por mim, ou por você, não é um trabalho biográfico. Ponto.
O Sebastião ditou e a Isabelle Francq escreveu da maneira mais simples e prosaica possível, formulaica ao extremo. O livro é disparadamente fraco em comparação com tudo que se tem por aí sobre o Sebastião. Só não considero uma perda de tempo pois ao menos a autora não enrola e não comete grandes erros ou gafes. É um livro só… meio inútil. Faz com que permaneça a necessidade de uma outra (e verdadeira) biografia escrita do Sebastião; na realidade, será mais prazeroso para você conhecer o Sebastião através dos seus próprios livros-reportagens, com fotografias soltas mais sutis, singelas e emocionantes, que todo esse livro aqui, que não passa de uma grande página da Wikipedia.
Por último, um crime cometido por esse livro, uma censura ou cesura deliberada: ocultar a maior qualidade do Sebastião Salgado… não é dito que ele torce para o mais belo clube do Rio de Janeiro: O Fluminense Futebol Clube. É um homem lúcido em todos os aspectos da vida, até na escolha de que para qual time torcer… O motivo dessa ocultação só pode ser um: a francesa que escreveu a biografia, além de péssima biógrafa, é flamenguista.
Numa entrevista acerca deste conto, o Cortázar revela sua gênese: a narrativa nasceu praticamente pronta, fruto de um sonho opressivo, aterrorizante.
Mas, inteligente como é, ele não dá uma chave absoluta para a interpretação. Diz muito bem, e de maneira intrigante, que talvez o próprio sonho dele já fora uma leitura pessoal e íntima de uma narrativa que cruzou o seu subconsciente. Ou seja, mesmo a leitura dele, do autor, transforma-se em UMA das leituras possíveis desta história.
Por consequência, acrescenta, todas as boas leituras do conto permanecem válidas, e são tão ou quão interessantes para ele como a sua própria. Há leituras extremamente diversas, desde a interpretação que ele cita nessa entrevista, que o conto lido é uma alegoria ao peronismo, até a que o conto se trata da pressão familiar e social proveniente de um caso incestuoso entre os irmãos; o campo das possibilidades é amplo.
Mas, apenas isso — um horizonte amplo —, não basta para tornar um conto bom ou grandioso. O auxílio que esse horizonte de leituras tem da escrita fluída e linguagem tonal do Cortázar, desde desde as primeiras linhas jogando o leitor num plano de desconformidade, de anormalidade, é o que faz desse conto um dos grandes; um desses raros casos que a releitura só o engrandece.
Principalmente quando acompanhado de vozes diversas, que não só interpretam a temática, como também o tom, de diferentes modos: em um predomina o terror, em outro o suspense, em alguns, ainda, o insólito. E esse é o assunto que quero tratar brevemente aqui.
Retomando a entrevista, o Cortázar diz que a sensação — rememorada do sonho — que quis transpor nas páginas é o sentimento de terror; de que algo alienígena, estranho, surgia na sua casa, fazendo sons aterradores e desconhecidos, crescendo tão densa e opressivamente que acabava por expulsá-lo do local antes que descobrisse (talvez nem mesmo quisesse) o que era, ou o que se tratava.
A minha leitura, e também a do próprio Cortázar (aqui me refiro tanto à maneira com que a história foi escrita, como a maneira que foi oralmente narrada pelo próprio autor — você encontra no Youtube), particularmente, não me passa a mesma sensação de terror opressivo com que ele relata o sonho. Predomina, em minha leitura, uma estranheza pairando desde as primeiras palavras:
É a subida de um quasi-suspense, que não tem tempo para se potencializar por completo, mas que é alavancada pela extrema passividade e estranheza das personagens principais conforme a narrativa avança. Há algo anormal por trás do cotidiano dos irmãos. Aliás, esse foi um dos pontos que mais saltaram a mim nessa releitura: a excessiva passividade dos irmãos. A maré da narrativa me jogou para mais perto de um terror psicológico, um insólito-psicológico. Diferente da primeira leitura, terminei o conto achando que nada havia na casa; e a paranoia dos irmãos — irmãos estranhíssimos — desde as primeiras páginas, foi o que fez com que eles enxergassem sombras onde nem ao menos havia luz.
Até aqui, além da sua, a minha, e a do Cortázar, quero acrescentar, ainda, uma última leitura, talvez a minha favorita, que se pode dizer que também é uma interpretação apesar de não fazer mais do que recontar o conto com ajuda de alguns efeitos sonoros e mudança no tom de voz. O Borges realmente é um gênio, porque isso aqui é praticamente o que ele fala em Pierre Menard. A leitura do Alberto Laiseca s maise aproxima da concepção do conto-sonho que o Cortázar apresenta, do que a própria leitura que ele mesmo (o autor) faz do texto (recomendo ler a narração do Cortázar, e depois essa aqui): Casa Tomada, por Alberto Laiseca (https://www.youtube.com/watch?v=3ZtRU...).
Para mim, é soberba a narração, se você tem dificuldade de acompanhar o Espanhol, leia o conto traduzido, ou acompanhe-o enquanto ouve a leitura do Laiseca, você pegará com facilidade. Há sensações, por conta da mudança do tom, da estranheza para o terror, que nunca senti lendo o texto do Cortázar no papel. O acréscimo da introdução minimalista de um personagem-narrador casa perfeitamente com a forma do texto do Cortázar, renova o conto de uma forma ímpar. E isso, para mim, desvela méritos para ambos: tanto para o Laiseca quanto para o Cortázar que pôs todas essas possibilidades e viscosidade nesse pequeno conto.
Relendo-o acompanhado dessas múltiplas vozes, o conto foi bom mas simples, que via como não mais que razoável, para um ótimo conto; é justíssimo que seja lembrado sempre que tocamos nas palavras Conto + Cortázar.
Mas, inteligente como é, ele não dá uma chave absoluta para a interpretação. Diz muito bem, e de maneira intrigante, que talvez o próprio sonho dele já fora uma leitura pessoal e íntima de uma narrativa que cruzou o seu subconsciente. Ou seja, mesmo a leitura dele, do autor, transforma-se em UMA das leituras possíveis desta história.
Por consequência, acrescenta, todas as boas leituras do conto permanecem válidas, e são tão ou quão interessantes para ele como a sua própria. Há leituras extremamente diversas, desde a interpretação que ele cita nessa entrevista, que o conto lido é uma alegoria ao peronismo, até a que o conto se trata da pressão familiar e social proveniente de um caso incestuoso entre os irmãos; o campo das possibilidades é amplo.
Mas, apenas isso — um horizonte amplo —, não basta para tornar um conto bom ou grandioso. O auxílio que esse horizonte de leituras tem da escrita fluída e linguagem tonal do Cortázar, desde desde as primeiras linhas jogando o leitor num plano de desconformidade, de anormalidade, é o que faz desse conto um dos grandes; um desses raros casos que a releitura só o engrandece.
Principalmente quando acompanhado de vozes diversas, que não só interpretam a temática, como também o tom, de diferentes modos: em um predomina o terror, em outro o suspense, em alguns, ainda, o insólito. E esse é o assunto que quero tratar brevemente aqui.
Retomando a entrevista, o Cortázar diz que a sensação — rememorada do sonho — que quis transpor nas páginas é o sentimento de terror; de que algo alienígena, estranho, surgia na sua casa, fazendo sons aterradores e desconhecidos, crescendo tão densa e opressivamente que acabava por expulsá-lo do local antes que descobrisse (talvez nem mesmo quisesse) o que era, ou o que se tratava.
A minha leitura, e também a do próprio Cortázar (aqui me refiro tanto à maneira com que a história foi escrita, como a maneira que foi oralmente narrada pelo próprio autor — você encontra no Youtube), particularmente, não me passa a mesma sensação de terror opressivo com que ele relata o sonho. Predomina, em minha leitura, uma estranheza pairando desde as primeiras palavras:
"Entramos nos quarenta anos com a inexprimível ideia de que o nosso, simples e silencioso matrimônio de irmãos, era o fim necessário da genealogia fundada por nossos bisavós em nossa casa. Morreríamos ali em algum dia, vagos e distantes primos ficariam com a casa, e a demoliriam para enriquecerem com o terreno e os tijolos; ou melhor, nós mesmos a derrubaríamos, inflexivelmente, antes que fosse demasiado tarde."
É a subida de um quasi-suspense, que não tem tempo para se potencializar por completo, mas que é alavancada pela extrema passividade e estranheza das personagens principais conforme a narrativa avança. Há algo anormal por trás do cotidiano dos irmãos. Aliás, esse foi um dos pontos que mais saltaram a mim nessa releitura: a excessiva passividade dos irmãos. A maré da narrativa me jogou para mais perto de um terror psicológico, um insólito-psicológico. Diferente da primeira leitura, terminei o conto achando que nada havia na casa; e a paranoia dos irmãos — irmãos estranhíssimos — desde as primeiras páginas, foi o que fez com que eles enxergassem sombras onde nem ao menos havia luz.
"Passávamos bem, e pouco a pouco começávamos a não pensar. Pode-se viver sem pensar. (...)
Até aqui, além da sua, a minha, e a do Cortázar, quero acrescentar, ainda, uma última leitura, talvez a minha favorita, que se pode dizer que também é uma interpretação apesar de não fazer mais do que recontar o conto com ajuda de alguns efeitos sonoros e mudança no tom de voz. O Borges realmente é um gênio, porque isso aqui é praticamente o que ele fala em Pierre Menard. A leitura do Alberto Laiseca s maise aproxima da concepção do conto-sonho que o Cortázar apresenta, do que a própria leitura que ele mesmo (o autor) faz do texto (recomendo ler a narração do Cortázar, e depois essa aqui): Casa Tomada, por Alberto Laiseca (https://www.youtube.com/watch?v=3ZtRU...).
Para mim, é soberba a narração, se você tem dificuldade de acompanhar o Espanhol, leia o conto traduzido, ou acompanhe-o enquanto ouve a leitura do Laiseca, você pegará com facilidade. Há sensações, por conta da mudança do tom, da estranheza para o terror, que nunca senti lendo o texto do Cortázar no papel. O acréscimo da introdução minimalista de um personagem-narrador casa perfeitamente com a forma do texto do Cortázar, renova o conto de uma forma ímpar. E isso, para mim, desvela méritos para ambos: tanto para o Laiseca quanto para o Cortázar que pôs todas essas possibilidades e viscosidade nesse pequeno conto.
Relendo-o acompanhado dessas múltiplas vozes, o conto foi bom mas simples, que via como não mais que razoável, para um ótimo conto; é justíssimo que seja lembrado sempre que tocamos nas palavras Conto + Cortázar.
Um Balde de Ar
25pp
O título me pegou, não nego. Por isso parei para ler mesmo conhecendo pouco do Leiber. Nunca tinha lido nada dele e só o conhecia por meio de citações sobre a importância dele nos tropos de fantasia e por ter batizado o gênero Sword & Sorcery. Não sabia que ele também escrevia ficção científica, e nem que fosse logo ficção científica dura.
O preâmbulo meio longo é válido porque acho que essas duas facetas quase opostas (a densidade do hard sci-fi e as vibrantes histórias de aventura e feitiçaria) estão levemente presentes aqui. E o maior problema não vem da tentativa de conciliar isso, mas sim da forma frouxa que ele dá ao conto.
Antes de chegar aí, porém, ele consegue te segurar na narrativa, sabe contá-la muito bem. A abertura é forte, ao molde daquela famosa historinha "Não há ninguém no mundo. Batem a porta" só que expandida. Começa em primeira pessoa e a exposição acontece aos poucos:
Algum corpo estranho gigantesco passou pelo nosso sistema solar e arrastou a terra para longe do sol (The Big Jerk, chamam), o que faz a atmosfera congelar instantaneamente. Se entendi bem: os diferentes compostos, por conta das diferenças na constituição, congelam de maneira diversa e em camadas diferentes. O pai do protagonista consegue montar um ninho, que é como chamam o buraco de poucos metros quadrados, chapado por paredes grossas e alumínio e outras coisas, onde conseguem sobreviver buscando na parte de cima baldes de oxigênio congelado. Daí o título, sim.
Vestem uma roupa de astronauta improvisada, vão à superfície, buscam o oxigênio congelado, colocam-no perto da fogueira para derreter, e por conta da parede e outras coisas, o oxigênio é retido ali o máximo possível. Antes do balde descongelar, busca-se outro, e assim vão vivendo.
Falando assim parece tedioso, mas não é. Um mundo congelado é um mundo morto, parado, estático? Na visão do autor, não. Justamente por conta da composição de tudo que nos cerca. A dose ação/descrição/construção de mundo é bem administrada, e o ponto de vista do protagonista, quase uma adolescente, é leve e fácil de acompanhar, apesar do conteúdo. É ele quem vai nos contando tudo daquele mundo, afinal já nasceu naquela situação.
Mas há, na perspectiva, indícios do problema do conto; "nós" somos os interlocutores dele, mesmo que até a ação principal, como se vê pela abertura, não havia mais ninguém vivo naquele estado inteiro, ou em todo país, sendo otimista.
Quando o menino vê outra pessoa lá fora, não confia nos próprios olhos, e conta ao pai; e a reação dele, pelo contexto da situação, é meio esquisita (intencionalmente). E, de novo, essas perguntas vão surgindo e nos mantém lendo.
A sequência final, entretanto… é broxante e anticlimática. A única explicação possível, a meu ver — até aí a narrativa estava sendo muito bem conduzida, — é que o Leiber se cansou do conceito e quis acabar logo; não quis desenvolver mais nada.
Sem alerta de spoiler mesmo porque acho que ninguém vai ler uma história tão nichada: não era paranoia do menino, eram mesmo pessoas. Elas se revelam interessadas por como aquela gente conseguiu viver dentro de um buraco, com baldes de oxigênio... e revelam haver diversos redutos de humanidade pelo mundo. Há até uma pitada de desenvolvimento de personagem na relação dos visitantes com o menino mas... subitamente o conto acaba. A conclusa acaba sendo: mesmo a terra solapada forçadamente do sistema solar, mesmo com tudo congelado, a humanidade ainda dá seu jeititinho de ir vivendo. Isso sou eu extrapolando o fim, que consegue ser mais abrupto que isso.
É uma das piores conclusões de conto que li nos últimos tempos. Você, no fruir da leitura, percebe o quão estranho é, sente o baque da narrativa forçosamente interrompida. Só se salva de críticas maiores porque tudo o que vem antes é relativamente interessante e, sobretudo, não tenta de maneira alguma ser o que não é: não há enrolação ou desfiles descritivos ou longos parágrafos densos de ciência dura ou qualquer outras dessas características que cansam em certos sci-fi. Termina sendo o vislumbre de uma boa história, com um retrogosto amargo no final.
25pp
O título me pegou, não nego. Por isso parei para ler mesmo conhecendo pouco do Leiber. Nunca tinha lido nada dele e só o conhecia por meio de citações sobre a importância dele nos tropos de fantasia e por ter batizado o gênero Sword & Sorcery. Não sabia que ele também escrevia ficção científica, e nem que fosse logo ficção científica dura.
O preâmbulo meio longo é válido porque acho que essas duas facetas quase opostas (a densidade do hard sci-fi e as vibrantes histórias de aventura e feitiçaria) estão levemente presentes aqui. E o maior problema não vem da tentativa de conciliar isso, mas sim da forma frouxa que ele dá ao conto.
Antes de chegar aí, porém, ele consegue te segurar na narrativa, sabe contá-la muito bem. A abertura é forte, ao molde daquela famosa historinha "Não há ninguém no mundo. Batem a porta" só que expandida. Começa em primeira pessoa e a exposição acontece aos poucos:
"Vou te falar, eu até pensei, na hora, que fosse uma jovem. Sim, o rosto bonito de uma jovem, iluminado por algo e olhando diretamente para mim. Do quinto andar do apartamento do outro lado da rua. Mais ou menos na mesma altura onde se formou o cobertor branco de ar congelado. Nunca vi uma menina da minha idade antes, exceto nas velhas revista que encontro por aí — minha irmã ainda é uma criança, e minha mãe uma idosa, bastante doente e miserável — por essas razões o susto que levei foi tão grande que o balde de oxigênio foi ao chão. Quem não se assustaria, sabendo que não há mais ninguém vivo na terra além de nossa família e você, ao ver outra pessoa por aí?"
Algum corpo estranho gigantesco passou pelo nosso sistema solar e arrastou a terra para longe do sol (The Big Jerk, chamam), o que faz a atmosfera congelar instantaneamente. Se entendi bem: os diferentes compostos, por conta das diferenças na constituição, congelam de maneira diversa e em camadas diferentes. O pai do protagonista consegue montar um ninho, que é como chamam o buraco de poucos metros quadrados, chapado por paredes grossas e alumínio e outras coisas, onde conseguem sobreviver buscando na parte de cima baldes de oxigênio congelado. Daí o título, sim.
Vestem uma roupa de astronauta improvisada, vão à superfície, buscam o oxigênio congelado, colocam-no perto da fogueira para derreter, e por conta da parede e outras coisas, o oxigênio é retido ali o máximo possível. Antes do balde descongelar, busca-se outro, e assim vão vivendo.
Falando assim parece tedioso, mas não é. Um mundo congelado é um mundo morto, parado, estático? Na visão do autor, não. Justamente por conta da composição de tudo que nos cerca. A dose ação/descrição/construção de mundo é bem administrada, e o ponto de vista do protagonista, quase uma adolescente, é leve e fácil de acompanhar, apesar do conteúdo. É ele quem vai nos contando tudo daquele mundo, afinal já nasceu naquela situação.
Mas há, na perspectiva, indícios do problema do conto; "nós" somos os interlocutores dele, mesmo que até a ação principal, como se vê pela abertura, não havia mais ninguém vivo naquele estado inteiro, ou em todo país, sendo otimista.
Quando o menino vê outra pessoa lá fora, não confia nos próprios olhos, e conta ao pai; e a reação dele, pelo contexto da situação, é meio esquisita (intencionalmente). E, de novo, essas perguntas vão surgindo e nos mantém lendo.
A sequência final, entretanto… é broxante e anticlimática. A única explicação possível, a meu ver — até aí a narrativa estava sendo muito bem conduzida, — é que o Leiber se cansou do conceito e quis acabar logo; não quis desenvolver mais nada.
Sem alerta de spoiler mesmo porque acho que ninguém vai ler uma história tão nichada: não era paranoia do menino, eram mesmo pessoas. Elas se revelam interessadas por como aquela gente conseguiu viver dentro de um buraco, com baldes de oxigênio... e revelam haver diversos redutos de humanidade pelo mundo. Há até uma pitada de desenvolvimento de personagem na relação dos visitantes com o menino mas... subitamente o conto acaba. A conclusa acaba sendo: mesmo a terra solapada forçadamente do sistema solar, mesmo com tudo congelado, a humanidade ainda dá seu jeititinho de ir vivendo. Isso sou eu extrapolando o fim, que consegue ser mais abrupto que isso.
É uma das piores conclusões de conto que li nos últimos tempos. Você, no fruir da leitura, percebe o quão estranho é, sente o baque da narrativa forçosamente interrompida. Só se salva de críticas maiores porque tudo o que vem antes é relativamente interessante e, sobretudo, não tenta de maneira alguma ser o que não é: não há enrolação ou desfiles descritivos ou longos parágrafos densos de ciência dura ou qualquer outras dessas características que cansam em certos sci-fi. Termina sendo o vislumbre de uma boa história, com um retrogosto amargo no final.
Original em Inglês [Trad. Livre minha]
Conto de Ficção Científica
✲ 3.0/5.0
"Luar de janeiro,
Fria claridade
À luz dele foi talvez
Que primeiro
A boca dum português
Disse a palavra saudade…"
Antes de tudo, finjam que recebi um livre-conduto para ser fastidioso e altiloquente (já comecei e você nem percebeu); Luar de Janeiro é um livro português de poesia de mais de cento e vinte anos atrás. E apesar da brincadeira inicial, o Augusto Gil (ao menos na versão seguindo o acordo ortográfico que li) não é enfadonho, nem pomposo; até mesmo coloca uma citação de Michelet onde dá uma leve repreendida no exagero do romantismo (apesar dele próprio certas vezes coxear para esse lado); a linguagem é clara, e predominam-se as baladas, as melodias, as músicas e as toadas, de um lado. De outro, poemas intricados, que criam uma imagem tremida, para que uma segunda ou terceira leitura solidifique uma certa engenhosidade de construção; há comédia, conselhos, amor, religiosidade, e todos poemas são dedicados à contemporâneos do autor, parentes, e até amores anônimos; todos são, também, muito agradáveis de se ler, não geniais, mas gostosos. São ternos e fulgentes, como provenientes da mesma luz do luar que fisicamente atua como cenário vívido de diversos poemas dessa coleção.
A pontuação é curiosa, o Augusto utiliza muito de ponto e virgula, e realço isso, pois, percebe-se pelos títulos de certos poemas — baladas e toadas — e também do ritmo melódico (há até uma famosa canção portuguesa à Nossa Senhora) que são poemas para serem declamados e/ou cantados. O ponto-e-virgula de certa forma não atrapalharia a interpretação dos declamadores? É uma questão que me surgiu e que a deixo aqui; isso também me passa de certa forma a sensação de que essa é uma coleção de poemas curiosa (ou, não muito pensada a fundo): há, no meio de tudo, desde uma tradução do francês de um poema erótico (ou quase), até uma releitura (com aconselhamento direcionado a pessoas específicas) de passagens de Eclesiastes.
Não que seja um problema; por fim, gostei bastante até. Encontrei o autor aleatoriamente, algum hiperlink me jogou para um blogue de poesia onde havia uma seleção de poemas do Luar de Janeiro. Li, gostei, e como era curto, resolvi pegar para ler: decisão acertada. Vou atrás dos outros livros dele. Descobri que ele verteu e adaptou alguns poemas da Antiguidade Clássica (do Francês, não diretamente do Grego) em “Rosa das Manhãs”, é algo que eu me interesso, então, é este meu próximo alvo.
Antes de ir, alguns comentários sobre os poemas:
o Luar de Janeiro, visto em diferentes tempos, por diferentes pessoas, e em lugares específicos; a casa de janelas e portas fechadas, mas banhada pelo luar em suas frestas; o luar que banha o primeiro português a proferir a palavra saudade; a luz branca vista pelos pobres, o frio, e o ronco da barriga; a luz vista de uma floresta escura, banhando o sorriso, de uma criança morta…
Sextilha à um Menino Jesus é um poema que reflete o encanto sentido por Augusto para com uma Imagem de Jesus (que você encontra na internet pelo nome de "Menino Jesus Chorão" gordinho, de bochechas coradas, e olhar suplicante.
Balada da Neve: Cai neve em Portugal, da janela de sua casa o eu-lírico a observa, e também observa as pegadas abafadas pela neve, e o rastro de pezinhos infantis; se compadece das crianças que, como os passinhos na neve, esvaecem do mundo precocemente.
"Fui ver. A neve caía
Do azul cinzento do céu
Branca e leve, branca e fria…
— há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!"
Toada para as Mães é uma canção de acalento para a sobrinha, que, juntando ao fato do eu-lírico ser uma mulher que acabou de dar à luz uma criança, serve de aconselhamento para a mãe de primeira viagem.
O Nosso Lar, sobre casas, lares e seus aspectos, que de certa maneira condizem com os sentimentos daquele que nela habitam; idealiza para si, na extensão do poema, uma casa, que reflita sua própria poesia, sem grades, de um andar, para não cansar; com jardins de lilases e cravos, para que encham-no de paz; sempre aberto, para aqueles que necessitem de hospitalidade.
Na outra face do poema, sobra para os prédios, e para as casas exageradamente muradas e gradeadas, que diz pertencer ao egoismo e ao capitalismo do dono. Nesse caso, julgo ser apenas para fins poéticos, não acho que ele esqueceria do fator principal dos muros e grades: segurança. Ou, naquela época, cem anos atrás, em Portugal, talvez fosse diferente do meu atual Rio de Janeiro.
O que o Fogo Poupou dum Poemeto Queimado: Segue-se à abertura, uma mimese da Invocação Às Musas, dos Poemas Homéricos, só que oferecida ao Deus Cristão, um poema que trata da "mais santa, a mais cheia de pureza / Das moças deste lindo Portugal." Uma mulher que, segundo o poeta, os olhos são tristes por não ver em que rosto eles estão; a voz é piedosa, porque sente pena de deixar uma boca tão bela; o riso vibra, para roubar um beijo às escondidas; e a sombra, quando o sol bate por trás de si, é a luz que se afasta para ela passar. Bem bonito (e olha que ele bate no romantismo, hein…)
Melodia Confidencial: Uma tradução do francês de Albert Samain. Um poema quase erótico, sobre um aconchego entre dois amantes. Há muitas citações françecas, incluindo Verlaine, e como já supracitado, Michelet.
O Passeio de Santo Antônio: Um divertido poema, sobre quando durante um passeio, Santo Antônio encontra o Menino Jesus; e, próximo da fonte que pararam, ao longe, vem um casal enamorado, rindo e se beijando sob a luz do luar. A comicidade desenvolve-se em torno das perguntas do Menino Jesus sobre os beijos e carícias do casal, com que Santo Antônio disfarçar a todo custo; quando a situação se eleva a tanto, toma o Menino pelos braços dizendo "Já é hora... já é hora..."
Carta a um Rapaz Sentimental: Numa caminhada, um rapaz ergue os olhos para medir o céu e vertiginosamente caí nos olhos de uma bela mulher; na troca de olhares, o tempo se condensa e se alarga; vão se anos de amor e sofrimento, por conta de um olhar.
Anos felizes neste amor gastei. / Vieram em seguida as horas más. / O que nelas sofri, o que passei, / Um dia, noutra carta, o saberás.
Noiva: Um grande poema. Noiva, cria-se quando o Augusto recebe uma carta dizendo que um de seus antigos amores irá se casar, e, estranhamente, não sente raiva ou ciume, inclusive surpreende-se pela serenidade. Perpassa então a relação, em versos inspirados, sobre os desafetos e desentendidos; e depois, sobre a marca que ambos deixaram um no outro, não há amor, mas ainda há o gosto. Acaba, por fim, confirmando: "Então, se te olhar bem, logo adivinha..../Logo sombriamente se convence/De que a tua alma se fundiuna minha/ - e apenas o teu corpo lhe pertence.
DE PROFUNDIS CLAMAVI AD TE DOMINE: Um homem questiona a Deus o motivo de até num charco fétido, o sol alegre certa hora do dia visitar, e nele só a infâmia perdurar; será que o Senhor não esmagas um seixo, achando ser um coração dum homem?! Veja de novo!
A Máscara: No cenário de um baile mascarado/carnavalesco, o poema trata da nossa projeção de beleza, e a atração pelos pequenos traços. "Que diferente do que eu supus!/(…) A gente nunca deve entrar com luz/Nos divinos recantos do mistério…
Um Grão de Incenso: Não tão bonito quanto os outros, mas astuto pelo que não mostra. É necessário que se monte a cena na cabeça para entender o poema. Um homem que lamenta a falta de atenção que uma mulher lhe dá. Esse dá para reproduzir na integra:
Entraste com ar cansado
Numa igreja fria e triste.
Ajoelhei-me ao teu lado
– E nem ao menos me viste...
Ficaste a rezar ali,
Naquela imensa tristeza.
Rezei também, mas a ti.
– Que aos anjos também se reza...
Ficaste a rezar até
Manhã dentro, manhã alta.
Como é que tens tanta fé
E a caridade te falta?...
A Canção das Perdidas: Um poema inteligente, visual, que vai se montando aos poucos; o clamor de uma mulher abandonada com um filho para criar, sozinha. "Quem te quer, para um bocado/Quem não quer, passa adiante...
In Promptum Pastoral: "Não conhecer o talento/Nem nada do que se ensina./Esta dor do entendimento/É pior do que se imagina..." Invocando Virgílio, para o eu-lírico, é melhor ser um pastor, renegar a vida e as mulheres citadinas, amar uma pastora e viver de maneira simples; com cuidados infinitos, cuidar da companheira, ver nascer o filhinho… observar as ovelhas, e os pequenos bezerrinhos…
Fria claridade
À luz dele foi talvez
Que primeiro
A boca dum português
Disse a palavra saudade…"
Antes de tudo, finjam que recebi um livre-conduto para ser fastidioso e altiloquente (já comecei e você nem percebeu); Luar de Janeiro é um livro português de poesia de mais de cento e vinte anos atrás. E apesar da brincadeira inicial, o Augusto Gil (ao menos na versão seguindo o acordo ortográfico que li) não é enfadonho, nem pomposo; até mesmo coloca uma citação de Michelet onde dá uma leve repreendida no exagero do romantismo (apesar dele próprio certas vezes coxear para esse lado); a linguagem é clara, e predominam-se as baladas, as melodias, as músicas e as toadas, de um lado. De outro, poemas intricados, que criam uma imagem tremida, para que uma segunda ou terceira leitura solidifique uma certa engenhosidade de construção; há comédia, conselhos, amor, religiosidade, e todos poemas são dedicados à contemporâneos do autor, parentes, e até amores anônimos; todos são, também, muito agradáveis de se ler, não geniais, mas gostosos. São ternos e fulgentes, como provenientes da mesma luz do luar que fisicamente atua como cenário vívido de diversos poemas dessa coleção.
A pontuação é curiosa, o Augusto utiliza muito de ponto e virgula, e realço isso, pois, percebe-se pelos títulos de certos poemas — baladas e toadas — e também do ritmo melódico (há até uma famosa canção portuguesa à Nossa Senhora) que são poemas para serem declamados e/ou cantados. O ponto-e-virgula de certa forma não atrapalharia a interpretação dos declamadores? É uma questão que me surgiu e que a deixo aqui; isso também me passa de certa forma a sensação de que essa é uma coleção de poemas curiosa (ou, não muito pensada a fundo): há, no meio de tudo, desde uma tradução do francês de um poema erótico (ou quase), até uma releitura (com aconselhamento direcionado a pessoas específicas) de passagens de Eclesiastes.
Não que seja um problema; por fim, gostei bastante até. Encontrei o autor aleatoriamente, algum hiperlink me jogou para um blogue de poesia onde havia uma seleção de poemas do Luar de Janeiro. Li, gostei, e como era curto, resolvi pegar para ler: decisão acertada. Vou atrás dos outros livros dele. Descobri que ele verteu e adaptou alguns poemas da Antiguidade Clássica (do Francês, não diretamente do Grego) em “Rosa das Manhãs”, é algo que eu me interesso, então, é este meu próximo alvo.
Antes de ir, alguns comentários sobre os poemas:
o Luar de Janeiro, visto em diferentes tempos, por diferentes pessoas, e em lugares específicos; a casa de janelas e portas fechadas, mas banhada pelo luar em suas frestas; o luar que banha o primeiro português a proferir a palavra saudade; a luz branca vista pelos pobres, o frio, e o ronco da barriga; a luz vista de uma floresta escura, banhando o sorriso, de uma criança morta…
Sextilha à um Menino Jesus é um poema que reflete o encanto sentido por Augusto para com uma Imagem de Jesus (que você encontra na internet pelo nome de "Menino Jesus Chorão" gordinho, de bochechas coradas, e olhar suplicante.
Balada da Neve: Cai neve em Portugal, da janela de sua casa o eu-lírico a observa, e também observa as pegadas abafadas pela neve, e o rastro de pezinhos infantis; se compadece das crianças que, como os passinhos na neve, esvaecem do mundo precocemente.
"Fui ver. A neve caía
Do azul cinzento do céu
Branca e leve, branca e fria…
— há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!"
Toada para as Mães é uma canção de acalento para a sobrinha, que, juntando ao fato do eu-lírico ser uma mulher que acabou de dar à luz uma criança, serve de aconselhamento para a mãe de primeira viagem.
O Nosso Lar, sobre casas, lares e seus aspectos, que de certa maneira condizem com os sentimentos daquele que nela habitam; idealiza para si, na extensão do poema, uma casa, que reflita sua própria poesia, sem grades, de um andar, para não cansar; com jardins de lilases e cravos, para que encham-no de paz; sempre aberto, para aqueles que necessitem de hospitalidade.
Na outra face do poema, sobra para os prédios, e para as casas exageradamente muradas e gradeadas, que diz pertencer ao egoismo e ao capitalismo do dono. Nesse caso, julgo ser apenas para fins poéticos, não acho que ele esqueceria do fator principal dos muros e grades: segurança. Ou, naquela época, cem anos atrás, em Portugal, talvez fosse diferente do meu atual Rio de Janeiro.
O que o Fogo Poupou dum Poemeto Queimado: Segue-se à abertura, uma mimese da Invocação Às Musas, dos Poemas Homéricos, só que oferecida ao Deus Cristão, um poema que trata da "mais santa, a mais cheia de pureza / Das moças deste lindo Portugal." Uma mulher que, segundo o poeta, os olhos são tristes por não ver em que rosto eles estão; a voz é piedosa, porque sente pena de deixar uma boca tão bela; o riso vibra, para roubar um beijo às escondidas; e a sombra, quando o sol bate por trás de si, é a luz que se afasta para ela passar. Bem bonito (e olha que ele bate no romantismo, hein…)
Melodia Confidencial: Uma tradução do francês de Albert Samain. Um poema quase erótico, sobre um aconchego entre dois amantes. Há muitas citações françecas, incluindo Verlaine, e como já supracitado, Michelet.
O Passeio de Santo Antônio: Um divertido poema, sobre quando durante um passeio, Santo Antônio encontra o Menino Jesus; e, próximo da fonte que pararam, ao longe, vem um casal enamorado, rindo e se beijando sob a luz do luar. A comicidade desenvolve-se em torno das perguntas do Menino Jesus sobre os beijos e carícias do casal, com que Santo Antônio disfarçar a todo custo; quando a situação se eleva a tanto, toma o Menino pelos braços dizendo "Já é hora... já é hora..."
Carta a um Rapaz Sentimental: Numa caminhada, um rapaz ergue os olhos para medir o céu e vertiginosamente caí nos olhos de uma bela mulher; na troca de olhares, o tempo se condensa e se alarga; vão se anos de amor e sofrimento, por conta de um olhar.
Anos felizes neste amor gastei. / Vieram em seguida as horas más. / O que nelas sofri, o que passei, / Um dia, noutra carta, o saberás.
Noiva: Um grande poema. Noiva, cria-se quando o Augusto recebe uma carta dizendo que um de seus antigos amores irá se casar, e, estranhamente, não sente raiva ou ciume, inclusive surpreende-se pela serenidade. Perpassa então a relação, em versos inspirados, sobre os desafetos e desentendidos; e depois, sobre a marca que ambos deixaram um no outro, não há amor, mas ainda há o gosto. Acaba, por fim, confirmando: "Então, se te olhar bem, logo adivinha..../Logo sombriamente se convence/De que a tua alma se fundiuna minha/ - e apenas o teu corpo lhe pertence.
DE PROFUNDIS CLAMAVI AD TE DOMINE: Um homem questiona a Deus o motivo de até num charco fétido, o sol alegre certa hora do dia visitar, e nele só a infâmia perdurar; será que o Senhor não esmagas um seixo, achando ser um coração dum homem?! Veja de novo!
A Máscara: No cenário de um baile mascarado/carnavalesco, o poema trata da nossa projeção de beleza, e a atração pelos pequenos traços. "Que diferente do que eu supus!/(…) A gente nunca deve entrar com luz/Nos divinos recantos do mistério…
Um Grão de Incenso: Não tão bonito quanto os outros, mas astuto pelo que não mostra. É necessário que se monte a cena na cabeça para entender o poema. Um homem que lamenta a falta de atenção que uma mulher lhe dá. Esse dá para reproduzir na integra:
Entraste com ar cansado
Numa igreja fria e triste.
Ajoelhei-me ao teu lado
– E nem ao menos me viste...
Ficaste a rezar ali,
Naquela imensa tristeza.
Rezei também, mas a ti.
– Que aos anjos também se reza...
Ficaste a rezar até
Manhã dentro, manhã alta.
Como é que tens tanta fé
E a caridade te falta?...
A Canção das Perdidas: Um poema inteligente, visual, que vai se montando aos poucos; o clamor de uma mulher abandonada com um filho para criar, sozinha. "Quem te quer, para um bocado/Quem não quer, passa adiante...
In Promptum Pastoral: "Não conhecer o talento/Nem nada do que se ensina./Esta dor do entendimento/É pior do que se imagina..." Invocando Virgílio, para o eu-lírico, é melhor ser um pastor, renegar a vida e as mulheres citadinas, amar uma pastora e viver de maneira simples; com cuidados infinitos, cuidar da companheira, ver nascer o filhinho… observar as ovelhas, e os pequenos bezerrinhos…