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rolandosmedeiros 's review for:
Orgulho e Preconceito
by Jane Austen
Orgulho e Preconceito — 4.0✲
Dissolvendo Preconceitos (Literários) /
Dissolving (Literary) Preconceptions
Uma lição que ficou dos dois últimos romances que li de cabo a rabo (Liaisons Dangereseus e Orgulho e Preconceito) foi o de não sonegar a MINHA leitura de um livro; não ceder algo tão importante a ninguém. Que sejam opiniões positivas ou negativas, de críticos estudados ou meros palpiteiros. Se eu me detivesse em assuntos menores, como tema e gênero (na verdade, subgênero), não teria lido esses dois romances que foram, respectivamente, minhas melhores leituras recentes de ficção.
Eu entrei no livro justamente cheio de preconceitos, o primeiro deles por conta da quantidade de meninas que votaram para que fosse este o livro que abriria o clube de leitura da faculdade; pensei que: mais clichê, impossível.
Mas, quando o assunto é ler, nunca faço corpo mole, não passou pela minha cabeça abandonar a participação ou fazer algo como leitura dinâmica, procurar resumo na internet, nem nada disso. Até seria interessante para fazer contraponto na hora da discussão, que houvesse uma pessoa ali que não tivesse gostado, e que eu imaginei que seria eu. Mas, a literatura tem disso, e na hora da discussão, ocorreu o inverso: eu tinha sido o que mais gostei, e algumas das meninas que fizeram um VOTANAÇO para Orgulho e Preconceito ganhar, haviam gostado menos numa segunda leitura.
Meu preconceito para com a obra durou menos que o do Sr. Darcy para com Elizabeth, e nas primeiras páginas, logo na primeira cena e abertura, que é uma das grandes aberturas da literatura mundial, por A + B eu percebi que não estava diante do clichezão que havia construído na minha mente. Antes, era essa a impressão que sempre tinha quando alguém citava Orgulho e Preconceito (filme ou livro); e eu era tão ignorante quanto a narrativa, que para mim, foi uma surpresa quando o foco da narrativo saiu de Jane e Bingley (que protagonizam os primeiros "conflitos do livro"), pra uma aproximação maior com a Elizabeth, que primeiro está ali como inteligente observadora, e isso é bastante significativo.
Mas, enfim, a abertura, na tradução que escolhi (Roberto Leal Ferreira/Martin Claret), depois de bater e compará-la com algumas outras, a clássica do Lúcio Cardoso, a da Penguin Companhia (essa é muito boa em notas), se sobressaiu pra mim a do Roberto Leal Ferreira:
A minha primeira boa impressão, e isso vai ficar comprovado ao longo do livro, é a utilização de um narrador que está imerso na geografia local, nas fofocas do lugarejo, nos preconceitos das famílias, mas ainda sim, posicionado a uma distância pungente, salpicando ironia, indo e vindo de personagens, acelerando e desacelerando a narrativa. "É uma verdade universalmente reconhecida" daquele lugar e daquela sociedade tão e unicamente. Já se percebe que o narrador fala com sua voz “demiúrgica” mas o que ele expressa é uma “verdade” do povo ali circundante.
O narrador aproxima-se, certas vezes, mais de uns que de outros personagens — apesar da maior parte do tempo, de braços dados, acompanhar a Lizzy — numa terceira pessoa que não é de maneira nenhuma muito descritiva ou demasiadamente datada (há quem veja lampejos do discurso indireto em certas partes) a ação se dá num modo quase de drama (gênero), a partir de diálogos representativos, ou cartas (que é onde se dá a maior parte da ação fora do diálogo, apesar de de certa forma, também ser um tipo de diálogo) e isso aproxima a Jane Austen das minhas últimas leituras prediletas, do Laclos e do conterrâneo dela D.H. Lawrence.
Ainda no primeiro capítulo, já temos posta uma das muitas questões dramáticas do romance, que vai perdurar por alguns capítulos, um pouco morosa, sim, em comparação com outras, mas que será interessante quando essas questões forem se resolvendo, se alternando, e gerando outras.
É, esta, a chegada do Bingley (acompanhado de Darcy), e a questão: como se dará o relacionamento do homem com a vizinhança? Principalmente, com a família que acompanhamos na abertura?
Vemos tudo, nesse primeiro capítulo, da perspectiva do Sr. e da Sra. Bennet, o que não é gratuito, e que serve para já num primeiro capítulo mostrar muito do contraste entre esse pai e essa mãe (e vosso próprio casamento em comparação com outros casamentos), que vai perdurar ao longo de todo o livro; é um prelúdio para os múltiplos conflitos e relações antagônicas, partindo inicialmente desse lar, e então indo para outros, abrindo-se em mais personagens, sem nunca abandoná-lo: afinal, é o lar de Lizzy.
Em poucas páginas, a caracterização, apesar de um pouco expositiva demais — no sentido de, ela definir com adjetivos algo que percebemos facilmente através dos bons diálogos (esse é um dos problemas que tenho com a poética da Austen), coloca em evidência a personalidade de ambos e nos diz muito com pouca "descrição de ações"; é quase como num Drama mesmo, a autora faz-nos imaginar muito bem, só com o discurso direto, a disposição de uma cena e da atuação e disposição dos personagens em cena. Apesar de no fim, ela “entregar o ouro” aos leitores, e faz isso com alguma frequência que incomoda, certas vezes numa caracterização e certas vezes (mais problemáticas) em questões de desenlace de narrativa.
A demarcação desse primeiro "conflito" entre marido e mulher é interessantíssimo. Já diz muito e ilustra uma faceta dos casamentos, assunto que cortará por todo o livro, desde o casamento de Jane (a irmã), Charlotte (a amiga) e Lidya (a outra irmã) e suas diferenças: necessidade, interesse, erro, ingenuidade. Observados pela ótica da Elizabeth, uma grande observadora de caráteres, mas que pisa em falso muitas vezes, e demonstra que a grande observadora vêm mesmo por detrás dela — e vale retificar, uma não é a outra —: a Jane Austen.
Avançando no primeiro capítulo, a Sra. Bennet ferve com a notícia do homem solteiro de mudança e não cessa de confabular planos, antes mesmo do primeiro diálogo do romance acontecer ela já tem planejada uma apresentação em mente: "— Meu caro sr. Bennet — disse-lhe a esposa certo dia —, sabia que Netherfield Park foi enfim alugado? (…) Ora, meu querido, como você sabe, a sra. Long diz que Netherfield foi alugado por um jovem de amplas posses do norte da Inglaterra (…)." Enquanto o Sr. Bennet, pelo contrário, de nada sabe. Imaginamos-o tomando um café e lendo seu jornal. Não mede palavras para falar das filhas, e não esconde a preferência por Lizzy; mais um conflito óbvio entre marido e mulher: a Jane Austen vai salpicando tudo isso já no conciso primeiro capítulo: "— Não quero que você faça isso. Lizzy não é nem um pouco melhor do que as outras; e tenho certeza de que não tem a metade da beleza de Jane, nem metade do bom humor de Lydia. Mas você sempre dá a ela a preferência."
A preocupação extrema com o casamento das suas meninas e a falta de tato é o que define a personalidade da Sra. Bennet; e a distância e o isolamento irônico do Sr. Bennet (é o personagem com as linhas de diálogo mais engraçados de todo o livro) ilustra um casamento que “deu errado”, e mais para frente saberemos por quê.
A Jane Austen não mede palavras na descrição da Inglesa "média", que tem como consolo visitas e fofocas, e como único plano de vida casar as filhas. E da mesma maneira que coloca na voz do Sr. Bennet, um patriarca que diz: "Nenhuma delas tem muita coisa que as recomende replicou ele —; são todas tolas e ignorantes, como as meninas sempre são", coloca também no narrador, sobre a Sra. Bennet: "A mente dela era menos difícil de descrever. Era uma mulher de inteligência medíocre, pouca cultura e temperamento inconstante. Quando se contrariava, imaginava estar doente dos nervos. Seu objetivo na vida era ver as filhas casadas; seu consolo, as visitas e as fofocas.". E é esta a família da nossa protagonista.
Sobre isto, há de se ter algum cuidado:
Mesmo que o casamento fosse uma das únicas saídas para as mulheres daquela época, e a Sra. Bennet, por ter quatro filhas mulheres, e um testamento que impediria que elas — com a morte do marido — herdassem algo (tornando imporatntíssimo o casamento das filhas) é jogada uma luz muito mais crítica na Sra. Bennet do que, por exemplo, no casamento “frio” entre Collins e Charlotte.
Ao longo de todo o romance é a mãe-casadeira que expõe-se muito mais aos olhares irônicos do narrador. Se conseguimos encarar o romance como em consonância com as ideias da Mary Wolstonecraft, publicando poucos anos antes da Jane, principalmente na personagem da Lizzy (e de sua graça que vêm da personalidade forte e da razão sobre a sensibilidade), podemos também suspeitar que além da crítica a uma Aristocracia altiva que quer mais utilizar da sua posição para se meter na vida de todo mundo (vemos isso na personagem da Lady Chaterine), há também uma crítica às mulheres obcecadas pelo casamento e que vivem sob função disso (a mãe e Lidya, por exemplo, “caem” no erro por conta disso), em comparação com o casamento observado a partir da razão e do afeto — obviamente, o de Lizzy. Mas, incluo em relação a esse primeiro, também o casamento de Charlotte (fiquei na minha cabeça que se a Austen — e não a Elizabeth, cheia de seus preconceitos, futuramente superados — estivesse realmente criticando a decisão da Charlotte, veríamos, durante a visita de Lizzy a amiga, algo muito pior do que vemos em relação a seu casamento). E isso deixo para quem mais leu tirar as próprias conclusões.
Enfim, é um livro feliz, ponto. Então não vou nem falar sobre a idealização de Elizabeth que um casamento, mesmo que meticulosamente pensado e investigado (sentimentalmente e racionalmente), signifique felicidade: sabemos, hoje em dia, que não. E por isso o livro faz bem em acabar antes do casamento em si e seus dias subsequentes.
O final, muito novelesco - no sentido de novela mesmo (não atoa pode-se considerar a Austen mãe de grande parte do sub-gênero do romance no cinema -, entretanto, me colocou um sorriso bobo no rosto; e a semana que passei naquela inglaterra, nos bailes, nos passeios de Orgulho e Preconceito, com seus personagens, suas maneiras, sua sociedade muito diferente mas também muito parecida com a nossa, valeu a pena.
Percebe-se também a habilidade da Jane Austen como uma grande romancista na maneira como ela constrói e amarra a narrativa, se você ler atentamente, perceberá como muito do que virá a seguir, se você imaginar que aqueles personagens estão vivos, e estão atuando naquele mundo, enquanto outra coisa está sendo narrada, quando outra coisa está em evidência, você pegará muito dos pequenos desenlaces antes mesmo que a Austen os resolva, e é muito recompensador — quando a autora não dúvida dos "elfos ignorates*" e entrega todo o ouro no final do parágrafo.
Grande livro, e quando terminei ele, lembro da sensação de que se a "tia de Steventon", que preferia muito mais ser boa para com seus sobrinhos do que uma famosa escritora, que viajou pouco na vida além das quatro paredes dos lares e dos bailes, que não precisou de grandes excitações e só a partir da observação, da ironia para com o seu tempo e seus costumes, construiu um microcosmo tão gostoso de ler, e uma visão tão interessante, senti que todo mundo deveria escrever mesmo, e não que há literatura de mais, e leitores de menos; e sim, autores de mais, e visões de mundo de menos. (Mas bem que pode ser só uma bonita ilusão criada em mim pelas qualidades intrínsecas da Jane Austen; talvez se o mesmo tema de Orgulho e Preconceito fosse observado por outros olhos e escrito por outra mão que não a dela, pensaria o oposto. Não sei.)
Tinha mais coisa para falar aqui, sobre a comparação com o Choderlos de Laclos, sobre como ambos utilizam as cartas, sobre como ambos vêem a educação das mulheres, como ambos são diferentes nas abordagens, mesmo que ambos se apoiem sobre o Richardson (o Laclos têm Clarissa como uma obra-prima — apesar de ele ter superado e muito o Richardson com suas Liaisons Dangereuses —, e a Austen têm como seus romances favoritos Sir Charles Grandison — que muito a inspirou —, e Pamela, também do Richardson), mas por enquanto é isso.
-x-
*Jane Austen: "Eu não escrevo para elfos estúpidos. (...) Nem eles são lá tão ingênuos"
Dissolvendo Preconceitos (Literários) /
Dissolving (Literary) Preconceptions
Uma lição que ficou dos dois últimos romances que li de cabo a rabo (Liaisons Dangereseus e Orgulho e Preconceito) foi o de não sonegar a MINHA leitura de um livro; não ceder algo tão importante a ninguém. Que sejam opiniões positivas ou negativas, de críticos estudados ou meros palpiteiros. Se eu me detivesse em assuntos menores, como tema e gênero (na verdade, subgênero), não teria lido esses dois romances que foram, respectivamente, minhas melhores leituras recentes de ficção.
Eu entrei no livro justamente cheio de preconceitos, o primeiro deles por conta da quantidade de meninas que votaram para que fosse este o livro que abriria o clube de leitura da faculdade; pensei que: mais clichê, impossível.
Mas, quando o assunto é ler, nunca faço corpo mole, não passou pela minha cabeça abandonar a participação ou fazer algo como leitura dinâmica, procurar resumo na internet, nem nada disso. Até seria interessante para fazer contraponto na hora da discussão, que houvesse uma pessoa ali que não tivesse gostado, e que eu imaginei que seria eu. Mas, a literatura tem disso, e na hora da discussão, ocorreu o inverso: eu tinha sido o que mais gostei, e algumas das meninas que fizeram um VOTANAÇO para Orgulho e Preconceito ganhar, haviam gostado menos numa segunda leitura.
Meu preconceito para com a obra durou menos que o do Sr. Darcy para com Elizabeth, e nas primeiras páginas, logo na primeira cena e abertura, que é uma das grandes aberturas da literatura mundial, por A + B eu percebi que não estava diante do clichezão que havia construído na minha mente. Antes, era essa a impressão que sempre tinha quando alguém citava Orgulho e Preconceito (filme ou livro); e eu era tão ignorante quanto a narrativa, que para mim, foi uma surpresa quando o foco da narrativo saiu de Jane e Bingley (que protagonizam os primeiros "conflitos do livro"), pra uma aproximação maior com a Elizabeth, que primeiro está ali como inteligente observadora, e isso é bastante significativo.
Mas, enfim, a abertura, na tradução que escolhi (Roberto Leal Ferreira/Martin Claret), depois de bater e compará-la com algumas outras, a clássica do Lúcio Cardoso, a da Penguin Companhia (essa é muito boa em notas), se sobressaiu pra mim a do Roberto Leal Ferreira:
"É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro e muito rico precisa de uma esposa.
Por menos conhecidos que sejam os sentimentos ou as ideias de tal homem ao entrar pela primeira vez em certo lugarejo, tal verdade está tão bem arraigada na mente das famílias que o rodeiam, que ele vem a ser considerado propriedade legítima de uma ou outra de suas filhas. "
A minha primeira boa impressão, e isso vai ficar comprovado ao longo do livro, é a utilização de um narrador que está imerso na geografia local, nas fofocas do lugarejo, nos preconceitos das famílias, mas ainda sim, posicionado a uma distância pungente, salpicando ironia, indo e vindo de personagens, acelerando e desacelerando a narrativa. "É uma verdade universalmente reconhecida" daquele lugar e daquela sociedade tão e unicamente. Já se percebe que o narrador fala com sua voz “demiúrgica” mas o que ele expressa é uma “verdade” do povo ali circundante.
O narrador aproxima-se, certas vezes, mais de uns que de outros personagens — apesar da maior parte do tempo, de braços dados, acompanhar a Lizzy — numa terceira pessoa que não é de maneira nenhuma muito descritiva ou demasiadamente datada (há quem veja lampejos do discurso indireto em certas partes) a ação se dá num modo quase de drama (gênero), a partir de diálogos representativos, ou cartas (que é onde se dá a maior parte da ação fora do diálogo, apesar de de certa forma, também ser um tipo de diálogo) e isso aproxima a Jane Austen das minhas últimas leituras prediletas, do Laclos e do conterrâneo dela D.H. Lawrence.
Ainda no primeiro capítulo, já temos posta uma das muitas questões dramáticas do romance, que vai perdurar por alguns capítulos, um pouco morosa, sim, em comparação com outras, mas que será interessante quando essas questões forem se resolvendo, se alternando, e gerando outras.
É, esta, a chegada do Bingley (acompanhado de Darcy), e a questão: como se dará o relacionamento do homem com a vizinhança? Principalmente, com a família que acompanhamos na abertura?
Vemos tudo, nesse primeiro capítulo, da perspectiva do Sr. e da Sra. Bennet, o que não é gratuito, e que serve para já num primeiro capítulo mostrar muito do contraste entre esse pai e essa mãe (e vosso próprio casamento em comparação com outros casamentos), que vai perdurar ao longo de todo o livro; é um prelúdio para os múltiplos conflitos e relações antagônicas, partindo inicialmente desse lar, e então indo para outros, abrindo-se em mais personagens, sem nunca abandoná-lo: afinal, é o lar de Lizzy.
Em poucas páginas, a caracterização, apesar de um pouco expositiva demais — no sentido de, ela definir com adjetivos algo que percebemos facilmente através dos bons diálogos (esse é um dos problemas que tenho com a poética da Austen), coloca em evidência a personalidade de ambos e nos diz muito com pouca "descrição de ações"; é quase como num Drama mesmo, a autora faz-nos imaginar muito bem, só com o discurso direto, a disposição de uma cena e da atuação e disposição dos personagens em cena. Apesar de no fim, ela “entregar o ouro” aos leitores, e faz isso com alguma frequência que incomoda, certas vezes numa caracterização e certas vezes (mais problemáticas) em questões de desenlace de narrativa.
A demarcação desse primeiro "conflito" entre marido e mulher é interessantíssimo. Já diz muito e ilustra uma faceta dos casamentos, assunto que cortará por todo o livro, desde o casamento de Jane (a irmã), Charlotte (a amiga) e Lidya (a outra irmã) e suas diferenças: necessidade, interesse, erro, ingenuidade. Observados pela ótica da Elizabeth, uma grande observadora de caráteres, mas que pisa em falso muitas vezes, e demonstra que a grande observadora vêm mesmo por detrás dela — e vale retificar, uma não é a outra —: a Jane Austen.
Avançando no primeiro capítulo, a Sra. Bennet ferve com a notícia do homem solteiro de mudança e não cessa de confabular planos, antes mesmo do primeiro diálogo do romance acontecer ela já tem planejada uma apresentação em mente: "— Meu caro sr. Bennet — disse-lhe a esposa certo dia —, sabia que Netherfield Park foi enfim alugado? (…) Ora, meu querido, como você sabe, a sra. Long diz que Netherfield foi alugado por um jovem de amplas posses do norte da Inglaterra (…)." Enquanto o Sr. Bennet, pelo contrário, de nada sabe. Imaginamos-o tomando um café e lendo seu jornal. Não mede palavras para falar das filhas, e não esconde a preferência por Lizzy; mais um conflito óbvio entre marido e mulher: a Jane Austen vai salpicando tudo isso já no conciso primeiro capítulo: "— Não quero que você faça isso. Lizzy não é nem um pouco melhor do que as outras; e tenho certeza de que não tem a metade da beleza de Jane, nem metade do bom humor de Lydia. Mas você sempre dá a ela a preferência."
A preocupação extrema com o casamento das suas meninas e a falta de tato é o que define a personalidade da Sra. Bennet; e a distância e o isolamento irônico do Sr. Bennet (é o personagem com as linhas de diálogo mais engraçados de todo o livro) ilustra um casamento que “deu errado”, e mais para frente saberemos por quê.
A Jane Austen não mede palavras na descrição da Inglesa "média", que tem como consolo visitas e fofocas, e como único plano de vida casar as filhas. E da mesma maneira que coloca na voz do Sr. Bennet, um patriarca que diz: "Nenhuma delas tem muita coisa que as recomende replicou ele —; são todas tolas e ignorantes, como as meninas sempre são", coloca também no narrador, sobre a Sra. Bennet: "A mente dela era menos difícil de descrever. Era uma mulher de inteligência medíocre, pouca cultura e temperamento inconstante. Quando se contrariava, imaginava estar doente dos nervos. Seu objetivo na vida era ver as filhas casadas; seu consolo, as visitas e as fofocas.". E é esta a família da nossa protagonista.
Sobre isto, há de se ter algum cuidado:
Mesmo que o casamento fosse uma das únicas saídas para as mulheres daquela época, e a Sra. Bennet, por ter quatro filhas mulheres, e um testamento que impediria que elas — com a morte do marido — herdassem algo (tornando imporatntíssimo o casamento das filhas) é jogada uma luz muito mais crítica na Sra. Bennet do que, por exemplo, no casamento “frio” entre Collins e Charlotte.
Ao longo de todo o romance é a mãe-casadeira que expõe-se muito mais aos olhares irônicos do narrador. Se conseguimos encarar o romance como em consonância com as ideias da Mary Wolstonecraft, publicando poucos anos antes da Jane, principalmente na personagem da Lizzy (e de sua graça que vêm da personalidade forte e da razão sobre a sensibilidade), podemos também suspeitar que além da crítica a uma Aristocracia altiva que quer mais utilizar da sua posição para se meter na vida de todo mundo (vemos isso na personagem da Lady Chaterine), há também uma crítica às mulheres obcecadas pelo casamento e que vivem sob função disso (a mãe e Lidya, por exemplo, “caem” no erro por conta disso), em comparação com o casamento observado a partir da razão e do afeto — obviamente, o de Lizzy. Mas, incluo em relação a esse primeiro, também o casamento de Charlotte (fiquei na minha cabeça que se a Austen — e não a Elizabeth, cheia de seus preconceitos, futuramente superados — estivesse realmente criticando a decisão da Charlotte, veríamos, durante a visita de Lizzy a amiga, algo muito pior do que vemos em relação a seu casamento). E isso deixo para quem mais leu tirar as próprias conclusões.
Enfim, é um livro feliz, ponto. Então não vou nem falar sobre a idealização de Elizabeth que um casamento, mesmo que meticulosamente pensado e investigado (sentimentalmente e racionalmente), signifique felicidade: sabemos, hoje em dia, que não. E por isso o livro faz bem em acabar antes do casamento em si e seus dias subsequentes.
O final, muito novelesco - no sentido de novela mesmo (não atoa pode-se considerar a Austen mãe de grande parte do sub-gênero do romance no cinema -, entretanto, me colocou um sorriso bobo no rosto; e a semana que passei naquela inglaterra, nos bailes, nos passeios de Orgulho e Preconceito, com seus personagens, suas maneiras, sua sociedade muito diferente mas também muito parecida com a nossa, valeu a pena.
Percebe-se também a habilidade da Jane Austen como uma grande romancista na maneira como ela constrói e amarra a narrativa, se você ler atentamente, perceberá como muito do que virá a seguir, se você imaginar que aqueles personagens estão vivos, e estão atuando naquele mundo, enquanto outra coisa está sendo narrada, quando outra coisa está em evidência, você pegará muito dos pequenos desenlaces antes mesmo que a Austen os resolva, e é muito recompensador — quando a autora não dúvida dos "elfos ignorates*" e entrega todo o ouro no final do parágrafo.
Grande livro, e quando terminei ele, lembro da sensação de que se a "tia de Steventon", que preferia muito mais ser boa para com seus sobrinhos do que uma famosa escritora, que viajou pouco na vida além das quatro paredes dos lares e dos bailes, que não precisou de grandes excitações e só a partir da observação, da ironia para com o seu tempo e seus costumes, construiu um microcosmo tão gostoso de ler, e uma visão tão interessante, senti que todo mundo deveria escrever mesmo, e não que há literatura de mais, e leitores de menos; e sim, autores de mais, e visões de mundo de menos. (Mas bem que pode ser só uma bonita ilusão criada em mim pelas qualidades intrínsecas da Jane Austen; talvez se o mesmo tema de Orgulho e Preconceito fosse observado por outros olhos e escrito por outra mão que não a dela, pensaria o oposto. Não sei.)
Tinha mais coisa para falar aqui, sobre a comparação com o Choderlos de Laclos, sobre como ambos utilizam as cartas, sobre como ambos vêem a educação das mulheres, como ambos são diferentes nas abordagens, mesmo que ambos se apoiem sobre o Richardson (o Laclos têm Clarissa como uma obra-prima — apesar de ele ter superado e muito o Richardson com suas Liaisons Dangereuses —, e a Austen têm como seus romances favoritos Sir Charles Grandison — que muito a inspirou —, e Pamela, também do Richardson), mas por enquanto é isso.
-x-
*Jane Austen: "Eu não escrevo para elfos estúpidos. (...) Nem eles são lá tão ingênuos"