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rolandosmedeiros 's review for:
Luar de Janeiro
by Augusto Gil
"Luar de janeiro,
Fria claridade
À luz dele foi talvez
Que primeiro
A boca dum português
Disse a palavra saudade…"
Antes de tudo, finjam que recebi um livre-conduto para ser fastidioso e altiloquente (já comecei e você nem percebeu); Luar de Janeiro é um livro português de poesia de mais de cento e vinte anos atrás. E apesar da brincadeira inicial, o Augusto Gil (ao menos na versão seguindo o acordo ortográfico que li) não é enfadonho, nem pomposo; até mesmo coloca uma citação de Michelet onde dá uma leve repreendida no exagero do romantismo (apesar dele próprio certas vezes coxear para esse lado); a linguagem é clara, e predominam-se as baladas, as melodias, as músicas e as toadas, de um lado. De outro, poemas intricados, que criam uma imagem tremida, para que uma segunda ou terceira leitura solidifique uma certa engenhosidade de construção; há comédia, conselhos, amor, religiosidade, e todos poemas são dedicados à contemporâneos do autor, parentes, e até amores anônimos; todos são, também, muito agradáveis de se ler, não geniais, mas gostosos. São ternos e fulgentes, como provenientes da mesma luz do luar que fisicamente atua como cenário vívido de diversos poemas dessa coleção.
A pontuação é curiosa, o Augusto utiliza muito de ponto e virgula, e realço isso, pois, percebe-se pelos títulos de certos poemas — baladas e toadas — e também do ritmo melódico (há até uma famosa canção portuguesa à Nossa Senhora) que são poemas para serem declamados e/ou cantados. O ponto-e-virgula de certa forma não atrapalharia a interpretação dos declamadores? É uma questão que me surgiu e que a deixo aqui; isso também me passa de certa forma a sensação de que essa é uma coleção de poemas curiosa (ou, não muito pensada a fundo): há, no meio de tudo, desde uma tradução do francês de um poema erótico (ou quase), até uma releitura (com aconselhamento direcionado a pessoas específicas) de passagens de Eclesiastes.
Não que seja um problema; por fim, gostei bastante até. Encontrei o autor aleatoriamente, algum hiperlink me jogou para um blogue de poesia onde havia uma seleção de poemas do Luar de Janeiro. Li, gostei, e como era curto, resolvi pegar para ler: decisão acertada. Vou atrás dos outros livros dele. Descobri que ele verteu e adaptou alguns poemas da Antiguidade Clássica (do Francês, não diretamente do Grego) em “Rosa das Manhãs”, é algo que eu me interesso, então, é este meu próximo alvo.
Antes de ir, alguns comentários sobre os poemas:
o Luar de Janeiro, visto em diferentes tempos, por diferentes pessoas, e em lugares específicos; a casa de janelas e portas fechadas, mas banhada pelo luar em suas frestas; o luar que banha o primeiro português a proferir a palavra saudade; a luz branca vista pelos pobres, o frio, e o ronco da barriga; a luz vista de uma floresta escura, banhando o sorriso, de uma criança morta…
Sextilha à um Menino Jesus é um poema que reflete o encanto sentido por Augusto para com uma Imagem de Jesus (que você encontra na internet pelo nome de "Menino Jesus Chorão" gordinho, de bochechas coradas, e olhar suplicante.
Balada da Neve: Cai neve em Portugal, da janela de sua casa o eu-lírico a observa, e também observa as pegadas abafadas pela neve, e o rastro de pezinhos infantis; se compadece das crianças que, como os passinhos na neve, esvaecem do mundo precocemente.
"Fui ver. A neve caía
Do azul cinzento do céu
Branca e leve, branca e fria…
— há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!"
Toada para as Mães é uma canção de acalento para a sobrinha, que, juntando ao fato do eu-lírico ser uma mulher que acabou de dar à luz uma criança, serve de aconselhamento para a mãe de primeira viagem.
O Nosso Lar, sobre casas, lares e seus aspectos, que de certa maneira condizem com os sentimentos daquele que nela habitam; idealiza para si, na extensão do poema, uma casa, que reflita sua própria poesia, sem grades, de um andar, para não cansar; com jardins de lilases e cravos, para que encham-no de paz; sempre aberto, para aqueles que necessitem de hospitalidade.
Na outra face do poema, sobra para os prédios, e para as casas exageradamente muradas e gradeadas, que diz pertencer ao egoismo e ao capitalismo do dono. Nesse caso, julgo ser apenas para fins poéticos, não acho que ele esqueceria do fator principal dos muros e grades: segurança. Ou, naquela época, cem anos atrás, em Portugal, talvez fosse diferente do meu atual Rio de Janeiro.
O que o Fogo Poupou dum Poemeto Queimado: Segue-se à abertura, uma mimese da Invocação Às Musas, dos Poemas Homéricos, só que oferecida ao Deus Cristão, um poema que trata da "mais santa, a mais cheia de pureza / Das moças deste lindo Portugal." Uma mulher que, segundo o poeta, os olhos são tristes por não ver em que rosto eles estão; a voz é piedosa, porque sente pena de deixar uma boca tão bela; o riso vibra, para roubar um beijo às escondidas; e a sombra, quando o sol bate por trás de si, é a luz que se afasta para ela passar. Bem bonito (e olha que ele bate no romantismo, hein…)
Melodia Confidencial: Uma tradução do francês de Albert Samain. Um poema quase erótico, sobre um aconchego entre dois amantes. Há muitas citações françecas, incluindo Verlaine, e como já supracitado, Michelet.
O Passeio de Santo Antônio: Um divertido poema, sobre quando durante um passeio, Santo Antônio encontra o Menino Jesus; e, próximo da fonte que pararam, ao longe, vem um casal enamorado, rindo e se beijando sob a luz do luar. A comicidade desenvolve-se em torno das perguntas do Menino Jesus sobre os beijos e carícias do casal, com que Santo Antônio disfarçar a todo custo; quando a situação se eleva a tanto, toma o Menino pelos braços dizendo "Já é hora... já é hora..."
Carta a um Rapaz Sentimental: Numa caminhada, um rapaz ergue os olhos para medir o céu e vertiginosamente caí nos olhos de uma bela mulher; na troca de olhares, o tempo se condensa e se alarga; vão se anos de amor e sofrimento, por conta de um olhar.
Anos felizes neste amor gastei. / Vieram em seguida as horas más. / O que nelas sofri, o que passei, / Um dia, noutra carta, o saberás.
Noiva: Um grande poema. Noiva, cria-se quando o Augusto recebe uma carta dizendo que um de seus antigos amores irá se casar, e, estranhamente, não sente raiva ou ciume, inclusive surpreende-se pela serenidade. Perpassa então a relação, em versos inspirados, sobre os desafetos e desentendidos; e depois, sobre a marca que ambos deixaram um no outro, não há amor, mas ainda há o gosto. Acaba, por fim, confirmando: "Então, se te olhar bem, logo adivinha..../Logo sombriamente se convence/De que a tua alma se fundiuna minha/ - e apenas o teu corpo lhe pertence.
DE PROFUNDIS CLAMAVI AD TE DOMINE: Um homem questiona a Deus o motivo de até num charco fétido, o sol alegre certa hora do dia visitar, e nele só a infâmia perdurar; será que o Senhor não esmagas um seixo, achando ser um coração dum homem?! Veja de novo!
A Máscara: No cenário de um baile mascarado/carnavalesco, o poema trata da nossa projeção de beleza, e a atração pelos pequenos traços. "Que diferente do que eu supus!/(…) A gente nunca deve entrar com luz/Nos divinos recantos do mistério…
Um Grão de Incenso: Não tão bonito quanto os outros, mas astuto pelo que não mostra. É necessário que se monte a cena na cabeça para entender o poema. Um homem que lamenta a falta de atenção que uma mulher lhe dá. Esse dá para reproduzir na integra:
Entraste com ar cansado
Numa igreja fria e triste.
Ajoelhei-me ao teu lado
– E nem ao menos me viste...
Ficaste a rezar ali,
Naquela imensa tristeza.
Rezei também, mas a ti.
– Que aos anjos também se reza...
Ficaste a rezar até
Manhã dentro, manhã alta.
Como é que tens tanta fé
E a caridade te falta?...
A Canção das Perdidas: Um poema inteligente, visual, que vai se montando aos poucos; o clamor de uma mulher abandonada com um filho para criar, sozinha. "Quem te quer, para um bocado/Quem não quer, passa adiante...
In Promptum Pastoral: "Não conhecer o talento/Nem nada do que se ensina./Esta dor do entendimento/É pior do que se imagina..." Invocando Virgílio, para o eu-lírico, é melhor ser um pastor, renegar a vida e as mulheres citadinas, amar uma pastora e viver de maneira simples; com cuidados infinitos, cuidar da companheira, ver nascer o filhinho… observar as ovelhas, e os pequenos bezerrinhos…
Fria claridade
À luz dele foi talvez
Que primeiro
A boca dum português
Disse a palavra saudade…"
Antes de tudo, finjam que recebi um livre-conduto para ser fastidioso e altiloquente (já comecei e você nem percebeu); Luar de Janeiro é um livro português de poesia de mais de cento e vinte anos atrás. E apesar da brincadeira inicial, o Augusto Gil (ao menos na versão seguindo o acordo ortográfico que li) não é enfadonho, nem pomposo; até mesmo coloca uma citação de Michelet onde dá uma leve repreendida no exagero do romantismo (apesar dele próprio certas vezes coxear para esse lado); a linguagem é clara, e predominam-se as baladas, as melodias, as músicas e as toadas, de um lado. De outro, poemas intricados, que criam uma imagem tremida, para que uma segunda ou terceira leitura solidifique uma certa engenhosidade de construção; há comédia, conselhos, amor, religiosidade, e todos poemas são dedicados à contemporâneos do autor, parentes, e até amores anônimos; todos são, também, muito agradáveis de se ler, não geniais, mas gostosos. São ternos e fulgentes, como provenientes da mesma luz do luar que fisicamente atua como cenário vívido de diversos poemas dessa coleção.
A pontuação é curiosa, o Augusto utiliza muito de ponto e virgula, e realço isso, pois, percebe-se pelos títulos de certos poemas — baladas e toadas — e também do ritmo melódico (há até uma famosa canção portuguesa à Nossa Senhora) que são poemas para serem declamados e/ou cantados. O ponto-e-virgula de certa forma não atrapalharia a interpretação dos declamadores? É uma questão que me surgiu e que a deixo aqui; isso também me passa de certa forma a sensação de que essa é uma coleção de poemas curiosa (ou, não muito pensada a fundo): há, no meio de tudo, desde uma tradução do francês de um poema erótico (ou quase), até uma releitura (com aconselhamento direcionado a pessoas específicas) de passagens de Eclesiastes.
Não que seja um problema; por fim, gostei bastante até. Encontrei o autor aleatoriamente, algum hiperlink me jogou para um blogue de poesia onde havia uma seleção de poemas do Luar de Janeiro. Li, gostei, e como era curto, resolvi pegar para ler: decisão acertada. Vou atrás dos outros livros dele. Descobri que ele verteu e adaptou alguns poemas da Antiguidade Clássica (do Francês, não diretamente do Grego) em “Rosa das Manhãs”, é algo que eu me interesso, então, é este meu próximo alvo.
Antes de ir, alguns comentários sobre os poemas:
o Luar de Janeiro, visto em diferentes tempos, por diferentes pessoas, e em lugares específicos; a casa de janelas e portas fechadas, mas banhada pelo luar em suas frestas; o luar que banha o primeiro português a proferir a palavra saudade; a luz branca vista pelos pobres, o frio, e o ronco da barriga; a luz vista de uma floresta escura, banhando o sorriso, de uma criança morta…
Sextilha à um Menino Jesus é um poema que reflete o encanto sentido por Augusto para com uma Imagem de Jesus (que você encontra na internet pelo nome de "Menino Jesus Chorão" gordinho, de bochechas coradas, e olhar suplicante.
Balada da Neve: Cai neve em Portugal, da janela de sua casa o eu-lírico a observa, e também observa as pegadas abafadas pela neve, e o rastro de pezinhos infantis; se compadece das crianças que, como os passinhos na neve, esvaecem do mundo precocemente.
"Fui ver. A neve caía
Do azul cinzento do céu
Branca e leve, branca e fria…
— há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!"
Toada para as Mães é uma canção de acalento para a sobrinha, que, juntando ao fato do eu-lírico ser uma mulher que acabou de dar à luz uma criança, serve de aconselhamento para a mãe de primeira viagem.
O Nosso Lar, sobre casas, lares e seus aspectos, que de certa maneira condizem com os sentimentos daquele que nela habitam; idealiza para si, na extensão do poema, uma casa, que reflita sua própria poesia, sem grades, de um andar, para não cansar; com jardins de lilases e cravos, para que encham-no de paz; sempre aberto, para aqueles que necessitem de hospitalidade.
Na outra face do poema, sobra para os prédios, e para as casas exageradamente muradas e gradeadas, que diz pertencer ao egoismo e ao capitalismo do dono. Nesse caso, julgo ser apenas para fins poéticos, não acho que ele esqueceria do fator principal dos muros e grades: segurança. Ou, naquela época, cem anos atrás, em Portugal, talvez fosse diferente do meu atual Rio de Janeiro.
O que o Fogo Poupou dum Poemeto Queimado: Segue-se à abertura, uma mimese da Invocação Às Musas, dos Poemas Homéricos, só que oferecida ao Deus Cristão, um poema que trata da "mais santa, a mais cheia de pureza / Das moças deste lindo Portugal." Uma mulher que, segundo o poeta, os olhos são tristes por não ver em que rosto eles estão; a voz é piedosa, porque sente pena de deixar uma boca tão bela; o riso vibra, para roubar um beijo às escondidas; e a sombra, quando o sol bate por trás de si, é a luz que se afasta para ela passar. Bem bonito (e olha que ele bate no romantismo, hein…)
Melodia Confidencial: Uma tradução do francês de Albert Samain. Um poema quase erótico, sobre um aconchego entre dois amantes. Há muitas citações françecas, incluindo Verlaine, e como já supracitado, Michelet.
O Passeio de Santo Antônio: Um divertido poema, sobre quando durante um passeio, Santo Antônio encontra o Menino Jesus; e, próximo da fonte que pararam, ao longe, vem um casal enamorado, rindo e se beijando sob a luz do luar. A comicidade desenvolve-se em torno das perguntas do Menino Jesus sobre os beijos e carícias do casal, com que Santo Antônio disfarçar a todo custo; quando a situação se eleva a tanto, toma o Menino pelos braços dizendo "Já é hora... já é hora..."
Carta a um Rapaz Sentimental: Numa caminhada, um rapaz ergue os olhos para medir o céu e vertiginosamente caí nos olhos de uma bela mulher; na troca de olhares, o tempo se condensa e se alarga; vão se anos de amor e sofrimento, por conta de um olhar.
Anos felizes neste amor gastei. / Vieram em seguida as horas más. / O que nelas sofri, o que passei, / Um dia, noutra carta, o saberás.
Noiva: Um grande poema. Noiva, cria-se quando o Augusto recebe uma carta dizendo que um de seus antigos amores irá se casar, e, estranhamente, não sente raiva ou ciume, inclusive surpreende-se pela serenidade. Perpassa então a relação, em versos inspirados, sobre os desafetos e desentendidos; e depois, sobre a marca que ambos deixaram um no outro, não há amor, mas ainda há o gosto. Acaba, por fim, confirmando: "Então, se te olhar bem, logo adivinha..../Logo sombriamente se convence/De que a tua alma se fundiuna minha/ - e apenas o teu corpo lhe pertence.
DE PROFUNDIS CLAMAVI AD TE DOMINE: Um homem questiona a Deus o motivo de até num charco fétido, o sol alegre certa hora do dia visitar, e nele só a infâmia perdurar; será que o Senhor não esmagas um seixo, achando ser um coração dum homem?! Veja de novo!
A Máscara: No cenário de um baile mascarado/carnavalesco, o poema trata da nossa projeção de beleza, e a atração pelos pequenos traços. "Que diferente do que eu supus!/(…) A gente nunca deve entrar com luz/Nos divinos recantos do mistério…
Um Grão de Incenso: Não tão bonito quanto os outros, mas astuto pelo que não mostra. É necessário que se monte a cena na cabeça para entender o poema. Um homem que lamenta a falta de atenção que uma mulher lhe dá. Esse dá para reproduzir na integra:
Entraste com ar cansado
Numa igreja fria e triste.
Ajoelhei-me ao teu lado
– E nem ao menos me viste...
Ficaste a rezar ali,
Naquela imensa tristeza.
Rezei também, mas a ti.
– Que aos anjos também se reza...
Ficaste a rezar até
Manhã dentro, manhã alta.
Como é que tens tanta fé
E a caridade te falta?...
A Canção das Perdidas: Um poema inteligente, visual, que vai se montando aos poucos; o clamor de uma mulher abandonada com um filho para criar, sozinha. "Quem te quer, para um bocado/Quem não quer, passa adiante...
In Promptum Pastoral: "Não conhecer o talento/Nem nada do que se ensina./Esta dor do entendimento/É pior do que se imagina..." Invocando Virgílio, para o eu-lírico, é melhor ser um pastor, renegar a vida e as mulheres citadinas, amar uma pastora e viver de maneira simples; com cuidados infinitos, cuidar da companheira, ver nascer o filhinho… observar as ovelhas, e os pequenos bezerrinhos…