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Casa tomada [Cuento] by Julio Cortázar
4.0

Numa entrevista acerca deste conto, o Cortázar revela sua gênese: a narrativa nasceu praticamente pronta, fruto de um sonho opressivo, aterrorizante.

Mas, inteligente como é, ele não dá uma chave absoluta para a interpretação. Diz muito bem, e de maneira intrigante, que talvez o próprio sonho dele já fora uma leitura pessoal e íntima de uma narrativa que cruzou o seu subconsciente. Ou seja, mesmo a leitura dele, do autor, transforma-se em UMA das leituras possíveis desta história.

Por consequência, acrescenta, todas as boas leituras do conto permanecem válidas, e são tão ou quão interessantes para ele como a sua própria. Há leituras extremamente diversas, desde a interpretação que ele cita nessa entrevista, que o conto lido é uma alegoria ao peronismo, até a que o conto se trata da pressão familiar e social proveniente de um caso incestuoso entre os irmãos; o campo das possibilidades é amplo.

Mas, apenas isso — um horizonte amplo —, não basta para tornar um conto bom ou grandioso. O auxílio que esse horizonte de leituras tem da escrita fluída e linguagem tonal do Cortázar, desde desde as primeiras linhas jogando o leitor num plano de desconformidade, de anormalidade, é o que faz desse conto um dos grandes; um desses raros casos que a releitura só o engrandece.

Principalmente quando acompanhado de vozes diversas, que não só interpretam a temática, como também o tom, de diferentes modos: em um predomina o terror, em outro o suspense, em alguns, ainda, o insólito. E esse é o assunto que quero tratar brevemente aqui.

Retomando a entrevista, o Cortázar diz que a sensação — rememorada do sonho — que quis transpor nas páginas é o sentimento de terror; de que algo alienígena, estranho, surgia na sua casa, fazendo sons aterradores e desconhecidos, crescendo tão densa e opressivamente que acabava por expulsá-lo do local antes que descobrisse (talvez nem mesmo quisesse) o que era, ou o que se tratava.

A minha leitura, e também a do próprio Cortázar (aqui me refiro tanto à maneira com que a história foi escrita, como a maneira que foi oralmente narrada pelo próprio autor — você encontra no Youtube), particularmente, não me passa a mesma sensação de terror opressivo com que ele relata o sonho. Predomina, em minha leitura, uma estranheza pairando desde as primeiras palavras:
"Entramos nos quarenta anos com a inexprimível ideia de que o nosso, simples e silencioso matrimônio de irmãos, era o fim necessário da genealogia fundada por nossos bisavós em nossa casa. Morreríamos ali em algum dia, vagos e distantes primos ficariam com a casa, e a demoliriam para enriquecerem com o terreno e os tijolos; ou melhor, nós mesmos a derrubaríamos, inflexivelmente, antes que fosse demasiado tarde."


É a subida de um quasi-suspense, que não tem tempo para se potencializar por completo, mas que é alavancada pela extrema passividade e estranheza das personagens principais conforme a narrativa avança. Há algo anormal por trás do cotidiano dos irmãos. Aliás, esse foi um dos pontos que mais saltaram a mim nessa releitura: a excessiva passividade dos irmãos. A maré da narrativa me jogou para mais perto de um terror psicológico, um insólito-psicológico. Diferente da primeira leitura, terminei o conto achando que nada havia na casa; e a paranoia dos irmãos — irmãos estranhíssimos — desde as primeiras páginas, foi o que fez com que eles enxergassem sombras onde nem ao menos havia luz.

"Passávamos bem, e pouco a pouco começávamos a não pensar. Pode-se viver sem pensar. (...)


Até aqui, além da sua, a minha, e a do Cortázar, quero acrescentar, ainda, uma última leitura, talvez a minha favorita, que se pode dizer que também é uma interpretação apesar de não fazer mais do que recontar o conto com ajuda de alguns efeitos sonoros e mudança no tom de voz. O Borges realmente é um gênio, porque isso aqui é praticamente o que ele fala em Pierre Menard. A leitura do Alberto Laiseca s maise aproxima da concepção do conto-sonho que o Cortázar apresenta, do que a própria leitura que ele mesmo (o autor) faz do texto (recomendo ler a narração do Cortázar, e depois essa aqui): Casa Tomada, por Alberto Laiseca (https://www.youtube.com/watch?v=3ZtRU...).

Para mim, é soberba a narração, se você tem dificuldade de acompanhar o Espanhol, leia o conto traduzido, ou acompanhe-o enquanto ouve a leitura do Laiseca, você pegará com facilidade. Há sensações, por conta da mudança do tom, da estranheza para o terror, que nunca senti lendo o texto do Cortázar no papel. O acréscimo da introdução minimalista de um personagem-narrador casa perfeitamente com a forma do texto do Cortázar, renova o conto de uma forma ímpar. E isso, para mim, desvela méritos para ambos: tanto para o Laiseca quanto para o Cortázar que pôs todas essas possibilidades e viscosidade nesse pequeno conto.

Relendo-o acompanhado dessas múltiplas vozes, o conto foi bom mas simples, que via como não mais que razoável, para um ótimo conto; é justíssimo que seja lembrado sempre que tocamos nas palavras Conto + Cortázar.