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173 reviews by:
rolandosmedeiros
Não sei se no fundo meus interesses mudaram ou alguma engrenagem girou, mas decidi largar este livro depois de empurrar uns meses com a barriga. Li o primeiro da série e, em meio a seus altos e baixos, terminei gostando e interessado a continuar; mas, quando algumas paginazinhas por dia deste me tomavam uma força e um esforço exagerado, e havendo a perspectiva de mais dois livros da série pela frente, não deu para continuar. Não sem aquela fagulha de interesse que move pela novidade. A prosa é muito técnica e as primeiras páginas repetem em excesso muito do livro anterior; apenas adicionam a mitologia egípcia e o texto das pirâmides, e de um jeito muito, muito denso. Faltou Índia, China e Japão. Mas num deu, não.
Nada excepcional.
Com o tempo verei se cumprirá o objetivo dele, que é me auxiliar numa consulta rápida para ensinar e entender melhor o uso do hífen e as palavas compostas. Um ponto positivo é que claramente a autora diz que em certos casos é preferível evitar a ambiguidade a seguir as "novas" regras da reforma ortográfica quanto à hifenização.
Também ensina a pontuação do jeito "certo" e não como aprendi no meu ensino médio (2015~2018!): pontuação não é respiração, e, como diz o Moreno e o mestre dele — Luft —, uma frase sem vírgulas é uma frase natural, uma frase virgulada que não é natural.
Há também mnemônicos de crase e do "que" coringa; mas, a melhor parte é mesmo a dos compostos, por exemplo: fazer entender não as regras, mas o sentido por trás das regras.
Posso tanto "desejar um feliz Ano Novo (que o ano inteiro seja bom) [sem hífen] ou um feliz Ano-Novo com sua família [com hífen, dando um novo significado às duas palavras unidas por ele: festa do réveillon]." Outra: Meio dia sem hífen] é, literalmente, meio dia — metade de um dia; meio-dia é a hora, as 12 (doze) h. Meio+Dia se unem para apontar outra coisa próxima, mas não igual.
Há as regras de pluralização dos compostos: que eu esqueci. Mas ficou um exemplo prático: Fica mais fácil de pluralizar quando trocamos (na mente) o hífen por uma preposição cabível (frutas-(do)-pão) carros-(que são)-bombas, etc.
Enfim, veremos se ele resistirá o teste da consulta frequente.
Com o tempo verei se cumprirá o objetivo dele, que é me auxiliar numa consulta rápida para ensinar e entender melhor o uso do hífen e as palavas compostas. Um ponto positivo é que claramente a autora diz que em certos casos é preferível evitar a ambiguidade a seguir as "novas" regras da reforma ortográfica quanto à hifenização.
Também ensina a pontuação do jeito "certo" e não como aprendi no meu ensino médio (2015~2018!): pontuação não é respiração, e, como diz o Moreno e o mestre dele — Luft —, uma frase sem vírgulas é uma frase natural, uma frase virgulada que não é natural.
Há também mnemônicos de crase e do "que" coringa; mas, a melhor parte é mesmo a dos compostos, por exemplo: fazer entender não as regras, mas o sentido por trás das regras.
Posso tanto "desejar um feliz Ano Novo (que o ano inteiro seja bom) [sem hífen] ou um feliz Ano-Novo com sua família [com hífen, dando um novo significado às duas palavras unidas por ele: festa do réveillon]." Outra: Meio dia sem hífen] é, literalmente, meio dia — metade de um dia; meio-dia é a hora, as 12 (doze) h. Meio+Dia se unem para apontar outra coisa próxima, mas não igual.
Há as regras de pluralização dos compostos: que eu esqueci. Mas ficou um exemplo prático: Fica mais fácil de pluralizar quando trocamos (na mente) o hífen por uma preposição cabível (frutas-(do)-pão) carros-(que são)-bombas, etc.
Enfim, veremos se ele resistirá o teste da consulta frequente.
Clarkesworld Magazine, Issue 72, September 2012
Tobias S. Buckell, Neil Clarke, Neil Clarke, David Klecha
Ps. acabo de descobrir que quando o Goodreads mescla um conto solto (Robot da Helena Bell, que eu havia resenhado anteriormente) em uma antologia (no caso, revista), ele pipoca uma nova notificação.
Eu nem lembrava desse conto. Pautarei, portanto, esse breve comentário, em um longínquo sentimento causado pela leitura, e dada a confiabilidade da memória, a chance de eu fazer apontamentos injustos e incoerentes — ou o inverso — é alta, mas vamos lá mesmo assim.
Não, essa quote não é real, mas bem que poderia ser; e a abertura não está lá muito distante.
Robot de Helena Bell, mais um da lista de indicados ao Nebula, é um longo (mas breve, você entenderá) relato-manual de instruções, que uma mulher deixa para seu recém adquirido robô-cuidador, que deve seguir a risca seus pedidos conforme uma doença for lentamente a matando;
A forma de manual de instruções barra relato pessoal, que ainda deixa entrever uma dosezinha de poesia, e a fuga de um narrador excessivamente expositivo da ficção científica já é elogiável. As nuances suscitadas e a nossa tentativa de tatearmos com o que ela quer dizer ou com qual objetivo aquilo está sendo dito, nos primeiros parágrafos, fazem destes as melhores partes da breve narrativa. O enredo está aí, é literalmente isso, e no desenvolvimento da historieta, no entanto, ainda nos é deixado toques sobre a escravidão (de robôs), mortalidade e o sentimento de lento declínio na vida (humana). Ambos, obviamente, interligados.
Com a longa extensão de três páginas, qualquer coisa que eu fale (ou já falei), pode estragar a experiência, mas no geral não é um conto muito marcante. Vamos vislumbrando e aprendendo sobre a vida da mulher através de intervalos nas instruções, em suas divagadas; que, de um lado nos revelam, por exemplo, o quanto ela mudou após a doença, e de outro, o seu estado emocional: é como se eu pegasse uma caneta a escrever uma lista de compras para algum familiar, e a cada conjunto de objetos me pusesse em reflexão. Como eu o fiz, sem querer, no primeiro parágrafo dessa resenha (só que sem a doença e a questão da mortalidade humana vs imortalidade robótica (facepalm).
O título é extremamente não-memorável e simples, mas a história em si não é ruim, é uma ideia engenhosa e bem executada, mas que ao terminar de ler, provavelmente você sentirá que há algo faltando. Eu, por exemplo, não fosse pelos meus rascunhos, a teria esquecido completamente; e isso, com certeza, não lhe é justo. Ou talvez seja.
O conto está disponível gratuitamente aqui: https://clarkesworldmagazine.com/bell_09_12/. Em cinco minutos você lê, se ele o interessou minimamente, não tem desculpa. Eu já o li, então me eximo disso aí.
(*Tradução livre do trecho)
Eu nem lembrava desse conto. Pautarei, portanto, esse breve comentário, em um longínquo sentimento causado pela leitura, e dada a confiabilidade da memória, a chance de eu fazer apontamentos injustos e incoerentes — ou o inverso — é alta, mas vamos lá mesmo assim.
Ao robô que primeiro roerá as frias carnes do meu cadáver, dedico com saudosa lembrança este pequeno manual de instruções.''
Não, essa quote não é real, mas bem que poderia ser; e a abertura não está lá muito distante.
Robot de Helena Bell, mais um da lista de indicados ao Nebula, é um longo (mas breve, você entenderá) relato-manual de instruções, que uma mulher deixa para seu recém adquirido robô-cuidador, que deve seguir a risca seus pedidos conforme uma doença for lentamente a matando;
Spoiler
inclusive o de comer a sua carne morta.A forma de manual de instruções barra relato pessoal, que ainda deixa entrever uma dosezinha de poesia, e a fuga de um narrador excessivamente expositivo da ficção científica já é elogiável. As nuances suscitadas e a nossa tentativa de tatearmos com o que ela quer dizer ou com qual objetivo aquilo está sendo dito, nos primeiros parágrafos, fazem destes as melhores partes da breve narrativa. O enredo está aí, é literalmente isso, e no desenvolvimento da historieta, no entanto, ainda nos é deixado toques sobre a escravidão (de robôs), mortalidade e o sentimento de lento declínio na vida (humana). Ambos, obviamente, interligados.
''Acaso você enfadar-se, poderá polir seu alumínio; e também lhe será permitido que mude a mobília de lugar, que dê corda no relógio, ou arranque as ervas daninhas do jardim; lhe será permitido ler qualquer livro da biblioteca que o interesse; meu marido diz que você não tem consciência como nós, apenas um conjunto pré-programado, avançado e sofisticado, de impulsos e respostas, mas tenho observado seus olhos abertos no meio da noite; tenho observado você enquanto olha fixamente a extensão dos campos, como se houvesse alguma coisa ali, chamando-o."*
Com a longa extensão de três páginas, qualquer coisa que eu fale (ou já falei), pode estragar a experiência, mas no geral não é um conto muito marcante. Vamos vislumbrando e aprendendo sobre a vida da mulher através de intervalos nas instruções, em suas divagadas; que, de um lado nos revelam, por exemplo, o quanto ela mudou após a doença, e de outro, o seu estado emocional: é como se eu pegasse uma caneta a escrever uma lista de compras para algum familiar, e a cada conjunto de objetos me pusesse em reflexão. Como eu o fiz, sem querer, no primeiro parágrafo dessa resenha (só que sem a doença e a questão da mortalidade humana vs imortalidade robótica (facepalm).
O título é extremamente não-memorável e simples, mas a história em si não é ruim, é uma ideia engenhosa e bem executada, mas que ao terminar de ler, provavelmente você sentirá que há algo faltando. Eu, por exemplo, não fosse pelos meus rascunhos, a teria esquecido completamente; e isso, com certeza, não lhe é justo. Ou talvez seja.
O conto está disponível gratuitamente aqui: https://clarkesworldmagazine.com/bell_09_12/. Em cinco minutos você lê, se ele o interessou minimamente, não tem desculpa. Eu já o li, então me eximo disso aí.
(*Tradução livre do trecho)
What the Wind Carries — Conto — 4.5*
O Vento como femme fatale
Um conto mais longo do Rogers — e isso quer dizer que saímos das duas~três páginas costumeiras para sete~oito. Logo, é mais intricado, há mais espaço para a narrativa correr, e mais espaço para desenvolver personagens.
O Bruce, aliás, se aproveita disso para pautar o conto todo em um personagem. Num cenário que passa por Kansas, Denver e Boulder, naquelas pequenas montanhas tortuosas onde sobem e descem carros a todo tempo, e de onde se olha lá de cima para o brilho da cidade lá embaixo, nosso protagonista pensa no estado atual do seu relacionamento. Um amor quase juvenil, bonitinho. Está tudo muito dando certo. Tudo encaminhado. E então... há um salto no tempo. Quinze anos de um parágrafo a outro, e o rapaz — agora um homem — já se casara e divorciara duas ou três vezes, mas ainda não conseguia tirar da cabeça aquela noite (a noite da abertura da narrativa) nas montanhas: o vento, a sensação, as luzes.
Ele começa a perseguir aquela sensação. Escolhe se mudar para Boulder (segundo o Urban Dictionary há até uma giria para as mulheres/homens bonitos da região) justamente por conta do vento e das mulheres: faz todo um planejamento para que consiga se apaixonar por "alguém tão jovem quanto ele desejava se sentir", frequenta (como visitante) uma ou duas aulas por semestre, patrulha bares universitários e livrarias. Ele é desenrolado, e consegue; "apaixona-se" segundo o narrador, grita o nome da menina aos quatro ventos, e quando transam pela primeira vez a paixão acaba. Repete o processo. A mesma ladainha de sempre para seduzir mulher e transar; mas, uma hora algo parece mudar. De quando em quando começa a ver algo de canto de olho, se vira na direção nada vê. Persegue, e a silhueta some. Até que, um dia, voltando da casa de uma das namoradas, a vê pela primeira vez: sobrenaturalmente alta, magra e de longos cabelos negros. Desaparece aqui, e aparece ali ou mais adiante: é a personificação do vento.
A partir daí corre o grosso da narrativa, e nos emaranhamos e nos sufocamos tanto quanto o personagem principal em cabelo e vento. É delírio do personagem? É uma mulher de verdade? É apenas o vento? Só lendo e tirando as próprias conclusões. A reta final do conto é muito, muito boa, violenta e estranha, tanto que só posso entregar algumas partes:
Alexandrian Light— Conto — 4.0*
Manaus envolvida num Sci-Fi
A trama Cyberpunk num canto de Manaus me faz relevar o fato dele achar que a gente fala portunhol. A narrativa de três páginas é toda pautada em uma metáfora interessante. Caiu algo alienígena em Manaus, e as três potências do mundo (União Soviética, EUA e União Sino-Japonesa) estão se estapeando para serem os primeiros a chegar lá. Nossos dois protagonistas, porém, chegaram primeiro. Um brasileiro e outro cara que só sabemos se chamar Hacker — e parece saber o que está fazendo. A conclusão, que tem a ver com anjos, com a Biblioteca de Alexandria e com "barbarismo", você vai ter de ler para descobrir.
(Tudo isso em três páginas!!!! Já está virando chavão falar isso, mas sempre me pega. A partir de agora sempre que me lerem falando do Bruce Holland me imaginem de olhos arregalados e fazendo o sinal de "só três páginas!!!" com a mão.)
Don Ysidro — Conto — 4.0*
Herança Machadiana
É impressionante o quanto de uma narrativa o Bruce Holland consegue mover com duas, três páginas. Ele é um dos mestres do miniconto, sem dúvidas. Só consigo ver duas razões do porquê dele não ser conhecido aqui, nessa ordem: 1. Só há uma edição, e é portuguesa. Ela não chega aqui, e muito menos seus contos (que estão espalhados por um monte de antologia). 2. O interesse por essa formazinha (diminuta só em quantidade de palavras) caiu. Lembro que já houve uma época que os mini e microcontos eram mais populares, acho que talvez por conta dos blogues — hoje mortos.
Com um parágrafo ele te insere totalmente na história e já te enche de perguntas. Aqui acompanhamos um narrador que morre já nas primeiras linhas, e ele continua narrando a história mesmo morto. Até aí tudo bem, há uns joguinhos com a perspectiva do morto (a esposa, viva, começa a responder por ele e a gente até certo momento não sabe se ela está ouvindo-o ou se apenas o conhece muito bem); o cenário é um desses antigos vilarejos hispânicos ou chicanos, e, ao mesmo tempo, parece um lugar real e fictício, com seus padres e com seus cristãos devotos.
E então… o povo pede o rosto e as mãos do morto.
E ele concede.
Aí… aí você tem de ler. Em três páginas ele dá umas cinco voltas no leitor, e o conto termina — mesmo em meio a rituais macabros e estranhos — com uma mensagem e com um simbolismo nobre e "pra cima". Meio "Everyday Use", da Alice Walker, mas mais fantástico, mais idiossincrático e mais doido. Não é à toa que é mais um dos contos dele nomeado ao World Fantasy.
Chambers Like a Hive — Conto — 3.0*
Entre sonho e realidade
Um homem estranhíssimo entra na vida da protagonista "como uma cortina de fumaça", e os encontros entre ambos vão ficando cada vez mais irreais. A realidade ganha aspecto viscoso. Eles saem com frequência; mas ela estranha a maneira como ele sempre aparece: basta que ela comece a pegar no sono, a cabeça a pender sobre o peito, e então ouve as batidas na porta. Quando estão juntos ela sempre procura, na rua ou no cinema, rostos familiares que a apontem "— Vi você com fulano ontem!", mas nunca acontece.
Os encontros vão ficando mais raros, o homem cada dia que aparece está menor e com "menos cor". Ele revela para ela os "quartos como colmeias" que existem debaixo da cada cama de cada um, e conectam todas elas entre si. O ghosting — real ou fantástico — que ela leva e a conclusão deixo a cargo do leitor, afinal, são meras três páginas.
ps. achei uma nova leva de contos do Bruce Holland na internet, então logo mais, mais entradas aqui.
O Menino Morto à Tua Janela — Conto — 4.5*
O Cotidiano, o Fantástico e o Mitológico.
A partir dessa grande abertura, desenvolve-se um dos melhores contos (ou flash fiction; ou mini-conto; ou micro-conto — chame como quiser) que li ultimamente.
Em uma prosa de ficção extremamente concisa, polida, mas de uma cismática imaginatividade que encerra um misto de sensações e toca, por meio do fantástico, em sóbrios temas. É a narrativa um menino-morto, tão fino que voa no ar como pipa, carrega consigo amor e memória; e dái, desenvolve-se a narrativa.
Infelizmente, não acho esse livro do Bruce Holland Rogers em lugar nenhum e tenho que, por enquanto, me contentar com esses intervalados contos que encontro — com sorte — nos lados capinados do matagal das redes.
O Gênio que Vive entre a Noite e o Dia — Conto — 3.5*
Gênios e Desertos alá Scherazarde
Outro destes preciosos achados, é quase pecaminoso deixar entrever muito dessa narrativa: é a experiência de leitura que o engrandece; e esse tem sido um dos pontos altos do autor para mim.
Mais uma vez imerso no fantástico e no místico, temos aqui como ponto central um mundo de gênios e desertos, que em menos de cinco páginas (ele adora trabalhar com essas ficções curtas) ganha mais vivacidade e desperta nosso interesse tanto quanto as melhores histórias das Mil e uma Noites, inspiração, certamente, para esta história.
A narração centra-se em torno de um gênio, Al-Faq, que: "vivia na fresta entre a noite e o dia. Raramente se aventurava nos mundos dos seus semelhantes, e muito menos no mundo dos mortais."
Por essa razão (a introspecção e o isolamento), e talvez pela hospitalidade, pelo bom chá, e pelo ouvido atento e curioso para com os outros, é visitado "tanto os espíritos obedientes como os desobedientes (que) o consideravam um dos seus (...) para lhe contar as suas histórias."
Al-Faq recebe a visita de Tayab, um gênio das cinzas, que podemos adjetivar como um dos desobedientes, mas que pouco importa à Al-Faq, que coloca o chá a ferver, e prepara-se para ouvir o relato da vez: envolvendo mortes, pestes, o sentido das coisas e religiosidade. Menos "Scherazardiano" e mais "Hollandiano".
Possui, entretanto, a mesma forma de conto popular, com, arrisco dizer, a mesma magia — as repetições soam intencionais — que conhecemos tão intimamente desses contos antigos. Porém, aqui, neste deserto vermelho, temos um colorido a mais, um frescor a mais, fruto da prosa atraente e da imaginação lúdica, sem arestas, do Bruce Holland. E isso faz essa narrativa um dos melhores contos das Mil e uma Noites FORA das Mil e uma Noites".
Um homem que perde tudo; uma mulher que não aceita ser restituída de um roubo; o jogo dos gênios e a apreensão de um sentido — a necessidade de se agarrar, a fim de continuar vivendo depois de uma catástrofe.
Little Brother — Conto — 2.0*
Gramaticalmente perfeito, estilisticamente imperfeito.
Com menos de cinco páginas, não é trocadilho dizer que este é um conto menor do Bruce Holland. Longe do fantástico e mais próximo da especulação (ainda que de leve) da ficção científica, a prosa apesar de "redonda", perde a magia das histórias anteriores, não toca em lugar algum, apesar de riscar, em seu encalço, pequenas questões. É demasiado pautado em uma peripécia final: arriscaria dizer que totalmente composto a partir dessa virada final, ao ponto de que tudo que o precede vem escrito de maneira acessória.
Um menino deseja incessantemente ganhar um irmãozinho (o tal Little Brother) de natal, e quando a mãe finalmente lhe dá, e eles se conhecem, e brincam juntos, a primeira coisa que o menino faz é... procurar o botão de desligar.
O conto assemelha-se àquelas frases e parágrafos gramaticalmente perfeitos, mas que pouco ou nada dizem. É salgadinho de noventa e nova centavos de água e sal: não é ruim, mas também não é bom, não enche, mas também não esvazia.
O Vento como femme fatale
"She was in everything, everything made him think of her, including the wind that gusted so hard that he could lean back against it without falling."
Um conto mais longo do Rogers — e isso quer dizer que saímos das duas~três páginas costumeiras para sete~oito. Logo, é mais intricado, há mais espaço para a narrativa correr, e mais espaço para desenvolver personagens.
O Bruce, aliás, se aproveita disso para pautar o conto todo em um personagem. Num cenário que passa por Kansas, Denver e Boulder, naquelas pequenas montanhas tortuosas onde sobem e descem carros a todo tempo, e de onde se olha lá de cima para o brilho da cidade lá embaixo, nosso protagonista pensa no estado atual do seu relacionamento. Um amor quase juvenil, bonitinho. Está tudo muito dando certo. Tudo encaminhado. E então... há um salto no tempo. Quinze anos de um parágrafo a outro, e o rapaz — agora um homem — já se casara e divorciara duas ou três vezes, mas ainda não conseguia tirar da cabeça aquela noite (a noite da abertura da narrativa) nas montanhas: o vento, a sensação, as luzes.
Ele começa a perseguir aquela sensação. Escolhe se mudar para Boulder (segundo o Urban Dictionary há até uma giria para as mulheres/homens bonitos da região) justamente por conta do vento e das mulheres: faz todo um planejamento para que consiga se apaixonar por "alguém tão jovem quanto ele desejava se sentir", frequenta (como visitante) uma ou duas aulas por semestre, patrulha bares universitários e livrarias. Ele é desenrolado, e consegue; "apaixona-se" segundo o narrador, grita o nome da menina aos quatro ventos, e quando transam pela primeira vez a paixão acaba. Repete o processo. A mesma ladainha de sempre para seduzir mulher e transar; mas, uma hora algo parece mudar. De quando em quando começa a ver algo de canto de olho, se vira na direção nada vê. Persegue, e a silhueta some. Até que, um dia, voltando da casa de uma das namoradas, a vê pela primeira vez: sobrenaturalmente alta, magra e de longos cabelos negros. Desaparece aqui, e aparece ali ou mais adiante: é a personificação do vento.
A partir daí corre o grosso da narrativa, e nos emaranhamos e nos sufocamos tanto quanto o personagem principal em cabelo e vento. É delírio do personagem? É uma mulher de verdade? É apenas o vento? Só lendo e tirando as próprias conclusões. A reta final do conto é muito, muito boa, violenta e estranha, tanto que só posso entregar algumas partes:
"He stumbled, but kept his feet beneath him. The black air roared around him. Threads of wind whipped his face and hands, stung his eyes, and he realized that it was her hair again, lashing him more fiercely now. Hair filled his mouth. He struggled to breathe. His feet still struck the ground, still kept him moving, but he was lost, blind, exhausted. He didn't know he had fallen until he felt the sudden jolt of stones against his hands."
Alexandrian Light— Conto — 4.0*
Manaus envolvida num Sci-Fi
"Pereira had switched bands and had more news. Someone was bombing Manaus. If it was the Americans, they would be able to stop the Soviet convoy on the Amazon and shield the paratroops who had dropped hours ago into Cairo"
A trama Cyberpunk num canto de Manaus me faz relevar o fato dele achar que a gente fala portunhol. A narrativa de três páginas é toda pautada em uma metáfora interessante. Caiu algo alienígena em Manaus, e as três potências do mundo (União Soviética, EUA e União Sino-Japonesa) estão se estapeando para serem os primeiros a chegar lá. Nossos dois protagonistas, porém, chegaram primeiro. Um brasileiro e outro cara que só sabemos se chamar Hacker — e parece saber o que está fazendo. A conclusão, que tem a ver com anjos, com a Biblioteca de Alexandria e com "barbarismo", você vai ter de ler para descobrir.
(Tudo isso em três páginas!!!! Já está virando chavão falar isso, mas sempre me pega. A partir de agora sempre que me lerem falando do Bruce Holland me imaginem de olhos arregalados e fazendo o sinal de "só três páginas!!!" com a mão.)
Don Ysidro — Conto — 4.0*
Herança Machadiana
"[Quando morri, o povo do vilarejo] veio perguntar para Susana se ela lhes permitiria ficar com qualquer coisa que considerasse inútil ou fosse jogar fora. Perguntaram por muitos objetos desnecessários. Perguntaram por coisas que eu, em carne e osso, já os havia prometido. Eles pediram, até, permissão para cavar argila branca no ponto onde eu gostava de encontrá-la. Perguntaram, e eu consenti, e lhes dei minha bênção. Éramos, antes de tudo, um povoado muito educado. [Tradução Livre]"
É impressionante o quanto de uma narrativa o Bruce Holland consegue mover com duas, três páginas. Ele é um dos mestres do miniconto, sem dúvidas. Só consigo ver duas razões do porquê dele não ser conhecido aqui, nessa ordem: 1. Só há uma edição, e é portuguesa. Ela não chega aqui, e muito menos seus contos (que estão espalhados por um monte de antologia). 2. O interesse por essa formazinha (diminuta só em quantidade de palavras) caiu. Lembro que já houve uma época que os mini e microcontos eram mais populares, acho que talvez por conta dos blogues — hoje mortos.
Com um parágrafo ele te insere totalmente na história e já te enche de perguntas. Aqui acompanhamos um narrador que morre já nas primeiras linhas, e ele continua narrando a história mesmo morto. Até aí tudo bem, há uns joguinhos com a perspectiva do morto (a esposa, viva, começa a responder por ele e a gente até certo momento não sabe se ela está ouvindo-o ou se apenas o conhece muito bem); o cenário é um desses antigos vilarejos hispânicos ou chicanos, e, ao mesmo tempo, parece um lugar real e fictício, com seus padres e com seus cristãos devotos.
E então… o povo pede o rosto e as mãos do morto.
E ele concede.
Aí… aí você tem de ler. Em três páginas ele dá umas cinco voltas no leitor, e o conto termina — mesmo em meio a rituais macabros e estranhos — com uma mensagem e com um simbolismo nobre e "pra cima". Meio "Everyday Use", da Alice Walker, mas mais fantástico, mais idiossincrático e mais doido. Não é à toa que é mais um dos contos dele nomeado ao World Fantasy.
Chambers Like a Hive — Conto — 3.0*
Entre sonho e realidade
Poderá ser que nossos sonhos sejam a luz de outro mundo refletida neste?
Um homem estranhíssimo entra na vida da protagonista "como uma cortina de fumaça", e os encontros entre ambos vão ficando cada vez mais irreais. A realidade ganha aspecto viscoso. Eles saem com frequência; mas ela estranha a maneira como ele sempre aparece: basta que ela comece a pegar no sono, a cabeça a pender sobre o peito, e então ouve as batidas na porta. Quando estão juntos ela sempre procura, na rua ou no cinema, rostos familiares que a apontem "— Vi você com fulano ontem!", mas nunca acontece.
Os encontros vão ficando mais raros, o homem cada dia que aparece está menor e com "menos cor". Ele revela para ela os "quartos como colmeias" que existem debaixo da cada cama de cada um, e conectam todas elas entre si. O ghosting — real ou fantástico — que ela leva e a conclusão deixo a cargo do leitor, afinal, são meras três páginas.
ps. achei uma nova leva de contos do Bruce Holland na internet, então logo mais, mais entradas aqui.
O Menino Morto à Tua Janela — Conto — 4.5*
O Cotidiano, o Fantástico e o Mitológico.
"Num país distante onde as cidades tinham nomes improváveis, uma mulher contemplou a figura inerte do seu bebé recém-nascido e recusou-se a ver o mesmo que a parteira. Era o seu filho. Trouxera-o ao mundo em agonia, e agora ele tinha de mamar. Encostou-lhe os lábios ao seio. – Mas ele está morto! – disse a parteira. – Não – mentiu a mãe. – Ainda agora o senti mamar. – A sua mentira era como leite para o bebé, que na realidade estava morto, mas abria agora os olhos e pontapeava com as pernas. – Está a ver? E obrigou a parteira a chamar o pai para conhecer o seu filho."
A partir dessa grande abertura, desenvolve-se um dos melhores contos (ou flash fiction; ou mini-conto; ou micro-conto — chame como quiser) que li ultimamente.
Em uma prosa de ficção extremamente concisa, polida, mas de uma cismática imaginatividade que encerra um misto de sensações e toca, por meio do fantástico, em sóbrios temas. É a narrativa um menino-morto, tão fino que voa no ar como pipa, carrega consigo amor e memória; e dái, desenvolve-se a narrativa.
Infelizmente, não acho esse livro do Bruce Holland Rogers em lugar nenhum e tenho que, por enquanto, me contentar com esses intervalados contos que encontro — com sorte — nos lados capinados do matagal das redes.
O Gênio que Vive entre a Noite e o Dia — Conto — 3.5*
Gênios e Desertos alá Scherazarde
– Primo! A história que eu tenho para te contar!
– Que fizeste agora, Tayab?
Outro destes preciosos achados, é quase pecaminoso deixar entrever muito dessa narrativa: é a experiência de leitura que o engrandece; e esse tem sido um dos pontos altos do autor para mim.
Mais uma vez imerso no fantástico e no místico, temos aqui como ponto central um mundo de gênios e desertos, que em menos de cinco páginas (ele adora trabalhar com essas ficções curtas) ganha mais vivacidade e desperta nosso interesse tanto quanto as melhores histórias das Mil e uma Noites, inspiração, certamente, para esta história.
A narração centra-se em torno de um gênio, Al-Faq, que: "vivia na fresta entre a noite e o dia. Raramente se aventurava nos mundos dos seus semelhantes, e muito menos no mundo dos mortais."
Por essa razão (a introspecção e o isolamento), e talvez pela hospitalidade, pelo bom chá, e pelo ouvido atento e curioso para com os outros, é visitado "tanto os espíritos obedientes como os desobedientes (que) o consideravam um dos seus (...) para lhe contar as suas histórias."
Al-Faq recebe a visita de Tayab, um gênio das cinzas, que podemos adjetivar como um dos desobedientes, mas que pouco importa à Al-Faq, que coloca o chá a ferver, e prepara-se para ouvir o relato da vez: envolvendo mortes, pestes, o sentido das coisas e religiosidade. Menos "Scherazardiano" e mais "Hollandiano".
Possui, entretanto, a mesma forma de conto popular, com, arrisco dizer, a mesma magia — as repetições soam intencionais — que conhecemos tão intimamente desses contos antigos. Porém, aqui, neste deserto vermelho, temos um colorido a mais, um frescor a mais, fruto da prosa atraente e da imaginação lúdica, sem arestas, do Bruce Holland. E isso faz essa narrativa um dos melhores contos das Mil e uma Noites FORA das Mil e uma Noites".
Um homem que perde tudo; uma mulher que não aceita ser restituída de um roubo; o jogo dos gênios e a apreensão de um sentido — a necessidade de se agarrar, a fim de continuar vivendo depois de uma catástrofe.
"O génio Al-faq, que talvez seja de confiança ou talvez não, regressou depois à fresta entre a noite e o dia. E se o mundo não acabou ainda, é aí que continua a viver."
Little Brother — Conto — 2.0*
Gramaticalmente perfeito, estilisticamente imperfeito.
Com menos de cinco páginas, não é trocadilho dizer que este é um conto menor do Bruce Holland. Longe do fantástico e mais próximo da especulação (ainda que de leve) da ficção científica, a prosa apesar de "redonda", perde a magia das histórias anteriores, não toca em lugar algum, apesar de riscar, em seu encalço, pequenas questões. É demasiado pautado em uma peripécia final: arriscaria dizer que totalmente composto a partir dessa virada final, ao ponto de que tudo que o precede vem escrito de maneira acessória.
Um menino deseja incessantemente ganhar um irmãozinho (o tal Little Brother) de natal, e quando a mãe finalmente lhe dá, e eles se conhecem, e brincam juntos, a primeira coisa que o menino faz é... procurar o botão de desligar.
O conto assemelha-se àquelas frases e parágrafos gramaticalmente perfeitos, mas que pouco ou nada dizem. É salgadinho de noventa e nova centavos de água e sal: não é ruim, mas também não é bom, não enche, mas também não esvazia.
Já adianto que o julgamento não é pelo livro todo, mas pelos dois contos que eu aguentei ler. E, também, porque hoje em dia eu escolho muito bem minhas leituras, então não foi muito legal ver o papelzinho fictício na parede que anuncia: “Estamos há quase 2 anos sem abandonar um livro” zerar.
O primeiro conto, I Love my Husband, é ligeiramente melhor que o segundo, e nele pelo menos consegui ir até o final. Apesar de uma linguagem embolotada, que dá floreios e floreios, tem uma virada de perspectiva e mergulho no psicológico da mulher que é interessante. O significado do título, sendo a frase final, tem impacto. Indica uma mudança. Mas, apesar de eu conseguir enxergar isso, a escrita dela é fria em mim, não toca em nada.
O Jardim das Oliveiras eu não consegui chegar à metade. Eram dezoito ou vinte páginas, por aí. É uma ficção histórica (?), do período da ditadura. Ficção no mesmo sentido que tem quando dizemos que um livro é autoficção, talvez. A narrativa até que me pegou: é uma pessoa recontando a um interlocutor um segundo sequestro que sofreu. A sensação de merda porque no primeiro sequestro entregou alguns amigos, o horror e a ânsia que tem da tortura, e o mote do conto: o sadismo dos sequestradores que agora começam a interrogá-lo sobre alguém que claramente morreu — que eles mesmos mataram. O negócio é que a escrita dela não bate de jeito nenhum, é tão cinza quanto o especto dessas páginas digitalizadas. Eu agora, recontando a narrativa, fiquei com vontade de saber como termina, mas bicho… (ler com a voz do Ed Motta) não dá…
O primeiro conto, I Love my Husband, é ligeiramente melhor que o segundo, e nele pelo menos consegui ir até o final. Apesar de uma linguagem embolotada, que dá floreios e floreios, tem uma virada de perspectiva e mergulho no psicológico da mulher que é interessante. O significado do título, sendo a frase final, tem impacto. Indica uma mudança. Mas, apesar de eu conseguir enxergar isso, a escrita dela é fria em mim, não toca em nada.
O Jardim das Oliveiras eu não consegui chegar à metade. Eram dezoito ou vinte páginas, por aí. É uma ficção histórica (?), do período da ditadura. Ficção no mesmo sentido que tem quando dizemos que um livro é autoficção, talvez. A narrativa até que me pegou: é uma pessoa recontando a um interlocutor um segundo sequestro que sofreu. A sensação de merda porque no primeiro sequestro entregou alguns amigos, o horror e a ânsia que tem da tortura, e o mote do conto: o sadismo dos sequestradores que agora começam a interrogá-lo sobre alguém que claramente morreu — que eles mesmos mataram. O negócio é que a escrita dela não bate de jeito nenhum, é tão cinza quanto o especto dessas páginas digitalizadas. Eu agora, recontando a narrativa, fiquei com vontade de saber como termina, mas bicho… (ler com a voz do Ed Motta) não dá…
"A terra não produziu coisa mais bela (…)
Um cenário tão majestosamente tocante:
a Cidade vestindo, como fosse cetim,
a beleza da manhã; silenciosa, nua."*
Não esperava ler tal poema de um dito romântico; no lugar de ter a contraposição natureza versus cidade, aqui a cidade “no seu primeiro esplendor (…) nada houve que sob o sol, mais bonito brilhou”. O narrador, olhando (Londres) de cima da Westminster Bridge, vê “clara e brilhante na névoa de ar puro da manhã” a serenidade “natural” que só existe e consegue ser apreciada quando justaposta com a muvuca (minha falecida vó soprou essa palavra na minha cabeça, agora) do mais tardar, da cidade a pleno vapor.
Não sei foi aqui, com ele, ou se isso é mais antigo: mas é a mais antiga literatura que vi representar a cidade feminina e lhe dar características humanas — as casas dormem; a cidade acorda e desperta; traja suas vestes. Aliás, a cidade veste a manhã, mas se abre nua; a cidade é como um coração palpitante, mas parado. Há esses jogos, e não são gratuitos: quando você entra na perspectiva do poema, do autor olhando a cidade, você entende o que é a cidade vestir a manhã e se abrir nua, "bare", para o mundo.
*Esse sou trad(estruindo)zindo a métrica do Wordsworth
Você lê e ouve agui: https://www.poetryfoundation.org/poems/45514/composed-upon-westminster-bridge-september-3-1802
Um cenário tão majestosamente tocante:
a Cidade vestindo, como fosse cetim,
a beleza da manhã; silenciosa, nua."*
Não esperava ler tal poema de um dito romântico; no lugar de ter a contraposição natureza versus cidade, aqui a cidade “no seu primeiro esplendor (…) nada houve que sob o sol, mais bonito brilhou”. O narrador, olhando (Londres) de cima da Westminster Bridge, vê “clara e brilhante na névoa de ar puro da manhã” a serenidade “natural” que só existe e consegue ser apreciada quando justaposta com a muvuca (minha falecida vó soprou essa palavra na minha cabeça, agora) do mais tardar, da cidade a pleno vapor.
Não sei foi aqui, com ele, ou se isso é mais antigo: mas é a mais antiga literatura que vi representar a cidade feminina e lhe dar características humanas — as casas dormem; a cidade acorda e desperta; traja suas vestes. Aliás, a cidade veste a manhã, mas se abre nua; a cidade é como um coração palpitante, mas parado. Há esses jogos, e não são gratuitos: quando você entra na perspectiva do poema, do autor olhando a cidade, você entende o que é a cidade vestir a manhã e se abrir nua, "bare", para o mundo.
*Esse sou trad(estruindo)zindo a métrica do Wordsworth
Você lê e ouve agui: https://www.poetryfoundation.org/poems/45514/composed-upon-westminster-bridge-september-3-1802
Bingo de Horror/Fantasia/Sci-fi do Reddit 2024~2025
Dreams: Read a book where characters experience dreams, magical or otherwise. [Modo Fácil: Sonhos Místicos/Macabros]
Eu não sou de participar desses desafios, tenho um ritmo de leitura muito particular. Mas, como esse ano tenho lido muita teoria e livros “obrigatórios”, e já há um tempo percebi que releguei aqueles livros que me iniciaram na literatura — horror, fantasia e ficção científica — resolvi aderir.
Peguei, portanto, esse aqui — que já havia começado e largado, há algum tempo, para ler outras coisas. Não esperava que fosse bom (sabe como é… livro derivado de série de tv), e não foi, mas me enganou por umas cem páginas.
Foi o revés do que aconteceu quando eu assisti a série e percebi o quanto ela era melhor do que esperava e como muita das coisas que eu gostava estava imerso em Twin Peaks (Life is Strange — quando era mais novo —, Persona, Silent Hill, True Detective, Mindhunter, Mare of Easttown… — mais atualmente).
O mistério todo em torno de Laura Palmer é incrível, magnetizante, mas o mais interessante é como ela — ou seu cadáver — faz toda a trama gravitar em sua direção ou orbitá-la; e com isso vai desencadeando um monte de personagens e movendo um monte de subtramas tão boas e únicas quanto a principal: quem matou Laura Palmer?
Na verdade, Twin Peaks (a cidade e seus mistérios) que é, de fato, o centro de tudo. O toque surrealista e sobrenatural é a cereja do bolo.
O livro tem a forma de diário, e começa quando Laura o recebe de presente no aniversário de doze anos. Se estende, entre idas e vindas, até os dezesseis. O ponto do livro, e por isso é escrito pela filha do Lynch (Jennifer), é conciliar e mostrar o tormento de Laura, uma garota que inicialmente dá pulinhos ao ganhar um pônei do amigo do pai, com os pesadelos macabros e os mistérios que vê na Floresta de Twin Peaks. A menina de ouro da cidade, idealizada por todos, que ao longo de quase todo o livro pensa em suicídio.
Por exemplo, com a diferença de poucas páginas se alternam a autodescoberta do prazer, a primeira vez que traga um cigarro de maconha… com isso aqui: "Provavelmente eu serei um presente para Satã, se não me cuidar. Às vezes, quando tenho de ver Bob, penso que estou com Satã, e que nunca me livrarei da floresta a tempo de voltar a ser novamente a boa, verdadeira e pura Laura."
Os pesadelos, os abusos e a tortura que sofre em sonho e que levam-na à prostituição e ao vício e a outros problemas mais (físicos e psicológicos) apontam para um abuso real, que pode ter acontecido mais cedo ou ainda (escondido entre toda simbologia e surrealismo) durante o livro. Como na série televisa, há poucas respostas claras. Tudo o mais são pistas. Responde algumas coisas para quem assistiu a primeira temporada, mas no fim acrescenta mais uma camada de mistério. O que (ou quem) é BOB? Que é aquele plano místico da floresta? Tudo é sobrenatural de verdade ou é imaginado — ou uma mistura dos dois?
Enfim, eu cedo alguns pontos ao livro por ter coragem. A autora escreve algumas péssimas e outras boas cenas; o estilo, porém, é uniformemente ruim ao longo de todo o livro. Certas cenas hoje em dia seriam alvejadas por todos os lados. Tem sexo (hétero e homossexual) entre menores e adultos, cenas de puro sadismo e abuso explícito. Drogas, orgias, prostituição e tráfico. É uma loucura, principalmente a reta final quando Laura se vicia em cocaína. Mas… a prosa banal e a péssima tradução me puseram frio diante do texto.
É um indicativo e tanto que a Laura da série seja "melhor": a personagem já está morta desde a abertura do primeiro episódio.
E ainda sim, lá na série, ela me compadeceu muito mais e fez com que eu me identificasse muito mais com ela que aqui, neste texto onde "formalmente" é a Laura mesma quem escreve. É melhor se ater à série e aos filmes mesmo, eu aconselho.
Dreams: Read a book where characters experience dreams, magical or otherwise. [Modo Fácil: Sonhos Místicos/Macabros]
Eu não sou de participar desses desafios, tenho um ritmo de leitura muito particular. Mas, como esse ano tenho lido muita teoria e livros “obrigatórios”, e já há um tempo percebi que releguei aqueles livros que me iniciaram na literatura — horror, fantasia e ficção científica — resolvi aderir.
Peguei, portanto, esse aqui — que já havia começado e largado, há algum tempo, para ler outras coisas. Não esperava que fosse bom (sabe como é… livro derivado de série de tv), e não foi, mas me enganou por umas cem páginas.
Foi o revés do que aconteceu quando eu assisti a série e percebi o quanto ela era melhor do que esperava e como muita das coisas que eu gostava estava imerso em Twin Peaks (Life is Strange — quando era mais novo —, Persona, Silent Hill, True Detective, Mindhunter, Mare of Easttown… — mais atualmente).
O mistério todo em torno de Laura Palmer é incrível, magnetizante, mas o mais interessante é como ela — ou seu cadáver — faz toda a trama gravitar em sua direção ou orbitá-la; e com isso vai desencadeando um monte de personagens e movendo um monte de subtramas tão boas e únicas quanto a principal: quem matou Laura Palmer?
Na verdade, Twin Peaks (a cidade e seus mistérios) que é, de fato, o centro de tudo. O toque surrealista e sobrenatural é a cereja do bolo.
‘‘The one leading to the many is Laura Palmer. Laura is the one.’’
O livro tem a forma de diário, e começa quando Laura o recebe de presente no aniversário de doze anos. Se estende, entre idas e vindas, até os dezesseis. O ponto do livro, e por isso é escrito pela filha do Lynch (Jennifer), é conciliar e mostrar o tormento de Laura, uma garota que inicialmente dá pulinhos ao ganhar um pônei do amigo do pai, com os pesadelos macabros e os mistérios que vê na Floresta de Twin Peaks. A menina de ouro da cidade, idealizada por todos, que ao longo de quase todo o livro pensa em suicídio.
Por exemplo, com a diferença de poucas páginas se alternam a autodescoberta do prazer, a primeira vez que traga um cigarro de maconha… com isso aqui: "Provavelmente eu serei um presente para Satã, se não me cuidar. Às vezes, quando tenho de ver Bob, penso que estou com Satã, e que nunca me livrarei da floresta a tempo de voltar a ser novamente a boa, verdadeira e pura Laura."
Os pesadelos, os abusos e a tortura que sofre em sonho e que levam-na à prostituição e ao vício e a outros problemas mais (físicos e psicológicos) apontam para um abuso real, que pode ter acontecido mais cedo ou ainda (escondido entre toda simbologia e surrealismo) durante o livro. Como na série televisa, há poucas respostas claras. Tudo o mais são pistas. Responde algumas coisas para quem assistiu a primeira temporada, mas no fim acrescenta mais uma camada de mistério. O que (ou quem) é BOB? Que é aquele plano místico da floresta? Tudo é sobrenatural de verdade ou é imaginado — ou uma mistura dos dois?
Enfim, eu cedo alguns pontos ao livro por ter coragem. A autora escreve algumas péssimas e outras boas cenas; o estilo, porém, é uniformemente ruim ao longo de todo o livro. Certas cenas hoje em dia seriam alvejadas por todos os lados. Tem sexo (hétero e homossexual) entre menores e adultos, cenas de puro sadismo e abuso explícito. Drogas, orgias, prostituição e tráfico. É uma loucura, principalmente a reta final quando Laura se vicia em cocaína. Mas… a prosa banal e a péssima tradução me puseram frio diante do texto.
É um indicativo e tanto que a Laura da série seja "melhor": a personagem já está morta desde a abertura do primeiro episódio.
E ainda sim, lá na série, ela me compadeceu muito mais e fez com que eu me identificasse muito mais com ela que aqui, neste texto onde "formalmente" é a Laura mesma quem escreve. É melhor se ater à série e aos filmes mesmo, eu aconselho.
"Ouvido entende de pausa, não de vírgula. Não vá na conversa dele. É analfabeto."
"(…) Agora, em se tratando de estilo — linguagem subjetiva, afetiva —, cada um bota na frase os solavancos que ama e precisa. Questão de ritmo: deslizar de cisne não é pipoquear de metralhadora."
Achei engraçado a reação das pessoas nas outras resenhas aqui perante os comentários curtos & grossos (e ácidos) do Luft. Eu mesmo errava (e ainda estou fadado a errar) um montão de vírgulas que o Luft trata aqui como infantis, básicas. "Antes de citar Shakespeare, aprenda a colocar crase" lembrei da carta recebida na redação dalgum jornal famoso.
A diferença é que eu não levo meus erros para o pessoal e aceito as correções de peito aperto. Afinal, não sobra aqui nem pro Rui Barbosa "Rui era um fichário vivo dos clássicos. E daí? Nossa língua não defuntou com os clássicos. Não parou ali. Ela tem hoje, para outras necessidades, outras formas, outros ritmos e outros critérios. (…) Cá entre nós (que os túmulos e as carpideiras não nos ouçam!), os clássicos não sabiam pontuar. E os mais antigos nem sabiam o que fosse pontuação".
Esse livrinho aqui de menos de cem páginas é melhor que a seção de pontuação da maioria dos livros de gramática mais populares.
O que ele diz na abertura, sobre professores ou sobre a questão do QI e do pensamento em relação com a pontuação tem lá seus pontos positivos e exagerados. Mas não é nada elitista como podem aqui dizer. Não é muito diferente do que diz o americano Lukeman em "A Arte da Pontuação" ou a espanhola Adela Kohan em "Puntuación para no Escritores e Escritores". E não tem ninguém lá os chamando de elitistas.
E é sóbrio o suficiente, como na abertura, de dizer sobre a pontuação estilística/literária: "A linguagem subjetiva e afetiva dos escritores, isto é, da arte literária, é um universo à parte. Não liberto de leis, mas regido por leis próprias, que cada escritor deve descobrir. É aquela história de “cria o teu ritmo”, etc. Meu amigo poeta Quintana gostava de dizer que “o poeta, em seu ofício, é infalível”. A rigor, não se pode ensinar nenhum poeta a metrificar o seu poema. Nem a pontuar."
De resto, dá exemplos práticos, tira uma enxurrada de erros de jornais, dá exemplos de escritores famosos e modernos, e bate sempre na tecla que a pontuação é questão de sintaxe; para que se deixe de aplicar "bisonhas vírgulas de ouvido.", deixe de "divorciar sujeito e verbo", deixe de ensinar que o "e" nunca pode ser separado…
Há até uma boa dose de comédia: há exemplos do "
De resto, como disse, são exemplos práticos diversos. Bom livro. Imediatamente útil.
''(…) o autor quis ser representado por um palhaço, para indicar que sabe, mais do que ninguém, que sua alma é um velho catre, cheio de insensatez e de solércia"
Acho que dá pra se dizer que fiz uma "leitura virgem" do Auto da Compadecida. Vi o filme no fim da infância e pouco ou nada me lembro de concreto além do rosto dos atores (que mesmo distantes na minha memória ainda foram tão fortes que beirou o impossível não imaginá-los na leitura). Fiz questão de não reassistir o filme antes de ler a peça.
Cheguei a ler em disciplinas anteriores os autos do Gil Vicente, e por interesse próprio dois livros sobre o "Picaresco" formas e gêneros que o Suassuna respeita muitíssimo a tradição, e com esta obra — por que não? — se insere nela.
É o melhor dos Autos, mesmo que que com o seu apelo moral seja menos ambíguo que as denúncias veladas do Gil Vicente ou a crítica escrachada do Lazarillo. Tem a forma, a peça dentro da peça, tão intricada quanto a epístola falada que funda o gênero do Picaresco. A dicção, o metadrama (dá de chamar assim?), a inserção da cultura popular e o toque individual do gênio e da personalidade do Ariano fazem uma mistura que dá caldo. É uma peça acima de tudo divertidíssima, li mais rápido do que leio alguns contos para acá. Até as rubricas do Ariano são boas, e já nelas se percebe que é uma peça que não precisa de grandes espetáculos e piromancias para funcionar. Só precisa de algum diretor batendo com as costas da mão no texto, um elenco voluntarioso e uma representação vigorosa.
Mâããs, não sei se sou eu que espero algo além do que o Auto ou a Farsa ou a peça em si se propôs a dar, mas além destes pontos, pouco há além duma forte tomada de partido — ainda que brincalhona, "simples" na boa acepção da palavra — pela moral cristã. O Lazarillo, de quinhentos anos atrás, você termina e imediatamente começa a pensar e a questioná-lo. Não é o caso do Auto da Compadecida, onde os episódios e as esquetes (ainda que MUITO boas!) são mais fortes, penso eu, que a unidade da peça. E isso, que geralmente não é problema para mim, nunca entendi aqueles extremistas da unidade de ação, foi o que me fez não gostar tanto assim do Auto.
O primeiro desfecho da peça, porém, tem um tom estranhamente trágico, um trágico-melancólico-engraçado que não sei explicar nem comparar com nada que já li antes.
Dito isto, me diverti muito mais com o Suassuna que com o Lazarillo, então talvez esteja sendo injusto com ele e com meu entretenimento.
Acho que dá pra se dizer que fiz uma "leitura virgem" do Auto da Compadecida. Vi o filme no fim da infância e pouco ou nada me lembro de concreto além do rosto dos atores (que mesmo distantes na minha memória ainda foram tão fortes que beirou o impossível não imaginá-los na leitura). Fiz questão de não reassistir o filme antes de ler a peça.
Cheguei a ler em disciplinas anteriores os autos do Gil Vicente, e por interesse próprio dois livros sobre o "Picaresco" formas e gêneros que o Suassuna respeita muitíssimo a tradição, e com esta obra — por que não? — se insere nela.
É o melhor dos Autos, mesmo que que com o seu apelo moral seja menos ambíguo que as denúncias veladas do Gil Vicente ou a crítica escrachada do Lazarillo. Tem a forma, a peça dentro da peça, tão intricada quanto a epístola falada que funda o gênero do Picaresco. A dicção, o metadrama (dá de chamar assim?), a inserção da cultura popular e o toque individual do gênio e da personalidade do Ariano fazem uma mistura que dá caldo. É uma peça acima de tudo divertidíssima, li mais rápido do que leio alguns contos para acá. Até as rubricas do Ariano são boas, e já nelas se percebe que é uma peça que não precisa de grandes espetáculos e piromancias para funcionar. Só precisa de algum diretor batendo com as costas da mão no texto, um elenco voluntarioso e uma representação vigorosa.
Mâããs, não sei se sou eu que espero algo além do que o Auto ou a Farsa ou a peça em si se propôs a dar, mas além destes pontos, pouco há além duma forte tomada de partido — ainda que brincalhona, "simples" na boa acepção da palavra — pela moral cristã. O Lazarillo, de quinhentos anos atrás, você termina e imediatamente começa a pensar e a questioná-lo. Não é o caso do Auto da Compadecida, onde os episódios e as esquetes (ainda que MUITO boas!) são mais fortes, penso eu, que a unidade da peça. E isso, que geralmente não é problema para mim, nunca entendi aqueles extremistas da unidade de ação, foi o que me fez não gostar tanto assim do Auto.
O primeiro desfecho da peça, porém, tem um tom estranhamente trágico, um trágico-melancólico-engraçado que não sei explicar nem comparar com nada que já li antes.
Dito isto, me diverti muito mais com o Suassuna que com o Lazarillo, então talvez esteja sendo injusto com ele e com meu entretenimento.
Auto da Compadecida — ✲ 3.5/5.0
Edição: Nova Fronteira (2018)
Forma: Teatro
Páginas: 190pp
"Lily, a filha do zelador, literalmente não se aguentava mais em pé. Nem bem acabara de levar um cavalheiro até a copinha atrás do escritório no térreo ajudando-o com o sobretudo quando a roufenha campainha da porta da frente tocava outra vez e ela tinha que voltar correndo pelo despido corredor para receber outro convidado."
Se eu ordenar a obra do Joyce pela quantidade de vezes que vi algum escritor ou leitor o citando, fica mais ou menos assim: Ulysses, Finnegan’s Wake, Retrato de um Artista, The Dead e Dublinenses. Este penúltimo escapando de Dublinenses como novela que se autossustenta. A ordem mais confortável de leitura, dizem ser esta mesma — excluindo Finnegan’s — só que de trás pra frente.
Eu gostei de Os Mortos, não achei complicado ou exagerado, achei que o Joyce escreve muito bem, mas tenho de ser sincero: não é melhor que A Terceira Margem do Rio (Rosa) e não é melhor que a alta prateleira do Machado. Li “Os Mortos” mais ao menos ao mesmo tempo que li “O Enfermeiro” (que está mais ou menos no rol inferior, abaixo de "Missa do Galo", "A Cartomante, etc.) e não deve nada ao conto do Joyce.
Mas enfim, menos comparações e mais narrativa em si. Gostei bastante do jeito que o Joyce escreve, e entendi o porquê ele é O moderno. O uso que ele faz do narrador, saltando entre personagens, sempre afastado a não ser quando se confunde e se mistura com alguém, quando mostra internamente o que uma pessoa sente mas não a reação do outro (selecionando muito bem esses momentos) senti realmente como se fosse uma superação da literatura realista. O jeito que ele escreve aqui é a mímese da vida mais do que faz qualquer escritor realista descrevendo minúcias e mais minúcias.
É, também, uma narrativa de múltiplas camadas temáticas, não só nas relações entre personagens como também nos múltiplos símbolos. A morte, o militarismo, o patriotismo gaélico, a relação Irlanda-Inglaterra… Apesar de ser necessário ler anotado para pegar muito disso, o “cerne” do conto é bem construído e bem escrito o suficiente para que você sinta e compreenda sem necessidade de nada além de tato e de humanidade. É, sobretudo, sobre relações humanas. Se ainda pegarmos o fiozinho do Machado, Gabriel — o protagonista — é um protagonista e marido muito diferente, mais comedido, mais compreensível, mais tenro e mais amoroso que os do Machado. Mesmo quando a esposa caí na cama, mal conseguindo respirar, soluçando e chorando por outro homem até cair no sono. Ele, ao lado dela, a olha e observa seus próprios sentimentos e tudo o mais que sente (junto com a gente), está em conflito, mas ainda apaixonado.
Um exemplo do caso onde o contexto é necessário se dá em um dos conflitos da parte inicial do conto, que só é entendido se você souber o “partido” de um jornal específico para qual o personagem escrevia, na Irlanda. E também muitas outras coisinhas mais culturais e referenciais. Principalmente Óperas daquele tempo, palavras e expressões que remetem à morte, etc.
É um conto muito pautado na descrição, no sentimento e no conflito interno de Gabriel. Mas entre os pequenos conflitos (pouco explícitos), o que salva mesmo é a escrita do Joyce, que solta descrições universais e transcendentais da relação homem-mulher e faz o texto correr muito que bem. Por exemplo, quando por fim termina a festa (é um tipo de enterro-dos-ossos, como chamamos aqui, só que depois do Natal, e mais chique, claro!) marido e mulher, depois de tomar a carruagem, finalmente cruzam, apoiados um ao outro, a madrugada fria e as ruas pouco iluminadas, esbranquiçadas de neve, para finalmente estarem sozinhos em casa:
O final também é bonito, com direito a supostos espectros ou fantasmas e aquele limiar entre sono e vigília; Gabriel ouve a neve bater na janela e vai se dissolvendo ao cair no sono, pensa na vida, pensa na festa, pensa na esposa e pensa no ex dela… Até que finalmente a mente dele entra em estado de suspensão, e o conto acaba.
(Curiosamente já tinha lido esse final: o Borges seleciona essa passagem do Joyce na “Antologia da Literatura Fantástica”).
Enfim, sobre tradução e edição:
Cotejei as duas traduções e achei esta (ainda por cima é bilingue), do Tomaz Tadeu, melhor que a do Galindo, nosso tradutor “oficial” do Joyce. Em três pontos (o primeiro parágrafo já é um exemplo bom): I. A tradução das expressões; II. a clareza do texto e o uso da pontuação (O Galindo se sai bem nas partes mais complicadas mas complica as simples); III. As notas e compreensão e leitura que se faz da história, imersa no tema da morte e da pátria (aqui, são mais de cem anotações sobre contexto e composição!)
A expressão que abre o conto, e que também abre o meu comentário, é acompanhada da pontuação frouxa que da segunda sentença em diante remete ao alvoroço que Lily passava, correndo de um lugar a outro. O Galindo prefere manter desde o início o tema da morte e traduz como “Lily, a filha do zelador, estava literalmente perdendo a cabeça” (essa acepção de ‘‘literalmente’’ é possível e discutida no idioma deles), mas na minha opinião ele tira o peso do uso do narrador que abre dentro da Lily para só depois, na conversa entre ambos, trocar para o Gabriel. Enfim, compare e decida por si. Mas recomendo esta edição porque as notas são especialmente boas, é bilíngue (esse final tem de ser lido em inglês), e o texto correu bem.
Se eu ordenar a obra do Joyce pela quantidade de vezes que vi algum escritor ou leitor o citando, fica mais ou menos assim: Ulysses, Finnegan’s Wake, Retrato de um Artista, The Dead e Dublinenses. Este penúltimo escapando de Dublinenses como novela que se autossustenta. A ordem mais confortável de leitura, dizem ser esta mesma — excluindo Finnegan’s — só que de trás pra frente.
Eu gostei de Os Mortos, não achei complicado ou exagerado, achei que o Joyce escreve muito bem, mas tenho de ser sincero: não é melhor que A Terceira Margem do Rio (Rosa) e não é melhor que a alta prateleira do Machado. Li “Os Mortos” mais ao menos ao mesmo tempo que li “O Enfermeiro” (que está mais ou menos no rol inferior, abaixo de "Missa do Galo", "A Cartomante, etc.) e não deve nada ao conto do Joyce.
Mas enfim, menos comparações e mais narrativa em si. Gostei bastante do jeito que o Joyce escreve, e entendi o porquê ele é O moderno. O uso que ele faz do narrador, saltando entre personagens, sempre afastado a não ser quando se confunde e se mistura com alguém, quando mostra internamente o que uma pessoa sente mas não a reação do outro (selecionando muito bem esses momentos) senti realmente como se fosse uma superação da literatura realista. O jeito que ele escreve aqui é a mímese da vida mais do que faz qualquer escritor realista descrevendo minúcias e mais minúcias.
É, também, uma narrativa de múltiplas camadas temáticas, não só nas relações entre personagens como também nos múltiplos símbolos. A morte, o militarismo, o patriotismo gaélico, a relação Irlanda-Inglaterra… Apesar de ser necessário ler anotado para pegar muito disso, o “cerne” do conto é bem construído e bem escrito o suficiente para que você sinta e compreenda sem necessidade de nada além de tato e de humanidade. É, sobretudo, sobre relações humanas. Se ainda pegarmos o fiozinho do Machado, Gabriel — o protagonista — é um protagonista e marido muito diferente, mais comedido, mais compreensível, mais tenro e mais amoroso que os do Machado. Mesmo quando a esposa caí na cama, mal conseguindo respirar, soluçando e chorando por outro homem até cair no sono. Ele, ao lado dela, a olha e observa seus próprios sentimentos e tudo o mais que sente (junto com a gente), está em conflito, mas ainda apaixonado.
Um exemplo do caso onde o contexto é necessário se dá em um dos conflitos da parte inicial do conto, que só é entendido se você souber o “partido” de um jornal específico para qual o personagem escrevia, na Irlanda. E também muitas outras coisinhas mais culturais e referenciais. Principalmente Óperas daquele tempo, palavras e expressões que remetem à morte, etc.
É um conto muito pautado na descrição, no sentimento e no conflito interno de Gabriel. Mas entre os pequenos conflitos (pouco explícitos), o que salva mesmo é a escrita do Joyce, que solta descrições universais e transcendentais da relação homem-mulher e faz o texto correr muito que bem. Por exemplo, quando por fim termina a festa (é um tipo de enterro-dos-ossos, como chamamos aqui, só que depois do Natal, e mais chique, claro!) marido e mulher, depois de tomar a carruagem, finalmente cruzam, apoiados um ao outro, a madrugada fria e as ruas pouco iluminadas, esbranquiçadas de neve, para finalmente estarem sozinhos em casa:
"Ele se sentira então orgulhoso e feliz, feliz por ela ser sua, orgulhoso de sua graça e postura conjugal. Mas agora, após o reavivar de tantas recordações, o primeiro toque de seu corpo, musical e estranho e perfumado, provocou-lhe fisgadas agudas de um imenso desejo. Escudado pelo silêncio dela, apertou-lhe estreitamente o braço contra o próprio corpo; e, parados à porta do hotel, ele sentia que tinham escapado de suas vidas e obrigações, escapado da casa e dos amigos, fugindo juntos, os corações rebeldes e radiantes, rumo a uma nova aventura."
O final também é bonito, com direito a supostos espectros ou fantasmas e aquele limiar entre sono e vigília; Gabriel ouve a neve bater na janela e vai se dissolvendo ao cair no sono, pensa na vida, pensa na festa, pensa na esposa e pensa no ex dela… Até que finalmente a mente dele entra em estado de suspensão, e o conto acaba.
(Curiosamente já tinha lido esse final: o Borges seleciona essa passagem do Joyce na “Antologia da Literatura Fantástica”).
Enfim, sobre tradução e edição:
Cotejei as duas traduções e achei esta (ainda por cima é bilingue), do Tomaz Tadeu, melhor que a do Galindo, nosso tradutor “oficial” do Joyce. Em três pontos (o primeiro parágrafo já é um exemplo bom): I. A tradução das expressões; II. a clareza do texto e o uso da pontuação (O Galindo se sai bem nas partes mais complicadas mas complica as simples); III. As notas e compreensão e leitura que se faz da história, imersa no tema da morte e da pátria (aqui, são mais de cem anotações sobre contexto e composição!)
A expressão que abre o conto, e que também abre o meu comentário, é acompanhada da pontuação frouxa que da segunda sentença em diante remete ao alvoroço que Lily passava, correndo de um lugar a outro. O Galindo prefere manter desde o início o tema da morte e traduz como “Lily, a filha do zelador, estava literalmente perdendo a cabeça” (essa acepção de ‘‘literalmente’’ é possível e discutida no idioma deles), mas na minha opinião ele tira o peso do uso do narrador que abre dentro da Lily para só depois, na conversa entre ambos, trocar para o Gabriel. Enfim, compare e decida por si. Mas recomendo esta edição porque as notas são especialmente boas, é bilíngue (esse final tem de ser lido em inglês), e o texto correu bem.
The Dead — James Joyce
Trad. e Notas de Tomaz Tadeu
Autêntica [Coleção Mimo]
Conto/Novela
~121pp — ✲ 3.5/5.0