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4.0

"Não trocaria a minha vida [no campo] pela vossa; é certo que vivemos com alguma rudeza, mas, pelo menos, não estamos sempre ansiosos"


Apesar da citação atualíssima sobre a vida na cidade, o conto de 1886 (!) vai além do contraste simplista de citadinos endinheirados e egoístas com lavradores e trabalhadores puros e benevolentes. O egoismo inerente de nossa espécie é mais profundo que isso e Tolstoi sabe bem.

E se você espera uma narrativa realista do Tolstoi, erra por muito. A narrativa não está longe do que chamamos de contos fantásticos, lembra avant la lettre certos contos do Tchekhov ou do Maupassant, e isso ilustra bastante bem o fato que desde sempre existiu esse tipo de literatura, e antes nem mesmo se diferenciava "a literatura séria barra realista" da "literatura imaginativa". Tolstoi envolve na narrativa diabos, sonhos, profecias, prenúncios de morte.

"só o que nos consome é não termos terra bastante; se tivesse toda a terra que quero, nem o Diabo seria capaz de meter-me medo.»"

A primeira parte termina com o diabo sentado na lareira. Ele escuta toda a conversa das mulheres (que, numa sacada inteligente do Tolstoi, abrem em diálogo o pano da ação) e o pensamento dos homens. A fagulha do desejo de terra, de propriedade, e o egoísmo faz o demônio rir com seus dentes pontudos, gargalhar, até, quando o homem diz que "só lhe bastava mesmo era mais terra..." A ilusão, ou o desejo, ou o egoismo, ou tudo isso junto é a condenação do homem.

No fim, depois de comprar terra, vender, enganar os outros, tornar-se um homem completamente diferente daquele que começou a história, faz um acordo com alguns baquires por terra e o final... bem, você tem de ler o final.

É daqueles que ficam com você pela eternidade.

How Much Land Does a Man Need? — ✲ 4.5/5.0