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173 reviews by:
rolandosmedeiros
A antologia seminal da Literatura Fantástica, curada por três grandes argentinos (Bioy, Borges e Ocampo), é muito mais do que só um marco para a cena literária platese daquele tempo, definindo a partir dali a cara da literatura que se produziria por lá ao ceder um caminhão de novas referências aos jovens escritores da América Latina. É um marco para um montão de gente ao redor do mundo, eu incluso (que eu não faria por minhas mãos nessa edição linda da Cosac Naif… ); ela moldou meu gosto e minhas preferências literárias.
A obra revela a pena de escritores escondidos e/ou obscuros, que dificilmente você encontraria normalmente, traduzidos pelos três editores. A ordem é alfabética e isso faz com que escritores talentosos escondidos da cânon, figurem aqui com contos pau a pau com grandes nomes da literatura mundial. O próprio Borges, Bioy e Ocampo (cada qual incluindo, também, seus próprios contos) lutam duramente com Giovani Papini, Leopoldo Lugones, Santiago Dabove, May Sinclair, Villiers de L’Isle Adam e Max Beerbohm pela alta prateleira, onde figuram os melhores contos da antologia. Todos esses contos duríssimos inclusive oferecem perigo e risco a escritores consagrados que também foram selecionados, como: H.G Wells, Kipling, Joyce, Poe, Maupassant, Cortázar e outras presenças ilustres.
Não por pura vaidade que os editores se inserem na antologia. Quem os conhece minimamente sabe: são histórias de grande qualidade. Tlon, Uqbar Orbius Tetius do Borges e A Lula Opta por sua Tinta do Bioy figuram as melhores histórias da antologia, brigando com todos aqueles supracitados; a Ocampo com seu cotidiano disforme, fica na prateleira ligeiramente abaixo, entre os bons. (Eu li o A Fúria e digo que ela tem contos melhores do que aquele que ela selecionou aqui).
Viaja-se na biblioteca destes três argentinos, através de autores das mais diversas nacionalidades e das mais diversas épocas, não só em contos, mas também em enxertos, microcontos, peças de teatro e até relatos que ficam na margem da ficção e da realidade. O livro perpassa pelos Contos Orientais, pela magia das Mil e Uma Noites, pelo Satyricon, e estende-se até o modernismo, com Os Mortos, do Joyce. Vê uma semente da literatura fantástica naquele encerramento de Os Mortos. (No entanto, o livro para por aí. O Manguel, inspirado por este livro, "pega" da onde nossos curadores pararam, no seu "Book of Fantastic Literature", de dois grandes volumes que dizem ser tão bom quanto.)
Há no livro uma ótima introdução do Bioy sobre a concepção do livro e sobre a literatura fantástica como um todo, e outras edições contam até com uma introdução da Úrsula K. Le Guin, que discorre sobre o significado de "fantasia" ao longo do tempo, também bem bom.
Só seguindo pelo sumário a lista de autores, e indo atrás de suas principais obras (fantásticas ou não), você já tem uma boa lista de leitura para praticamente o resto da vida. É um livro que eu recomendaria para qualquer um.
A obra revela a pena de escritores escondidos e/ou obscuros, que dificilmente você encontraria normalmente, traduzidos pelos três editores. A ordem é alfabética e isso faz com que escritores talentosos escondidos da cânon, figurem aqui com contos pau a pau com grandes nomes da literatura mundial. O próprio Borges, Bioy e Ocampo (cada qual incluindo, também, seus próprios contos) lutam duramente com Giovani Papini, Leopoldo Lugones, Santiago Dabove, May Sinclair, Villiers de L’Isle Adam e Max Beerbohm pela alta prateleira, onde figuram os melhores contos da antologia. Todos esses contos duríssimos inclusive oferecem perigo e risco a escritores consagrados que também foram selecionados, como: H.G Wells, Kipling, Joyce, Poe, Maupassant, Cortázar e outras presenças ilustres.
Não por pura vaidade que os editores se inserem na antologia. Quem os conhece minimamente sabe: são histórias de grande qualidade. Tlon, Uqbar Orbius Tetius do Borges e A Lula Opta por sua Tinta do Bioy figuram as melhores histórias da antologia, brigando com todos aqueles supracitados; a Ocampo com seu cotidiano disforme, fica na prateleira ligeiramente abaixo, entre os bons. (Eu li o A Fúria e digo que ela tem contos melhores do que aquele que ela selecionou aqui).
Viaja-se na biblioteca destes três argentinos, através de autores das mais diversas nacionalidades e das mais diversas épocas, não só em contos, mas também em enxertos, microcontos, peças de teatro e até relatos que ficam na margem da ficção e da realidade. O livro perpassa pelos Contos Orientais, pela magia das Mil e Uma Noites, pelo Satyricon, e estende-se até o modernismo, com Os Mortos, do Joyce. Vê uma semente da literatura fantástica naquele encerramento de Os Mortos. (No entanto, o livro para por aí. O Manguel, inspirado por este livro, "pega" da onde nossos curadores pararam, no seu "Book of Fantastic Literature", de dois grandes volumes que dizem ser tão bom quanto.)
Há no livro uma ótima introdução do Bioy sobre a concepção do livro e sobre a literatura fantástica como um todo, e outras edições contam até com uma introdução da Úrsula K. Le Guin, que discorre sobre o significado de "fantasia" ao longo do tempo, também bem bom.
Só seguindo pelo sumário a lista de autores, e indo atrás de suas principais obras (fantásticas ou não), você já tem uma boa lista de leitura para praticamente o resto da vida. É um livro que eu recomendaria para qualquer um.
Diferente do The Outsider, único outro livro que li inteiro do King (e decidi que deu de King para mim — pelo menos por uns anos), esse aqui pelo menos faz mais ou menos bem o jogo a que se propõe. Como é um livro que só funciona pela surpresa, vou me abster de comentar sobre trama. Basta dizer que a carne do livro é a longa caminhada do título: um evento esportivo, digamos, em uma América distópica onde o vencedor recebe o que ele quiser e o perdedor ganha um bilhete azul (que você deve ler para descobrir o que é).
Ganha quem caminhar tanto o mais que conseguir ao longo dos Estados Unidos, não pode parar ou diminuir o pace, três avisos e você está fora. Tudo é acompanhado por uma multidão, o evento é seguido de perto pelos militares (que dominam aquela América), e transmitido pela televisão, com patrocinadores, pay per view e etc. A violência vai escalando e é esse o ponto que eu quero chegar: eu entendo quem abandona o livro, entendo perfeitamente; mas, não entendo quem chega no final e fala mal do livro porque o cara cai justamente na crítica do livro: a fetichização e a nossa relação com a violência. Por que você continuou lendo? É a pergunta. Porque… a gente, como sociedade, é a mesma que acompanha aquela corrida brutal de perto, não por curiosidade mórbida (que é natural) mas por outra coisa; e isso é bem feito pelo King, não nego, apesar da prosa dele beirar o cômico (de um jeito ruim) nos diálogos entre os personagens. Tem horas que a simbiose entre a gente e a audiência daquela corrida é perfeita — e é um tapa na cara.
Além do mais, nunca vou esquecer desse livro porque eu li enquanto ouvia o novo álbum do Boogarins (Sombra ou Dúvida), e a música combinou tanto que agora eu acho que ela realmente tem aquele tom e atmosfera de distopia.
Enfim, dos dois livros e meio que li do King (The Long Walk, The Outsider, The Running Man) esse aqui é o meu favorito.
Ganha quem caminhar tanto o mais que conseguir ao longo dos Estados Unidos, não pode parar ou diminuir o pace, três avisos e você está fora. Tudo é acompanhado por uma multidão, o evento é seguido de perto pelos militares (que dominam aquela América), e transmitido pela televisão, com patrocinadores, pay per view e etc. A violência vai escalando e é esse o ponto que eu quero chegar: eu entendo quem abandona o livro, entendo perfeitamente; mas, não entendo quem chega no final e fala mal do livro porque o cara cai justamente na crítica do livro: a fetichização e a nossa relação com a violência. Por que você continuou lendo? É a pergunta. Porque… a gente, como sociedade, é a mesma que acompanha aquela corrida brutal de perto, não por curiosidade mórbida (que é natural) mas por outra coisa; e isso é bem feito pelo King, não nego, apesar da prosa dele beirar o cômico (de um jeito ruim) nos diálogos entre os personagens. Tem horas que a simbiose entre a gente e a audiência daquela corrida é perfeita — e é um tapa na cara.
Além do mais, nunca vou esquecer desse livro porque eu li enquanto ouvia o novo álbum do Boogarins (Sombra ou Dúvida), e a música combinou tanto que agora eu acho que ela realmente tem aquele tom e atmosfera de distopia.
Enfim, dos dois livros e meio que li do King (The Long Walk, The Outsider, The Running Man) esse aqui é o meu favorito.
Impressão Fria é um conto de terror e fantasia urbana pertencente ao Mythos do Lovecraft, porém escrito e pontilhado com características narrativas e cenários próprios de seu autor: Ramsey Campbell.
Campbell joga em casa, faz a história se passar na sua própria cidade inventada, cenário de outras histórias dele, Gloucerstershire: uma cidade suja, cheia de becos estreitos que dão em ruas ocultas, pessoas estranhas, bares auspiciosos e bibliotecas obscuras onde as verdadeiras prateleiras estão escondidas.
A atmosfera do conto (grande característica da maioria das histórias do Mythos, por sinal) é muito melhor que todos os outros aspectos da narrativa, mas isso não tira os méritos do autor. O personagem principal também é interessante e diferente daquele batido personagem Lovecraftiano (quase sempre igual) ou o pedaço de cartolina do Ashton Clark Smith, aqui o protagonista é uma personagem de verdade, com preferências próprias e uma perversidade latente — que se revelará nos livros que ele procura (adianto, não são de ocultismo, não é tão clichê assim); algo crucial para o desfecho do conto.
É diferente de outros autores do Mythos. Não há o excesso de horrores indescritíveis do Lovecraft aqui. E, em vez do horror cósmico aparente, o que corta a história é um clima taciturno. A ambientação também difere de um Ashton Clark Smith da vida, saindo das raízes de cultos antigos e aproximando, por exemplo da abordagem do Alan Moore do Ciclo Lovecraftiano.
Apesar de terror praticamente nulo, o que é um pequeno ponto negativo, não há como negar que o Campbell está tentando colocar seu tempero próprio na abordagem do universo. Ele se afasta do pastiche, do horror natural e ruma ambientes e narrativas mais modernas, com mais aspecto de pulsões, fetiches e psicologia em geral.
Uma história de horror, um protagonista com preferências estranhas, um cenário bem escrito e a ação transcorrendo, com direito a uma entidade lovecraftiana aparecendo, dentro de uma livraria. Um conto bom. Só bom.
Campbell joga em casa, faz a história se passar na sua própria cidade inventada, cenário de outras histórias dele, Gloucerstershire: uma cidade suja, cheia de becos estreitos que dão em ruas ocultas, pessoas estranhas, bares auspiciosos e bibliotecas obscuras onde as verdadeiras prateleiras estão escondidas.
A atmosfera do conto (grande característica da maioria das histórias do Mythos, por sinal) é muito melhor que todos os outros aspectos da narrativa, mas isso não tira os méritos do autor. O personagem principal também é interessante e diferente daquele batido personagem Lovecraftiano (quase sempre igual) ou o pedaço de cartolina do Ashton Clark Smith, aqui o protagonista é uma personagem de verdade, com preferências próprias e uma perversidade latente — que se revelará nos livros que ele procura (adianto, não são de ocultismo, não é tão clichê assim); algo crucial para o desfecho do conto.
É diferente de outros autores do Mythos. Não há o excesso de horrores indescritíveis do Lovecraft aqui. E, em vez do horror cósmico aparente, o que corta a história é um clima taciturno. A ambientação também difere de um Ashton Clark Smith da vida, saindo das raízes de cultos antigos e aproximando, por exemplo da abordagem do Alan Moore do Ciclo Lovecraftiano.
Apesar de terror praticamente nulo, o que é um pequeno ponto negativo, não há como negar que o Campbell está tentando colocar seu tempero próprio na abordagem do universo. Ele se afasta do pastiche, do horror natural e ruma ambientes e narrativas mais modernas, com mais aspecto de pulsões, fetiches e psicologia em geral.
Uma história de horror, um protagonista com preferências estranhas, um cenário bem escrito e a ação transcorrendo, com direito a uma entidade lovecraftiana aparecendo, dentro de uma livraria. Um conto bom. Só bom.
''Eu não acredito em Deus. Mas penso que serei feliz, hoje, amanhã, algum dia, tenho certeza.''
Bem, acho que o primeiro ponto que todos percebem ao ler Eden é o quão caótico ele aparenta ser inicialmente. Há idas e vindas no tempo. Volume 2 pouco se parece com o anterior. No apanhado geral que eu fiz do Volume 1, eu já havia citado como Eden muda de foco e até de gênero o tempo todo para narrar uma história de um imenso escopo, que parte de guerras de guerrilha na América do Sul e chega em questões existenciais e religiosas, em viagens espaciais e sobrevivência da raça humana. Há uma dessas mudanças do Volume 1 para o Volume 2: saímos da contemplação e exploração de um mundo apocalíptico destruído, mais próximo das narrativas de sobrevivência, para uma ação desenfreada, com mortes brutais, conflitos militares/políticos e cliffhangers. (Achei engraçado que uma das resenhas negativas aqui eu vi alguém dizer que "o mangá simplesmente decide qual gênero ele quer ser")
Apesar de eu preferir o lado mais filosófico e introspectivo de Eden (como não lembrar da dança, que ocupa umas cinco páginas ao todo, entrecortada por memórias, com uma carga imensa de significados na one-shot de abertura?) sua ação, um futurismo/cyberpunk com toque meio retrô, também não é de se virar a cara. O mundo criado pelo autor permanece bastante realista e o elenco interessante de personagens só cresce aqui. O ponto crucial deste volume é, portanto, apresentar e expandir as personalidades dos mercenários que capturam o Elijah e das duas mulheres que o grupo salvou. Começamos a vislumbrar as instabilidades e as sombras por detrás daquelas personagens, um grupo formado por pessoas prejudicadas e cheias de problemas que estão unidas por um ideal.
Kachua, por exemplo, descende dos Incas e trabalha em um campo de concentração de produção de cocaína nos Andes; por ser bonita, foi tornada uma prostituta durante a invasão da Propátria. Helena, a outra personagem, teve uma mãe e vó prostitutas que sonhavam em dar uma vida melhor para suas filhas, mas que nunca conseguiram realizar esse sonho. Sofia, uma das mercenárias, com o corpo meio robô, modificado, no passado foi muito promíscua e com isso deu à luz oito filhos que não criou. E até o Elijah, nosso protagonista, que tem de viver com o fardo de ser filho de seu pai, um figurão do narcotráfico que causou muito daquilo, vivendo à custa das drogas, do tráfico e da prostitução; o que também causou o sequestro da mãe e da irmã dele.
Mas, ao mesmo tempo que começamos a ter uma noção da profundidade desses personagens nos diálogos, somos interrompidos todo tempo pela constante ameaça de violência visceral: não há como se sentir seguro em Eden por muito tempo. Há também um salto perceptível na qualidade visual e literária em relação ao primeiro volume, há um relance da escrita do Endo em algumas passagens, mas ainda está longe do seu potencial real. Talvez aqui se inicie de fato a montanha-russa que é Eden e você deve apertar os cintos para passar por todas as edições e chegar no fulminante final.
O excesso de ação e violência (verdadeiramente gráfica) pode ser um pouco problemática para aqueles atraídos a Eden por todas as discussões que ele engloba. Há um pouco disso sim aqui nesse volume, principalmente no esporro que Helena dá em Elijah, entre outras cenas apertadas entre a ação, mas não parece ser o foco nesse momento.
No geral, é uma edição ok, um pouco abaixo do padrão Eden, mas uma boa edição.
Um tipo de precursor do estilo de quadrinho que se tornou popular sob o nanquim do japonês Jiro Taniguchi e seus viajantes e caminhantes introspectivos (Homem que Passeia, Gourmet Solitário, etc).
O francês Jules Renard, que me trouxe a esse quadrinho, é um autor clássico da literatura francesa, mestre das pequenas sentenças definitivas e de aforismos sobre diversos aspectos da vida: trivialidades da cidade e do campo, questões familiares (ô vida conturbada, ele teve), relacionamento, política, literatura e quetais… Fred, ousado, se arrisca a adaptar uma das duas mais famosas obras do Renard, o seu Journal, e tem de amarrar um monte dessas frases soltas, todas muito boas, em uma narrativa que faça sentido para o quadrinho.
Inventa, portanto, um interlocutor para o Renard, um corvo falante — que casa perfeitamente com o traço dele nesse quadrinho — para acompanhar o escritor enquanto ele viaja pelo interior da França em 1800 e uns quebrados. É no máximo funcional. O animal conversa, questiona, se espanta, e aprende sobre a vida com escritor, que vai soltando a todo tempo suas famosas frases.
Essa saída não eleva a leitura nem a rebaixa, deixa-a, assim, leve e rápida, uma viagem ao longo de cem páginas que parece, facilmente, menos da metade. No começo é difícil de engatar, mas conforme as páginas vão virando, a destreza e agudez de ambos artistas — Jules com suas frases suaves como penas e pesadas como chumbo; Fred, com seu olhar vívido e sombreamento forte — vão se revelando. Há uma página quádrupla (!) mais para o final que parece ter saído direto de Sandman ou de Graphic Novels de horror mais modernas. Muito bonita. Mas, o gosto que fica é que é melhor você ler tanto um quanto o outro artista diretamente em suas obras. Philémon ou o Diário do Renard/Poil de Carotte
[~]
Um pouco dos meus caminhos até chegar aqui:
Às vezes eu largo minha eterna lista de leitura e deixo me guiar só por interesse. Ouvi falar de Philémon, do Fred, no Quadrinhos na Sarjeta (canal muito bom por sinal), fui atrás, e acabei encontrando essa obra aqui. Como eu havia lido superficialmente o Jules Renard, tornei a ele e a uma outra obra sua, o Poil de Carotte, que relata a história conturbada da infância que teve: a mãe era quase que o próprio diabo com o menino, o pai triste e desgostoso para com a vida e com a mulher que casara acaba por viver apático até se matar, e ele próprio, o Jules, tentou e vislumbrou, ainda na infância/adolescência, várias vezes tirar a própria vida. Mas, ele vai vivendo, vai se agarrando a outras coisas: no fim, a mãe, tirânica, também se suicida, deixando apenas ele, a irmã e o irmão. O irmão que também morre de infanto fulminante na meia-idade; e lá vai o Jules enterrar mais um membro da família.
Se surpreende, porém, quem acha que ele conta tudo isso com o rosto sombreado, encurvado e se martirizando. O "Cabelo de Cenoura" é uma joia da "literatura infantil" justamente por fazer o contrário, ele narra da perspectiva dele criança, sem julgamentos, e tudo de um jeito leve, que faz você se identificar, se inspirar, ao mesmo tempo que o menino sofre as maiores crueldades só por ser criança.
Mais uma vereda. Por causa do Jules Renard acabei encontrando o Nada a Temer do Julian Barnes, que fala sobre morte, religião, e sobre… Jules Renard (e diversos outros escritores e filósofos
também, é verdade, mas o Jules é dígamos... personagem principal, justamente pela história de vida dele). Acabou por ser um dos livros da minha vida. Eu já escrevi sobre ele aqui: é muito mais que aquela autoficção moderna, o diálogo aberto com a morte, com a memória, não sei dizer exatamente como, me curou daquele negócio que acho que todo mundo tem de acordar de madrugada, suando frio, tenso, pensando que vai morrer um dia. Livro incrível.
Moral da história: não sei, divaguei demais, Jules Renard é muito bom…? Fred e Julian Barnes também…? Deixar as leituras fluírem? Acho que é isso. Se pautar pelo seu interesse e pelo feeling. Confie em você. É algo que o George Saunders também diz: se você sentiu a necessidade de, sei lá, ler cronologicamente o romance mais popular de cada década, vá e faça. Isso, de certa forma, se autocompensará e te ajudará, no futuro, de alguma forma que você, na hora que teve esse insight, ainda não sabe, mas vai. É a manifestação de algo, maior ou menor. Concordo com ele. Hoje em dia a gente chama de hiperfoco: se você tá com hiperfoco em alguma coisa, não se puna nem se deixe repelir, mergulhe de cabeça, vá fundo, até ter outro estalo.
O francês Jules Renard, que me trouxe a esse quadrinho, é um autor clássico da literatura francesa, mestre das pequenas sentenças definitivas e de aforismos sobre diversos aspectos da vida: trivialidades da cidade e do campo, questões familiares (ô vida conturbada, ele teve), relacionamento, política, literatura e quetais… Fred, ousado, se arrisca a adaptar uma das duas mais famosas obras do Renard, o seu Journal, e tem de amarrar um monte dessas frases soltas, todas muito boas, em uma narrativa que faça sentido para o quadrinho.
Inventa, portanto, um interlocutor para o Renard, um corvo falante — que casa perfeitamente com o traço dele nesse quadrinho — para acompanhar o escritor enquanto ele viaja pelo interior da França em 1800 e uns quebrados. É no máximo funcional. O animal conversa, questiona, se espanta, e aprende sobre a vida com escritor, que vai soltando a todo tempo suas famosas frases.
Essa saída não eleva a leitura nem a rebaixa, deixa-a, assim, leve e rápida, uma viagem ao longo de cem páginas que parece, facilmente, menos da metade. No começo é difícil de engatar, mas conforme as páginas vão virando, a destreza e agudez de ambos artistas — Jules com suas frases suaves como penas e pesadas como chumbo; Fred, com seu olhar vívido e sombreamento forte — vão se revelando. Há uma página quádrupla (!) mais para o final que parece ter saído direto de Sandman ou de Graphic Novels de horror mais modernas. Muito bonita. Mas, o gosto que fica é que é melhor você ler tanto um quanto o outro artista diretamente em suas obras. Philémon ou o Diário do Renard/Poil de Carotte
[~]
Um pouco dos meus caminhos até chegar aqui:
Às vezes eu largo minha eterna lista de leitura e deixo me guiar só por interesse. Ouvi falar de Philémon, do Fred, no Quadrinhos na Sarjeta (canal muito bom por sinal), fui atrás, e acabei encontrando essa obra aqui. Como eu havia lido superficialmente o Jules Renard, tornei a ele e a uma outra obra sua, o Poil de Carotte, que relata a história conturbada da infância que teve: a mãe era quase que o próprio diabo com o menino, o pai triste e desgostoso para com a vida e com a mulher que casara acaba por viver apático até se matar, e ele próprio, o Jules, tentou e vislumbrou, ainda na infância/adolescência, várias vezes tirar a própria vida. Mas, ele vai vivendo, vai se agarrando a outras coisas: no fim, a mãe, tirânica, também se suicida, deixando apenas ele, a irmã e o irmão. O irmão que também morre de infanto fulminante na meia-idade; e lá vai o Jules enterrar mais um membro da família.
Se surpreende, porém, quem acha que ele conta tudo isso com o rosto sombreado, encurvado e se martirizando. O "Cabelo de Cenoura" é uma joia da "literatura infantil" justamente por fazer o contrário, ele narra da perspectiva dele criança, sem julgamentos, e tudo de um jeito leve, que faz você se identificar, se inspirar, ao mesmo tempo que o menino sofre as maiores crueldades só por ser criança.
Mais uma vereda. Por causa do Jules Renard acabei encontrando o Nada a Temer do Julian Barnes, que fala sobre morte, religião, e sobre… Jules Renard (e diversos outros escritores e filósofos
também, é verdade, mas o Jules é dígamos... personagem principal, justamente pela história de vida dele). Acabou por ser um dos livros da minha vida. Eu já escrevi sobre ele aqui: é muito mais que aquela autoficção moderna, o diálogo aberto com a morte, com a memória, não sei dizer exatamente como, me curou daquele negócio que acho que todo mundo tem de acordar de madrugada, suando frio, tenso, pensando que vai morrer um dia. Livro incrível.
Moral da história: não sei, divaguei demais, Jules Renard é muito bom…? Fred e Julian Barnes também…? Deixar as leituras fluírem? Acho que é isso. Se pautar pelo seu interesse e pelo feeling. Confie em você. É algo que o George Saunders também diz: se você sentiu a necessidade de, sei lá, ler cronologicamente o romance mais popular de cada década, vá e faça. Isso, de certa forma, se autocompensará e te ajudará, no futuro, de alguma forma que você, na hora que teve esse insight, ainda não sabe, mas vai. É a manifestação de algo, maior ou menor. Concordo com ele. Hoje em dia a gente chama de hiperfoco: se você tá com hiperfoco em alguma coisa, não se puna nem se deixe repelir, mergulhe de cabeça, vá fundo, até ter outro estalo.
"Nothing can ever happen twice.
In consequence, the sorry fact is
that we arrive here improvised
and leave without the chance to practice.
Even if there is no one dumber,
if you're the planet's biggest dunce,
you can't repeat the class in summer:
this course is only offered once
Why do we treat the fleeting day with so much needless fear and sorrow?
It's in its nature not to stay:
Today is always gone tomorrow."
[~]“Nada acontece duas vezes
nem acontecerá.
Eis nossa sina.
Nascemos sem prática
e morreremos sem rotina.
Nem um dia se repete,
não há duas noites iguais,
dois beijos não são idênticos,
nem dois olhares tais quais.”
Extremamente fluído, A Longa Marcha dos Grilos Canibais (que me fisgou pelo título) é um livro do Fernando Reinach (biólogo) que reúne seus textos no O Estado de São Paulo. Textos que condensam artigos recentes de revistas consagradas (Science, Nature) em mais de cem crônicas de no máximo três paginas. Sempre com bom humor e linguagem acessível.
Crônicas estas que vão desde puramente curiosas e divertidas a entradas extremamente complexas, interessantes e reveladoras, passando por sobre, ecologia, política, sexo, antropologia, neurociência e afins, se orientando — mas não se atrelando — pelos temas mas passeando por mais de uma área do conhecimento sempre que necessário.
O modo como ele foi organizado o torna um livro para ser lido aos poucos. Eu mesmo o li em conjunto com outros, poucas crônicas por dia, e funcionou extremamente bem, uma lufada de ar fresco após leituras mais truncadas. Os títulos (o próprio título do livro saiu de uma dessas crônicas) são sempre intrigantes e é muito bom observar como o texto se desenvolve e se relaciona com o título.
Por fim, deixo recomendadas algumas dessas entradas que mais gostei:
Ambiente: A complexa relação entre girafas árvores e formigas; Brincando de Deus; Como salvar o ecossistema de marte.
Florestas: Quando a Groenlândia tinha árvores o Rio de Janeiro estava submerso; A ressurreição da floresta em Anak Krakatoa
Sexo: O sexo e a origem da morte; Os pernilongos e seus zumbidos românticos
Comportamento: Insetos envolvidos em uma corrida armamentista; O galope do vampiro.
Mente: Braços fantasmas e o fetiche do pé;
Eleições: indecisos que não sabem que já decidiram; Por que os políticos fazem plástica antes da eleição; Reze pelo paciente, mas não conte a ele.
Humano: Envelhecimento, o preço de uma vida sem câncer; A dinâmica da obesidade e as armas nucleares
Passado: Ju/wasi: 35 mil anos de harmonia com a natureza; Nas primeiras cidades os primeiros massacres
Arte: Ehud o primeiro canhoto da história; Cupido e as abelhas de oito patas; Atikythera, um computador da época de Cristo
Alimentação: Vale a pena comer um tomate?; Os poderes do azeite extravirgem
Tecnologia: Sem braço, mas com a mão no peito; As pernas de Oscar Pistorius; O problema do cotovelo móvel
Política: 150 doutores foram para o espaço; Cientistas brasileiros transformaram rochas em ilhas
Crônicas estas que vão desde puramente curiosas e divertidas a entradas extremamente complexas, interessantes e reveladoras, passando por sobre, ecologia, política, sexo, antropologia, neurociência e afins, se orientando — mas não se atrelando — pelos temas mas passeando por mais de uma área do conhecimento sempre que necessário.
O modo como ele foi organizado o torna um livro para ser lido aos poucos. Eu mesmo o li em conjunto com outros, poucas crônicas por dia, e funcionou extremamente bem, uma lufada de ar fresco após leituras mais truncadas. Os títulos (o próprio título do livro saiu de uma dessas crônicas) são sempre intrigantes e é muito bom observar como o texto se desenvolve e se relaciona com o título.
Por fim, deixo recomendadas algumas dessas entradas que mais gostei:
Ambiente: A complexa relação entre girafas árvores e formigas; Brincando de Deus; Como salvar o ecossistema de marte.
Florestas: Quando a Groenlândia tinha árvores o Rio de Janeiro estava submerso; A ressurreição da floresta em Anak Krakatoa
Sexo: O sexo e a origem da morte; Os pernilongos e seus zumbidos românticos
Comportamento: Insetos envolvidos em uma corrida armamentista; O galope do vampiro.
Mente: Braços fantasmas e o fetiche do pé;
Eleições: indecisos que não sabem que já decidiram; Por que os políticos fazem plástica antes da eleição; Reze pelo paciente, mas não conte a ele.
Humano: Envelhecimento, o preço de uma vida sem câncer; A dinâmica da obesidade e as armas nucleares
Passado: Ju/wasi: 35 mil anos de harmonia com a natureza; Nas primeiras cidades os primeiros massacres
Arte: Ehud o primeiro canhoto da história; Cupido e as abelhas de oito patas; Atikythera, um computador da época de Cristo
Alimentação: Vale a pena comer um tomate?; Os poderes do azeite extravirgem
Tecnologia: Sem braço, mas com a mão no peito; As pernas de Oscar Pistorius; O problema do cotovelo móvel
Política: 150 doutores foram para o espaço; Cientistas brasileiros transformaram rochas em ilhas
Um Sci-Fi extremamente difícil de se definir (ou digerir); ele é ao mesmo tempo inspirado, engenhoso, criterioso, chato, estranho, sem tato, existencial, disruptivo, incrível, tedioso e marcante.
Uma montanha russa que nunca sai dos trilhos do "interessante", mas que balança frente a muitas adversidades trazidas pela escrita do Watts — principalmente no relacionamento entre tripulantes e na exploração de uma antiga relação amorosa do protagonista.
Referente a sua base de astronomia, física, xenobiologia, biologia, neurologia e filosofia, ponto alto do livro, vai ser difícil tratar sem spoilers maiores, então prefiro deixar a história fermentar na minha cabeça mais um pouco, vou escrevendo a resenha aos poucos, e retornarei aqui mais tarde.
(Nunca retornei kkkkkkkkkkkk)
Uma montanha russa que nunca sai dos trilhos do "interessante", mas que balança frente a muitas adversidades trazidas pela escrita do Watts — principalmente no relacionamento entre tripulantes e na exploração de uma antiga relação amorosa do protagonista.
Referente a sua base de astronomia, física, xenobiologia, biologia, neurologia e filosofia, ponto alto do livro, vai ser difícil tratar sem spoilers maiores, então prefiro deixar a história fermentar na minha cabeça mais um pouco, vou escrevendo a resenha aos poucos, e retornarei aqui mais tarde.
(Nunca retornei kkkkkkkkkkkk)