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173 reviews by:
rolandosmedeiros
Fisica Quântica com um caldinho de filosofia.
O físico italiano, Carlo Rovelli, sucintamente, em pouco mais de cem páginas, abre um parênteses necessário para a compreensão do Tempo para além daquilo que vislumbramos como o “Nosso Tempo”, a fonte inesgotável das nossas vertigens e do nosso mal-estar, que "contribuiu para construir catedrais de filosofia mais do que fizeram a lógica e a razão".
O Tempo Uno é desconstruído ao longo do livro; com bastante experimentação, mas também com bastante demonstrações: o nosso tempo não é o mesmo tempo que rege ou regeu a gramática elementar do universo, o nosso tempo é uma aproximação de uma aproximação, e as portas para uma compreensão e percepção mais completa ainda estão abertas.
A estrutura do livro pelo próprio Carlo (a ordem, assim mesmo, é dele)
O presente comum a todo o universo não existe (capítulo 3).
A diferença entre passado e futuro não está nas equações elementares que governam os eventos do mundo (capítulo 2).
Quanto mais próximos estamos de uma massa (capítulo 1), ou nos movemos velozmente (capítulo 3), mais o tempo desacelera: não existe uma duração única entre dois eventos, há muitas durações possíveis.
Se deixamos de lado os efeitos quânticos, tempo e espaço são aspectos deuma grande gelatina móvel na qual estamos imersos (capítulo 4).
Na gramática elementar do mundo não existem nem espaço nem tempo: apenas processos que transformam quantidades físicas umas nas outras, cujas probabilidades e relações podemos calcular (capítulo 5).
Não existe variável “tempo” especial, não existe diferença entre passado e futuro, não existe espaço-tempo (Segunda Parte).
Nessas equações, as variáveis evoluem uma em relação à outra (capítulo 8). Não é um mundo “estático”, nem um “universo em bloco” onde a mudança é ilusória (capítulo 7); ao contrário, é um mundo de eventos e não de coisas (capítulo 6).
A viagem de volta foi o esforço de compreender como pode surgir (capítulo 9) a nossa sensação do tempo a partir deste mundo sem tempo.
A ignorância daí decorrente determina a existência de uma variável particular, o tempo térmico (capítulo 9), e de uma entropia quauantifica a nossa incerteza.
Assim, a orientação do tempo é real, mas perspéctica (capítulo 10): a entropia do mundo em relação a nós aumenta com o nosso tempo térmico. emos um acontecer de coisas ordenado nesta variável, que chamamos simplesmente de “tempo”; e o aumento da entropia distingue, para nós, o passado do futuro e conduz o desenvolvimento do cosmos. Determina a existência de vestígios, restos e memórias do passado (capítulo 11).
Cada um de nós é unitário porque reflete o mundo, porque constrói para si uma imagem de entidades unitárias ao interagir com seus semelhantes, e porque é uma perspectiva sobre o mundo unificada pela memória (capítulo 12).
A variável “tempo” é uma das tantas variáveis que descrevem o mundo. É uma das variáveis do campo gravitacional (capítulo 4): em nossa escala, não nos damos conta de suas flutuações quânticas (capítulo 5), portanto podemos pensá-lo como determinado: o molusco einsteiniano; em nossa escala, os batimentos do molusco são pequenos, podemos negligenciá-los. Assim, é possível pensá-lo como uma mesa rígida. Essa mesa tem direções, que chamamos de espaço, e a direção ao longo da qual a entropia aumenta, que chamamos de tempo. Na vida cotidiana, movimentamo-nos a velocidades pequenas em relação à velocidade da luz e, portanto, não vemos as discrepâncias entre os tempos próprios distintos de relógios distintos, e as diferenças de velocidade em que o tempo flui a distâncias diferentes de uma massa são pequenas demais para ser percebidas. No final, portanto, em vez de muitos tempos possíveis, podemos falar de um único tempo: o tempo da nossa experiência, uniforme, universal e ordenado.
O físico italiano, Carlo Rovelli, sucintamente, em pouco mais de cem páginas, abre um parênteses necessário para a compreensão do Tempo para além daquilo que vislumbramos como o “Nosso Tempo”, a fonte inesgotável das nossas vertigens e do nosso mal-estar, que "contribuiu para construir catedrais de filosofia mais do que fizeram a lógica e a razão".
O Tempo Uno é desconstruído ao longo do livro; com bastante experimentação, mas também com bastante demonstrações: o nosso tempo não é o mesmo tempo que rege ou regeu a gramática elementar do universo, o nosso tempo é uma aproximação de uma aproximação, e as portas para uma compreensão e percepção mais completa ainda estão abertas.
A estrutura do livro pelo próprio Carlo (a ordem, assim mesmo, é dele)
O presente comum a todo o universo não existe (capítulo 3).
A diferença entre passado e futuro não está nas equações elementares que governam os eventos do mundo (capítulo 2).
Quanto mais próximos estamos de uma massa (capítulo 1), ou nos movemos velozmente (capítulo 3), mais o tempo desacelera: não existe uma duração única entre dois eventos, há muitas durações possíveis.
Se deixamos de lado os efeitos quânticos, tempo e espaço são aspectos deuma grande gelatina móvel na qual estamos imersos (capítulo 4).
Na gramática elementar do mundo não existem nem espaço nem tempo: apenas processos que transformam quantidades físicas umas nas outras, cujas probabilidades e relações podemos calcular (capítulo 5).
Não existe variável “tempo” especial, não existe diferença entre passado e futuro, não existe espaço-tempo (Segunda Parte).
Nessas equações, as variáveis evoluem uma em relação à outra (capítulo 8). Não é um mundo “estático”, nem um “universo em bloco” onde a mudança é ilusória (capítulo 7); ao contrário, é um mundo de eventos e não de coisas (capítulo 6).
A viagem de volta foi o esforço de compreender como pode surgir (capítulo 9) a nossa sensação do tempo a partir deste mundo sem tempo.
A ignorância daí decorrente determina a existência de uma variável particular, o tempo térmico (capítulo 9), e de uma entropia quauantifica a nossa incerteza.
Assim, a orientação do tempo é real, mas perspéctica (capítulo 10): a entropia do mundo em relação a nós aumenta com o nosso tempo térmico. emos um acontecer de coisas ordenado nesta variável, que chamamos simplesmente de “tempo”; e o aumento da entropia distingue, para nós, o passado do futuro e conduz o desenvolvimento do cosmos. Determina a existência de vestígios, restos e memórias do passado (capítulo 11).
Cada um de nós é unitário porque reflete o mundo, porque constrói para si uma imagem de entidades unitárias ao interagir com seus semelhantes, e porque é uma perspectiva sobre o mundo unificada pela memória (capítulo 12).
A variável “tempo” é uma das tantas variáveis que descrevem o mundo. É uma das variáveis do campo gravitacional (capítulo 4): em nossa escala, não nos damos conta de suas flutuações quânticas (capítulo 5), portanto podemos pensá-lo como determinado: o molusco einsteiniano; em nossa escala, os batimentos do molusco são pequenos, podemos negligenciá-los. Assim, é possível pensá-lo como uma mesa rígida. Essa mesa tem direções, que chamamos de espaço, e a direção ao longo da qual a entropia aumenta, que chamamos de tempo. Na vida cotidiana, movimentamo-nos a velocidades pequenas em relação à velocidade da luz e, portanto, não vemos as discrepâncias entre os tempos próprios distintos de relógios distintos, e as diferenças de velocidade em que o tempo flui a distâncias diferentes de uma massa são pequenas demais para ser percebidas. No final, portanto, em vez de muitos tempos possíveis, podemos falar de um único tempo: o tempo da nossa experiência, uniforme, universal e ordenado.
"Mas o nosso pensamento não é apenas presa da própria fraqueza, ele também é ainda mais da própria gramática. Bastam alguns séculos para que o mundo mude: de diabinhos, anjos e bruxas passa a ser povoado por átomos e ondas eletromagnéticas. Bastam alguns gramas de cogumelos, para que toda a realidade se dilua diante dos nossos olhos e se reorganize numa forma surpreendentemente diferente. Basta passar algumas semanas tentando se comunicar com uma amiga que tenha tido um episódio de esquizoide sério, para se dar conta de que o delírio é um grande equipamento de teatro capaz de organizar o mundo, e que é difícil encontrar argumentos para distingui-lo dos grandes delírios coletivos que são o fundamento da nossa vida social e espiritual e da nossa compreensão do mundo. Exceto, talvez, pela solidão e pela fragilidade de quem se afasta da ordem comum…3 A visão da realidade é o delírio coletivo que organizamos, evoluiu e se mostrou bastante eficaz para nos trazer ao menos até aqui. Os instrumentos que encontramos para geri-lo e preservá-lo foram muitos, e a razão se mostrou um dos melhores. É preciosa.
Mas é um instrumento, uma ferramenta. Que usamos para manusear uma matéria feita de fogo e gelo; de algo que percebemos como emoções vivas e ardentes, que são a essência de nós mesmos. Elas nos levam, nos arrastam, e nós as revestimos de belas palavras. Elas nos fazem agir. E alguma coisa delas sempre escapa à ordem dos nossos discursos, porque sabemos que no fundo toda tentativa de organizar sempre deixa algo de fora.
E acredito que a vida, esta breve vida, é apenas isto: o grito contínuo dessas emoções, que nos arrasta, que às vezes tentamos calar em nome de um Deus, de uma fé política, de um rito que nos garanta que no fim tudo estará em ordem, numgrande, enorme, amor, e o grito é belo e resplandecente. Às vezes é sofrimento. Às vezes é canto.
E o canto, como observou Agostinho, é a consciência do tempo. É o tempo. É o hino dos Vedas que é, ele mesmo, o desabrochar do tempo. No Benedictus da Missa Solemnis de Beethoven, o canto do violino é pura beleza, puro desespero, pura felicidade. Ficamos presos a ele, segurando o fôlego, sentindo misteriosamente que esta é a fonte do sentido. Esta é a fonte do tempo.
Depois o canto se atenua, se aplaca. “Rompe-se o cordão de prata, se despedaça o candeeiro de ouro, o cântaro quebra na fonte, e a roldana cai no poço, o pó retorna para a terra.” E tudo bem ser assim. Podemos fechar os olhos, descansar. E tudo isso me parece doce e belo. Isso é o tempo."
— Um clássico francês esquecido por essas bandas;
— Uma das piores mães da literatura universal;
— Um dos melhores livros contados na perspectiva de uma criança;
— Retrato de como era a vida no interior da França em 1800~1900.
— A infância dura e conturbada de um futuro grande escritor.
— Uma das piores mães da literatura universal;
— Um dos melhores livros contados na perspectiva de uma criança;
— Retrato de como era a vida no interior da França em 1800~1900.
— A infância dura e conturbada de um futuro grande escritor.
São diversas as ressalvas quanto as ideias naturalistas do Aluísio de Azevedo, há de se fazer uma leitura mais fria para tecê-las. O Cortiço, no entanto, é uma leitura quente; é um espasmo muscular, uma contração involuntária no corpo do Rio de Janeiro; pulsa, em intervalos indefinidos, até hoje, sobretudo em nós, cariocas, que mesmo dentro de um laboratório naturalista de mais de cem anos atrás — com todas as conotações problemáticas que inescapavelmente caio ao dizer isso — se vê refletida (o) no Cortiço.
Rememora-se uma infância e adolescência num Rio que, para o bem ou para o mal, não se distancia um palmo do microcosmo — argui-se, preconceituoso, artificial, positivista — construído pelo Aluísio; lá se foram mais de cem anos e pouco mudou.
Rememora-se uma infância e adolescência num Rio que, para o bem ou para o mal, não se distancia um palmo do microcosmo — argui-se, preconceituoso, artificial, positivista — construído pelo Aluísio; lá se foram mais de cem anos e pouco mudou.
A história do Fabien Toulmé oferece um banho de singeleza, simplicidade, e um misto de sentimentos em relação à paternidade. Com uma honestidade corajosa, Fabien não alivia o seu eu do passado e se revela em toda ignorância e crueldade, para que no avançar das páginas, no correr da vida e na convivência com a sua menininha, passe a ir mudando gradualmente sua opinião e relação com a trissomia.
Essa honestidade, entretanto, é a ascensão e queda do quadrinho; certas passagens, de desenho quase simples, colorido e estilístico, nos pega inesperadamente com doses de humor negro e bonitas cenas; em outras, a ''honestidade'' exacerbada nulifica a empatia que poderíamos sentir por Toulmé, e uma apatia abate-se sobre a história, com a abordagem levando a lugares-comuns e saídas melodramáticas.
Ao de certa maneira focar a história em si, Toulmé também sacrífica uma melhor versão do quadrinho, com uma participação mais ativa e reativa da esposa, que protagoniza, junto com a filha mais velha, as melhores e mais bonitas cenas da história; assim como as colagens em formas de fotografias familiares, que são, por tabela, também as melhores páginas.
Por consequência da esposa ser brasileira, e o Toulmé ter morado aqui com ela no nordeste por um tempo, há sutis referências ao Brasil, que são, inesperadamente, muito honestas; surpreendentemente simples, mas que pintam o Brasil de um jeito que nos faz falta em suas representações tradicionais em outras mídias, afastado de pré-conceitos, bairrismos ou clichês enraizados, tudo muito singelo e bem-feito. Ponto pro Toulmé.
No entanto, eu que me derramei em lágrimas pelo modo que o autismo foi abordado em Flores para Algernon, por exemplo, não consegui sentir nada parecido nessa história. O Toulmé não deixa que você sinta nas ''entrelinhas'', a jornada até o fim é bela, mas já está enraizada desde o início a redenção do pai, perde-se potência; e ao todo faz pouco, ao menos para mim, além de entreter e ensinar sobre a Síndrome de Down de modo mais intimo e pessoal.
E lembrando, a história, a autobiografia, é muito bela, uma bonita história de amor e uma homenagem de um pai para sua filha, meu problema é com o jeito que o Toulmé resolveu construir e encadear a história e as cenas; digo isto pois tem gente que supõe que desgostar de uma biografia/autobiografia é desgostar da vida da pessoa, e isso está longe de ser o caso.
É uma missão difícil falar de histórias desse tipo, principalmente as que você desgosta, mas espero que tenha me feito entender, e quais são os pontos que truncaram e atrapalharam minha leitura. Em conclusão, acho que esse é um quadrinho onde ler resenhas e reviews pouco importa, você deve lê-lo e experimentá-lo por si mesmo, dado todo o contexto. Portanto, vá fundo.
Essa honestidade, entretanto, é a ascensão e queda do quadrinho; certas passagens, de desenho quase simples, colorido e estilístico, nos pega inesperadamente com doses de humor negro e bonitas cenas; em outras, a ''honestidade'' exacerbada nulifica a empatia que poderíamos sentir por Toulmé, e uma apatia abate-se sobre a história, com a abordagem levando a lugares-comuns e saídas melodramáticas.
Ao de certa maneira focar a história em si, Toulmé também sacrífica uma melhor versão do quadrinho, com uma participação mais ativa e reativa da esposa, que protagoniza, junto com a filha mais velha, as melhores e mais bonitas cenas da história; assim como as colagens em formas de fotografias familiares, que são, por tabela, também as melhores páginas.
Por consequência da esposa ser brasileira, e o Toulmé ter morado aqui com ela no nordeste por um tempo, há sutis referências ao Brasil, que são, inesperadamente, muito honestas; surpreendentemente simples, mas que pintam o Brasil de um jeito que nos faz falta em suas representações tradicionais em outras mídias, afastado de pré-conceitos, bairrismos ou clichês enraizados, tudo muito singelo e bem-feito. Ponto pro Toulmé.
No entanto, eu que me derramei em lágrimas pelo modo que o autismo foi abordado em Flores para Algernon, por exemplo, não consegui sentir nada parecido nessa história. O Toulmé não deixa que você sinta nas ''entrelinhas'', a jornada até o fim é bela, mas já está enraizada desde o início a redenção do pai, perde-se potência; e ao todo faz pouco, ao menos para mim, além de entreter e ensinar sobre a Síndrome de Down de modo mais intimo e pessoal.
E lembrando, a história, a autobiografia, é muito bela, uma bonita história de amor e uma homenagem de um pai para sua filha, meu problema é com o jeito que o Toulmé resolveu construir e encadear a história e as cenas; digo isto pois tem gente que supõe que desgostar de uma biografia/autobiografia é desgostar da vida da pessoa, e isso está longe de ser o caso.
É uma missão difícil falar de histórias desse tipo, principalmente as que você desgosta, mas espero que tenha me feito entender, e quais são os pontos que truncaram e atrapalharam minha leitura. Em conclusão, acho que esse é um quadrinho onde ler resenhas e reviews pouco importa, você deve lê-lo e experimentá-lo por si mesmo, dado todo o contexto. Portanto, vá fundo.
"Convidamos a mulher para tomar café em nossa mesa, e a induzi a falar de seus sonhos para surpreender o poeta. Ele não deu confiança, pois insistiu desde o princípio que não acreditava em adivinhações de sonhos.
– Só a poesia é clarividente – disse. "
Meu primeiro contato com o Gabo. Não lembrava do conto ser tão agradável. Extremamente fluido, bem escrito e intrigante, de tom límpido, cenários rapidamente pincelados e imagens memoráveis.
Há quem diga que o Borges foi mais ensaísta do que ficcionista e que seus contos, estética e estilisticamente, pendiam mais para o lado dos ensaios. Gabo, no entanto, faz um conto alá Borges, só que sem a característica ensaística. É bem borgiano, tanto que o próprio é citado diretamente pelo personagem principal (assim como o Neruda), explicitamente: alguma personagem diz que a história pela qual estão passando podia muito bem ter sido escrita pelo mestre argentino. Gabo, aos moldes dele, estreita as margens entre ficção e realidade, incredulidade e possibilidade.
"– Sonhei com essa mulher que sonha – disse.
Matilde quis que ele contasse o sonho.
– Sonhei que ela estava sonhando comigo disse ele.
– Isso é coisa de Borges – comentei.
Ele me olhou desencantado.
– Está escrito?
– Se não estiver, ele vai escrever algum dia – respondi. – Será um de seus labirintos."
A imagética, principalmente no início da narrativa, é eficiente e forte. Um golpe do mar que arremessa o carro de uma personagem central do conto num muro, quebrando todos os seus ossos e tirando sua vida, deixando, apenas, intacto o seu característico anel de serpente que permite o reconhecimento do objeto e do corpo pelo personagem, desencadeando toda a história. A narrativa trata dessa falecida mulher enigmática; uma mulher que, como descobriríamos, por amor e por trabalho, era um tipo de vidente, sonhou e sonhava: até o fim dos dois.
Eu perdi todas as minhas anotações desse livro aqui (Alexa, please play despacito), mas algumas coisas ficaram na minha memória:
É um pequeno grande livro, míseras cem páginas, mas dotadas dum estilo bem particular, cada conto com uma forma que se amalgama com a temática: deja-vu, irrealidade, o aspecto estranho da memória, o sonho. Eu tinha há pouco tentado ler o Saramago e abandonado, e uma das sensações que me ficaram é que o Tabucchi conseguiu comigo, por meio do estilo, o que o Saramago não conseguiu.
Outra coisa que permaneceu comigo foi o maior (e melhor) conto do livro. Uma daquelas histórias de verão, mas torcida e retorcida: "Nuvens". Num recente pós-guerra, um homem estranho vai passar as férias nalgum resort no litoral dalgum lugar que esqueci. O encontro com uma menina e sua mãe na praia forma uma amizade improvável. A menina conta da vida dela, e o homem da dele, enquanto ele lê, quieto, na praia e ensina a menina a Nefelomancia: a arte de ler o futuro nas nuvens.
É um pequeno grande livro, míseras cem páginas, mas dotadas dum estilo bem particular, cada conto com uma forma que se amalgama com a temática: deja-vu, irrealidade, o aspecto estranho da memória, o sonho. Eu tinha há pouco tentado ler o Saramago e abandonado, e uma das sensações que me ficaram é que o Tabucchi conseguiu comigo, por meio do estilo, o que o Saramago não conseguiu.
Outra coisa que permaneceu comigo foi o maior (e melhor) conto do livro. Uma daquelas histórias de verão, mas torcida e retorcida: "Nuvens". Num recente pós-guerra, um homem estranho vai passar as férias nalgum resort no litoral dalgum lugar que esqueci. O encontro com uma menina e sua mãe na praia forma uma amizade improvável. A menina conta da vida dela, e o homem da dele, enquanto ele lê, quieto, na praia e ensina a menina a Nefelomancia: a arte de ler o futuro nas nuvens.
“Mas o fim do arco-íris é uma fenda sem fundo na qual podemos cair e ficar caindo para sempre, e o horizonte azul é um abismo de nada que pode nos engolir e engolir todos os nossos esforços, e ainda continuar vazio. Nós e nossos esforços. Eis a ilusão da felicidade atingível!’’
The Fox - ou Apenas uma Mulher, como foi traduzido - é uma novela psicológica de noventa e poucas páginas. A decisão de optar por uma tradução não literal do título, percebe-se após a leitura, mostra ser deliberada e dotada de significado: é evidente a mudança completa na narração do terço final do livro, demarcando claramente duas linhas narrativas com diferente tom. A Raposa, portanto, se levado ao pé da letra, trata-se da maior (e melhor) parte da obra; enquanto Apenas uma Mulher se trata da reta final e desfecho. Apesar de ser possível tratar ambas separadas, a exemplo dessa resenha, na leitura, no entanto, as partes são indissociáveis uma da outra.
A Raposa representa a lenta construção da narrativa, a imagética do animal, a vida serena (mas não fácil) de duas mulheres em uma pequena fazenda durante um duro momento do final da Primeira Guerra Mundial. Somos lentamente inseridos na vida dessas duas personagens com uma construção morosa e limitada pelo narrador, que vai nos enlevando com apenas petiscos de informação, numa queima lenta deliciosa.
A primeira mudança se dá quando Nellie (a mais trabalhadora, mulher forte e carpinteira) começa a se sentir pertubada por uma raposa que aparece na fazenda — ou, uma palavra melhor, mesmerizada pela raposa. O olhar da raposa penetra sua alma, invade seus sonhos, e ela vai se tornando uma pessoa avoada, obcecada pelo animal; a prosa aqui, adquire um tom quase místico.
''March olhava tudo isso, via tudo isso, mas na verdade não percebia nada. Ela ouviu Banford conversar com as galinhas lá longe — mas, na verdade, não ouviu. O que estaria ela pensando Ninguém sabe. A consciência de March estava, por assim dizer, em suspenso.
Ela baixou o olhar e, de repente, viu a raposa. O animal a encarava. O focinho estava abaixado, mas os olhos, erguidos. Os olhos da raposa e os da moça se encontraram. A raposa a reconheceu. March ficou sem ação. Ela percebeu que a raposa a reconhecera. O animal olhou March nos olhos, e ela sentiu que a alma lhe fugia. A raposa a conhecia, e não estava intimidada.''
Esse tom se estende inclusive durante a chegada inesperada de um soldado de dezoito anos na fazenda. O rapaz tem uma aparência vulpina, é educado e distante. A partir do acolhimento (provisório) dele pelas duas mulheres, somos levados num mergulho psicológico, de questões de gênero a repressão do desejo; ciume, tensão (mental e sexual) e muito mais; é a partir daqui, também, que Lawrence despende mais energia ao desenvolvimento das personagens e menos nas paisagens e nas descrições. Personagens por sinal muito bem escritas, dotadas de desejos escondidos, ambíguos uns com os outros, intimimanete complexos.
No meio dessa fábula moderna, da materialização da expressão idiomática (the fox in the henhouse - que já dá pistas do desfecho), da imagética, da forma e do estilo, ainda há, para além de tudo, uma narrativa sobre dependência, submissão, ideal de felicidade e inalcançabilidade. É trágico, mas o Lawrence não toma partidos, e não exime ninguém da culpa. Ele se mantém afastado, faz-nos vislumbrar um abismo bem específico: o falso contentamento, o revés que é a nossa felicidade depender de fatores externos.
''Se Jill tivesse se casado, seria a mesma coisa. A mulher se esforçando para fazer o homem feliz, esforçando-se em seus próprios limites por fazer o bem-estar de seu mundo. E sempre colhendo fracassos. Pequeninos sucessos úteis relacionados a dinheiro e carreira. Mas justamente no ponto em que o sucesso era mais desejado, no angustiado esforço de fazer algum amado ser humano feliz e perfeito, aí o fracasso era mais catastrófico. Queremos fazer o ser amado feliz, e a felicidade dele parece sempre atingível. Basta fazer isso, isto e aquilo. Fazemos isso, isto e aquilo com toda boa-fé, e, de cada vez, o fracasso parece mais horrível. Podemos nos dilacerar de amor e nos desgastarmos até os ossos, e as coisas vão sempre de mal a pior, de mal a pior na busca da felicidade. O terrível engano da felicidade.''
Justamente por se manter afastado, nunca expor além do necessário, nunca sabemos se Nellie e Jill são um casal sáfico, um casal bissexual, um "casal" inconsciente da própria relação, ou, apenas amigas íntimas que se unem por dependência e pela independência de viver e cuidar de uma fazenda sem nenhum por perto. (É definitivamente um dos temas da novela e minha interpretação vai por esse lado: uma união que se pauta na independência feminina e não necessariamente na questão da orientação sexual).
Abrem-se as interpretações, o que é bom, de certa forma; mas de outro lado abre caminhos exageradamente idealizados — mais por culpa dos leitores do que da obra — que na minha humilde concepção não estão lá, ou não estão claros o suficiente para que se crave nem uma coisa nem outra.
Por exemplo, não entendo as múltiplas resenhas aqui no site que pontuam a história como misógina. É explicito, literal, que o Henry é vil, dotado de sentimentos amorosos ao mesmo tempo honestos e disformes, com uma visão terrível, manipulador, possessivo, premeditado amorosa e materialmente; ele é, literalmente, a personificação da raposa fabular que adentra a choupana e devora as galinhas. A maneira com que é narrado apenas demostra a acuidade com que o Lawrence constrói as personagens, e, nem com a invasão final de um narrador onisciente (que por sinal quebra a narrativa e se torna um problema fruto da perda de fôlego da novela), nem com o longo monólogo final, onde o narrador, cristalina e transparentemente explora a passos largos a psique dos dois personagens algumas pessoas não conseguem dissociar o narrador do escritor. Isso que a maioria das resenhas que li e seguem essa linha foram escritas em inglês.
Por fim, algumas notas adicionais e aleatórias:
Foi lido numa sentada, ou melhor, numa deitada; a tradução é do famoso escritor J.J Veiga (que achei bastante boa, como verá pelas quotes.) No entanto, lendo as citações em inglês, senti que no idioma original flui muito melhor a aura de "fábula recontada", de misticismo, de prosa poética. Para os próximos do autor vou buscar a versão original.
A fama de escritor polêmico, de exagero no aspecto sxual e mão pesada, é pouco vista aqui, o que faz com que essa novela seja provavelmente uma boa porta de entrada para o autor. Assim como seus contos. Meus problemas com a história foram mais formais e não temáticos: geralmente a crítica que se faz a ele é inversa. Obviamente, eu não entreguei tudo nessa resenha, o motivo da história traduzida se chamar “Apenas uma Mulher’’, por exemplo, você deve ler e descobrir.
É uma leitura válida, tanto pelo fruir literário quanto pela discussão suscitada, interesse-o pela estética ou pelas questões mais filosóficas de relação humana.
''Quanto mais estendemos a mão para a flor fatal da felicidade, que balança tão azul e linda numa fenda logo adiante, com mais pavor percebemos o perigo do precipício terrível, no qual inevitavelmente cairemos se nos esticarmos um pouco mais. Vamos apanhando uma flor após outra — e nunca apanhamos a flor. A flor mesma — seu cálice é um abismo horrível e sem fundo. Essa é a história da busca da felicidade, seja a nossa, seja a de outro por nós buscada. Ela termina, como sempre, na sensação apavorante daquele nada no qual inevitavelmente cairemos se nos esticarmos um pouquinho mais.''
A "implicância (com o "não vejo ninguém", a dupla negação) parte da suposição equivocada de que as línguas naturais devam ser regidas pela lógica matemática. Ou seja, de que duas palavras negativas só podem gerar uma proposição positiva. Trata-se de uma impressão de leigos. Línguas naturais não são “ilógicas”, mas têm lógica própria, e quem as estuda sabe que a negação reiterada numa construção como “Não tenho nada” sempre foi compreendida como reforço."
Em um livro de altos e baixos, a odisseia do mineiro-carioca Sergio Rodrigues contra sabichões, conservadores, progressistas; contra estrangeirices, barbarismos, marketices (fontes inesgotáveis de modismos bobos), faz-se uma leitura útil mas não tão agradável.
É válido o reforço sobre o caráter heterogêneo e coletivo da língua; a demarcação precisa do que é corrigido como erro e o que é não é (na maioria das vezes, adianto, não é); sobre nossos brasileirismos tão funcionais e culturalmente precisos, que são infelizmente preteridos pelo pedantismo enraizado, pela retórica jurídica que permeia e engessa a nossa língua, pelo acordo tácito que faz vigente a complicação desnecessária: a imagem de um falso "intelectual culto".
O livro faz bem em abrir (ou quebrar) a cabeça daqueles com tiques de correção e tesão em floreiros e mais floreios. Se você, no entanto, já percebeu que essa verborragia enraizada é um buraco, e tem alguma noção de como funciona uma língua, ler esse livro de cabo a rabo torna-se mais um passatempo. Alguns petiscos de curiosidades que servem para serem consumidos em doses homeopáticas — há, por exemplo, todo um capítulo sobre origens de palavras quase opostas com raízes semelhantes; e outro sobre os falsos mitos que presumem origens outras de ditos populares, por exemplo, o clássico:
"Quem tem boca vaia Roma?" Não, não, não. "Há dois caminhos para provar o erro de quem, sem base histórica, tenta corrigir o velho provérbio. O primeiro é um passeio até o português antigo, no qual encontramos esta variante: Quem língua tem, a Roma vai e vem. Como se vê, a vaia não tem vez aqui."
"Risco de Morte é um Erro. Deve ser Risco de Vida" Também não, é "criação artificial de gente que mal ouviu o galo cantar e saiu por aí exercitando o prazer de declarar ignorante quem — mergulhado no “instinto da linguagem” do qual fala o linguista canadense-americano Steven Pinker — já nasceu sabendo mais do que eles.
Outros, mais interessantes, no entanto, tratam da tão discutida linguagem neutra, ou da nossa predominância pelo masculino, a exemplo de "O Homem" como generalização da "Raça Humana.", há uma suposição:
"(...) há evidências na gramática histórica de que o machismo não é a explicação pelo menos não a única) para o papel neutro assumido pelo gênero masculino na língua portuguesa. Quando, por força da evolução fonética, as consoantes finais do latim se perderam, as terminações do masculino e do neutro se fundiram, resultando nas desinências portuguesas o e a, características da maioria das palavras masculinas e femininas, respectivamente. Ou seja, o nosso gênero masculino é também gênero neutro e complexo. Portanto, não há nada de ideológico, muito menos de machista, na concordância nominal do português."
Fora da polêmica, outras divertem:
"(Sair à Francesa.) Sair tipicamente, de algum evento social sem se despedir de ninguém e com a
maior discrição possível, tentando não se fazer notar”. A parte curiosa da história é o fato de, na França, a locução que expressa tal ação ser filer à l’anglaise, isto é, “sair à inglesa”. "
"(A relação entre a Cesariana e o Julio Caesar) O adjetivo, mais tarde substantivado, era o mesmo usado para qualificar tudo o que fosse relativo aos imperadores romanos. E foi exatamente na suposta relação entre César e a cesura (palavra do português que quer dizer “corte, incisão”) que o batismo do procedimento cirúrgico se baseou, segundo o Trésor de la langue française. É por isso que se deve ter cuidado com delírios etimológicos. Às vezes eles dão um jeito de interferir na realidade — processo a que se dá o nome de etimologia popular."
A lista é longa, selecionei aqueles mais frescos na memória para ilustrar a resenha; faça o teste você mesmo, experimente o livro em pequenas doses; se tentar fazer como eu, porém, e devorá-lo de uma vez, talvez cause uma indigestãozinha. A linguagem de redação de jornal moderna do Sérgio Rodrigues incomoda um pouco.
JOANA D’ARC — Eça de Queirós
"Meus amigos: aconteceu uma desgraça à Joana d’Arc. A donzela de Orleães, a boa e forte lorena, salvadora do reino de França, foi beatificada pela Igreja de Roma."
Assim, inicia Eça, há mais de cem anos, um texto de dez páginas, que fica entre o ensaio e uma espécie de crônica histórico-jornalística, muito que bem escrito.
Perpassa, aqui, um pouco da história da frança: antes divida pelos Borgonheses e pelos Armagnacs, onde se inseria a própria Joana, e mais contemporaneamente, divida entre o Racionalismo e o Clericalismo, que “disputavam”, agora, a figura da Donzela. Resvala, também, na relação do povo, dos escritores, encenadores, historiadores e poetas, com La Pucelle; se mostra combativo á alguns, que diz fazer um desserviço com a Donzela, e louva cuidadosamente outros, como o Michelet, a quem diz fazer uma “reabilitação” da sua imagem, inclusive sendo esta a que foi em dado momento adotada pelo povo — esqueça, em relação à Joana, em todo este texto, o caráter puramente historiográfico quando se fala "imagem". Essa é apenas uma das facetas da futura santa, e não é nem mesmo a mais atraente aos poetas.
Ressalto que o texto é muito bem escrito, eu mesmo peguei o texto por curiosidade (estava pesquisando a paródia "La Pucelle" feita pelo Voltaire" que também é citado aqui) e não parei até terminá-lo; insere seu argumento de maneira muito lívida, e utiliza, ao longo de todo o desenvolvimento, boas metáforas, boas figuras de linguagens e boas imagens, que não ficam devendo nada a uma prosa de ficção.
Tece seus argumentos e criticas não só ao radicalismo — que antes tendo-a martirizado, numa sentença eclesiástica assinada por bispos, e depois, o julgada e retirada inversamente pelos mesmos bispos — que após o erro tentou apagar a fogueira, como se a donzela fosse restituída da pira, mas, também aos ditos livres-pensadores, que deixaram com que uma heroína bastante vívida, condecorada entre o povo, vivenciada no teatro, nos poemas, em festas, fosse, segundo o autor, sequestrada pelos céus: "Os poetas não a celebraram mais em poemas, porque ela agora pertence aos fazedores de loas. E o teatro deixou de pôr Joana d’Arc em melodramas e pantomimas bélicas, desde que ela, pela sua beatificação, voando da Terra ao céu, perdia a sua realidade e se desfazia em mito." Algo que ficou apenas suscitado, ou ao menos me pareceu assim, é que a maior crítica que o Eça faz é mais à falta de uma relação mais sadia entre ambos lados, do que a crítica à apenas um; algo quase infantil, vulgarmente como: a Igreja pegou meu brinquedo, agora não quero mais, ou vice-versa, a Igreja enciumada pelo povo comungar com uma das suas.
Eu queria fazer rápidos comentários, mas já me alonguei demais, enfim, se sentirem-se interessados pelo tema, leiam. Há, além do mais, uma discussão acerca de outras santas, e de outros heróis não canonizados; de outro lado, também, muitas referencias a literatura da época, e também da cultura literária do Eça. Vergonhosamente, como fluente em Lingua Portuguesa, é o primeiro texto que leio do autor, e prometo tirar esse atraso. Esse texto em específico fluiu muito bem, principalmente para a época que foi escrito; por fim, o que julgo ser o argumento principal do texto, e que apesar de exagerado, não deixa de ter um pouco de verdade:
"Meus amigos: aconteceu uma desgraça à Joana d’Arc. A donzela de Orleães, a boa e forte lorena, salvadora do reino de França, foi beatificada pela Igreja de Roma."
Assim, inicia Eça, há mais de cem anos, um texto de dez páginas, que fica entre o ensaio e uma espécie de crônica histórico-jornalística, muito que bem escrito.
Perpassa, aqui, um pouco da história da frança: antes divida pelos Borgonheses e pelos Armagnacs, onde se inseria a própria Joana, e mais contemporaneamente, divida entre o Racionalismo e o Clericalismo, que “disputavam”, agora, a figura da Donzela. Resvala, também, na relação do povo, dos escritores, encenadores, historiadores e poetas, com La Pucelle; se mostra combativo á alguns, que diz fazer um desserviço com a Donzela, e louva cuidadosamente outros, como o Michelet, a quem diz fazer uma “reabilitação” da sua imagem, inclusive sendo esta a que foi em dado momento adotada pelo povo — esqueça, em relação à Joana, em todo este texto, o caráter puramente historiográfico quando se fala "imagem". Essa é apenas uma das facetas da futura santa, e não é nem mesmo a mais atraente aos poetas.
Ressalto que o texto é muito bem escrito, eu mesmo peguei o texto por curiosidade (estava pesquisando a paródia "La Pucelle" feita pelo Voltaire" que também é citado aqui) e não parei até terminá-lo; insere seu argumento de maneira muito lívida, e utiliza, ao longo de todo o desenvolvimento, boas metáforas, boas figuras de linguagens e boas imagens, que não ficam devendo nada a uma prosa de ficção.
"E foi o que sucedeu. Apenas o clero a quem ela fora atribuída a instalou devotamente na sua capela nova – não houve mais para a França livre-pensadora, nem Joana d’Arc, nem boa lorena, nem donzela de Orleães. Foi como se a guerreira, que era amada pelo povo, porque no meio dele vivia, se retirasse bruscamente do mundo e o renegasse, para se esconder na sombra devota de uma sacristia. Ninguém mais a compreendeu, nem a reconheceu mais, sob aquela túnica de santa que agora a cobria em vez da armadura de aço, e com aquela palma verde na mão, em lugar da rija espada borgonhesa, que tão bem pranchava nas trincheiras de Orleães."
Tece seus argumentos e criticas não só ao radicalismo — que antes tendo-a martirizado, numa sentença eclesiástica assinada por bispos, e depois, o julgada e retirada inversamente pelos mesmos bispos — que após o erro tentou apagar a fogueira, como se a donzela fosse restituída da pira, mas, também aos ditos livres-pensadores, que deixaram com que uma heroína bastante vívida, condecorada entre o povo, vivenciada no teatro, nos poemas, em festas, fosse, segundo o autor, sequestrada pelos céus: "Os poetas não a celebraram mais em poemas, porque ela agora pertence aos fazedores de loas. E o teatro deixou de pôr Joana d’Arc em melodramas e pantomimas bélicas, desde que ela, pela sua beatificação, voando da Terra ao céu, perdia a sua realidade e se desfazia em mito." Algo que ficou apenas suscitado, ou ao menos me pareceu assim, é que a maior crítica que o Eça faz é mais à falta de uma relação mais sadia entre ambos lados, do que a crítica à apenas um; algo quase infantil, vulgarmente como: a Igreja pegou meu brinquedo, agora não quero mais, ou vice-versa, a Igreja enciumada pelo povo comungar com uma das suas.
Eu queria fazer rápidos comentários, mas já me alonguei demais, enfim, se sentirem-se interessados pelo tema, leiam. Há, além do mais, uma discussão acerca de outras santas, e de outros heróis não canonizados; de outro lado, também, muitas referencias a literatura da época, e também da cultura literária do Eça. Vergonhosamente, como fluente em Lingua Portuguesa, é o primeiro texto que leio do autor, e prometo tirar esse atraso. Esse texto em específico fluiu muito bem, principalmente para a época que foi escrito; por fim, o que julgo ser o argumento principal do texto, e que apesar de exagerado, não deixa de ter um pouco de verdade:
"Para ela, de ora em diante, não mais coroas ante a sua estátua, nem monumentos nas praças, nem livros celebradores, nem festas nacionais – isolada no seu altar, na sombra da igreja, só gozará, cada ano, a sua missa, com tochas, música, sermão. E uma decadência. E aqui está como a santidade mata a popularidade e como uma grande alma, por ter penetrado no céu, se torna esquecida na Terra."
A primeira vista, acho que não tenho o que acrescentar eu a um livro dessa estatura, apenas umas breves colocações além-conteúdo: bati várias edições brasileiras e portuguesas para decidir qual leria (conclui, agora, no fim, que lerei todas, principalmente os comentários e paratextos), e para minha surpresa, a que melhor fluiu o texto, mais fez sentido, mais apresentou bons comentários, justificativas e apresentação de outras traduções, não foi a Poética recente (e cara) da Editora 34, nem de qualquer outra editora, e sim uma tese de mestrado de 2006, gratuita, disponível a qualquer um no google, do Fernando Maciel Gazoni.
Teve, inclusive, um momento curioso lá pelas tantas na leitura: quem bater o olho nessa tradução, perceberá que as páginas são tomadas por notas — há seções que apresentam uma linha de texto e todo o resto da página são notas/comentários do tradutor —, eu sem querer dei zoom e por algumas páginas eu passei a ler o texto da Poética, o texto do Aristóteles, eram as notas ou comentários do tradutor. Isso foi bastante significativo para mim, porque ficou claro a maneira límpida e didática (no bom sentido) com que o Aristóteles escreve (e como ele foi traduzido aqui). Eu esperava algo completamente diferente, mas, ao longo de páginas e páginas, eu li um velho de dois mil e quinhentos anos atrás imortal, há passagens aqui que valem até hoje para literatura e para o cinema. Há uma até que revela a decadência do Terror/Horror hoje em dia.
Enfim, cravo aqui que nesse ano de 2022, COM CERTEZA eu li artigos de assuntos MUITO mais simples, que eram muito mais confusos e difíceis de entender. É um trabalho soberbo e, sinceramente, não digo isso forçadamente, tendo em vista a extensiva fortuna crítica e importância cultural do Aristóteles me nublando: do próprio texto do Aristóteles exala uma lucidez e emana uma consciência artística surpreendente, de deixar de queixo caído.
Procure a melhor edição para você e veja por si só.
Teve, inclusive, um momento curioso lá pelas tantas na leitura: quem bater o olho nessa tradução, perceberá que as páginas são tomadas por notas — há seções que apresentam uma linha de texto e todo o resto da página são notas/comentários do tradutor —, eu sem querer dei zoom e por algumas páginas eu passei a ler o texto da Poética, o texto do Aristóteles, eram as notas ou comentários do tradutor. Isso foi bastante significativo para mim, porque ficou claro a maneira límpida e didática (no bom sentido) com que o Aristóteles escreve (e como ele foi traduzido aqui). Eu esperava algo completamente diferente, mas, ao longo de páginas e páginas, eu li um velho de dois mil e quinhentos anos atrás imortal, há passagens aqui que valem até hoje para literatura e para o cinema. Há uma até que revela a decadência do Terror/Horror hoje em dia.
Enfim, cravo aqui que nesse ano de 2022, COM CERTEZA eu li artigos de assuntos MUITO mais simples, que eram muito mais confusos e difíceis de entender. É um trabalho soberbo e, sinceramente, não digo isso forçadamente, tendo em vista a extensiva fortuna crítica e importância cultural do Aristóteles me nublando: do próprio texto do Aristóteles exala uma lucidez e emana uma consciência artística surpreendente, de deixar de queixo caído.
Procure a melhor edição para você e veja por si só.