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rolandosmedeiros 's review for:
Um tipo de precursor do estilo de quadrinho que se tornou popular sob o nanquim do japonês Jiro Taniguchi e seus viajantes e caminhantes introspectivos (Homem que Passeia, Gourmet Solitário, etc).
O francês Jules Renard, que me trouxe a esse quadrinho, é um autor clássico da literatura francesa, mestre das pequenas sentenças definitivas e de aforismos sobre diversos aspectos da vida: trivialidades da cidade e do campo, questões familiares (ô vida conturbada, ele teve), relacionamento, política, literatura e quetais… Fred, ousado, se arrisca a adaptar uma das duas mais famosas obras do Renard, o seu Journal, e tem de amarrar um monte dessas frases soltas, todas muito boas, em uma narrativa que faça sentido para o quadrinho.
Inventa, portanto, um interlocutor para o Renard, um corvo falante — que casa perfeitamente com o traço dele nesse quadrinho — para acompanhar o escritor enquanto ele viaja pelo interior da França em 1800 e uns quebrados. É no máximo funcional. O animal conversa, questiona, se espanta, e aprende sobre a vida com escritor, que vai soltando a todo tempo suas famosas frases.
Essa saída não eleva a leitura nem a rebaixa, deixa-a, assim, leve e rápida, uma viagem ao longo de cem páginas que parece, facilmente, menos da metade. No começo é difícil de engatar, mas conforme as páginas vão virando, a destreza e agudez de ambos artistas — Jules com suas frases suaves como penas e pesadas como chumbo; Fred, com seu olhar vívido e sombreamento forte — vão se revelando. Há uma página quádrupla (!) mais para o final que parece ter saído direto de Sandman ou de Graphic Novels de horror mais modernas. Muito bonita. Mas, o gosto que fica é que é melhor você ler tanto um quanto o outro artista diretamente em suas obras. Philémon ou o Diário do Renard/Poil de Carotte
[~]
Um pouco dos meus caminhos até chegar aqui:
Às vezes eu largo minha eterna lista de leitura e deixo me guiar só por interesse. Ouvi falar de Philémon, do Fred, no Quadrinhos na Sarjeta (canal muito bom por sinal), fui atrás, e acabei encontrando essa obra aqui. Como eu havia lido superficialmente o Jules Renard, tornei a ele e a uma outra obra sua, o Poil de Carotte, que relata a história conturbada da infância que teve: a mãe era quase que o próprio diabo com o menino, o pai triste e desgostoso para com a vida e com a mulher que casara acaba por viver apático até se matar, e ele próprio, o Jules, tentou e vislumbrou, ainda na infância/adolescência, várias vezes tirar a própria vida. Mas, ele vai vivendo, vai se agarrando a outras coisas: no fim, a mãe, tirânica, também se suicida, deixando apenas ele, a irmã e o irmão. O irmão que também morre de infanto fulminante na meia-idade; e lá vai o Jules enterrar mais um membro da família.
Se surpreende, porém, quem acha que ele conta tudo isso com o rosto sombreado, encurvado e se martirizando. O "Cabelo de Cenoura" é uma joia da "literatura infantil" justamente por fazer o contrário, ele narra da perspectiva dele criança, sem julgamentos, e tudo de um jeito leve, que faz você se identificar, se inspirar, ao mesmo tempo que o menino sofre as maiores crueldades só por ser criança.
Mais uma vereda. Por causa do Jules Renard acabei encontrando o Nada a Temer do Julian Barnes, que fala sobre morte, religião, e sobre… Jules Renard (e diversos outros escritores e filósofos
também, é verdade, mas o Jules é dígamos... personagem principal, justamente pela história de vida dele). Acabou por ser um dos livros da minha vida. Eu já escrevi sobre ele aqui: é muito mais que aquela autoficção moderna, o diálogo aberto com a morte, com a memória, não sei dizer exatamente como, me curou daquele negócio que acho que todo mundo tem de acordar de madrugada, suando frio, tenso, pensando que vai morrer um dia. Livro incrível.
Moral da história: não sei, divaguei demais, Jules Renard é muito bom…? Fred e Julian Barnes também…? Deixar as leituras fluírem? Acho que é isso. Se pautar pelo seu interesse e pelo feeling. Confie em você. É algo que o George Saunders também diz: se você sentiu a necessidade de, sei lá, ler cronologicamente o romance mais popular de cada década, vá e faça. Isso, de certa forma, se autocompensará e te ajudará, no futuro, de alguma forma que você, na hora que teve esse insight, ainda não sabe, mas vai. É a manifestação de algo, maior ou menor. Concordo com ele. Hoje em dia a gente chama de hiperfoco: se você tá com hiperfoco em alguma coisa, não se puna nem se deixe repelir, mergulhe de cabeça, vá fundo, até ter outro estalo.
O francês Jules Renard, que me trouxe a esse quadrinho, é um autor clássico da literatura francesa, mestre das pequenas sentenças definitivas e de aforismos sobre diversos aspectos da vida: trivialidades da cidade e do campo, questões familiares (ô vida conturbada, ele teve), relacionamento, política, literatura e quetais… Fred, ousado, se arrisca a adaptar uma das duas mais famosas obras do Renard, o seu Journal, e tem de amarrar um monte dessas frases soltas, todas muito boas, em uma narrativa que faça sentido para o quadrinho.
Inventa, portanto, um interlocutor para o Renard, um corvo falante — que casa perfeitamente com o traço dele nesse quadrinho — para acompanhar o escritor enquanto ele viaja pelo interior da França em 1800 e uns quebrados. É no máximo funcional. O animal conversa, questiona, se espanta, e aprende sobre a vida com escritor, que vai soltando a todo tempo suas famosas frases.
Essa saída não eleva a leitura nem a rebaixa, deixa-a, assim, leve e rápida, uma viagem ao longo de cem páginas que parece, facilmente, menos da metade. No começo é difícil de engatar, mas conforme as páginas vão virando, a destreza e agudez de ambos artistas — Jules com suas frases suaves como penas e pesadas como chumbo; Fred, com seu olhar vívido e sombreamento forte — vão se revelando. Há uma página quádrupla (!) mais para o final que parece ter saído direto de Sandman ou de Graphic Novels de horror mais modernas. Muito bonita. Mas, o gosto que fica é que é melhor você ler tanto um quanto o outro artista diretamente em suas obras. Philémon ou o Diário do Renard/Poil de Carotte
[~]
Um pouco dos meus caminhos até chegar aqui:
Às vezes eu largo minha eterna lista de leitura e deixo me guiar só por interesse. Ouvi falar de Philémon, do Fred, no Quadrinhos na Sarjeta (canal muito bom por sinal), fui atrás, e acabei encontrando essa obra aqui. Como eu havia lido superficialmente o Jules Renard, tornei a ele e a uma outra obra sua, o Poil de Carotte, que relata a história conturbada da infância que teve: a mãe era quase que o próprio diabo com o menino, o pai triste e desgostoso para com a vida e com a mulher que casara acaba por viver apático até se matar, e ele próprio, o Jules, tentou e vislumbrou, ainda na infância/adolescência, várias vezes tirar a própria vida. Mas, ele vai vivendo, vai se agarrando a outras coisas: no fim, a mãe, tirânica, também se suicida, deixando apenas ele, a irmã e o irmão. O irmão que também morre de infanto fulminante na meia-idade; e lá vai o Jules enterrar mais um membro da família.
Se surpreende, porém, quem acha que ele conta tudo isso com o rosto sombreado, encurvado e se martirizando. O "Cabelo de Cenoura" é uma joia da "literatura infantil" justamente por fazer o contrário, ele narra da perspectiva dele criança, sem julgamentos, e tudo de um jeito leve, que faz você se identificar, se inspirar, ao mesmo tempo que o menino sofre as maiores crueldades só por ser criança.
Mais uma vereda. Por causa do Jules Renard acabei encontrando o Nada a Temer do Julian Barnes, que fala sobre morte, religião, e sobre… Jules Renard (e diversos outros escritores e filósofos
também, é verdade, mas o Jules é dígamos... personagem principal, justamente pela história de vida dele). Acabou por ser um dos livros da minha vida. Eu já escrevi sobre ele aqui: é muito mais que aquela autoficção moderna, o diálogo aberto com a morte, com a memória, não sei dizer exatamente como, me curou daquele negócio que acho que todo mundo tem de acordar de madrugada, suando frio, tenso, pensando que vai morrer um dia. Livro incrível.
Moral da história: não sei, divaguei demais, Jules Renard é muito bom…? Fred e Julian Barnes também…? Deixar as leituras fluírem? Acho que é isso. Se pautar pelo seu interesse e pelo feeling. Confie em você. É algo que o George Saunders também diz: se você sentiu a necessidade de, sei lá, ler cronologicamente o romance mais popular de cada década, vá e faça. Isso, de certa forma, se autocompensará e te ajudará, no futuro, de alguma forma que você, na hora que teve esse insight, ainda não sabe, mas vai. É a manifestação de algo, maior ou menor. Concordo com ele. Hoje em dia a gente chama de hiperfoco: se você tá com hiperfoco em alguma coisa, não se puna nem se deixe repelir, mergulhe de cabeça, vá fundo, até ter outro estalo.