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3.0

''Eu não acredito em Deus. Mas penso que serei feliz, hoje, amanhã, algum dia, tenho certeza.''


Bem, acho que o primeiro ponto que todos percebem ao ler Eden é o quão caótico ele aparenta ser inicialmente. Há idas e vindas no tempo. Volume 2 pouco se parece com o anterior. No apanhado geral que eu fiz do Volume 1, eu já havia citado como Eden muda de foco e até de gênero o tempo todo para narrar uma história de um imenso escopo, que parte de guerras de guerrilha na América do Sul e chega em questões existenciais e religiosas, em viagens espaciais e sobrevivência da raça humana. Há uma dessas mudanças do Volume 1 para o Volume 2: saímos da contemplação e exploração de um mundo apocalíptico destruído, mais próximo das narrativas de sobrevivência, para uma ação desenfreada, com mortes brutais, conflitos militares/políticos e cliffhangers. (Achei engraçado que uma das resenhas negativas aqui eu vi alguém dizer que "o mangá simplesmente decide qual gênero ele quer ser")

Apesar de eu preferir o lado mais filosófico e introspectivo de Eden (como não lembrar da dança, que ocupa umas cinco páginas ao todo, entrecortada por memórias, com uma carga imensa de significados na one-shot de abertura?) sua ação, um futurismo/cyberpunk com toque meio retrô, também não é de se virar a cara. O mundo criado pelo autor permanece bastante realista e o elenco interessante de personagens só cresce aqui. O ponto crucial deste volume é, portanto, apresentar e expandir as personalidades dos mercenários que capturam o Elijah e das duas mulheres que o grupo salvou. Começamos a vislumbrar as instabilidades e as sombras por detrás daquelas personagens, um grupo formado por pessoas prejudicadas e cheias de problemas que estão unidas por um ideal.

Kachua, por exemplo, descende dos Incas e trabalha em um campo de concentração de produção de cocaína nos Andes; por ser bonita, foi tornada uma prostituta durante a invasão da Propátria. Helena, a outra personagem, teve uma mãe e vó prostitutas que sonhavam em dar uma vida melhor para suas filhas, mas que nunca conseguiram realizar esse sonho. Sofia, uma das mercenárias, com o corpo meio robô, modificado, no passado foi muito promíscua e com isso deu à luz oito filhos que não criou. E até o Elijah, nosso protagonista, que tem de viver com o fardo de ser filho de seu pai, um figurão do narcotráfico que causou muito daquilo, vivendo à custa das drogas, do tráfico e da prostitução; o que também causou o sequestro da mãe e da irmã dele.

Mas, ao mesmo tempo que começamos a ter uma noção da profundidade desses personagens nos diálogos, somos interrompidos todo tempo pela constante ameaça de violência visceral: não há como se sentir seguro em Eden por muito tempo. Há também um salto perceptível na qualidade visual e literária em relação ao primeiro volume, há um relance da escrita do Endo em algumas passagens, mas ainda está longe do seu potencial real. Talvez aqui se inicie de fato a montanha-russa que é Eden e você deve apertar os cintos para passar por todas as edições e chegar no fulminante final.

O excesso de ação e violência (verdadeiramente gráfica) pode ser um pouco problemática para aqueles atraídos a Eden por todas as discussões que ele engloba. Há um pouco disso sim aqui nesse volume, principalmente no esporro que Helena dá em Elijah, entre outras cenas apertadas entre a ação, mas não parece ser o foco nesse momento.

No geral, é uma edição ok, um pouco abaixo do padrão Eden, mas uma boa edição.