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5.0

A antologia seminal da Literatura Fantástica, curada por três grandes argentinos (Bioy, Borges e Ocampo), é muito mais do que só um marco para a cena literária platese daquele tempo, definindo a partir dali a cara da literatura que se produziria por lá ao ceder um caminhão de novas referências aos jovens escritores da América Latina. É um marco para um montão de gente ao redor do mundo, eu incluso (que eu não faria por minhas mãos nessa edição linda da Cosac Naif… ); ela moldou meu gosto e minhas preferências literárias.

A obra revela a pena de escritores escondidos e/ou obscuros, que dificilmente você encontraria normalmente, traduzidos pelos três editores. A ordem é alfabética e isso faz com que escritores talentosos escondidos da cânon, figurem aqui com contos pau a pau com grandes nomes da literatura mundial. O próprio Borges, Bioy e Ocampo (cada qual incluindo, também, seus próprios contos) lutam duramente com Giovani Papini, Leopoldo Lugones, Santiago Dabove, May Sinclair, Villiers de L’Isle Adam e Max Beerbohm pela alta prateleira, onde figuram os melhores contos da antologia. Todos esses contos duríssimos inclusive oferecem perigo e risco a escritores consagrados que também foram selecionados, como: H.G Wells, Kipling, Joyce, Poe, Maupassant, Cortázar e outras presenças ilustres.

Não por pura vaidade que os editores se inserem na antologia. Quem os conhece minimamente sabe: são histórias de grande qualidade. Tlon, Uqbar Orbius Tetius do Borges e A Lula Opta por sua Tinta do Bioy figuram as melhores histórias da antologia, brigando com todos aqueles supracitados; a Ocampo com seu cotidiano disforme, fica na prateleira ligeiramente abaixo, entre os bons. (Eu li o A Fúria e digo que ela tem contos melhores do que aquele que ela selecionou aqui).

Viaja-se na biblioteca destes três argentinos, através de autores das mais diversas nacionalidades e das mais diversas épocas, não só em contos, mas também em enxertos, microcontos, peças de teatro e até relatos que ficam na margem da ficção e da realidade. O livro perpassa pelos Contos Orientais, pela magia das Mil e Uma Noites, pelo Satyricon, e estende-se até o modernismo, com Os Mortos, do Joyce. Vê uma semente da literatura fantástica naquele encerramento de Os Mortos. (No entanto, o livro para por aí. O Manguel, inspirado por este livro, "pega" da onde nossos curadores pararam, no seu "Book of Fantastic Literature", de dois grandes volumes que dizem ser tão bom quanto.)

Há no livro uma ótima introdução do Bioy sobre a concepção do livro e sobre a literatura fantástica como um todo, e outras edições contam até com uma introdução da Úrsula K. Le Guin, que discorre sobre o significado de "fantasia" ao longo do tempo, também bem bom.

Só seguindo pelo sumário a lista de autores, e indo atrás de suas principais obras (fantásticas ou não), você já tem uma boa lista de leitura para praticamente o resto da vida. É um livro que eu recomendaria para qualquer um.