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rolandosmedeiros 's review for:
Pierre Menard, author of Don Quixote
by Jorge Luis Borges
O queridíssimo Prof. Luís Augusto Fischer fez um ótimo livro ensaístico sobre o Borges e o Machado, meus dois autores favoritos, dois gigantes, que — ele mostra em detalhes e vai muito mais a fundo do que farei brevemente aqui — nunca se leram (Machado morreu antes, e o Borges não se interessou por ler o Bruxo), mas que revelam muitas consonâncias formais, temáticas e contextuais.
Um trecho que ele não citou e que me saltou aos olhos agora que estou relendo Dom Casmurro está no capítulo IX, e pegou porque lembrei instantaneamente, desta vez, do Pierre Menard. (Aliás, mal vejo essa cena, bem boa, sendo comentada.) É quando o Bentinho relembra e dedica o capítulo a explicar a teoria do amigo de que “A vida é uma ópera e uma grande ópera” escrita por Lúcifer. O amigo desenvolve como chegou nessa teoria e descreve como tudo se decorreu no céu. São só três páginas, e é puro suco de Machado.
E bom, o que tem a ver com o Pierre Menard, este artigo ou conto ou genial ensaio ficcional do Borges? O autor fictício (o amigo do Menard) diz que o Menard ao reescrever o Quixote faz diferenciação entre cópia/transcrição mecânica de outro texto com a produção de um texto que coincida linha a linha, palavra por palavra, com as de Cervantes. Coisas diferentes, segundo ele. E seguindo a tese do amigo do Bentinho, Shakespeare nada mais é que um tipo de Pierre Menard. "O poeta inglês não teve outro gênio senão transcrever a letra da ópera [de Lucífer], com tal fidelidade que parece ele próprio o autor da composição (…)"
Menard transcreveu o Quixote; Shakespeare transcreveu a própria ópera de Lúcifer, a ópera da existência: a vida que a gente vive. Está aí, aliás, um dos maiores elogios ao Shakespeare feito pelo Machado, ainda que do seu jeitinho sempre dissimulado.
O ponto dos dois autores é diferente, claro. Mas ambos são muito imaginativos quanto no modo de colocar e expor aquilo que eles querem transmitir. O Borges, com a sua forma única; o Machado, dentro de um romance, por meio de uma personagem e de uma prosa cristalina. E, ainda sim, de diferentes formas, a ideia geral dos dois está próxima, a ponto de que partes de um se aplicam a outro e vice-versa, em um Borgiano vaivém de influências.
E se alguém rir da minha tese, eu respondo como tenor italiano amigo do Bentinho (de um jeito menos enfurecido), encerrando o capítulo: "Caro Santiago, eu não tenho graça, eu tenho horror à graça (…) um dia, quando todos os livros forem queimados por inúteis, há de haver alguém, pode ser que tenor, e talvez italiano, que ensine esta verdade aos homens. Tudo é música, meu amigo. No princípio era o dó, e o dó fez-se ré, etc. Este cálix, este cálix é um breve estribilho. Não se ouve? Também não se ouve o pau nem a pedra, mas tudo cabe na mesma ópera…"
*
Eu já li o Pierre Menard umas quatro vezes e ainda não sei se consegui pegar tudo que tem aqui. O ponto de que parte Borges, por meio de um autor anônimo, e está aí parte da ficcionalização, quer provar que certas partes do Dom Quixote foram escritas por um outro autor, recém falecido no momento de publicação deste artigo: Pierre Menard. Ele acaba dando uma volta completa e o ensaio ficcional acaba criando um poderosíssimo ensaio que se debruça e transcende a própria literatura.
O Borges está aí ao mesmo tempo que não está, característica comum dos grandes autores. É difícil saber quando um apontamento do autor-ficcional, no texto, é olhado com ironia ou com reverência por parte do Borges. O ponto principal, que o levou a bolar toda essa interessante ficcionalização, é sobre a mudança dos significados de um texto com o avançar do tempo. Se tivesse escrito como um mero ensaio, não seria tão bom quanto como ele o é da forma que fez. O absurdo e a estranheza do que o autor-anônimo está nos dizendo, até as notas fictícias mas críveis, corroboram com o sentido do todo.
Há o vai e vem das influências: o autor-ficional do artigo sente que está lendo, no Quixote, o estilo de Menard, inspirado por Shakespeare, mas agora ele já o precede, já que está dentro do Quixote. Ele é, aliás, melhor, porque Menard, apesar das duas obras serem materialmente iguais, escreve o contrário daquilo que lhe é caro, e por conta dos anos transcorridos e por conta da motivação de Menard escrever, o texto muda semanticamente, ainda que materialmente não.
Um trecho que ele não citou e que me saltou aos olhos agora que estou relendo Dom Casmurro está no capítulo IX, e pegou porque lembrei instantaneamente, desta vez, do Pierre Menard. (Aliás, mal vejo essa cena, bem boa, sendo comentada.) É quando o Bentinho relembra e dedica o capítulo a explicar a teoria do amigo de que “A vida é uma ópera e uma grande ópera” escrita por Lúcifer. O amigo desenvolve como chegou nessa teoria e descreve como tudo se decorreu no céu. São só três páginas, e é puro suco de Machado.
E bom, o que tem a ver com o Pierre Menard, este artigo ou conto ou genial ensaio ficcional do Borges? O autor fictício (o amigo do Menard) diz que o Menard ao reescrever o Quixote faz diferenciação entre cópia/transcrição mecânica de outro texto com a produção de um texto que coincida linha a linha, palavra por palavra, com as de Cervantes. Coisas diferentes, segundo ele. E seguindo a tese do amigo do Bentinho, Shakespeare nada mais é que um tipo de Pierre Menard. "O poeta inglês não teve outro gênio senão transcrever a letra da ópera [de Lucífer], com tal fidelidade que parece ele próprio o autor da composição (…)"
Menard transcreveu o Quixote; Shakespeare transcreveu a própria ópera de Lúcifer, a ópera da existência: a vida que a gente vive. Está aí, aliás, um dos maiores elogios ao Shakespeare feito pelo Machado, ainda que do seu jeitinho sempre dissimulado.
O ponto dos dois autores é diferente, claro. Mas ambos são muito imaginativos quanto no modo de colocar e expor aquilo que eles querem transmitir. O Borges, com a sua forma única; o Machado, dentro de um romance, por meio de uma personagem e de uma prosa cristalina. E, ainda sim, de diferentes formas, a ideia geral dos dois está próxima, a ponto de que partes de um se aplicam a outro e vice-versa, em um Borgiano vaivém de influências.
E se alguém rir da minha tese, eu respondo como tenor italiano amigo do Bentinho (de um jeito menos enfurecido), encerrando o capítulo: "Caro Santiago, eu não tenho graça, eu tenho horror à graça (…) um dia, quando todos os livros forem queimados por inúteis, há de haver alguém, pode ser que tenor, e talvez italiano, que ensine esta verdade aos homens. Tudo é música, meu amigo. No princípio era o dó, e o dó fez-se ré, etc. Este cálix, este cálix é um breve estribilho. Não se ouve? Também não se ouve o pau nem a pedra, mas tudo cabe na mesma ópera…"
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Eu já li o Pierre Menard umas quatro vezes e ainda não sei se consegui pegar tudo que tem aqui. O ponto de que parte Borges, por meio de um autor anônimo, e está aí parte da ficcionalização, quer provar que certas partes do Dom Quixote foram escritas por um outro autor, recém falecido no momento de publicação deste artigo: Pierre Menard. Ele acaba dando uma volta completa e o ensaio ficcional acaba criando um poderosíssimo ensaio que se debruça e transcende a própria literatura.
O Borges está aí ao mesmo tempo que não está, característica comum dos grandes autores. É difícil saber quando um apontamento do autor-ficcional, no texto, é olhado com ironia ou com reverência por parte do Borges. O ponto principal, que o levou a bolar toda essa interessante ficcionalização, é sobre a mudança dos significados de um texto com o avançar do tempo. Se tivesse escrito como um mero ensaio, não seria tão bom quanto como ele o é da forma que fez. O absurdo e a estranheza do que o autor-anônimo está nos dizendo, até as notas fictícias mas críveis, corroboram com o sentido do todo.
Há o vai e vem das influências: o autor-ficional do artigo sente que está lendo, no Quixote, o estilo de Menard, inspirado por Shakespeare, mas agora ele já o precede, já que está dentro do Quixote. Ele é, aliás, melhor, porque Menard, apesar das duas obras serem materialmente iguais, escreve o contrário daquilo que lhe é caro, e por conta dos anos transcorridos e por conta da motivação de Menard escrever, o texto muda semanticamente, ainda que materialmente não.
"Uma doutrina filosófica é no início uma descrição verossímil do universo; passam os anos e é um simples capítulo – quando não um parágrafo ou um nome – da história da filosofia. Na literatura, essa caducidade final é ainda mais evidente. O Quixote – disse-me Menard – foi antes de tudo um livro agradável; agora é uma ocasião de brindes patrióticos, de soberba gramatical, de obscenas edições de luxo. A glória é uma incompreensão e talvez a pior."