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rolandosmedeiros 's review for:

A Good Man is Hard to Find by Flannery O'Connor
5.0

Queria não ter lido a introdução que vinha na antologia, porque a imagem que eu criaria na minha cabeça sobre a autoria desses três contos (Parker's Back, Good Country People, e este) quebraria completamente. Uma imagem falsa, cheia de preconceitos e pressupostos. Eu, além do mais, e falo sério, achava que ela era um homem: O'Connor me soa, sei lá, nome masculino, e Flannery meio lá meio cá; do mesmo jeito como também já tive certeza de que Mia Couto era uma jovem poetisa se não brasileira, portuguesa; e Ortega Y Gasset dois irmãos (ou coautores) inseparáveis.

Se você pensa no que se convencionou chamar de conto moderno, tem de pensar na Flannery. Só essa breve seleção deixa isso bem claro. É o exemplo perfeito de como esse nome (O Conto Moderno) é só uma convenção para um objeto de muitas formas, cores, vozes e estilos, quase que um artefato alienígena de Roadside Picnic. Curiosamente, minhas duas últimas leituras foram justamente ela e a Anna Kavan, duas mulheres que desmontam completamente um montão de teses sobre o conto, cada qual à sua maneira. As duas, porém, convergem em uma: quebram a tese de que o enredo é a sustentação ou o mais importante no conto. As duas vencem, e não por nocaute.

Mais impressionante ainda na ficção dela é o contraste. Ainda que religiosa, nos contos há uma visão irônica, bem-humorada, chocante e violenta sobre todos os aspectos da vida humana, incluindo a religião; ela diz que o escritor deve ser capaz, antes de tudo, de tornar tudo aquilo que há de ruim no mundo crível, e só depois tornar a graça expressiva. Aqui a gente tem: A Good Man is Hard to Find, um conto violentíssimo, impactante e hipnotizante sobre um serial killer que acaba por se deparar com uma família acidentada no meio duma road-trip; Parker's Back, a descrição maravilhosa, bonita e contraditória da relação entre um ex-marinheiro, tatuado dos pés à cabeça, que se casa (sem saber bem por que) com uma dona de casa extremamente religiosa lá do sul profundo dos Estados Unidos; e Good Country People, a vida estranha de uma mulher com uma doença degenerativa, uma perna de mentira, um bacharel em filosofia, vivendo numa fazenda ajudando a mãe e, o principal, o seu encontro dela com um magnetizante e suspeito vendedor de bíblias.

Eu só conhecia o tal gótico sulista pelo cinema e televisão: um exemplo bom é a famosa primeira temporada de True Detective; um exemplo marromenos é a adaptação de "The Devil All the Time". Eu gostava desse último até ler, aqui, a Flannery e entender como os personagens de lá são só cartolinas estereotipadas quando em comparação. A graça da O'Connor é justamente o trato com as personagens, mesmo as mais vis, preconceituosas, chatas, esquisitas (e além), mesmo quando está ironizando há muita afeição e cuidado pelas personagens. É um tipo diferente de conto justamente por causa disso, muito mais pautado neles do que no enredo. Parece até contrassenso, se tratando da forma breve; mas funciona muito que bem. Ela sabe do que está falando, conhece aquele sul, a cultura e o modo de ser dessas personagens. Não escolheu tratar do lugar por puro exotismo. Como Mo Walsh, no the Guardian, diz do Southern Gothic: “... embora sejam personagens deformados ou intolerantes ou violentos, nas mãos de um escritor sulista são descritos com empatia e verdade. (...) Isto não é ser grotesco. É uma vida dura e um trabalho duro, e esses personagens apenas mostram cicatrizes visíveis daquilo que muitos de nós carregamos em nosso íntimo.”

A autora é da Georgia, um dos sete Estados confederados do sul, marcados pela derrota na guerra civil, pelo preconceito e pela desigualdade. O cenário dessas histórias se dão predominantemente em ambientes rurais: pensa-se naquelas longas plantações de milho ou algodão até onde se pode enxergar, fazendas e residências rurais decadentes, no meio do nada, junto de pequenas igrejas com chão de tábua de madeira e uma pequena comunidade. O gótico do nome vem disso, mais os personagens perturbadores ou excêntricos, cenários decadentes, situações grotescas e outros eventos sinistros relacionados à pobreza, ao crime e, no caso da Flannery, principalmente a violência.

Ainda que a questão da raça seja incidental nos contos, trata de maneira muito astuta e desmitificada o homem branco e a mulher branca, e mantém um afastamento (diria inteligente) do interior da consciência das personagens negras. Aqui, por exemplo, a gente tem uma vovozinha explicitamente racista, que é tagarela, chata, mas você ainda sente alguma coisa por ela — de novo, o trato dado à personagem pela Flannery.

Todos os três contos selecionados na antologia são exemplos de que a graça é, acima de tudo, o fruir do texto. O prazer em lê-los, em ter vislumbres de personagens cheios de vida, de outra época e outro jeito de ser. Se pôr frente desses contos como um cirurgião de frente a um sapo, amarrado e com os pequeninos órgãos à mostra na mesa de cirurgia, antes de uma dissecação, não me parece bom. Ela mesma diz algo nessa linha, quando seus contos estavam sendo lidos na universidade:"Há um problema sério no jeito de se ensinar ou encarar literatura quando, para a maioria dos estudantes, uma narrativa ou um conto se torna simplesmente algo a ser resolvido, algo que você consome em troca de uma explicação [ou significado]."

[A Good Man is Hard to Find]

Agora, este conto em si: ele abre com um café da manhã em família. Estão prestes a sair numa roadtrip. O filho único, a esposa dele e os dois netos pequenos querem ir para a Florida, e a avó (como a chama o narrador) quer visitar velhos conhecidos no Tenessee, "(...) se aproveitando de toda oportunidade que tinha para tentar convencer o filho a mudar os planos". Nessa manhã ela apontava para a notícia de que um serial-killer havia fugido da prisão e estava à solta. Sem sucesso. Bastava se contentar e tentar esconder o gato no carro, contra à vontade do filho, porque tinha medo "de que ele sentiria muita saudade dela" e que "poderia, sem querer, morrer asfixiado por ter esbarrado no fogão"

Só a descrição da viagem, a primeira metade do conto, já é interessantíssima. Os país, cansados, julgamo-nos com poucos dias para aproveitar as férias, mal trocando palavras entre si, a avó não parando de falar, contanto histórias de um tempo ainda mais antigo, comentando sobre cada lugar que passam, e em meio a isso dando visões estereotipadas, preconceituosas e anedotas sobre negros como quem cita um ditado popular, e o jeito muito verossímil de descrever as crianças, quicando no carro, tão enérgicas que saltam às paginas — uma cena memorável é quando, depois de ficarem subitamente quietas e paradas, perceberem que não se machucaram no acidente, saltam do carro e começam a gritar, pular e comemorar "sofremos um ACIDENTE!". Ou a avó, que depois de ter causado o acidente, "torceu para estar tão machucada a ponto da raiva do filho se amenizar um pouco".

De cima do morro três homens veem o carro capotado no buraco, e umas pessoas acenando. Ele desce para ajudar. E aí se desenrola o grosso do conto: epifanias, conversas profundas, violência, e um dos temas centrais do conto, penso eu: a relação profunda, que fingimos que não existe, entre nós e aqueles que consideramos a escória da sociedade; e que pensava-se há cem anos atrás, o que pensamos hoje: antigamente se podia confiar nos outros, deixar as portas abertas... não, não se podia, pensa-se que sim, mas não. O conto me deixou com a impressão de que desde o início do mundo foi que as coisas começaram a piorar, não há cinquenta, cem anos atrás, como ouvimos em conversas reais ou em conversas com essas narrativas. E isso implica em, na voz do The Misfit, se o paraíso não é aqui, devemos ir de encontro a ele o mais rápido possível; ou, se o paraíso não existe, está liberado o caos? Quanto mais complexo e mais bem sucedido é o trabalho ficcional do autor, mais chances de evocar diferentes leituras e interpretações em diferentes leitores.

A frase da esposa do Red Sammy, quando fazem uma parada no meio da viagem, define bem

"Não há ninguém nesse mundo de meu deus em que você possa confiar," ela disse. "E eu não faço exceção alguma, pra ninguém".


No quesito de se observar a arte da ficção, esse conto tem tudo. Abre já com um objetivo para as personagens, já estão decididos a viajar e tomam o último café da manhã; há já aí o foreshadowing, de jeitos diferentes, do final do conto; há o trato e o desenvolvimento das personagens, a ironia do narrador, a dicção sulista, o contraste dentro da própria família em cada uma das personagens; o sútil pintar do tema; o "erro trágico" da Avó; a ação e o conflito aparecendo (em contrassenso) só nas últimas paginas do conto e acabando de supetão, e a abertura para múltiplas releituras.

A Flannery é um exemplo perfeito de que uma boa história não precisa de personagens dos quais você tem de, obrigatoriamente, se sentir atraído ou se identificar. Nem de que você precisa de um enredo mirabolante para segurar, desde o início, o leitor. A graça é, como citei, a amplitude e as características individuais de cada, incluindo seus jeitos, defeitos e manias. É o que me ficou dos três: são contos muito mais focados nas personagens do que numa intriga ou num argumento forte. Seus temas, também, se tornam muito mais abrangentes com o uso dessas personagens. Aliás, a sensação que a O'Connor me parece querer passar mais aqui nesse conto, especificamente, não seria a mesma caso alguma das personagens fosse muito gostável e identificável. Ela não quer passar tristeza, e se quer passar tragédia é do tipo de tragédia na acepção moderna, que envolve geralmente violência e morte em um ciclo. Todos temos culpa no cartório, só fingimos ou não nos atentamos que não.


 Parker's Back, A Good Man is Hard to Find, Good Country People
40~50pp — ✲ 4.5/5.0
Lido em Inglês.
Trad. Livre dos Trechos.
Outros Comentários: Parker's Back (logo mais) Good Country People (logo mais)
Trechos da própria O'Connor tirei de "Mistery and Manners"