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rolandosmedeiros 's review for:
Everyday Use
by Alice Walker, Barbara T. Christian
Uma narrativa linda, daquelas que faz você ver beleza nas coisas mais simples da vida (aqui, em uma menininha lavando louça).
Uma temática atual, forte e inesperada — você começa o conto e não sabe para onde a Alice Walker vai. Abre falando de reality shows, sobre a mulher que é a Mama — uma negra, opulenta, de mãos fortes e jeito masculino: uma trabalhadeira do lar e fazendeira, mãe solo de duas filhas, lá pelo sul “profundo” dos EUA —, e logo estamos enfeitiçados, e gratos pelo vislumbre que a autora concede a nós na vida dessa reduzida família, de duas ou quando muito três pessoas: três mulheres.
Ela vai te conduzindo numa narrativa e perpassando e resvalando em múltiplos temas, como a relação entre gerações, herança cultural e mesmo apropriação cultural a partir de objetos cotidianos (os tais objetos de “Everyday Use”), mas não só. A autora fala disso tudo brilhantemente, sem teses ou didatismo, de um ponto de vista nada blasé. Em apenas seis páginas, na minha edição.
Nas disciplinas de língua estrangeira é um conto muitíssimo presente; um clássico “moderno”, de 1973. Concordo com a denominação. Agora, por que que nunca foi traduzido para o português é a pergunta a se fazer. Justamente nós que, se me lembro bem, tivemos por muito tempo no Brasil discussões sobre apropriação cultural — até o ponto disso ter se tornado malvisto por culpa de alguns.
Ela traz justamente um tipo de apropriação cultural muito mais sutil e complicado: de dentro da própria família e de dentro da própria herança cultural.
O ponto de vista é a da Mama — Sra. Johnson — e já numa das primeiras cenas, bastante corriqueira, ela consegue te prender com algo simples: a tensão da irmã menor (com o corpo cheio de cicatrizes de queimadura devido a um acidente na infância) perante ao contato com a irmã, que vêm visitá-la com o novo cunhado (dela), genro (da Mama). Isso puxa a gente, na cabeça da mãe, para uma memória de quando as duas eram ainda menores: Maggie, a menor, pelo episódio na infância, vista como um animalzinho arisco que necessita de amor; Dee, a maior, deixou a família para ir viver, independente, na cidade, desde a infância odiava a casa no sul.
O conto é todo pautado em contrastes. Físicos, culturais. Em questão de aparência, Dee (a mais velha) tem o rosto mais bonito, o cabelo mais bonito, e tudo mais bonito que a irmã. Não parece se importar muito com a família, inclusive fica implícito que em um desastre familiar anterior ela foi indiferente ou mesmo complacente na situação. Maggie, a menina menor, é um doce, mas preterida — e isso reflete em quase tudo que ela faz.
"Everyday Use", significa algo de uso cotidiano, corrente, prático. Em certa ótica, nesses objetos de uso diário estão parte da herança familiar: nos entalhes que o marido da tia deixou, nos objetos com marcas de uso de familiares já falecidos, nas cobertas e colchas manufaturadas com esmero e consertadas com retalhos de diferentes pessoas e por diferentes mãos. Tudo isso é herança familiar. É mais um contraste do conto quando isso se justapõe à visita da filha, com uma cabeça que só pensa no "fashion", na moda; a memorabilia familiar vista como artigo de moda, valorizada pela indústria; portanto, só agora possuindo valor. Aí está o jogo com a apropriação cultural. Quando Dee vê Maggie utilizando aquela peça que vale muitíssimo na cidade grande como uma coisa de uso cotidiano, não consegue entender, e não enxerga a herança familiar para além da platitude. Como não vê muitas outras coisas — mas aí num aspecto mais de relação pessoal com a família. Estas partes você deve ler por você mesmo.
Cara, eu senti o peso de um livro inteiro nessas seis páginas; a beleza das cenas é de esquentar qualquer coração. Sinto que vou ter para sempre esse conto como uma de minhas paixões literárias.
Uma paixão diferente da de outros contos que me acompanham como exemplos MÁXIMOS dessa forma que gosto tanto (Borges, Chékov, Machado…) Mas, isso não significa, de maneira alguma, menos.
São duas prateleiras que se erguem na mesma altura e que, é estranho para quem a vê de frente, se interseccionam aqui e ali, muitas vezes. Sinto ser esse um dos casos.
Uma temática atual, forte e inesperada — você começa o conto e não sabe para onde a Alice Walker vai. Abre falando de reality shows, sobre a mulher que é a Mama — uma negra, opulenta, de mãos fortes e jeito masculino: uma trabalhadeira do lar e fazendeira, mãe solo de duas filhas, lá pelo sul “profundo” dos EUA —, e logo estamos enfeitiçados, e gratos pelo vislumbre que a autora concede a nós na vida dessa reduzida família, de duas ou quando muito três pessoas: três mulheres.
Ela vai te conduzindo numa narrativa e perpassando e resvalando em múltiplos temas, como a relação entre gerações, herança cultural e mesmo apropriação cultural a partir de objetos cotidianos (os tais objetos de “Everyday Use”), mas não só. A autora fala disso tudo brilhantemente, sem teses ou didatismo, de um ponto de vista nada blasé. Em apenas seis páginas, na minha edição.
Nas disciplinas de língua estrangeira é um conto muitíssimo presente; um clássico “moderno”, de 1973. Concordo com a denominação. Agora, por que que nunca foi traduzido para o português é a pergunta a se fazer. Justamente nós que, se me lembro bem, tivemos por muito tempo no Brasil discussões sobre apropriação cultural — até o ponto disso ter se tornado malvisto por culpa de alguns.
Ela traz justamente um tipo de apropriação cultural muito mais sutil e complicado: de dentro da própria família e de dentro da própria herança cultural.
O ponto de vista é a da Mama — Sra. Johnson — e já numa das primeiras cenas, bastante corriqueira, ela consegue te prender com algo simples: a tensão da irmã menor (com o corpo cheio de cicatrizes de queimadura devido a um acidente na infância) perante ao contato com a irmã, que vêm visitá-la com o novo cunhado (dela), genro (da Mama). Isso puxa a gente, na cabeça da mãe, para uma memória de quando as duas eram ainda menores: Maggie, a menor, pelo episódio na infância, vista como um animalzinho arisco que necessita de amor; Dee, a maior, deixou a família para ir viver, independente, na cidade, desde a infância odiava a casa no sul.
O conto é todo pautado em contrastes. Físicos, culturais. Em questão de aparência, Dee (a mais velha) tem o rosto mais bonito, o cabelo mais bonito, e tudo mais bonito que a irmã. Não parece se importar muito com a família, inclusive fica implícito que em um desastre familiar anterior ela foi indiferente ou mesmo complacente na situação. Maggie, a menina menor, é um doce, mas preterida — e isso reflete em quase tudo que ela faz.
"Everyday Use", significa algo de uso cotidiano, corrente, prático. Em certa ótica, nesses objetos de uso diário estão parte da herança familiar: nos entalhes que o marido da tia deixou, nos objetos com marcas de uso de familiares já falecidos, nas cobertas e colchas manufaturadas com esmero e consertadas com retalhos de diferentes pessoas e por diferentes mãos. Tudo isso é herança familiar. É mais um contraste do conto quando isso se justapõe à visita da filha, com uma cabeça que só pensa no "fashion", na moda; a memorabilia familiar vista como artigo de moda, valorizada pela indústria; portanto, só agora possuindo valor. Aí está o jogo com a apropriação cultural. Quando Dee vê Maggie utilizando aquela peça que vale muitíssimo na cidade grande como uma coisa de uso cotidiano, não consegue entender, e não enxerga a herança familiar para além da platitude. Como não vê muitas outras coisas — mas aí num aspecto mais de relação pessoal com a família. Estas partes você deve ler por você mesmo.
Cara, eu senti o peso de um livro inteiro nessas seis páginas; a beleza das cenas é de esquentar qualquer coração. Sinto que vou ter para sempre esse conto como uma de minhas paixões literárias.
Uma paixão diferente da de outros contos que me acompanham como exemplos MÁXIMOS dessa forma que gosto tanto (Borges, Chékov, Machado…) Mas, isso não significa, de maneira alguma, menos.
São duas prateleiras que se erguem na mesma altura e que, é estranho para quem a vê de frente, se interseccionam aqui e ali, muitas vezes. Sinto ser esse um dos casos.
Lido em Inglês
Antologia da Unv. de Connecticut
Conto — 6pp — ✲ 5.0/5.0