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rolandosmedeiros

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Os primeiros dois livros da série Discworld, ambos romances do Rincewind (A Cor da Magia e A Luz Fantástica) são do tipo ame ou odeie; pelas palavras do próprio autor, o leitor que pega para ler o livro hoje já tem uma boa chance de saber mais sobre o Discworld do que ele quando o escreveu. Não é nem, tomando como base o site da editora atual, incluído na prateleira de introdução à série — mesmo tendo sido o primeiro dela — dando lugar a "Mort!", "Guardas, Guardas" e outros mais populares.

Mas, mesmo em meio a problemas e virtudes, tenho um carinho especial por estes dois livros. É uma das poucas obras que me passam a mesma sensação de quando, lá pelos meus onze ou doze anos, assistia Adventure Time, com a mesma mistura entre fantasia, humor e total liberdade criativa com a criação de mundo.

A Cor da Magia leva ao extremo o tropo do turista ingênuo com o Duasflor, junto de um protagonista de fantasia totalmente não-convencional, o Rincewind, que é fujão, cínico, e um mago fracassado. Ele vive um mundo totalmente sem sentido — mais do que a nossa bola giratória em um ponto incidental no universo — e não quer nada mais do que uma vida simples e comum, onde realize seus sonhos humildes de trabalhador humilde; e que nada adianta, o mundo gira — ou melhor, a tartaruga que leva o disco nas costas através do universo, segue o seu curso — e o Rincewind é jogado no caos e na loucura, com seu senso de autopreservação de mago fajuto aguçado, senso de humor irônico e cinismo inerente, abrindo o livro com a cidade de Morporkok sendo consumida pelo fogo por conta de uma briga causado por conta do turista de quem lhe fora incluído a tarefa de proteger.

Discworld é uma série predominantemente de comédia e de paródia. Mas vos digo que não é esse o principal ponto que me atrai. Acho que os pontos onde Pratchett deixa a sua imaginação correr livre, abarca o nonsense, o imaginativo e o surreal em seus conceitos e ideias, que me prendem mais.

As plantas do Discworld, embora incluíssem as categorias em geral chamadas de anuais, semeadas para nascer no mesmo ano, bienais, semeadas para crescer no ano seguinte, eperenes, semeadas para nascer sabe-se lá quando, também abrangiam algumas raras reanuais, que, por causa de um incomum desvio quadridimensional em seus genes, podiam ser plantadas no ano corrente para dar no ano passado. A noz vul era excepcional nesse sentido, porque chegava a florescer até oito anos antes de ser plantada. Seu vinho tinha fama de dar a certas pessoas uma visão do futuro — que, do ponto de vista da noz, era o passado. Estranho, mas verdadeiro."


O nome já entrega: o mundo, aqui, é o mundo do Sword'n'Sorcery, só que tem formato de disco e não de esfera e, além disso, é sustentado por quatro elefantes de proporções continentais (Berilia, Tubul, Grande T’Phon e Jerakeen), que por sua vez, estão de pé sobre o casco de uma tartaruga gigante estelar (a Grande A’Tuin) que nada através do espaço. Sabe-se lá para onde.

''O motivo exato do que foi dito acima ser dessa forma não está claro, mas explica um pouco por quê, no Discworld, os Deuses são mais criticados do que venerados.''


A Cor da Magia meio que não tem um enredo, a não ser a cena final que amarra tudo para o segundo livro. O livro é dividido em partes e está mais preocupado, em cada um delas, de trazer um cenário e um rol de personagens, lugares e entidades para parodiar e brincar comelas. Tolkien, Lovecraft, Howard, até RPGS antigos.

Os personagens vão desde a personificação da Morte e do Destino, uma entidade lovecraftiana Bel-Shamharoth, indo até arquétipos clássicos da fantasia parodiados e renovados, como o Hrun o Bárbaro, e os próprios Rincewind e Duasflor. Há as Dríades que diferem totalmente da maneira como as imaginamos, a espada mágica falante do Hrun cuja única propriedade que a distingue das outras espadas convencionais é o ato de falar e cantar, e outros. O mesmo trato é dado à geografia do mundo: uma área com um campo mágico altamente elevado, notado pela tendência que os arbustos tinham de andar e falar; uma gigantesca montanha de ponta cabeça, a Wyrmberg, lar de dragões, porém, dragões translúcidos, que só existem se você acreditar neles.

O intenso campo mágico mostra diversos de seus efeitos bizarros, um deles é quando após a queda de um dos dragões, Rincewind e Duasflor rasgam um buraco no tecido da realidade e são sugados para dentro. Rincewind acorda dentro de um avião (algo que faz mais sentido em inglês, eles atravessam de plano, atravessam de plane) que foi sequestrado, e por fim cai em algum lugar do Mar Círculo, o mar do disco, que literalmente tem uma beira, e a água derrama para o universo (de novo, em inglês, tem a ver com a circumference)

Os mais de quarenta livros da série de Discworld são divididos entre vários "ciclos" diferentes, portanto a ordem de leitura é totalmente misturada, dando ao leitor a opção de escolher o núcleo que mais o agrada e começar por ali.

E após passar pelos dois primeiros (A Cor da Magia e A Luz Fantástica), entendi o motivo de alguns leitores da série aconselharem a não começar por eles. Apesar de possuir apenas 152 páginas, ele não é uma leitura tão fluída assim, e a escolha narrativa de ir abordando pequenos arcos diferentes, e de deixar o final aberto para o próximo (é o único de toda a série a ser sequencial) não funcionou tão bem.

No geral, A Cor da Magia tem um humor bastante característico, que se sustenta pelas diversas críticas e sátiras a outras obras de fantasia, e que cortam também por aspectos da nossa sociedade, que criou tais obras de fantasia, é recheado de sarcasmo, com doses equânimes de ideias inteligentes e caóticas, ainda que com seus altos e baixos, já no primeiro livro da longa série.

Fantasia/Comédia
152pp — ✲ 3.0/5.0
Outros Comentários: The Light Fantastic

A Cor da Magia e A Luz Fantástica (Discworld #1 e #2) poderiam facilmente ter sido aglomerados em um livro só. O primeiro termina, literalmente, em um cliffhanger: o Rincewirnd pendurado na beira de um penhasco na borda do mundo. Acho que entendo, porém, por que o Pratchett decidiu não fazê-lo.

Ambos, por serem uma sequência direta, são bem parecidos e se misturam quando você tenta lembrar de certas cenas. Nesse aspecto, há uma quantidade igual de cenas memoráveis nos dois; envolvendo construção de mundo ou pura comédia e trocadilhos e paródias com tropos de gênero. O ritmo, porém, é bem diferente. No primeiro, por ser dividido em partes frouxas, onde você meio que não vê uma sequência ou uma implicação direta no fechamento da narrativa, faz o livro perder fôlego, apesar de curto.

Aqui, não. Há um enredo, uma sucessão de acontecimentos com nexo causal (mesmo que em meio ao caos do mundo do disco) desde o início. Este aqui é verdadeiramente um romance da série, enquanto o primeiro parece mais com um conjunto de histórias que pintam o mundo — um é o aquecer dos motores, o outro a partida do carro. Então, considero-o ligeiramente melhor, apesar de que estilisticamente é muito parecido com o primeiro, tanto em aspectos positivos quanto negativos.

A sátira social se entrelaça de vez com a paródia dos tropos da fantasia clássica: a impraticidade das mulheres guerreiras usarem couros apertados e roupas curtas, uma repaginada nos goblins ávidos por dinheiro e o preconceito com judeus, a questão de gênero (a ponto de um deus do Discworld se perguntar "que faz um gênero"), os pregadores do fim dos tempos — o plot principal deste aqui é o fim do mundo — "que não parecem acreditar em deuses. E, pior, nem em gente", e o principal vilão que é, simplesmente, um feiticeiro que não é saudosista das práticas antigas — tinha certeza de que antigamente as coisas eram piores.

E outras centenas de coisas mais, é claro. Com certeza, absoluta, lerei mais do Discworld.

Fantasia/Comédia
285pp — ✲ 3.5/5.0
Discworld #2 de #41
Outros Comentários: #1

[Lucrécio] "Tantum religio potuit suadere malorum — “a tantos males a religião persuadiu o homem”. Refere ele a história de Ifigênia em Áulis, os inumeráveis sacrifícios humanos, as hecatombes aos deuses concebidos à imagem da voracidade humana; recorda o terror da simplicidade e juventude perdidas numa congérie de divindades vingativas, o medo ao raio e ao trovão, à morte e ao inferno, e os terrores subterrâneos descritos na arte etrusca e nos mistérios orientais. Incrimina a humanidade por preferir os sacrifícios rituais à compreensão filosófica: “Ó miserável raça humana, que imputas aos deuses atos tais e lhes atribui tamanha ira! Quanto sofrimento (por meio de tais credos) os homens preparam para si mesmos, que feridas para todos nós, quantas lágrimas para nossos filhos! Porque a devoção não consiste em voltar para as pedras um rosto velado, nem em aproximar-se de cada altar, nem em se prostrar diante dos templos dos deuses, nem em espargi-los com o sangue de animais… mas na capacidade de olhar para todas as coisas com paz de espírito.”"

SpoilerComentário inicial:

O Will e a Ariel possuem uma prosa e uma habilidade para escrever história que mesmo depois de duas mil páginas (Nossa Herança Oriental e Nossa Herança Clássica) eu ainda me sinto disposto de encarar mais outras mil. Olha que sou um leitor de pouco fôlego, e que história seja talvez um interesse menor meu, em comparação com ficção e outras coisas.

É, sobretudo, a personalidade deles, o método e a maneira de avançar nos tópicos que faz um livro de história de 1940 ter tanto frescor. O Will com certeza se inspira nos historiadores antigos — Heródoto, Tucídides e outros —, e a ajuda da Ariel faz com que ele não caia em muito dos problemas de outros historiadores antigos no trato das raças, do gênero, da sexualidade e, principalmente, do papel feminino na história. Desde o primeiro livro isso fica claro.

Para fazer A História da Civilização, por exemplo, "o casal Durant empregou a maior parte de seu tempo de trabalho (oito a quatorze horas diárias) ao livro ", e a dedicação foi tanta que "Para se prepararem melhor para a obra, Will Durant e a mulher viajaram pela Europa em 1927, deram a volta ao mundo em 1930, para estudar o Egito, o Oriente Próximo, índia, China e Japão, e novamente circularam a Terra em 1932, para visitar o Japão, a Manchúria, Sibéria, Rússia Europeia e Polônia.

Outro ponto que talvez me faça lê-los com tanto vigor é o método e o objetivo que eles possuem. O primeiro: escrever a história como "o estudo das principais fases da vida, do trabalho, da cultura [e da arte] de um povo, entrosadamente." Isso pauta muito do conteúdo. A gente lê muito sobre todo tipo de arte, trechos de literatura, referências a estatuária e a pintura, juízos diversos entre outras coisas. Não trata, aliás, a história como linha de desenvolvimento linear. O segundo ponto: eles enxergam o estudo da história como uma iluminação dos dias de hoje "[Will] nos recorda que os ditadores sempre usaram o mesmo métodos" e que fenômenos e acontecimentos atuais como "agências bancárias, de fundos destinados a melhoramentos com fins políticos, depressão econômica, projetos e regulamentações governamentais, socialismo do Estado, planos prioritários de tempo de guerra, corrupção eleitoral, grupos de pressão, associações de classe e outros (...) existem há pelo menos dois mil anos.

Agora, nesta entrada da série: a história de Roma e Cristo. O drama do maior império da história, que nenhum poeta conseguiria replicar ou fabricar. De uma aldeia de encruzilhada à dominação do mundo; e, então, a queda.

Atualizando o Goodreads, e remexendo um pouco na memória, lembrei que Almas Mortas foi o primeiro clássico que li de verdade (em 2020!), o primeiro romance que li até o final (bem, meio que não tem final mesmo), e o primeiro dos russos. Daqui para trás só tinha lido contos e coleção de contos (como, bem…, meio que faço até hoje, sou muito mais leitor de narrativas curtas que de longas), e uns outros romances esparsos que não tinha ido até o fim [Shogum, Musashi — meus primeiros interesses literários totalmente por causa dos mangás]. Lembro que me diverti muito com o Tchitchikov (será que é assim que escreve?) e com toda a narrativa maluca: por que caralhos o cara tá comprando Almas Mortas?! Quebrou todo um medo que eu tinha de clássicos & de russos, etc. Ainda lembro muito bem de algumas cenas, vide quando começam a especular quem ele é de verdade, e vai escalonando até chegar na conclusão de que ele é o Napoleão. Vou lembrar de recomendá-lo mais vezes; e marcar aqui para reler, agora que tenho um pouco mais de bagagem — na verdade, forçando muito, se tratando de russos, tenho no máximo uma mochilinha, mas vomos que vomos.

Esse livro me pegou tanto que eu tive que bolar um outro lugar onde eu pudesse escrever sobre ele mais livremente: https://open.substack.com/pub/naterceiramargem/p/na-terceira-margem-do-rio-1-anna-kavan-e-o-sliipstream?r=1z6va2&utm_campaign=post&utm_medium=web

Phew, pronto. Se eu não me demorasse nele o tanto quanto eu acho que ele merece, traduzisse as seções para tentar me fazer mais claro, buscasse algumas fontes e referências sobre a vida da autora, comentários de alguns contemporâneos dela, uns poucos estudiosos (a leitura não é nada densa, prometo) eu não ia conseguir ler mais nada porque isso ia ficar me correndo por dentro: não dar a devida atenção a um livro que foi tão impactante para mim quanto a descoberta das Ficções do Borges.

Tirando uns trechos da publicação:

“A Kavan escreve fantasia como se fosse a mistura do Kafka com a Clarice. (...) O Bright Green Field, como um todo, é uma viagem. A literatura da Kavan é uma viagem — não sabemos bem para onde, mas é. É impossível você não sentir nada, permanecer impávido, de cara limpa, conforme experimenta essas variadas narrativas. Foram poucas as vezes que terminei um livro e senti imediatamente tristeza por terminar, um misto de nostalgia com alguma outra coisa; compaixão por ela e por todos aqueles narradores, talvez; encanto, sim, definitivamente. Ainda que seja uma incursão às profundezas da gente, a fatos e sensações que não queremos pensar ou sentir, é gostoso de se experimentar.

Ao terminar, você entende o que ela quer dizer quando crítica o escapismo. Inicialmente, pode parecer estranho uma autora que usa tantos elementos fantásticos e especulativos dizer isso. Mas, depois de um ou dois contos da Kavan, você compreende perfeitamente o que ela quer dizer…”

Minimalista até demais.