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rolandosmedeiros 's review for:
Auto da Compadecida
by Ariano Suassuna
''(…) o autor quis ser representado por um palhaço, para indicar que sabe, mais do que ninguém, que sua alma é um velho catre, cheio de insensatez e de solércia"
Acho que dá pra se dizer que fiz uma "leitura virgem" do Auto da Compadecida. Vi o filme no fim da infância e pouco ou nada me lembro de concreto além do rosto dos atores (que mesmo distantes na minha memória ainda foram tão fortes que beirou o impossível não imaginá-los na leitura). Fiz questão de não reassistir o filme antes de ler a peça.
Cheguei a ler em disciplinas anteriores os autos do Gil Vicente, e por interesse próprio dois livros sobre o "Picaresco" formas e gêneros que o Suassuna respeita muitíssimo a tradição, e com esta obra — por que não? — se insere nela.
É o melhor dos Autos, mesmo que que com o seu apelo moral seja menos ambíguo que as denúncias veladas do Gil Vicente ou a crítica escrachada do Lazarillo. Tem a forma, a peça dentro da peça, tão intricada quanto a epístola falada que funda o gênero do Picaresco. A dicção, o metadrama (dá de chamar assim?), a inserção da cultura popular e o toque individual do gênio e da personalidade do Ariano fazem uma mistura que dá caldo. É uma peça acima de tudo divertidíssima, li mais rápido do que leio alguns contos para acá. Até as rubricas do Ariano são boas, e já nelas se percebe que é uma peça que não precisa de grandes espetáculos e piromancias para funcionar. Só precisa de algum diretor batendo com as costas da mão no texto, um elenco voluntarioso e uma representação vigorosa.
Mâããs, não sei se sou eu que espero algo além do que o Auto ou a Farsa ou a peça em si se propôs a dar, mas além destes pontos, pouco há além duma forte tomada de partido — ainda que brincalhona, "simples" na boa acepção da palavra — pela moral cristã. O Lazarillo, de quinhentos anos atrás, você termina e imediatamente começa a pensar e a questioná-lo. Não é o caso do Auto da Compadecida, onde os episódios e as esquetes (ainda que MUITO boas!) são mais fortes, penso eu, que a unidade da peça. E isso, que geralmente não é problema para mim, nunca entendi aqueles extremistas da unidade de ação, foi o que me fez não gostar tanto assim do Auto.
O primeiro desfecho da peça, porém, tem um tom estranhamente trágico, um trágico-melancólico-engraçado que não sei explicar nem comparar com nada que já li antes.
Dito isto, me diverti muito mais com o Suassuna que com o Lazarillo, então talvez esteja sendo injusto com ele e com meu entretenimento.
Acho que dá pra se dizer que fiz uma "leitura virgem" do Auto da Compadecida. Vi o filme no fim da infância e pouco ou nada me lembro de concreto além do rosto dos atores (que mesmo distantes na minha memória ainda foram tão fortes que beirou o impossível não imaginá-los na leitura). Fiz questão de não reassistir o filme antes de ler a peça.
Cheguei a ler em disciplinas anteriores os autos do Gil Vicente, e por interesse próprio dois livros sobre o "Picaresco" formas e gêneros que o Suassuna respeita muitíssimo a tradição, e com esta obra — por que não? — se insere nela.
É o melhor dos Autos, mesmo que que com o seu apelo moral seja menos ambíguo que as denúncias veladas do Gil Vicente ou a crítica escrachada do Lazarillo. Tem a forma, a peça dentro da peça, tão intricada quanto a epístola falada que funda o gênero do Picaresco. A dicção, o metadrama (dá de chamar assim?), a inserção da cultura popular e o toque individual do gênio e da personalidade do Ariano fazem uma mistura que dá caldo. É uma peça acima de tudo divertidíssima, li mais rápido do que leio alguns contos para acá. Até as rubricas do Ariano são boas, e já nelas se percebe que é uma peça que não precisa de grandes espetáculos e piromancias para funcionar. Só precisa de algum diretor batendo com as costas da mão no texto, um elenco voluntarioso e uma representação vigorosa.
Mâããs, não sei se sou eu que espero algo além do que o Auto ou a Farsa ou a peça em si se propôs a dar, mas além destes pontos, pouco há além duma forte tomada de partido — ainda que brincalhona, "simples" na boa acepção da palavra — pela moral cristã. O Lazarillo, de quinhentos anos atrás, você termina e imediatamente começa a pensar e a questioná-lo. Não é o caso do Auto da Compadecida, onde os episódios e as esquetes (ainda que MUITO boas!) são mais fortes, penso eu, que a unidade da peça. E isso, que geralmente não é problema para mim, nunca entendi aqueles extremistas da unidade de ação, foi o que me fez não gostar tanto assim do Auto.
O primeiro desfecho da peça, porém, tem um tom estranhamente trágico, um trágico-melancólico-engraçado que não sei explicar nem comparar com nada que já li antes.
Dito isto, me diverti muito mais com o Suassuna que com o Lazarillo, então talvez esteja sendo injusto com ele e com meu entretenimento.
Auto da Compadecida — ✲ 3.5/5.0
Edição: Nova Fronteira (2018)
Forma: Teatro
Páginas: 190pp