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rolandosmedeiros 's review for:
Os mortos
by James Joyce
"Lily, a filha do zelador, literalmente não se aguentava mais em pé. Nem bem acabara de levar um cavalheiro até a copinha atrás do escritório no térreo ajudando-o com o sobretudo quando a roufenha campainha da porta da frente tocava outra vez e ela tinha que voltar correndo pelo despido corredor para receber outro convidado."
Se eu ordenar a obra do Joyce pela quantidade de vezes que vi algum escritor ou leitor o citando, fica mais ou menos assim: Ulysses, Finnegan’s Wake, Retrato de um Artista, The Dead e Dublinenses. Este penúltimo escapando de Dublinenses como novela que se autossustenta. A ordem mais confortável de leitura, dizem ser esta mesma — excluindo Finnegan’s — só que de trás pra frente.
Eu gostei de Os Mortos, não achei complicado ou exagerado, achei que o Joyce escreve muito bem, mas tenho de ser sincero: não é melhor que A Terceira Margem do Rio (Rosa) e não é melhor que a alta prateleira do Machado. Li “Os Mortos” mais ao menos ao mesmo tempo que li “O Enfermeiro” (que está mais ou menos no rol inferior, abaixo de "Missa do Galo", "A Cartomante, etc.) e não deve nada ao conto do Joyce.
Mas enfim, menos comparações e mais narrativa em si. Gostei bastante do jeito que o Joyce escreve, e entendi o porquê ele é O moderno. O uso que ele faz do narrador, saltando entre personagens, sempre afastado a não ser quando se confunde e se mistura com alguém, quando mostra internamente o que uma pessoa sente mas não a reação do outro (selecionando muito bem esses momentos) senti realmente como se fosse uma superação da literatura realista. O jeito que ele escreve aqui é a mímese da vida mais do que faz qualquer escritor realista descrevendo minúcias e mais minúcias.
É, também, uma narrativa de múltiplas camadas temáticas, não só nas relações entre personagens como também nos múltiplos símbolos. A morte, o militarismo, o patriotismo gaélico, a relação Irlanda-Inglaterra… Apesar de ser necessário ler anotado para pegar muito disso, o “cerne” do conto é bem construído e bem escrito o suficiente para que você sinta e compreenda sem necessidade de nada além de tato e de humanidade. É, sobretudo, sobre relações humanas. Se ainda pegarmos o fiozinho do Machado, Gabriel — o protagonista — é um protagonista e marido muito diferente, mais comedido, mais compreensível, mais tenro e mais amoroso que os do Machado. Mesmo quando a esposa caí na cama, mal conseguindo respirar, soluçando e chorando por outro homem até cair no sono. Ele, ao lado dela, a olha e observa seus próprios sentimentos e tudo o mais que sente (junto com a gente), está em conflito, mas ainda apaixonado.
Um exemplo do caso onde o contexto é necessário se dá em um dos conflitos da parte inicial do conto, que só é entendido se você souber o “partido” de um jornal específico para qual o personagem escrevia, na Irlanda. E também muitas outras coisinhas mais culturais e referenciais. Principalmente Óperas daquele tempo, palavras e expressões que remetem à morte, etc.
É um conto muito pautado na descrição, no sentimento e no conflito interno de Gabriel. Mas entre os pequenos conflitos (pouco explícitos), o que salva mesmo é a escrita do Joyce, que solta descrições universais e transcendentais da relação homem-mulher e faz o texto correr muito que bem. Por exemplo, quando por fim termina a festa (é um tipo de enterro-dos-ossos, como chamamos aqui, só que depois do Natal, e mais chique, claro!) marido e mulher, depois de tomar a carruagem, finalmente cruzam, apoiados um ao outro, a madrugada fria e as ruas pouco iluminadas, esbranquiçadas de neve, para finalmente estarem sozinhos em casa:
O final também é bonito, com direito a supostos espectros ou fantasmas e aquele limiar entre sono e vigília; Gabriel ouve a neve bater na janela e vai se dissolvendo ao cair no sono, pensa na vida, pensa na festa, pensa na esposa e pensa no ex dela… Até que finalmente a mente dele entra em estado de suspensão, e o conto acaba.
(Curiosamente já tinha lido esse final: o Borges seleciona essa passagem do Joyce na “Antologia da Literatura Fantástica”).
Enfim, sobre tradução e edição:
Cotejei as duas traduções e achei esta (ainda por cima é bilingue), do Tomaz Tadeu, melhor que a do Galindo, nosso tradutor “oficial” do Joyce. Em três pontos (o primeiro parágrafo já é um exemplo bom): I. A tradução das expressões; II. a clareza do texto e o uso da pontuação (O Galindo se sai bem nas partes mais complicadas mas complica as simples); III. As notas e compreensão e leitura que se faz da história, imersa no tema da morte e da pátria (aqui, são mais de cem anotações sobre contexto e composição!)
A expressão que abre o conto, e que também abre o meu comentário, é acompanhada da pontuação frouxa que da segunda sentença em diante remete ao alvoroço que Lily passava, correndo de um lugar a outro. O Galindo prefere manter desde o início o tema da morte e traduz como “Lily, a filha do zelador, estava literalmente perdendo a cabeça” (essa acepção de ‘‘literalmente’’ é possível e discutida no idioma deles), mas na minha opinião ele tira o peso do uso do narrador que abre dentro da Lily para só depois, na conversa entre ambos, trocar para o Gabriel. Enfim, compare e decida por si. Mas recomendo esta edição porque as notas são especialmente boas, é bilíngue (esse final tem de ser lido em inglês), e o texto correu bem.
Se eu ordenar a obra do Joyce pela quantidade de vezes que vi algum escritor ou leitor o citando, fica mais ou menos assim: Ulysses, Finnegan’s Wake, Retrato de um Artista, The Dead e Dublinenses. Este penúltimo escapando de Dublinenses como novela que se autossustenta. A ordem mais confortável de leitura, dizem ser esta mesma — excluindo Finnegan’s — só que de trás pra frente.
Eu gostei de Os Mortos, não achei complicado ou exagerado, achei que o Joyce escreve muito bem, mas tenho de ser sincero: não é melhor que A Terceira Margem do Rio (Rosa) e não é melhor que a alta prateleira do Machado. Li “Os Mortos” mais ao menos ao mesmo tempo que li “O Enfermeiro” (que está mais ou menos no rol inferior, abaixo de "Missa do Galo", "A Cartomante, etc.) e não deve nada ao conto do Joyce.
Mas enfim, menos comparações e mais narrativa em si. Gostei bastante do jeito que o Joyce escreve, e entendi o porquê ele é O moderno. O uso que ele faz do narrador, saltando entre personagens, sempre afastado a não ser quando se confunde e se mistura com alguém, quando mostra internamente o que uma pessoa sente mas não a reação do outro (selecionando muito bem esses momentos) senti realmente como se fosse uma superação da literatura realista. O jeito que ele escreve aqui é a mímese da vida mais do que faz qualquer escritor realista descrevendo minúcias e mais minúcias.
É, também, uma narrativa de múltiplas camadas temáticas, não só nas relações entre personagens como também nos múltiplos símbolos. A morte, o militarismo, o patriotismo gaélico, a relação Irlanda-Inglaterra… Apesar de ser necessário ler anotado para pegar muito disso, o “cerne” do conto é bem construído e bem escrito o suficiente para que você sinta e compreenda sem necessidade de nada além de tato e de humanidade. É, sobretudo, sobre relações humanas. Se ainda pegarmos o fiozinho do Machado, Gabriel — o protagonista — é um protagonista e marido muito diferente, mais comedido, mais compreensível, mais tenro e mais amoroso que os do Machado. Mesmo quando a esposa caí na cama, mal conseguindo respirar, soluçando e chorando por outro homem até cair no sono. Ele, ao lado dela, a olha e observa seus próprios sentimentos e tudo o mais que sente (junto com a gente), está em conflito, mas ainda apaixonado.
Um exemplo do caso onde o contexto é necessário se dá em um dos conflitos da parte inicial do conto, que só é entendido se você souber o “partido” de um jornal específico para qual o personagem escrevia, na Irlanda. E também muitas outras coisinhas mais culturais e referenciais. Principalmente Óperas daquele tempo, palavras e expressões que remetem à morte, etc.
É um conto muito pautado na descrição, no sentimento e no conflito interno de Gabriel. Mas entre os pequenos conflitos (pouco explícitos), o que salva mesmo é a escrita do Joyce, que solta descrições universais e transcendentais da relação homem-mulher e faz o texto correr muito que bem. Por exemplo, quando por fim termina a festa (é um tipo de enterro-dos-ossos, como chamamos aqui, só que depois do Natal, e mais chique, claro!) marido e mulher, depois de tomar a carruagem, finalmente cruzam, apoiados um ao outro, a madrugada fria e as ruas pouco iluminadas, esbranquiçadas de neve, para finalmente estarem sozinhos em casa:
"Ele se sentira então orgulhoso e feliz, feliz por ela ser sua, orgulhoso de sua graça e postura conjugal. Mas agora, após o reavivar de tantas recordações, o primeiro toque de seu corpo, musical e estranho e perfumado, provocou-lhe fisgadas agudas de um imenso desejo. Escudado pelo silêncio dela, apertou-lhe estreitamente o braço contra o próprio corpo; e, parados à porta do hotel, ele sentia que tinham escapado de suas vidas e obrigações, escapado da casa e dos amigos, fugindo juntos, os corações rebeldes e radiantes, rumo a uma nova aventura."
O final também é bonito, com direito a supostos espectros ou fantasmas e aquele limiar entre sono e vigília; Gabriel ouve a neve bater na janela e vai se dissolvendo ao cair no sono, pensa na vida, pensa na festa, pensa na esposa e pensa no ex dela… Até que finalmente a mente dele entra em estado de suspensão, e o conto acaba.
(Curiosamente já tinha lido esse final: o Borges seleciona essa passagem do Joyce na “Antologia da Literatura Fantástica”).
Enfim, sobre tradução e edição:
Cotejei as duas traduções e achei esta (ainda por cima é bilingue), do Tomaz Tadeu, melhor que a do Galindo, nosso tradutor “oficial” do Joyce. Em três pontos (o primeiro parágrafo já é um exemplo bom): I. A tradução das expressões; II. a clareza do texto e o uso da pontuação (O Galindo se sai bem nas partes mais complicadas mas complica as simples); III. As notas e compreensão e leitura que se faz da história, imersa no tema da morte e da pátria (aqui, são mais de cem anotações sobre contexto e composição!)
A expressão que abre o conto, e que também abre o meu comentário, é acompanhada da pontuação frouxa que da segunda sentença em diante remete ao alvoroço que Lily passava, correndo de um lugar a outro. O Galindo prefere manter desde o início o tema da morte e traduz como “Lily, a filha do zelador, estava literalmente perdendo a cabeça” (essa acepção de ‘‘literalmente’’ é possível e discutida no idioma deles), mas na minha opinião ele tira o peso do uso do narrador que abre dentro da Lily para só depois, na conversa entre ambos, trocar para o Gabriel. Enfim, compare e decida por si. Mas recomendo esta edição porque as notas são especialmente boas, é bilíngue (esse final tem de ser lido em inglês), e o texto correu bem.
The Dead — James Joyce
Trad. e Notas de Tomaz Tadeu
Autêntica [Coleção Mimo]
Conto/Novela
~121pp — ✲ 3.5/5.0