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rolandosmedeiros

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O ardil 22 do Machado: «Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora.»

Imaginando do ponto de vista de Camilo, a carta recebida pelo amigo que traía o melhor amigo, se acatada, é certo que terminasse em tragédia; e se não acatada, confirmaria todas as possíveis suspeitas sobre si. Não é de se espantar que a luz no fim do túnel seja a escadaria escura do quarto de uma cartomante; por consequência de suas ações, é o que resta.

Um dos primeiros contos que conheci do Machado, lá pelos idos da época que eu não lia — e contra o dizer popular da suposta tamanha dificuldade do autor, já naquela época havia gostado. Me surpreendi por lembrar perfeitamente da intriga, e pude prestar mais atenção a composição da narrativa e na linguagem do Machado. Lido, também, para uma disciplina, e fica claro o quanto há algo como um "realismo machadiano", que extrapola pressupostos caros a essa estética, e em outras obras se distancia poetica e esteticamente da realidade, cavando fundo na alma humana, mesmo em tramas supostamente simples.

É compreensível (por N motivos) que jovens estudantes deixem de lado o Machado (pelo menos, por um tempo). Mas, leitores com um mínimo de bagagem, não.

Minhas primeiras impressões deste conto, para ficar registrada, é a de um escritor com um primoroso domínio do conto. E, além de toda a construção (estilística, imersiva, sedutora — que une forma e conteúdo em uma sedução que é dupla), há, em onze páginas, uma amplitude interpretativa, pelo ponto de vista, pela eterna ironia do Machado, que rivaliza, de certa forma, mesmo as obras mais "modernas e experimentais", entre muitas aspas.

Essa semana mesmo, por exemplo, reli O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam, do Borges. E a amplitude e desprendimento de uma narrativa que se abre para múltiplos tempos, em múltiplas veredas, terminando em um labirinto que é, na verdade, um livro; consigo ver um germe dessas amplas possibilidades na escrita do Machado. Seja em Conceição e Nogueira ou em Bentinho e Capitu.

Mesmo que você faça uma leitura inflexível, com apoio unicamente no texto, e clame que chegou a uma conclusão, sentirá o alicerce rangendo sob seus pés. Você só tomou certas direções, pessoais (e não menos importantes, é claro), mas que fazem parte de infinitas veredas. Eu também tomei o meu caminho, e o próximo leitor trilhará o seu.

Deixando a divagação de lado, comparando bem vulgarmente, ambas narrativas, a do Machado é melhor (apesar de eu entender que na do Borges, há um rompimento que é difícil de pôr até em palavras. É um conto que não pode ser analisado como um conto comum; mesmo que assim o possa ser lido). No do Machado, vale guardar essa sensação, senti até um clima meio onírico, de madrugada vagarosa, que não os distancia tanto. "Realismo" é mesmo só convenção.

Tinha uma outra comparação para fazer, com "O Velho Adão" do D.H Lawrence, também. Um conto em certos aspectos lembra muito o do Machado, e é de se estranhar (e atentar) como ambos os autores trabalharam diferentemente, cada qual carregando bagagens próprias, uma situação muitíssimo parecida: uma infidelidade e sedução que é incitada e nunca consumada.

Fica como recomendação o conto do Lawrence: O cenário chuvoso, cada qual lendo seu livro, a mulher esperando o marido que chegará fedorento de cerveja, o inquilino que a acompanha, a tensão e as suscitações sexuais entre ambos… E no fim, uma violenta ação, tudo me foi bem memorável mas… ainda prefiro o do Machado.

E deixo isso para lá, por agora. Volto daqui a um tempo para organizar e desenvolver isso aqui. Com mais foco na construção e narrativa do conto, e menos divagação sem sentido.

Era... era para ser só uma primeira impressão.

Masks of God #1 - Primitive Mythology — 3.5✲
A dupla função do mito; as estampagens inatas da humanidade; a mitologia e a arte.


Ainda o tenho como ligeiramente denso, mas depois de passar a limpo minhas as notas, o livro engrandeceu e fez muito mais sentido. Muito dos seus pontos principais estão espalhados — intencionalmente — ao longo de diferentes capítulos e em meio a mitos e ritos de primitivas Tribos Caçadoras e Agricultoras de culturas muito diversas.

Quem só conhece o Campbell pelo "monomito" ou pela simplificação batida em estrutura da "Jornada do Herói" terá de suar para lê-lo aqui, e quem (como eu) tinha um pé atrás quanto a interpretação dos mitos demasiadamente puxada para o lado da psicanálise, há de se surpreender, que o livro é muito mais que isso; Campbell diz, acerca destas interpretações (nas quais também se apoia, mas coloca como UMA DAS funções do mito) que elas "não abarcam a extensão do pensamento ou mesmo o conceito metafísico dessas respectivas crenças", ao mesmo tempo que mostra como os ritos primitivos xâmanicos de morte e restituição, ligam-se com a religião budista e hindu muito posteriores: o ponto é que há um tipo de unidade.

Parafraseia Rimakrisihna sobre isso:

“Deus criou diferentes religiões para servir a diferentes aspirantes, épocas e países. Todas as doutrinas são apenas outros tantos caminhos; mas um caminho não é de maneira alguma o próprio Deus. De fato, é possível até encontrá-lo quando se segue qualquer um dos caminhos com devoção sincera”

Religião, para Campbell, é mitologia incompreendida. Mas é mais uma tirada do que uma colocação, que você deve ler suas obras para entendê-la completamente, como outra dele: mitologia é a religião do outro. Ele nega tanto a crença cega como a descrença cega, ambas capazes de anular talvez o fator mais importante dos mitos, o seu poder de metáfora.

Desde a primavera da humanidade, rito e mito tem relação com arte; e aqui, agora mais minha opinião juntando tudo que é apontado e mostrado pelo Campbell ao longo do livro, A finalidade última da mitologia está na sua função artística. “Dificilmente se pode negar,” diz Campbell “a mitologia poderia ter brotado de alguma outra mente que não a dos artistas?”.
É bem representativo que ele chame de "arte e poder", aquilo que o Xamã perscruta dentro de si e descobre, dando-o uma condição à parte dentro de uma tribo; na natureza da espécie, também há algo próximo, o prazer estético: o ritmo de beleza, que também pode ser espiritual, místico ou religioso. A dança dos chimpanzés de Kohler.

As descobertas/criações dos primeiros xamãs, o que contam e fazem, são narrativas, ficcionalizações, exercícios de imaginação: nos ritos do xamã, a realidade entra em transe, e por momentos, crê-se naquilo, é imersivo. São narrativas, porém, que devem assumir uma função externa, certas vezes ilusória, fogo de palha, e outras vezes mística e inexplicável, ele mostra ambas essas situações em relatos de diferentes etnólogos. Mesmo "a cura do xamã é obtida por meio da arte: por exemplo, (pela) mitologia e canto." Como não pensar na purificação aristótelica, em uma das interpretações da Katharsis?

Integrando tudo isso, há a função dupla do mito, como um bússola que aponta para o local e para o universal — mais uma vez, cruzamentos entre mitologia e arte, que clássico da literatura não abrange isso? Não é atoa, também, que Campbell pegue emprestado muito terminologias (o monomito) e termos do Joyce: "tudo o que é grave e constante, que não pode ser mudado no sofrimento humano".

Depois que se entende o ponto dele, as comparações entre os mitos torna-se acessória, e a disposição ao longo das páginas é ligeiramente confusa, mas os relatos ainda são interessantes, por exemplo, ainda na função-dupla: características locais, daquela terra, são elevadas no princípio da formação de símbolos: as enguias, na Polinésia, substituem as cobras de outras mitologias, e trazem consigo significados específicos; o deus lagarto-réptil no Havaí, é uma lagartixa inofensiva, como as nossas do Brasil, diminutas e que devoram mosquitos, elevadas, entretanto, no processo mitológico da formação de símbolos. Essas características locais, são que importantes no entendimento de uma das funções do mito (a função etno-sociológica), representam, sobretudo, um um caminho para o universal, para um entendimento da condição humana, de uma função psicológica e cosmológica; a parte local do mito nos faz entender a história, a paisagem e a sociologia do povo em questão, agora, os símbolos, as metáforas, nos dão pistas para aquilo que há de permanente e inerente à humanidade: A Eva, a Serpente e o Jardim; O ritual de Perséfone na Grécia; as três Demas virgens de Hainuwele; o mito Polinésio de Mauí; todos fazem parte de um mesmo antigo livro da humanidade, do qual todas as edições anteriores foram perdidas.

''O reino do mito é de onde procede todo o espetáculo do mundo''

A Afinação do Mundo — 4.0*
A Paisagem Sonora (na Literatura) / The Soundscape in Fiction.


Se não fosse por uma descompromissada leitura inspecional, não teria concluído este livro. Não sou músico, captador sonoro, nem nada parecido, e meus gêneros musicais prediletos são ou barulhentos e ruidosos, ou distrativos, ambos problematizados (de maneira muito inteligente) pelo Schafer. O que eu gosto, no entanto, é de literatura — e de literatura e erudição, surpreendentemente, este livro é abundante; Schafer passa pelos primeiros registros literários sumérios, pelos chineses, pelos gregos e romanos, pela idade média, chegando até aos clássicos modernos, observando como diversos autores de diferentes tempos se relacionavam com o som ambiente e com a paisagem sonora circundante.

Observamos testemunhos auditivos feitos por grandes escritores ao longo de gerações, sempre se apoiando nos trechos dos próprios e auxiliados por toda bagagem e conhecimento do Schafer acerca da paisagem sonora, termo cunhado por esse canadense; ele lê conosco “as elaboradas descrições auditivas” da Bíblia e das Mil e uma Noites, e nos mostra como são perceptíveis e indicativos, nesses relatos, o fato desses antigos povos possuírem uma competência ''sonológica'' melhor desenvolvidas que a nossa. E de que maneira (e por quais fatores) a nossa percepção sonora se dteriorou e está se deteriorando.

"É possível medir as mudanças históricas na paisagem sonora mundial, bem como as relações sociais que elas implicaram. Então podemos aprender, por exemplo, que Virgílio, Cicero e Lucrécio não gostavam do som da serra, que era relativamente novo em seu tempo Ce 70 a. C), mas que ninguém se queixava do barulho da fábrica até cerca de cem anos após à erupção da Revolução Industrial (Dickens, Zola)."


É sabido que na ficção não precisamos imitar a realidade, mas a questão da paisagem sonora quando se quer ficcionalizar outros tempos, me parece muitíssimo interessante, e aqui não faltam exemplos: temos trechos "narrativos" dos mais diversos ambientes, desde as praias das Eclógas de Virgilio até a era moderna das máquinas.

interiorizar um som e depois exteriorizá-lo, da maneira que soe mais representativa, me parece bonito, de certa forma; principalmente quando se trata de sons da infância, talvez até extintos, que só na ponta do lápis perdurarão. Ou mesmo som imaginativos, afinal, até para eles, é preciso ter um referencial. Há um trecho muito bom, mas muito longo para colocar aqui, da descrição minuciosa do som de um terremoto; é preciso saber ouvir, e também, saber expressar.

Ele (o Schafer) apresenta algumas formas e até exercícios — voltados para os músicos, mas… — que também podem ser uteis à todas as pessoas. E, até, foca-se mais atentamente nos escritores numa breve seção de um dos capítulos finais, sobre alguns sons que acompanham o corpo: muitos instrumentos musicais ou mesmo ferramentas de trabalho se adéquam a respiração e aos batimentos, e através da sua leitura de Proust e Virgilio, diz: “Surpreendo-me com o fato de os críticos literários não terem desenvolvido (ainda) a relação entre respiração e escrita.”

"A correspondência entre a respiração e o movimento das ondas foi percebida por Virgílio, Em suas Eclógas, ele nos fala de que modo os argonautas procuravam um jovem perdido, “até que a própria longa praia chamasse Hylas e novamente Hylas”. A cada grito uma respiração. A cada onda um grito, Perfeita sincronia."


O escopo do livro é grande, e o desbravar do Schafer contra o ruído, que mostra ser um problema sério e, quase paradoxalmente, ‘silencioso’, no sentido de desapercebermo-lo, é louvável. Você pode ler esse livro para diversos fins, e se ater aos capítulos que mais lhe interessarem; vou passar por alto em apenas alguns desses pontos, que ficaram na minha memória:

— Há a questão do silêncio ao longo do tempo; em outros tempos e culturas, era buscado, hoje, no homem moderno, é temido:

Temendo a morte como ninguém antes dele a temera, o homem moderno evita o silêncio para nutrir sua fantasia de vida eterna, Na sociedade ocidental, o silêncio é uma coisa negativa, um vácuo. O silêncio, para o homem ocidental, equivale à interrupção da comunicação. Se alguém não vem nada para dizer, o outro falará, Daí a garrulice da vida moderna, que se estende à toda sorte de algaravia.

— O arquiteto moderno está fazendo projetos para os surdos. (esquecem do ruído; esquecem do ambiente sonoro; esquecem da paisagem sonora; que nos tempos antigos, era levado em conta)

— A única lei anti-ruído que funcionou até hoje foi a posta em voga pelos deuses sumérios: “apresentava-se na forma de punição divina, Na Epopéia de Gilgamesh lemos: ‘‘Naqueles dias o mundo proliferou, as pessoas se multiplicaram (...) e o grande deus se ergueu com o clamor. Enlil ouviu o clamor e disse aos deuses no Conselho: “O ruído da espécie humana é intolerável e é impossivel dormir por causa da babel”, Então, os deuses soltaram o dilúvio.

— Os sons ameaçados de extinção deveriam ser registrados de modo especial e gravados antes de seu desaparecimento: “Todos temos uma lista semelhante à essa. Ouvimos retroativamente, à la recherche du temps perdu [em busca do tempo perdido], e notamos quantos desapareceram sem que percebesse-mos. Onde? Onde estão os museus de sons desaparecidos? Mesmo os sons mais comuns serão lembrados com afeto depois de desaparecerem. ”

— Na atual paisagem lo-fi a razão de sinal/ruído um por um, onde sons não mais se propagam e tornam-se indistinguivéis; diferente dos antigos ambientes hi-fi, como a pequena cidade de Goethe, onde um único guarda se fazia ouvir por toda população, bastando erguer a voz.

— Símbolos e marcos sonoros; os sons da vida; a floresta e a voz das árvores; o vento e o mar como evocativos de ilusões auditivas; as transformações da água e as vozes do mar; passando sempre por: Homero e Hesiodo, até os Edas Escandinavos e escritores modernos canonizados, como Ezra Pound, Mann, Herman Hesse, e muitos outros…

Por enquanto, para ser breve, basta parafrasear o posfácio do nosso Carlos Drummond ao traduzir o Laclos: "E como escrevia bem esse danado…".

A sequência narrativa final, a sucessão de cartas, bilhetes, cenas e imagens, é acelerada e impactante, ao ponto de fazer o leitor devorar todas as correspondências com avidez, buscando aquele nome, aquele remetente específico, aquela voz tão próxima e agora tão diversa.

Ao fechar o livro, a única reclamação que tenho é que tão imerso fiquei na história que queria mais cartas do Visconde e da Marquesa, estes foram tão estilisticamente superiores, moralmente amórficos, narrativamente instigantes, que em certas partes tornavam todas as outras cartas (e personagens) menos palatáveis. Mas, mesmo isso, na sequência final, é corrigido pelo Laclos, onde a situação em que se encontram todos nossos atores, faz com que todas as cartas, de todas personagens, tornem-se igualmente importantes, e um pequeno bilhete, ou o devolvimento de uma carta com um mero risco, tem o poder de corte de uma lâmina afiada.

Uma em específico me pegou bastante, para não entrar muito em detalhes aqui, é uma carta fruto de um delírio, destinada a ninguém em específico, mas, ao mesmo tempo, a todos; onde uma confissão reveladora é suprimida não por medo da repreensão, mas por medo de uma possibilidade de perdão.

Literatura finíssima, da mais alta qualidade. Provavelmente o melhor que lerei (ps. que li) no ano.

Fim da Parte Terceira:

Esse livro realçou e sublinhou algo que em mim já ia se consolidando: quando se trata da arte literária, o tema é uma unha, uma cutícula, uma epiderme. Não há temas superiores, não há necessidade de temas grandiosos ou grandiloquentes, basta um bom estilo e uma boa forma.

Se eu, delegando a leitura, buscasse por uma sinopse, resumo ou recomendação desse livro aqui, dado sua temática, que me interessa minimamente, eu passaria reto pela prateleira sem nem olhar para o lado; se acrescentassem que além do jogo de sedução, tratasse também de corrupção, ambiguidade, hipocrisia moral e social, eu viraria a cabeça para vê-lo, mas, ainda sim, manteria a distância; e perderia um livro ímpar. Ler só aquilo que te "interessa" é um acerto, no começo, e um erro no fim.

É lendo-o que ele se sobressai; é no estilo meticulosamente cravejado do Laclos, quando cada linha escrita se molda e se adequa a cada voz, a cada carta a cada sentimento; cheio de movimentos de manipulação e olhares frios e irônicos. Um criado, por exemplo, que além de uma breve citação na primeira ou segunda parte, passa como que totalmente trivial e secundário, mas quando o Laclos mostra uma carta sua, o homem adquire uma voz singular e uma personalidade vívida imediatamente. Sem exposição ou descrição, apenas numa resposta formal sobre trabalho!; ele revela astúcia, revela subordinação mas não submissão, revela — ao recusar a ordem de se infiltrar na criadagem de uma Presidenta — esnobismo para com outros criados da noblesse de robe (nobreza adquirida) — serviçais de hierarquia inferior e uniforme específico — que ele recusa em ultimato a vestir. É um indicativo claro, pousou na mão do Laclos para que tenha o mínimo de desenvolvimento, a personagem adquire potência e camadas.

E nisso me refiro a só uma (única) carta, de uma personagem digamos que menos que secundário. Não há nem como entrar, com brevidade, no Visconde e na Marquesa, que nesse ponto, você já começa a pegar não só a dicção, mas o caráter enganoso da linguagem libertina que ambos utilizam, irônica, dissimuladora; ou, se percebe quando trocam de voz intencionalmente, a fim de enganar e manipular; ou quando se tornam grandiosos, heroicos, mitológicos, e religiosamente eloquentes para narrar suas conquistas; contrapondo, no caso do Visconde, um ato vil com uma linguagem fina; são estratégicos, maquiavélicos, racionalistas, engenhosos e meticulosos em seus planos e inclinações.

Queria entrar em detalhe de uma cena específica dessa parte três: há um abuso, que feita uma leitura enviesada, não levando em consideração as nuances do livro, pode ser bastante problemática. Mas, já divaguei demais e deixo aqui marcado para expandir essa questão quando for escrever mais sobre a obra.

Fim da parte dois; duzentas páginas adentro.

É como se O Príncipe de Maquiável se encontrasse com A Arte da Guerra do Sun Tzu, só que pautando, em vez da guerra, as relações amorosas e desejosas da burguesia francesa. A história de corrupção, dissimulação e sedução narrada em epístolas, a primeira vista, não me atraiu nem um pouco. No entanto, a condução do Laclos, sua maneira de encadear e construir cenas, remontá-las, recriá-las, tudo a partir de diminutas cartas em primeira pessoa (com intromissões totalmente verossímeis e dentro da forma) e a sua escrita carregada mas elegante, cheia de minúcias, tornam a leitura muito prazerosa.

Sinceramente, não fosse pelo estilo do Laclos, eu não passaria das primeiras vinte páginas, ou das primeiras cartas excessivamente românticas e blasés dos adolescentes ingênuos que se tornam joguetes nas mãos das personagens principais. No entanto, a escrita é boa, ótima, e me deixei conduzir pelo autor, e seja lá o que venha adiante e para onde ele levará o enredo, sei que não será ruim nem de longe. Ele sabe o que está fazendo, isso fica claro desde o "prefácio" do "editor".

As duas cenas mais memoráveis dessa primeira parte são, a primeira: uma carta afetada e cheia de duplo-sentido, onde o Laclos monta uma cena aos pedaços para que o leitor reconstrua, a partir de correspondências anteriores, todo um cenário e situação específica em que essa carta foi escrita: uma personagem que declara seu amor a uma mulher enquanto utiliza as nádegas de outra como mesa para grafia. Lembre-se: não há exposição pura, e toda essa cena é criada na sua cabeça por um linguagem cifrada do tipo que recompensa, a todo tempo, a leitura atenta.

A segunda é quando uma personagem recebe uma carta, e temos toda a descrição do espanto (mas não sabemos o conteúdo), vergonha, raiva, e outras emoções sentidas ao lê-la. E também a descrição do observador que também é o correspondente; e em outra cena, logo em seguida, temos a mesma carta, isolada, e vemos seu conteúdo, e remontamos a imagem mental, reconstruímos perfeitamente a cena por meio do seu conteúdo, numa união de forma e estilo potencialmente fortíssima; as cartas do Laclos são objetos muitíssimo reais.

Quando Sócrates diz (marromenos): "Se você segue a multidão [sem pensar], é você, no seu corpo e na sua mente, que sofrerá as consequências" e "Nem toda pessoa, nem todo juízo, é digno de ser levado em consideração" I felt that

Duas Metaficções de Sergio Sant'Anna

Uma Página em Branco
"Uma página em branco a oferecer todas as possibilidades, o papel aceita tudo. A angústia por haver todas essas possibilidades, não se toca ainda coisa alguma. Então escolher uma entre as possibilidades, o que traça um limite. Escrever é traçar um limite. Escolhe-se uma primeira letra, U; uma primeira palavra, UMA; uma primeira frase, título: UMA PÁGINA EM BRANCO."


Um jeito interessante de fazer com que leiamos, literalmente, a primeira página do livro sendo escrita, a página em branco pela primeira vez preenchida. É uma extensão das convenções da ficção (coisa não inédita), mas não é só isso. Há ainda um narrador-personagem que escreve, há ainda resvalos na vida do personagem-ou-escritor, nada vem do nada e para o nada. "Está-se aqui, sozinho, sentado à mesa (…) Que se ponha lá [noutro lugar] entre as vozes, os gritos, os risos. Fazer o percurso das ruas, artérias, os bares, as favelas, a prostituição, os rituais, os crimes. Ou, quem sabe? — apenas permanecer numa casa, caixa, onde no quarto durmam crianças, no fogão haja um resto de comida e, na cama, esperando, certa mulherzinha."

Isso faz com que seja ilusória (ou, o narrador quer que vejamos assim) a arbitrariedade perante ao vazio da página em branco. Quando se escreve, se escreve algo que já vem de dentro; o livro individual que já estava ali, latente. E a partir da liberdade da página em branco, o escritor pode "Prender [uma] mulher por instantes, atravessá-la, fazer-lhe um filho, apressar-lhe o processo da morte, que de qualquer modo seguiria." ou "(...) Cometer um incesto, um poema e, ainda que no papel, um crime."

Porém, mesmo na metaficção, mesmo nos comentários afastados do narrador, indiretamente vai-se criando uma cena na cabeça do leitor: o escritor, o escritório. Naquele cenário, preenchendo a sua página em branco: "Na fumaça dos cigarros, no veneno desses projetos de livro, as plantas sentem, e murcham. (...) E uma estante cheia de livros. Quantas histórias já terão sido escritas? Apesar da sensação em contrário, um mínimo das histórias possíveis."

Pensa, afinal, em destruí-las. Destruir essas três páginas. Sabemos que não aconteceu, porque é a mesma página que está em nossas mãos, agora. Ao mesmo tempo que encerra olhando para o labirinto borgeano das possiblidades (a metáfora dele é uma corrida de cavalos, onde o cavalo se recupera de uma queda inicial e cruza todas as pistas e raias em todas as trajetórias possíveis), se encerra, também, mais tátil, estendendo o tapete para o livro de contos (O Concerto de João Gilberto) que se segue a esta primeira página (ex-página em branco): um livro feito de textos, de várias vidas, com vários fios e outras imaginações das possibilidades de muitas outras páginas em branco.

Conto (Não conto)

"Aqui, um território vazio, espaços, um pouco mais que nada. Ou muito, não se sabe. Mas não há ninguém, é certo. Uma cobra, talvez, insinuando-se pelas pedras e pela pouca vegetação. Mas o que é uma cobra quando não há nenhum homem por perto? Ela pode apenas cravar seus dentes numa folha, de onde escorre um líquido leitoso. Do alto desta folha, um inseto alça voo, solta zumbidos, talvez de medo da cobra. Mas o que são os zumbidos se não há ninguém para escutá-los? São nada. Ou tudo.''


Um conto que tem como cenário a imaginação e seus espaços vazios a serem preenchidos pelo narrador. O conto brinca com aquele experimento filosófico da árvore que cai no meio de uma floresta. Os zumbidos dos insetos imaginados, surgidos de pronto naquele espaço, não são nada — na perspectiva do demiurgo. Ou são tudo — da perspectiva daquele mundo que só há, a princípio, zumbidos de inseto nos espaços entre arbustos.

O narrador, então imagina — e se descreve imaginando — e se um homem e um cavalo cruzassem aquele lugar imaginário? E cria, a partir daí, agora, um homem e um cavalo. E meio sísifo, o cavalo vai puxando a carroça no espaço vazio. E o lugar vai sendo preenchido pouco a pouco, e ele vai experimentando com isso, até surgir uma cobra "e zás" morder o cavalo. Que é o sofrimento de um animal em um espaço vazio? Que é uma árvore que cai no meio do nada se não há ninguém para ver ou ouvir?

Livro de Contos — 5~20pp
Companhia das Letras — ✲ 4.0/5.0

O Madeireiro —✲ 2.5/5.0
Falsos Conflitos e Falsos Personagens
Conto | 10pp


Foi uma leitura obrigatória de uma disciplina. Aproveito para catalogá-lo aqui. Por sorte o conto não é lá essas coisas, e não posso dizer que a obrigação tirou-me o prazer da leitura e apreciação. Mas tem pontos de interesse que a análise fez surgir.

É um conto bem com a cara de conto de dezenove mesmo, com uma trama parecida com as do Machado. Aqui, temos um fio condutor bem simples, mas que se complica pela utilização do ponto de vista de um narrador-personagem, as limitações — e induções — que essa perspectiva implica.

Mesmo sem a dubiedade do relato, só com a limitação de uma visão pessoal, a quebra de expectativa final revela: falsos conflitos, conflitos que de certo ponto de vista são inexistentes, e até uma inversão entre clímax e desfecho: quando descobrimos o segredo do jogo, passamos a vê-lo outros olhos, a posição das peças e as regras mudam.

Anoto isso aqui para que eu mesmo me atente mais a esses casos, em que o protagonista-narrador não sabe das reais intenções de uma outra personagem; para me atentar mais às informações que chegam a um narrador-personagem. Há de se passar aqui por uma questão múltipla de dubiedade: se cheguei a conclusão de que o narrador-personagem é confiável, passa-se então para começar a questionar se o que dizem a ele pode ser também confiável; a posição da nossa perspectiva, se pode estar sendo enganado, etc.

O conto inicia da seguinte forma: nosso protagonista, sem-nome, bate em uma porta que, entendemos pelo contexto, já lhe era conhecida, e a partir de uma exposição inicial busca na memória, explica e relembra de tudo que se passou ali; da relação que esfriou, de uma viúva querida que conheceu, e da razão de estar ali mais uma vez: recebeu uma carta-pedido — a antiga amante quer as cartas amorosas de volta. O conto desenvolve-se nessa visita e nesse reencontro, onde amor, carinho, desejo e ciúme reacendem-se.

Uma outra questão que fica comigo é, como adaptaria esse enredo para nossos tempos atuais? Vi por alto uma adaptação do conto que mantinha a utilização de cartas, e focava mais na expansão do conflito, transformando uma personagem inexistente no conto, em um personagem falso, um ator interpretando um ator… soa interessante, mas todo o resto tem cara de bomba, e bomba não assistirei. O telefilme, para quem interessar, leva o mesmo nome do conto.

Me interessei mais em pensar como fazer a substituição das cartas por… mensagens de whatsapp? Fotos comprometedoras? Não sei se funcionaria, já que teria de mudar o tom do enredo, caindo mais pra chantagem do que para uma meiga "não lhe devolverei todas as cartas porque aí não terei mais desculpa para passar a noite contigo" que é endossada — cuidadosamente — pela viúva. Talvez abra espaço, pensando numa narrativa moderna, para uma tentativa forçosa de reatar os laços, que terminaria, aos moldes do Machado, em tragédia — uma tragédia violenta, ou a tragédia de passar toda uma vida presa por um relacionamento antigo.

Enfim, é pragmaticamente bem escrito, no diálogo e nas ações que se dão entre o personagem principal e seu antigo amor; mas não atinge o mesmo ponto alto de certas longas, mas boas descrições que já tinha visto n'O Cortiço; não tenho, entretanto, do que reclamar ou apontar má qualidade na escrita do Aluísio.

Conheci o Cláudio Moreno primeiro no "Noites Gregas", como mitólogo (no sentido antigo: de recontar oralmente os mitos/histórias). Depois, como escritor de crônicas sobre o antigo mundo greco-romano. E por fim, então, como gramático e/ou estudioso da língua portuguesa — sua primeira formação.

E esse Moreno é tão bom quanto o Moreno do "Noites Gregas", guardadas as devidas proporções. (O das crônicas, porém…) Porque, principalmente, fala e expõe pontos de gramática sem "gramatiquês", "questiúncula de gramáticos; gramatiquice" — como aprendeu com o Mestre Luft. Ele foi o gramático do Zero Hora, e este livro aqui é uma reunião das respostas às dúvidas dos leitores com o eixo temático da pontuação (os outros volumes são a mesma coisa, mas com eixo temático diferente); as respostas, na coluna, sobre etimologia, curiosidades do idioma, descrição do português corrente deram origem a outro livro: O Prazer das Palavras. Também bem bom.

Em resumo, são respostas breves e direto ao ponto da questã. Com alguma pausa para uma exposição mais aprofundada — geralmente no início de cada seção — que justifica a feitura do livro. Por essa rapidez, deve ter sido o livro do assunto que li mais rápido: foram 150 páginas em menos de uma hora. Se isso é bom ou ruim (se absorvi de verdade ou não) não sei ainda, mas me ficaram anotações (poupei as que me eram muito específicas):

[A Vírgula não existe para marcar pausas] a finalidade mais importante da pontuação: "facilitar ao leitor o reconhecimento instantâneo da estrutura sintática das frases." São mais sinalizações/indicações. Mas deve se ter em mente que os escritores sempre utilizaram a pontuação em sentido muito mais amplo do que os dicionários se limitavam a registrar.

[Pontuação não é pausa] "o inverso não é verdadeiro: nem todas as pausas que fizermos na leitura terão, na escrita" as marcações de pausa. Todo sinal implica uma pausa [o Luft diria que os sinais indicam mais mudança de entonação que pausa], mas nem toda pausa tem o seu sinal correspondente.

[O principio da pontuação] O principio da pontuação: " ajudar o leitor a processar rápida e corretamente o que está escrito"
Acentuação é regra.
Pontuação é semântica, sentido, leitura.

[O principal ponto do livro] as frases normais não têm vírgula; as frases que têm vírgula não são normais. "ou seguimos a “regra”, e deixamos na frase uma mancha de óleo que fará muitos leitores escorregarem (...) ou colocamos ali uma vírgula redentora, que termina com qualquer risco e permite que todos os leitores, já na primeira leitura, extraiam da frase exatamente o que vocês pretendiam dizer"

[Virgula e verbo ser] "Dito de outra forma, não há palavras específicas que possam “repelir” ou “atrair” os sinais. Pode haver vírgula antes do verbo ser, depois do verbo ser e até mesmo antes e depois do verbo ser – tudo vai depender do contexto.

[Def. ou Fin. da Pontuação] "a finalidade essencial da pontuação, que é, como vimos, facilitar a vida do leitor, ajudando-o a percorrer o texto de maneira segura e confortável, sem o cansaço e a irritação dos desvios inúteis."

[Dogma versus Descrição] Não há um conjunto oficial das regras de pontuação "há, isso sim, autores antiquados, dogmáticos, que procuram impor a nós todos o seu modo particular de empregar os sinais, e autores modernos, que descrevem a prática dos bons escritores e tentam chegar a um razoável consenso sobre o assunto"


[Travessões e Parênteses de intercalação] "A primeira é típica: ao acrescentarmos uma intercalação a uma frase que já contém outras vírgulas indispensáveis, é melhor recorrer aos travessões ou aos parênteses, evitando assim que o acúmulo de vírgulas torne a pontuação complexa demais para permitir uma leitura fluente.

A segunda vantagem de utilizar o travessão ou o parêntese é a possibilidade de usar pontuação expressiva na intercalação; se optássemos pelas vírgulas duplas, seria 'impossível' empregar um ponto de interrogação ou de exclamação"

[Pessoal, mas nesse sentido:] "a pontuação é pessoal — não no sentido de que eu possa usar os sinais como me der na veneta, mas sim porque eu os emprego para dizer ao leitor como é que espero que ele leia meu texto, o que naturalmente vai gerar várias diferenças de estilo individual, todas toleráveis dentro do sistema.''

[Ponto-e-Vírgula, Trav. e Parent. e Reticências] "Sem o ponto-e-vírgula em uma enumeração complexa ou períodos densos "a pontuação ficará tão confusa que deixaria de orientar o leitor"

"os parênteses minimizam a importância da intercalação; os travessões, bem ao contrário, valorizam o elemento enquadrado entre eles."

Sobre as reticências exageradas, ou a facilidade do não-dito] “o ideal fácil do não dito substituía o esforço para dominar o dito”




All About Suicide — 4/5
Li solto noutra Antologia


‘‘Ismael grabbed the gun and slowly rubbed it across his face. Then he pulled the trigger and there was a shot. Bang. One more person dead in the city. It's getting to be a vice. First he grabbed the revolver that was in a desk drawer, rubbed it gently across his face, put it to his temple, and pulled the trigger. Without saying a word. Bang. Dead.’’


É difícil falar desse conto sem estragar a surpresa para quem vai lê-lo. Basta dizer que eu li sem esperar muita coisa… e acabei nocauteado — alá dizia o amigo do Córtazar.

Grogue, e induzido a voltar ao início.

A autora argentina te engana de muitas maneiras; e de uma muito específica que só vi aqui: pelos pronomes. Depois dessa cena inicial — o suicídio —, o personagem saí andando, revigorado. A narrativa ganha tons absurdos, meio fantástico, meio realismo sujo.

Mas lá no final tudo vai fazer sentido. Há, além da interessante narrativa, uma crítica aos tempos turbulentos vividos pela autora, amarrado e indissociável à forma. É uma aula, por exemplo, para a Nelida Piñon — cito-a somente pela narrativa dela estar fresca na minha memória —, que ao falar da ditadura em um conto o faz pelo modo mais prosaico possível: uma personagem lembrando. Podia muito bem ser um artigo, uma memória, uma autoficção.

Este aqui, impossível. Não podia ser outra coisa. O tema está chapado dentro da forma do conto. A trama te despista completamente. E por isso ele é, diferente do da Nelida, prazeroso e magnetizante — é um conto, mas também é mais.

No meu caso, ela me pegou já na abertura. Já abre na loucura, e entra um narrador do tipo onisciente e intrusão, que depois da cena inicial, começa a “rebobinar a fita” para colocar na mesa as possíveis razões daquela cena inicial. Tem uma coisa no narrador, também, que usa palavras do tipo ‘‘trivialidade’’, ‘‘prazer’’ e ‘‘sensualidade’’ para falar daquela leva de “suicídios” que vem acontecendo na cidade.

E ele vai te levando assim: para entender o ato que põe o conto em movimento não devemos retornar a Ismael (o protagonista) sozinho no bar, na noite anterior, bebendo, pensando no ato e nas consequências, “devemos voltar até o berço, com Ismael chorando por estar sujo de merda e ainda não apareceu ninguém para limpá-lo” (…) "Não, não tão longe. Voltamos demais a fita". Ismael no fundamental; Ismael ministro.

A gente volta até que a fita re-rebobine (?) outra vez e a gente torne à cena inicial; agora, porém, temos um contexto, sabemos mais. E tudo muda completamente. Um giro de 360 graus [sic]. Como também muda quando chegarmos à conclusão. É um contaço par excellence, na definição consagrada: nocauteante e circular. Entre no ringue com essa autora "menor" mas não espere um alvo fácil, a estatura dela engana, deixo-os avisados.

SpoilerTLDR: é o texto perfeito para servir de exemplo ao termo: ''ele foi suicidado.''


Traduzido pro Inglês pela Helen Lane
Incluso nesta Antologia.
(Recomendo o Original! Li em inglês por comodidade
(ainda não sabia se valeria a pena).