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rolandosmedeiros 's review for:
As Mascaras de Deus - Mitologia Primitiva
by Joseph Campbell, Joseph Campbell
Masks of God #1 - Primitive Mythology — 3.5✲
A dupla função do mito; as estampagens inatas da humanidade; a mitologia e a arte.
Ainda o tenho como ligeiramente denso, mas depois de passar a limpo minhas as notas, o livro engrandeceu e fez muito mais sentido. Muito dos seus pontos principais estão espalhados — intencionalmente — ao longo de diferentes capítulos e em meio a mitos e ritos de primitivas Tribos Caçadoras e Agricultoras de culturas muito diversas.
Quem só conhece o Campbell pelo "monomito" ou pela simplificação batida em estrutura da "Jornada do Herói" terá de suar para lê-lo aqui, e quem (como eu) tinha um pé atrás quanto a interpretação dos mitos demasiadamente puxada para o lado da psicanálise, há de se surpreender, que o livro é muito mais que isso; Campbell diz, acerca destas interpretações (nas quais também se apoia, mas coloca como UMA DAS funções do mito) que elas "não abarcam a extensão do pensamento ou mesmo o conceito metafísico dessas respectivas crenças", ao mesmo tempo que mostra como os ritos primitivos xâmanicos de morte e restituição, ligam-se com a religião budista e hindu muito posteriores: o ponto é que há um tipo de unidade.
Parafraseia Rimakrisihna sobre isso:
Religião, para Campbell, é mitologia incompreendida. Mas é mais uma tirada do que uma colocação, que você deve ler suas obras para entendê-la completamente, como outra dele: mitologia é a religião do outro. Ele nega tanto a crença cega como a descrença cega, ambas capazes de anular talvez o fator mais importante dos mitos, o seu poder de metáfora.
Desde a primavera da humanidade, rito e mito tem relação com arte; e aqui, agora mais minha opinião juntando tudo que é apontado e mostrado pelo Campbell ao longo do livro, A finalidade última da mitologia está na sua função artística. “Dificilmente se pode negar,” diz Campbell “a mitologia poderia ter brotado de alguma outra mente que não a dos artistas?”.
É bem representativo que ele chame de "arte e poder", aquilo que o Xamã perscruta dentro de si e descobre, dando-o uma condição à parte dentro de uma tribo; na natureza da espécie, também há algo próximo, o prazer estético: o ritmo de beleza, que também pode ser espiritual, místico ou religioso. A dança dos chimpanzés de Kohler.
As descobertas/criações dos primeiros xamãs, o que contam e fazem, são narrativas, ficcionalizações, exercícios de imaginação: nos ritos do xamã, a realidade entra em transe, e por momentos, crê-se naquilo, é imersivo. São narrativas, porém, que devem assumir uma função externa, certas vezes ilusória, fogo de palha, e outras vezes mística e inexplicável, ele mostra ambas essas situações em relatos de diferentes etnólogos. Mesmo "a cura do xamã é obtida por meio da arte: por exemplo, (pela) mitologia e canto." Como não pensar na purificação aristótelica, em uma das interpretações da Katharsis?
Integrando tudo isso, há a função dupla do mito, como um bússola que aponta para o local e para o universal — mais uma vez, cruzamentos entre mitologia e arte, que clássico da literatura não abrange isso? Não é atoa, também, que Campbell pegue emprestado muito terminologias (o monomito) e termos do Joyce: "tudo o que é grave e constante, que não pode ser mudado no sofrimento humano".
Depois que se entende o ponto dele, as comparações entre os mitos torna-se acessória, e a disposição ao longo das páginas é ligeiramente confusa, mas os relatos ainda são interessantes, por exemplo, ainda na função-dupla: características locais, daquela terra, são elevadas no princípio da formação de símbolos: as enguias, na Polinésia, substituem as cobras de outras mitologias, e trazem consigo significados específicos; o deus lagarto-réptil no Havaí, é uma lagartixa inofensiva, como as nossas do Brasil, diminutas e que devoram mosquitos, elevadas, entretanto, no processo mitológico da formação de símbolos. Essas características locais, são que importantes no entendimento de uma das funções do mito (a função etno-sociológica), representam, sobretudo, um um caminho para o universal, para um entendimento da condição humana, de uma função psicológica e cosmológica; a parte local do mito nos faz entender a história, a paisagem e a sociologia do povo em questão, agora, os símbolos, as metáforas, nos dão pistas para aquilo que há de permanente e inerente à humanidade: A Eva, a Serpente e o Jardim; O ritual de Perséfone na Grécia; as três Demas virgens de Hainuwele; o mito Polinésio de Mauí; todos fazem parte de um mesmo antigo livro da humanidade, do qual todas as edições anteriores foram perdidas.
A dupla função do mito; as estampagens inatas da humanidade; a mitologia e a arte.
Ainda o tenho como ligeiramente denso, mas depois de passar a limpo minhas as notas, o livro engrandeceu e fez muito mais sentido. Muito dos seus pontos principais estão espalhados — intencionalmente — ao longo de diferentes capítulos e em meio a mitos e ritos de primitivas Tribos Caçadoras e Agricultoras de culturas muito diversas.
Quem só conhece o Campbell pelo "monomito" ou pela simplificação batida em estrutura da "Jornada do Herói" terá de suar para lê-lo aqui, e quem (como eu) tinha um pé atrás quanto a interpretação dos mitos demasiadamente puxada para o lado da psicanálise, há de se surpreender, que o livro é muito mais que isso; Campbell diz, acerca destas interpretações (nas quais também se apoia, mas coloca como UMA DAS funções do mito) que elas "não abarcam a extensão do pensamento ou mesmo o conceito metafísico dessas respectivas crenças", ao mesmo tempo que mostra como os ritos primitivos xâmanicos de morte e restituição, ligam-se com a religião budista e hindu muito posteriores: o ponto é que há um tipo de unidade.
Parafraseia Rimakrisihna sobre isso:
“Deus criou diferentes religiões para servir a diferentes aspirantes, épocas e países. Todas as doutrinas são apenas outros tantos caminhos; mas um caminho não é de maneira alguma o próprio Deus. De fato, é possível até encontrá-lo quando se segue qualquer um dos caminhos com devoção sincera”
Religião, para Campbell, é mitologia incompreendida. Mas é mais uma tirada do que uma colocação, que você deve ler suas obras para entendê-la completamente, como outra dele: mitologia é a religião do outro. Ele nega tanto a crença cega como a descrença cega, ambas capazes de anular talvez o fator mais importante dos mitos, o seu poder de metáfora.
Desde a primavera da humanidade, rito e mito tem relação com arte; e aqui, agora mais minha opinião juntando tudo que é apontado e mostrado pelo Campbell ao longo do livro, A finalidade última da mitologia está na sua função artística. “Dificilmente se pode negar,” diz Campbell “a mitologia poderia ter brotado de alguma outra mente que não a dos artistas?”.
É bem representativo que ele chame de "arte e poder", aquilo que o Xamã perscruta dentro de si e descobre, dando-o uma condição à parte dentro de uma tribo; na natureza da espécie, também há algo próximo, o prazer estético: o ritmo de beleza, que também pode ser espiritual, místico ou religioso. A dança dos chimpanzés de Kohler.
As descobertas/criações dos primeiros xamãs, o que contam e fazem, são narrativas, ficcionalizações, exercícios de imaginação: nos ritos do xamã, a realidade entra em transe, e por momentos, crê-se naquilo, é imersivo. São narrativas, porém, que devem assumir uma função externa, certas vezes ilusória, fogo de palha, e outras vezes mística e inexplicável, ele mostra ambas essas situações em relatos de diferentes etnólogos. Mesmo "a cura do xamã é obtida por meio da arte: por exemplo, (pela) mitologia e canto." Como não pensar na purificação aristótelica, em uma das interpretações da Katharsis?
Integrando tudo isso, há a função dupla do mito, como um bússola que aponta para o local e para o universal — mais uma vez, cruzamentos entre mitologia e arte, que clássico da literatura não abrange isso? Não é atoa, também, que Campbell pegue emprestado muito terminologias (o monomito) e termos do Joyce: "tudo o que é grave e constante, que não pode ser mudado no sofrimento humano".
Depois que se entende o ponto dele, as comparações entre os mitos torna-se acessória, e a disposição ao longo das páginas é ligeiramente confusa, mas os relatos ainda são interessantes, por exemplo, ainda na função-dupla: características locais, daquela terra, são elevadas no princípio da formação de símbolos: as enguias, na Polinésia, substituem as cobras de outras mitologias, e trazem consigo significados específicos; o deus lagarto-réptil no Havaí, é uma lagartixa inofensiva, como as nossas do Brasil, diminutas e que devoram mosquitos, elevadas, entretanto, no processo mitológico da formação de símbolos. Essas características locais, são que importantes no entendimento de uma das funções do mito (a função etno-sociológica), representam, sobretudo, um um caminho para o universal, para um entendimento da condição humana, de uma função psicológica e cosmológica; a parte local do mito nos faz entender a história, a paisagem e a sociologia do povo em questão, agora, os símbolos, as metáforas, nos dão pistas para aquilo que há de permanente e inerente à humanidade: A Eva, a Serpente e o Jardim; O ritual de Perséfone na Grécia; as três Demas virgens de Hainuwele; o mito Polinésio de Mauí; todos fazem parte de um mesmo antigo livro da humanidade, do qual todas as edições anteriores foram perdidas.
''O reino do mito é de onde procede todo o espetáculo do mundo''