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rolandosmedeiros 's review for:
Open Door: Stories
by Luisa Valenzuela
All About Suicide — 4/5
Li solto noutra Antologia
É difícil falar desse conto sem estragar a surpresa para quem vai lê-lo. Basta dizer que eu li sem esperar muita coisa… e acabei nocauteado — alá dizia o amigo do Córtazar.
Grogue, e induzido a voltar ao início.
A autora argentina te engana de muitas maneiras; e de uma muito específica que só vi aqui: pelos pronomes. Depois dessa cena inicial — o suicídio —, o personagem saí andando, revigorado. A narrativa ganha tons absurdos, meio fantástico, meio realismo sujo.
Mas lá no final tudo vai fazer sentido. Há, além da interessante narrativa, uma crítica aos tempos turbulentos vividos pela autora, amarrado e indissociável à forma. É uma aula, por exemplo, para a Nelida Piñon — cito-a somente pela narrativa dela estar fresca na minha memória —, que ao falar da ditadura em um conto o faz pelo modo mais prosaico possível: uma personagem lembrando. Podia muito bem ser um artigo, uma memória, uma autoficção.
Este aqui, impossível. Não podia ser outra coisa. O tema está chapado dentro da forma do conto. A trama te despista completamente. E por isso ele é, diferente do da Nelida, prazeroso e magnetizante — é um conto, mas também é mais.
No meu caso, ela me pegou já na abertura. Já abre na loucura, e entra um narrador do tipo onisciente e intrusão, que depois da cena inicial, começa a “rebobinar a fita” para colocar na mesa as possíveis razões daquela cena inicial. Tem uma coisa no narrador, também, que usa palavras do tipo ‘‘trivialidade’’, ‘‘prazer’’ e ‘‘sensualidade’’ para falar daquela leva de “suicídios” que vem acontecendo na cidade.
E ele vai te levando assim: para entender o ato que põe o conto em movimento não devemos retornar a Ismael (o protagonista) sozinho no bar, na noite anterior, bebendo, pensando no ato e nas consequências, “devemos voltar até o berço, com Ismael chorando por estar sujo de merda e ainda não apareceu ninguém para limpá-lo” (…) "Não, não tão longe. Voltamos demais a fita". Ismael no fundamental; Ismael ministro.
A gente volta até que a fita re-rebobine (?) outra vez e a gente torne à cena inicial; agora, porém, temos um contexto, sabemos mais. E tudo muda completamente. Um giro de 360 graus [sic]. Como também muda quando chegarmos à conclusão. É um contaço par excellence, na definição consagrada: nocauteante e circular. Entre no ringue com essa autora "menor" mas não espere um alvo fácil, a estatura dela engana, deixo-os avisados.
Li solto noutra Antologia
‘‘Ismael grabbed the gun and slowly rubbed it across his face. Then he pulled the trigger and there was a shot. Bang. One more person dead in the city. It's getting to be a vice. First he grabbed the revolver that was in a desk drawer, rubbed it gently across his face, put it to his temple, and pulled the trigger. Without saying a word. Bang. Dead.’’
É difícil falar desse conto sem estragar a surpresa para quem vai lê-lo. Basta dizer que eu li sem esperar muita coisa… e acabei nocauteado — alá dizia o amigo do Córtazar.
Grogue, e induzido a voltar ao início.
A autora argentina te engana de muitas maneiras; e de uma muito específica que só vi aqui: pelos pronomes. Depois dessa cena inicial — o suicídio —, o personagem saí andando, revigorado. A narrativa ganha tons absurdos, meio fantástico, meio realismo sujo.
Mas lá no final tudo vai fazer sentido. Há, além da interessante narrativa, uma crítica aos tempos turbulentos vividos pela autora, amarrado e indissociável à forma. É uma aula, por exemplo, para a Nelida Piñon — cito-a somente pela narrativa dela estar fresca na minha memória —, que ao falar da ditadura em um conto o faz pelo modo mais prosaico possível: uma personagem lembrando. Podia muito bem ser um artigo, uma memória, uma autoficção.
Este aqui, impossível. Não podia ser outra coisa. O tema está chapado dentro da forma do conto. A trama te despista completamente. E por isso ele é, diferente do da Nelida, prazeroso e magnetizante — é um conto, mas também é mais.
No meu caso, ela me pegou já na abertura. Já abre na loucura, e entra um narrador do tipo onisciente e intrusão, que depois da cena inicial, começa a “rebobinar a fita” para colocar na mesa as possíveis razões daquela cena inicial. Tem uma coisa no narrador, também, que usa palavras do tipo ‘‘trivialidade’’, ‘‘prazer’’ e ‘‘sensualidade’’ para falar daquela leva de “suicídios” que vem acontecendo na cidade.
E ele vai te levando assim: para entender o ato que põe o conto em movimento não devemos retornar a Ismael (o protagonista) sozinho no bar, na noite anterior, bebendo, pensando no ato e nas consequências, “devemos voltar até o berço, com Ismael chorando por estar sujo de merda e ainda não apareceu ninguém para limpá-lo” (…) "Não, não tão longe. Voltamos demais a fita". Ismael no fundamental; Ismael ministro.
A gente volta até que a fita re-rebobine (?) outra vez e a gente torne à cena inicial; agora, porém, temos um contexto, sabemos mais. E tudo muda completamente. Um giro de 360 graus [sic]. Como também muda quando chegarmos à conclusão. É um contaço par excellence, na definição consagrada: nocauteante e circular. Entre no ringue com essa autora "menor" mas não espere um alvo fácil, a estatura dela engana, deixo-os avisados.
Spoiler
TLDR: é o texto perfeito para servir de exemplo ao termo: ''ele foi suicidado.''Traduzido pro Inglês pela Helen Lane
Incluso nesta Antologia.
(Recomendo o Original! Li em inglês por comodidade
(ainda não sabia se valeria a pena).