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rolandosmedeiros 's review for:

Missa do Galo by Machado de Assis
5.0

É compreensível (por N motivos) que jovens estudantes deixem de lado o Machado (pelo menos, por um tempo). Mas, leitores com um mínimo de bagagem, não.

Minhas primeiras impressões deste conto, para ficar registrada, é a de um escritor com um primoroso domínio do conto. E, além de toda a construção (estilística, imersiva, sedutora — que une forma e conteúdo em uma sedução que é dupla), há, em onze páginas, uma amplitude interpretativa, pelo ponto de vista, pela eterna ironia do Machado, que rivaliza, de certa forma, mesmo as obras mais "modernas e experimentais", entre muitas aspas.

Essa semana mesmo, por exemplo, reli O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam, do Borges. E a amplitude e desprendimento de uma narrativa que se abre para múltiplos tempos, em múltiplas veredas, terminando em um labirinto que é, na verdade, um livro; consigo ver um germe dessas amplas possibilidades na escrita do Machado. Seja em Conceição e Nogueira ou em Bentinho e Capitu.

Mesmo que você faça uma leitura inflexível, com apoio unicamente no texto, e clame que chegou a uma conclusão, sentirá o alicerce rangendo sob seus pés. Você só tomou certas direções, pessoais (e não menos importantes, é claro), mas que fazem parte de infinitas veredas. Eu também tomei o meu caminho, e o próximo leitor trilhará o seu.

Deixando a divagação de lado, comparando bem vulgarmente, ambas narrativas, a do Machado é melhor (apesar de eu entender que na do Borges, há um rompimento que é difícil de pôr até em palavras. É um conto que não pode ser analisado como um conto comum; mesmo que assim o possa ser lido). No do Machado, vale guardar essa sensação, senti até um clima meio onírico, de madrugada vagarosa, que não os distancia tanto. "Realismo" é mesmo só convenção.

Tinha uma outra comparação para fazer, com "O Velho Adão" do D.H Lawrence, também. Um conto em certos aspectos lembra muito o do Machado, e é de se estranhar (e atentar) como ambos os autores trabalharam diferentemente, cada qual carregando bagagens próprias, uma situação muitíssimo parecida: uma infidelidade e sedução que é incitada e nunca consumada.

Fica como recomendação o conto do Lawrence: O cenário chuvoso, cada qual lendo seu livro, a mulher esperando o marido que chegará fedorento de cerveja, o inquilino que a acompanha, a tensão e as suscitações sexuais entre ambos… E no fim, uma violenta ação, tudo me foi bem memorável mas… ainda prefiro o do Machado.

E deixo isso para lá, por agora. Volto daqui a um tempo para organizar e desenvolver isso aqui. Com mais foco na construção e narrativa do conto, e menos divagação sem sentido.

Era... era para ser só uma primeira impressão.