4.0

Duas Metaficções de Sergio Sant'Anna

Uma Página em Branco
"Uma página em branco a oferecer todas as possibilidades, o papel aceita tudo. A angústia por haver todas essas possibilidades, não se toca ainda coisa alguma. Então escolher uma entre as possibilidades, o que traça um limite. Escrever é traçar um limite. Escolhe-se uma primeira letra, U; uma primeira palavra, UMA; uma primeira frase, título: UMA PÁGINA EM BRANCO."


Um jeito interessante de fazer com que leiamos, literalmente, a primeira página do livro sendo escrita, a página em branco pela primeira vez preenchida. É uma extensão das convenções da ficção (coisa não inédita), mas não é só isso. Há ainda um narrador-personagem que escreve, há ainda resvalos na vida do personagem-ou-escritor, nada vem do nada e para o nada. "Está-se aqui, sozinho, sentado à mesa (…) Que se ponha lá [noutro lugar] entre as vozes, os gritos, os risos. Fazer o percurso das ruas, artérias, os bares, as favelas, a prostituição, os rituais, os crimes. Ou, quem sabe? — apenas permanecer numa casa, caixa, onde no quarto durmam crianças, no fogão haja um resto de comida e, na cama, esperando, certa mulherzinha."

Isso faz com que seja ilusória (ou, o narrador quer que vejamos assim) a arbitrariedade perante ao vazio da página em branco. Quando se escreve, se escreve algo que já vem de dentro; o livro individual que já estava ali, latente. E a partir da liberdade da página em branco, o escritor pode "Prender [uma] mulher por instantes, atravessá-la, fazer-lhe um filho, apressar-lhe o processo da morte, que de qualquer modo seguiria." ou "(...) Cometer um incesto, um poema e, ainda que no papel, um crime."

Porém, mesmo na metaficção, mesmo nos comentários afastados do narrador, indiretamente vai-se criando uma cena na cabeça do leitor: o escritor, o escritório. Naquele cenário, preenchendo a sua página em branco: "Na fumaça dos cigarros, no veneno desses projetos de livro, as plantas sentem, e murcham. (...) E uma estante cheia de livros. Quantas histórias já terão sido escritas? Apesar da sensação em contrário, um mínimo das histórias possíveis."

Pensa, afinal, em destruí-las. Destruir essas três páginas. Sabemos que não aconteceu, porque é a mesma página que está em nossas mãos, agora. Ao mesmo tempo que encerra olhando para o labirinto borgeano das possiblidades (a metáfora dele é uma corrida de cavalos, onde o cavalo se recupera de uma queda inicial e cruza todas as pistas e raias em todas as trajetórias possíveis), se encerra, também, mais tátil, estendendo o tapete para o livro de contos (O Concerto de João Gilberto) que se segue a esta primeira página (ex-página em branco): um livro feito de textos, de várias vidas, com vários fios e outras imaginações das possibilidades de muitas outras páginas em branco.

Conto (Não conto)

"Aqui, um território vazio, espaços, um pouco mais que nada. Ou muito, não se sabe. Mas não há ninguém, é certo. Uma cobra, talvez, insinuando-se pelas pedras e pela pouca vegetação. Mas o que é uma cobra quando não há nenhum homem por perto? Ela pode apenas cravar seus dentes numa folha, de onde escorre um líquido leitoso. Do alto desta folha, um inseto alça voo, solta zumbidos, talvez de medo da cobra. Mas o que são os zumbidos se não há ninguém para escutá-los? São nada. Ou tudo.''


Um conto que tem como cenário a imaginação e seus espaços vazios a serem preenchidos pelo narrador. O conto brinca com aquele experimento filosófico da árvore que cai no meio de uma floresta. Os zumbidos dos insetos imaginados, surgidos de pronto naquele espaço, não são nada — na perspectiva do demiurgo. Ou são tudo — da perspectiva daquele mundo que só há, a princípio, zumbidos de inseto nos espaços entre arbustos.

O narrador, então imagina — e se descreve imaginando — e se um homem e um cavalo cruzassem aquele lugar imaginário? E cria, a partir daí, agora, um homem e um cavalo. E meio sísifo, o cavalo vai puxando a carroça no espaço vazio. E o lugar vai sendo preenchido pouco a pouco, e ele vai experimentando com isso, até surgir uma cobra "e zás" morder o cavalo. Que é o sofrimento de um animal em um espaço vazio? Que é uma árvore que cai no meio do nada se não há ninguém para ver ou ouvir?

Livro de Contos — 5~20pp
Companhia das Letras — ✲ 4.0/5.0