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rolandosmedeiros 's review for:

Me alugo para sonhar by Gabriel García Márquez
4.0

"Convidamos a mulher para tomar café em nossa mesa, e a induzi a falar de seus sonhos para surpreender o poeta. Ele não deu confiança, pois insistiu desde o princípio que não acreditava em adivinhações de sonhos.

– Só a poesia é clarividente – disse. "


Meu primeiro contato com o Gabo. Não lembrava do conto ser tão agradável. Extremamente fluido, bem escrito e intrigante, de tom límpido, cenários rapidamente pincelados e imagens memoráveis.

Há quem diga que o Borges foi mais ensaísta do que ficcionista e que seus contos, estética e estilisticamente, pendiam mais para o lado dos ensaios. Gabo, no entanto, faz um conto alá Borges, só que sem a característica ensaística. É bem borgiano, tanto que o próprio é citado diretamente pelo personagem principal (assim como o Neruda), explicitamente: alguma personagem diz que a história pela qual estão passando podia muito bem ter sido escrita pelo mestre argentino. Gabo, aos moldes dele, estreita as margens entre ficção e realidade, incredulidade e possibilidade.

"– Sonhei com essa mulher que sonha – disse.
Matilde quis que ele contasse o sonho.
– Sonhei que ela estava sonhando comigo disse ele.
– Isso é coisa de Borges – comentei.
Ele me olhou desencantado.
– Está escrito?
– Se não estiver, ele vai escrever algum dia – respondi. – Será um de seus labirintos."


A imagética, principalmente no início da narrativa, é eficiente e forte. Um golpe do mar que arremessa o carro de uma personagem central do conto num muro, quebrando todos os seus ossos e tirando sua vida, deixando, apenas, intacto o seu característico anel de serpente que permite o reconhecimento do objeto e do corpo pelo personagem, desencadeando toda a história. A narrativa trata dessa falecida mulher enigmática; uma mulher que, como descobriríamos, por amor e por trabalho, era um tipo de vidente, sonhou e sonhava: até o fim dos dois.