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JOANA D’ARC — Eça de Queirós

"Meus amigos: aconteceu uma desgraça à Joana d’Arc. A donzela de Orleães, a boa e forte lorena, salvadora do reino de França, foi beatificada pela Igreja de Roma."

Assim, inicia Eça, há mais de cem anos, um texto de dez páginas, que fica entre o ensaio e uma espécie de crônica histórico-jornalística, muito que bem escrito.

Perpassa, aqui, um pouco da história da frança: antes divida pelos Borgonheses e pelos Armagnacs, onde se inseria a própria Joana, e mais contemporaneamente, divida entre o Racionalismo e o Clericalismo, que “disputavam”, agora, a figura da Donzela. Resvala, também, na relação do povo, dos escritores, encenadores, historiadores e poetas, com La Pucelle; se mostra combativo á alguns, que diz fazer um desserviço com a Donzela, e louva cuidadosamente outros, como o Michelet, a quem diz fazer uma “reabilitação” da sua imagem, inclusive sendo esta a que foi em dado momento adotada pelo povo — esqueça, em relação à Joana, em todo este texto, o caráter puramente historiográfico quando se fala "imagem". Essa é apenas uma das facetas da futura santa, e não é nem mesmo a mais atraente aos poetas.

Ressalto que o texto é muito bem escrito, eu mesmo peguei o texto por curiosidade (estava pesquisando a paródia "La Pucelle" feita pelo Voltaire" que também é citado aqui) e não parei até terminá-lo; insere seu argumento de maneira muito lívida, e utiliza, ao longo de todo o desenvolvimento, boas metáforas, boas figuras de linguagens e boas imagens, que não ficam devendo nada a uma prosa de ficção.

"E foi o que sucedeu. Apenas o clero a quem ela fora atribuída a instalou devotamente na sua capela nova – não houve mais para a França livre-pensadora, nem Joana d’Arc, nem boa lorena, nem donzela de Orleães. Foi como se a guerreira, que era amada pelo povo, porque no meio dele vivia, se retirasse bruscamente do mundo e o renegasse, para se esconder na sombra devota de uma sacristia. Ninguém mais a compreendeu, nem a reconheceu mais, sob aquela túnica de santa que agora a cobria em vez da armadura de aço, e com aquela palma verde na mão, em lugar da rija espada borgonhesa, que tão bem pranchava nas trincheiras de Orleães."


Tece seus argumentos e criticas não só ao radicalismo — que antes tendo-a martirizado, numa sentença eclesiástica assinada por bispos, e depois, o julgada e retirada inversamente pelos mesmos bispos — que após o erro tentou apagar a fogueira, como se a donzela fosse restituída da pira, mas, também aos ditos livres-pensadores, que deixaram com que uma heroína bastante vívida, condecorada entre o povo, vivenciada no teatro, nos poemas, em festas, fosse, segundo o autor, sequestrada pelos céus: "Os poetas não a celebraram mais em poemas, porque ela agora pertence aos fazedores de loas. E o teatro deixou de pôr Joana d’Arc em melodramas e pantomimas bélicas, desde que ela, pela sua beatificação, voando da Terra ao céu, perdia a sua realidade e se desfazia em mito." Algo que ficou apenas suscitado, ou ao menos me pareceu assim, é que a maior crítica que o Eça faz é mais à falta de uma relação mais sadia entre ambos lados, do que a crítica à apenas um; algo quase infantil, vulgarmente como: a Igreja pegou meu brinquedo, agora não quero mais, ou vice-versa, a Igreja enciumada pelo povo comungar com uma das suas.

Eu queria fazer rápidos comentários, mas já me alonguei demais, enfim, se sentirem-se interessados pelo tema, leiam. Há, além do mais, uma discussão acerca de outras santas, e de outros heróis não canonizados; de outro lado, também, muitas referencias a literatura da época, e também da cultura literária do Eça. Vergonhosamente, como fluente em Lingua Portuguesa, é o primeiro texto que leio do autor, e prometo tirar esse atraso. Esse texto em específico fluiu muito bem, principalmente para a época que foi escrito; por fim, o que julgo ser o argumento principal do texto, e que apesar de exagerado, não deixa de ter um pouco de verdade:

"Para ela, de ora em diante, não mais coroas ante a sua estátua, nem monumentos nas praças, nem livros celebradores, nem festas nacionais – isolada no seu altar, na sombra da igreja, só gozará, cada ano, a sua missa, com tochas, música, sermão. E uma decadência. E aqui está como a santidade mata a popularidade e como uma grande alma, por ter penetrado no céu, se torna esquecida na Terra."