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rolandosmedeiros 's review for:

BECK, Vol. 1 by Harold Sakuishi
3.0

Beck — Volume 1 ao 5

Beck de Harold Sakuichi é um mangá majoritariamente sobre música, mas que não se restringe a demografias ou gêneros específicos, e funciona porque se transforma em uma experiência nostálgica, real e irreal, de momentos vividos e não vividos de nossas vidas. Se você já participou de uma banda, tentou aprender algum instrumento ou apenas se imaginou na pele daquele ou daquela vocalista cantando AQUELA música, é o mangá para você, para nós. Eu ponho minha mão no fogo: duvido que o mangá não te reaproxime da música e dessas memórias ternas da infância/adolescência. Só tem contraparte na literatura ou no cinema, a exemplos de Só Garotos, Mate-me por Favor ou Kino.

Em aspectos técnicos, questão de arte e de narrativa, nesses primeiros cinco volumes, Beck é bem abaixo do padrão, em geral; mas, você tem que dar uma chance, Beck se sustenta pelo tom, pela diversidade de emoções que despertam no leitor, pelas personagens em meio a uma vida que é simples e caótica ao mesmo tempo.

Beck gira em torno da banda formada por Ryuusuke e sua ascensão à fama; no entanto, é Koyuki que acompanhamos intimamente, e é ele que vai representar a gente. É um garoto que fissurado por música, que acompanha a cena da sua cidade, ouve discos importados, mas que se julga sem talento para ser músico. Até que ele se encontra com o Ryuusuke, e o foco se torna no garoto tentando aprender a tocar, descobrir sua própria voz e seu valor por meio da música; seus problemas, sua fobia social, sua dificuldade em aprender o violão, e seus problemas com bullyng na escola. Enquanto, em paralelo, a música vai crescendo dentro dele enquanto visita shows em bares sujos e subterrâneos ou festivais de música como fã da banda do Ryuusuke. Há sempre um embate duro com a tristeza e a falta de autoestima.

Beck não é só um shonen de esporte onde o esporte é trocado pelo música. O apoio, o carinho, e o humor que os integrantes da banda compartilham ao longo dos volumes, os shows e os amores juvenis, a diversão despojada e o perigo causado pela irresponsabilidade, tudo isso te faz sentir como parte de tudo aquilo, daquele círculo, daquela cena, daquela cidade. É revigorante, animador, e apesar dos clichês e do fanservice exagerado, torna o todo extremamente valioso; é algo muito maior que o simples amor pela música, é o amor de por meio dela fazer e experienciar novas conexões transformadoras com outras pessoas.

No primeiro volume temos apenas um vislumbre de tudo isso. Mas já fica evidente a qualidade da caracterização dos personagens e a fácil identificação com eles. A arte é competente, sem mudanças bruscas ao longo dessas primeiras edições; é cômica, utilizando bastante do exagero e de expressões faciais grotescas e cartunescas; mas, em balanço, as páginas-duplas dos shows, dos bares, dos personagens tocando, são feitas com esmero, belas e realistas. Tenho um monte de wallpappers salvos dessa cena.

É pertinente fazer o questionamento sobre como um mangá sobre música, sobre uma banda compondo, tocando e criando, daria certo em uma mídia que não possui áudio. E eu adianto, está aí um dos tesouros do mangá e grande exemplo da habilidade do Harold Sakuishi: funciona excepcionalmente bem, e, até, não por coincidência os shows são as melhores partes do mangá. É pelo conjunto e por como ele constrói tudo, junto das páginas duplas e da mistura entre reação do público, olhares entre os membros, composição de cena.

No entanto, como disse, é preciso muito do "feeling" para o mangá se sobressair. Recomendo assistirem o anime de Beck, que esse sim tem o componente do áudio (a OST é muuuito boa, com composições de uma banda original que encarna a banda do Mangá alá Scott Pilgrim), e é uma ótima adaptação dos primeiros volumes. Não se preocupem, o mangá não vai muito longe, e se você gostar vai ter de encarar o mangá para continuar a história.

Assim, Beck se faz uma peça única num mar de repetitivos slice of lifes e shounens genéricos de esporte — um panorama que só começou a mudar recentemente, quase 20 anos depois de seu lançamento. É quase impossível ele não lhe impulsionar a ouvir um som que você curte, ou até mesmo te tentar a aprender ou reaprender tocar aquele instrumento que você largou ou que sempre quis aprender instrumento. É cheio de referências ao Rock e o mangá transpira amor por ele.

Beck, uma história sobre música em uma mídia sem som, é um grito mudo ou o reverberar de uma guitarra silenciosa que ecoa dentro da gente, através de páginas preto e brancas, e ressoa na memória de todos aqueles que algum dia se conectaram com a história. Recomendadíssimo.

3.5