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rolandosmedeiros 's review for:

The Bottle Imp by Robert Louis Stevenson
3.0

"A depressão recaiu em seus espíritos. À noite, ficavam sentados na nova casa, após o cansaço de um dia, e não trocavam palavra, ou o silêncio era rompido pelas lamúrias repentinas de Kokua. Às vezes, rezavam juntos; às vezes, colocavam a garrafa no chão, e observavam por toda a noite como ele [o demônio] flutuava no meio. Nesses momentos, sentiam medo de descansar."


De acordo com o breve comentário que antecede a narrativa, o escocês Stevenson, em 1887, um escritor-celebridade, observou as dezenas de jornalistas que o esperavam ansiosos atracar no porto de Nova York e afirmou à esposa: "Se fosse a chegada de Jesus Cristo, não fariam tamanha balbúrdia"

Stevenson, que tem como título "Contador de Histórias (Tusitala)" faz em O Demônio na Garrafa um conto com uma narrativa interessante, linguagem clara, boa atmosfera, mas demasiado alongado. Gênios mágicos e desejos sendo realizados estão presentes e espalhados pela literatura praticamente desde sempre, e parece lógico que um escritor conhecido pelo seu dom de contar histórias também explore esse tema tão caro.

Aqui não há lâmpadas, limites de três pedidos ou desejos sendo levados ao pé da letra. Há uma garrafa, um diabo preso dentro dela e duas regras simples: se alguém morrer em posse da garrafa, irá direto para o inferno; e a garrafa precisa ser vendida, obrigatoriamente, por um valor menor do que aquele pelo qual ela foi comprada. A cada momento, portanto, ela está com o preço mais baixo, gera desconfiança em quem compra e dificultando a venda, ao contrário do que possa se pensar. Estar em posse da garrafa é (dependendo do ponto de vista, vide o final) uma benção ou uma maldição, e o Stevenson é extremamente em trabalhar com esse artefato no desenrolar da trama.

Em primeiro plano, desde a apresentação da garrafa, não há ilusão de que o artefato seja minimamente bom ou natural, desde a primeira vez que aparece fica claro que ele gera e atrai problemas. Torce pedidos a torto e a direito e, se o demônio que existe dentro dele é verdadeiro, sua única vontade é arrastar o portador do objeto ao inferno. Em segundo plano temos o protagonista lutando para se livrar da garrafa, o que abre espaço para nos aprofundarmos na relação entre ele e a esposa, e é o que faz correr a trama.

O desfecho, porém, não é tão interessante quanto todo o desenrolar do conto. Talvez na época fosse raro e surpreendente, mas hoje em dia é fácil imaginar que acabaria por aparecer um maluco que não liga para as consequências de usar e morrer com o objeto em mãos, o que torna a preocupação do protagonista — crucial pro impacto final — um pouco exagerada, nessa ótica.

No geral, é um bom conto; fantasioso e sobrenatural, mas com o pé no chão para falar sobre desejos, amor e frustração. E, além disso, valeu a pena por ter adicionado mais uma história dessa temática na minha lista de lidos, ao lado de outras ilustres como A Pata do Macaco, e outros contos do Tchekhov e do Kilping.