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rolandosmedeiros

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Há um problema de elétrica na sua casa. Após tanto quebrar a cabeça, você chama um eletricista, que em um minuto resolve o problema que lhe tomou horas; você, quando paga o valor total, o faz com um pesinho na consciência, oitenta reais pelo trabalho de um minuto?!

A gente, normalmente, não leva em conta que esse um minuto, consumiu centenas de horas de estudo e prática do profissional, e é isso que pagamos. Esse é o caso do Professor Cláudio Moreno, quando em cinquenta minutos, aproximadamente, reconta os mitos (mas não só, faz muito mais que recontar) no seu Podcast “Noites Gregas”.

Se fosse resenhar o podcast da mesma maneira que resenho os livros aqui, com certeza daria cinco estrelas; o Professor é um exímio contador de histórias, o melhor que já ouvi de Mitologia no Brasil, e não canso de recomendá-lo. Seu público — um exemplo da habilidade narrativa do Professor — varia de docentes, universitários de letras vernáculas, até donas de casa e marinheiros de primeira viagem nos assuntos gregos. Não me canso de recomendá-lo, experimente o Podcast e veja por si só. (Encontra-se, atualmente, no Episódio #44 — Medeia, inicia com os Deuses do Olimpo e pretende ir até por volta de oitenta, passando por toda a Mitologia Grega).

Essa eximia narração traz consigo longos anos de atuação nas salas de aulas, palestras, discursos e muitos escritos. Um Rio que vem da Grécia e Troia (o livro seguinte, que pretendo ler), são exemplos desses escritos.

Também um grande gramático, não é surpresa que as crônicas e anedotas são muito bem escritas, nisso não há o que criticar; o problema, no entanto, é na decisão do Moreno de influir uma certa dose de “moral” no fim de toda entrada, que em alguns casos, é bastante inspirada, mas ao longo do livro, a fórmula cansa.

Ele é muito melhor quando trabalha no vazio deixado pelas histórias; quando constrói diálogos, narra acontecimentos, dá sentimentos e personalidade às personagens, narra movimentos e ações sutis que não estavam lá originalmente, é delicioso; faz muito disso no Podcast, mas, poucas vezes neste livro.

A título de exemplo, uma entrada que ilustra minha relação conturbada com este livro encontra-se na crônica “Como se Fossem as Últimas”.

Protiselau, um adolescente apaixonado, recém-casado e com uma vida toda pela frente, foi um dos convocados para a Guerra de Tróia, "quando a armada grega chegou diante de Tróia, os navios ficaram flutuando além da rebentação, sem começar o desembarque; é que um oráculo rezava que o primeiro a pisar naquela praia ia morrer ali mesmo. De pé. na proa de seus navios, prontos para saltar em terra, os guerreiros se entreolhavam, hesitantes; ninguém queria sacrificar-se. Foi quando Protesilau, um dos jovens chefes da Tessália, mandou os remadores avançarem e pulou na água rasa, correndo para a praia, em direção aos troianos. Foi o seu fim: uma lança atravessou o seu escudo e atingiu-o no pescoço, matando-o instantaneamente."

Inerentemente uma história interessante, que eu não conhecia, e que deixa diversas perguntas e espaços a serem preenchidos pela imaginação: por exemplo, por qual razão, um jovem com uma vida pela frente, sacrificou-se dessa maneira? Já vi romances psicológicos inteiros serem construídos em “espaços” menores que este…

No entanto, o Moreno conclui assim, após uma breve retomada na história do rapaz, totalmente anti-climático, na minha concepção: “Bem menos triste, no entanto - e muito mais produtivo - é imaginar que, como Protesilau, voltamos agora para casa para viver as três horas que os deuses nos deram de inhapa, e tratar de aproveitar nossos últimos 180 minutos, esse tempo raro e valioso que ganhamos de presente. Se conseguirmos entrar no jogo, tudo - até um copo com água fresca - vai ficar mais precioso, mais pungente. É claro que não agüentamos toda essa intensidade por mais de três horas, mas não faz mal. Amanhã recomeçamos."

Isso se repete ao longo de quase todo o livro, e vai cansando; é tudo muito interessante, até chegar ao último parágrafo.

É muito bom ouvir as histórias da Grécia em geral, sabedorias comuns, acontecimentos popularizados e eternizados, personagens famosos, doses cavalares dos sempre tão interessantes episódios mitológicos… um pouco do Égito, esticando-se até a Dinamarca: há uma entrada bem boa sobre o sábio Rei Canute, que ganhou popularidade recentemente pelo mangá Vinland Saga; as referências também são extensas, desde Heródoto, Plinio, Aulo Gélio, até Jorge Luis Borges e Lawrence das Arábias, portanto, não posso deixar de recomendar para quem se interessa em ler brevemente sobre esses episódios; apenas, tenha paciência, e, leia as crônicas espaçadamente.

Enquanto o Podcast não chega ao seu final, e eu fico aqui aguardando com a mesma ansiedade que esperava o episódio de domingo das primeiras temporadas de Game of Thrones, vou me aventurar no segundo livro do Professor, que trata da Guerra de Tróia; e manter-me afastado do seu “Grécia — Cem Lições para Viver Melhor”, que, pelo que o título indica, segue a mesma fórmula desse aqui.

Spoiler "Receio ser como aquele meu amigo que, ansiando pela morte, nos confidenciava incessantemente que conseguira obter e engolir comprimidos suficientes para se matar, mas se encontrava agora numa agitação ansiosa, porque os seus atos podiam causar problemas a uma enfermeira. Receio ser como aquele homem de letras de uma cortesia inata, que conheci e que, ao ficar senil, começou a falar constantemente à mulher nas fantasias sexuais mais extremas, como se isso fosse o que secretamente sempre desejara fazer-lhe. Receio ser como Somerset Maugham octogenário, que baixava as calças atrás do sofá e defecava no tapete (apesar de isso me fazer lembrar alegremente a minha infância). Receio ser como aquele meu amigo idoso, homem ao mesmo tempo refinado e cheio de melindres, cujo olhar mostrava um pânico animal quando a enfermeira do lar anunciava, diante das visitas, que estava na hora de mudar a fralda. (...) Receio o cateter e o elevador de escadas, o corpo incontinente e o cérebro devastado. Receio o destino de Chabrier/Ravel, não saber quem fui nem o que fiz. Talvez Stravinsky, na velhice extrema, tivesse esses finais em mente quando chamava do quarto a mulher ou algum membro da família. «De que precisas?», perguntavam-lhe. «De ter a certeza da minha própria existência», respondia. E a confirmação podia vir sob a forma de um afago de mão, de um beijo ou de lhe porem a tocar um dos seus discos preferidos."


Não é uma mão de apoio, ou um ombro amigo que diz, quase religiosamente, «não, meu caro, não há nada a temer.»; também não é um sussurro que tonifica e que degusta, o "nada" mórbido da frase, com um sorriso malicioso no rosto «NADA.... a temer.» Nothing to be Afraid Of, do Julian Barnes, pode até pender para ambos os lados, certas vezes, até cair em sofismas, mas somente de propósito, investindo-se de verdade em cada ponto, com intenção de desconstruí-los, anuí-los, descartá-los, ou, apenas, cortá-los pela tangente.

As reflexões suscitadas, através do seu próprio ponto de vista, do diálogo com seu irmão, ou da extensa lista de autores citados, corta pelos campos da morte, memória, imaginação, vida, arte, religião, ficção, e muitos outros temas. São capítulos em sua maioria curtíssimos, mas, densos; ao ponto de que um “capítulo” de poucos parágrafos, que leva cinco minutos (ou menos) sendo lido, te coloque por muitos minutos adicionais em um estado reflexivo tenso, a pensar, a anotar, a dialogar com o livro; a relembrar, e também a inquirir sobre a sua própria vida e existência no geral.

Não há muito o que abordar em questões estilísticas, é escrito como um grande ensaio pessoal, ou livro de memórias, e a voz vai tornando-se cada vez mais familiar conforme você avança na leitura. Toco nessa questão da familiaridade da voz, pois se trata justamente dela, com a adição da estuturação e da construção, que fazem com que esse livro não se encaixe em nenhuma convenção ou gênero.

Aqui no Goodreads, por exemplo, a primeira prateleira onde coloca-se o livro, é na fileira da Nonfiction. No entanto, os capítulos finais tratam justamente da ambiguidade conquanto o que é ou não ficção; da área nebulosa entre ficção, imaginação, e realidade. É posto, e comprovado empiricamente pelo Barnes, através da comparação das lembranças dele e do irmão, aquilo que é quase saber comum, que a memória pouco tem de factual, ela é montada por nós na nossa cabeça, principalmente as mais antigas.

Portanto, quando escrevemos, a partir de nossas memórias, estamos nos distanciando ainda mais da realidade, ou, pelo contrário, furando a colcha da memória? E isso importa para os fins literários?

Spoiler "Para os jovens — e particularmente para o jovem escritor — a memória e a imaginação são totalmente distintas e de categorias diferentes. Num primeiro romance típico haverá memórias diretas (emblemáticas como o inesquecível embaraço sexual), momentos em que a imaginação tratou de transfigurar uma memória (talvez o capítulo em que o protagonista aprende uma lição sobre a vida, enquanto na realidade o futuro romancista não aprendeu nada) e momentos em que de repente, para espanto do escritor, a imaginação apanha uma corrente ascendente e o voo maravilhoso, imponderável, que é a base da ficção, se produz com deleite. Estas diferentes espécies de verdade aparecem distintamente ao jovem escritor e a maneira de as juntar constitui matéria de ansiedade. Para o escritor mais velho, memória e imaginação parecem diferenciar-se cada vez menos. Não é porque o mundo imaginado esteja realmente muito mais próximo da vida do escritor do que ele ou ela quer admitir (um erro comum entre os que dissecam a ficção), mas exatamente pela razão oposta: a própria memória acaba por, mais do que nunca, parecer muito próxima dum ato de imaginação. O meu irmão desconfia da maior parte das memórias. Eu não desconfio, prefiro ver nelas o labor da imaginação, que contém uma verdade imaginativa e se contrapõe à verdade naturalista. Ford Madox Ford podia dizer grandes mentiras e grandes verdades, ao mesmo tempo e na mesma frase."

"A história, ou história potencial, ficaria estragada. Conheço um escritor que gosta de se deixar ficar nos bancos de jardim a ouvir conversas; mas, assim que aquilo que ouve ameaça revelar mais do que profissionalmente lhe interessa, afasta-se. Não, a ausência e o mistério são para nós (eu e ele) resolvermos."

"Um Bertie que se transformou em Bert; um voluntário tardio; uma testemunha silenciosa; um sargento exonerado como soldado; uma fotografia desfigurada; um possível caso de remorso. É aqui que trabalhamos, nos interstícios da ignorância, na terra da contradição e do silêncio, e que tentamos convencer-vos com aquilo que aparentemente é conhecido. Resolver — ou tornar útil e viva — a contradição e tornar o silêncio eloquente."


"A ficção é feita por um processo que combina liberdade total e controlo absoluto, que equilibra a observação precisa e o jogo livre da imaginação, que utiliza mentiras para dizer a verdade e a verdade para dizer mentiras. É ao mesmo tempo centrípeta e centrífuga. "
"Um romancista é alguém que não se lembra de nada, mas regista e manipula versões diferentes daquilo de que não se lembra."


Com o auxilio de amigos, do irmão, Montaigne, Jules Renard, Gustave Flaubert, Doris Lessing, Émile Zola, Somerset Maugham, Cicero, Wittgenstein, e muitos outros, Barnes fica nas margens embrunecidas da linha traçada dos gêneros literários, não inaugurando, mas, mesmo que minimamente, ajudando a consolidar o “livro” moderno, após a ascensão, declínio e queda do Romance; pelo menos, é assim na minha cabeça. Se há algo de verdadeiro nisso, só o tempo irá dizer. Como diz o Renard, "Poil de Carotte* e eu vivemos juntos, e espero morrer antes dele."


Para concluir: há livros marcantes, há aqueles que moldaram e sustentaram nosso gosto pela literatura, outros onde a técnica ou o deleite estético arrebatam, catárticos, aos moldes aristotélicos. Fora — mas certas vezes também junto destes — há aqueles que por alguma razão nos tocam intimamente, pessoalmente; e alguns, vão além, mais fundo, objetiva e concretamente mudam algo na sua vida; este foi um desses casos.

Um verso ficou na minha memória, uma verso que aparece nas Odes do Horácio, tratando de como o tempo flui inexoravelmente, e como certas vezes o faz (Horácio/Eu-Lírico) levantar no meio da noite e parar todos os relógios. Frequentemente, de tempos em tempos, algo parecido me acometia, desde a adolescência, quando meu “sentido de mortalidade” despertou numa aula de ciências no Ensino-Médio.

Desde lá, me acompanha (ou supostamente, acompanhava), me levantando no meio da noite, com a vertigem, a aflição e o apavoro clássico que só a sensação de finitude consegue passar. Vinha sempre na madrugada, como um gancho que nocauteia o boxeador, me tirando das profundezas do “Hmm… que soninho gostoso” nos campos verdes do Sonhar, para o “Vou morrer. Sou mortal. Não há escapatória”, no escuro do quarto, suando frio com as mãos na cabeça.

Isso se repetiu ao longo de anos, aumentava e diminuía de frequência sem obedecer leis específicas. Mas, desde que li o livro, a fundo, e realmente pensei, dialoguei, ouvi, conversei, com o Jules, com Cicero, Barnes, ao longo desse livro, simplesmente nunca mais me aconteceu. Ainda penso na finitude, na efemeridade, mas de uma maneira menos aterradora. E melhor, não mais me desperta no meio da noite com um gancho psicologicamente mais forte que o do Lomachenko.

Mesmo que o Barnes diga, e parece realmente crer, que falar sobre a morte não diminui em nada o medo, o impacto, a vontade de remar contra a maré, há algo sim, que permeia esse tipo de conversa, esse tipo de livro. Para mim, foi libertador, disruptivo, fascinante, pela força exercida na minha vida real, através das páginas, das palavras, de diversos outras pessoas, das mais diversas profissões, dos mais diversos cursos, e dos mais diversos tempos. Livrasso.

Termino com o supracitado poema das Odes de Horácio (busquei aqui):

Lembro uma menina…
Como pode…
outrora fui a pequena Resi,
e um dia me tornarei uma velha?
…Se Deus quer que seja assim, por que me permite
vê-lo? Por que não o esconde de mim?
É todo um mistério, um mistério tão profundo…
Sinto a fragilidade das coisas no tempo.
Dentro do meu coração, sinto que não deveríamos nos agarrar a nada.
Tudo escorrega por entre os dedos.
Tudo o que tentamos pegar se dissolve.
Tudo desaparece como névoa e sonhos…
O tempo é uma coisa estranha.
Quando não precisamos dele, não é nada.
Depois, de repente, não existe outra coisa além dele.
Rodeia-nos por todos os lados. Está também dentro de nós.
Insinua-se através da nossa face.
Insinua-se no espelho, escorre pelas minhas têmporas…
E entre você e mim escorre em silêncio, como uma ampulheta.
Oh, Quinquin,
Às vezes o sinto fluir inexoravelmente.
Às vezes me levanto no meio da noite
e faço parar todos os relógios…"

"Ele não existia para ela, exceto como uma fonte de irritação."

Rico e obstinado, A Sombra no Roseiral é um pequeno conto quase místico, que se sobressai no simbolismo e na fluidez de seus acontecimentos. Quase nada sabemos de concreto do tempo anterior, e pouco podemos vislumbrar do tempo subsequente ao conto; no álbum imaginário do casal protagonista, o que vislumbramos é uma fotografia solta, nebulosa e embaçada, que o leitor deve tentar definir e acompanhar seus contornos e formas, claras, mas não unidimensionais.

Segue-se pelo caminho afastando brumas, através de um bonito encadeamento de frases, duma imagem mental bem construída de uma paisagem bucólica e retirante, cercada de símbolos (o mar, a rosa, o espinho, o jardim…), topetando no homem que numa manhã finge ler um jornal: ou seja, um homem incomodado, que coloca o conto em mote. Tudo tem significado; e nada é explicitado. Essa, para mim, é uma das grandes qualidades do Lawrence, ao menos em suas narrativas curtas.

A junção de tudo isso, com o diálogo final, caracteristicamente Lawrenceano, culmina num encerramento surpreendente, não por ser um mirabolante desfecho, mas por ser suscetivelmente humano. Uma frasezinha curta, que desmonta tanto o leitor, quanto as personagens — uma frase que abranda o paladar, mas não mata sede. Leia e você vai entender.

Pinceladas rápidas: fora do que é intrinsecamente qualidade literária-estética, temos a potencialidade de razões do casamento entre ambos. A mulher, sempre incomodada com a presença do marido, rica e bem de vida, se põe socialmente acima dele. É o que nos diz bem por alto o Lawrence; ou seja, qual a razão que teria para casar com um homem que sabia que a faria infeliz? Pressão familiar? Pressão social? Só o Lawrence, ou talvez um estudo minucioso desse conto, aproxime-se de responder. Mas despender muito tempo nisso também é desnecessário, em comparação com o mergulho que as palavras do Lawrence nos proporciona apenas com o fluir literário.

O final pode até ser visto como um catalisador de mudança, uma interpretação possível é de que quando ambos se colocam a falar e a se digladiar verbalmente, consequentemente, expressam tudo aquilo que sentem. E ao contrário do fechamento e desdém particular de um para o outro, — às vezes muito raramente, ditado da minha mãe — quando uma discussão se encerra, algo tenha sido minimamente resolvido.

O terceiro conto da coleção, Her Turn, ou, A Vez da Sra. Redford (como foi traduzido pelo J.J. Veiga), é uma short short story, que converge pontos muito finos, breves, das qualidades artísticas da escrita do Lawrence, afinal, foi escrita em três dias. Mas vale a pena tecer um breve comentário pela reincidência de temas, e pelo recorte da história, ambientado em um entre aspas cenário montado que será reutilizado no conto seguinte.

O palco é uma cidade de mineiros e carvoeiros, e se passa durante os meses de greve, onde o auxílio pago pelos patrões atrasa mais um mês; não sabemos razões da greve, nem há críticas à qualquer um dos lados (mineiros ou patrões); o recorte é que interessa: um marido, mineiro, que volta para casa sem o pagamento mais uma vez, sendo a gota d'água para a esposa, desenrolando para uma "batalha" doméstica, uma disputa de vontades que envolve luxos, função masculina, e pressão social.

Não que a falta de pagamento fizesse com que o casal passasse alguma necessidade, o ponto fino que o Lawrence toca é que, metade do dinheiro do pagamento do auxílio era destinado ao paparico e aos luxos da esposa. Vai um pouco além nas “sutilezas” não são tão sutis assim, e a reviravolta (estou entregando, pois nesse caso, não é ela que importa) é quando a esposa passa a comprar tudo necessário para a casa, mobílias e ferramentas úteis. A conclusão… bem, leia e descubra.

Há muitas perguntas a se fazer, como: o que o Lawrence quis dizer com esse conto? Ele é acusativo com a mulher? Com o homem que foi complacente com os luxos? É contado de uma perspectiva e sob olhos masculinistas? Daí adiante.

Mas, como eu disse inicialmente, dado o tamanho diminuto da narrativa, decidi focar mais no retrato; na disputa “simples”, que o narrador resolve acompanhar; usando conceitos cinematográficos: o ponto que o Lawrence decide filmar e jogar a luz, que revela muito dos seus temas e preocupações.

Para terminar, o entre aspas reproduzido em prosa no início do comentário, sobre o “cenário montado”, é pela razão de que o próprio pai do Lawrence foi um mineiro, e o cenário, provavelmente, é retirado da infância, de cenas que ele viveu e/ou vivenciou; e com certeza é esse o motivo desse cenário reincidir também em outros contos; assim como o faz com a fauna e flora dos campos da Inglaterra do Século XX ao longo de quase todos.

É um conto diminuto, tímido, mas de maneira alguma ruim.

Estou lendo esporadicamente e ainda não o terminei, mas, é putaria que esse livro aqui seja menos popular que aquele “1001 para ler antes de morrer”; a meia dúzia de colaboradores daqui fazem as centenas daquele outro ficarem parecendo alunos do ensino médio. A escolha (tanto de livros quanto do que mostrar deles) é extremamente interessante e útil, e eu duvido que você não se surpreenda (no bom sentido) com algumas dessas escolhas; é sucinto e sintético, e dependendo da importância do livro os (poucos) parágrafos oscilam, mas não passam de cinco (BOAS) páginas, diferente da outra lista, que faz o mesmo resumo basicão e chato para todo livro; sem falar no projeto gráfico muito bonito, que torna ainda mais deleitoso lê-lo; enfim, tenho, inclusive, que ficar me segurando para não ficar lendo ele e postergar todas as minhas outras leituras; é fácil cair nessa de ficar lendo sobre livros e não, de fato, ler os livros, todo mundo que gosta de literatura sabe bem isso. Então, cuidado! E, fica a recomendação.

(Até o momento que estou, a literatura a partir de 1900s, não tenho o que reclamar da escolha de livros; é claro que muita coisa fica de fora, mas isso é inato a listas assim. Se ao longo do livro isso se tornar um problema, eu retorno aqui e comento, mas por enquanto está bem bom, na dose certa: Ocidente, Oriente, Contos, Teatro, Romance, Europa, Brasil, Etc.)

Primeiro, esse livro me despertou curiosidade, depois, me aborreceu, se arrastou, massou no prólogo, parecia não ir para um lugar, nem outro; então… então… me fez rir, me encantou, me prendeu, e, perto do fim, num episódio da vida real de um anagnorisis aristotélico, me arrepiou da cabeça aos pés…

Num misto de autoficção/ensaio pessoal, acompanhamos, pelas palavras do próprio, o curso completo do Professor Daniel Mendelsohn"Classics 125: The Odyssey" que ocorreu alguns meses antes deste livro ter sido colocado no papel. Completo apenas no quesito de extensão, mas em tudo que envolve um curso acadêmico: criticismo inteligente, leitura, tradução e contextualização direto grego, toda uma questão pedagógica e relacional: as opiniões dos alunos em confronto com o Professor, a tentativa falha de colocá-los nos trilhos, a interpretação de séculos em embate com as opiniões dos alunos, a tentativa - que será muito significativa - do Professor de iluminar certos aspectos da Odisséia que torna Homero ainda nosso contempoeraneo, e mais. No entanto, o melhor do curso se dá na partipação do Sr. Mendelsohn, o pai idoso do Professor, que com oitenta anos, um matématico que decide por fim ler a Odisséia, e se inscreve no curso do filho e se presta a participar ativamente das discussões.

O melhor de tudo: ele odeia o Odisseu; e suas opiniões ácidas, fortes, vão cada vez ficando mais deleitosas conforme o conhecemos melhor, e não é surpresa que os alunos o adorem.

Mas é claro, o livro não é só isso. O Daniel faz essa rememoração do Curso que seu pai participou para mergulhar de verdade no passado: desvelando lentamente esse personagem único, interessantíssimo, e a relação pai e filho: a Odisseia se dissolvendo e se misturando com a vida de todos os pais e de todos os filhos; principalmente na vida desses dois.

A escrita é quase fria, ele arrisca muitas símiles, numa imitação do Homero, algumas dão certo, a maioria não; o ponto é que esse estilo, quase pedagógico, funciona bastante que bem quando vamos então, para as aulas, aprende-se muito sobre a Odisseia, sobre o Grego antigo, sobre como foi composta, mas é preciso saber que não é a linguagem que de alguma forma alavanca o livro, a narrativa e a autobiografia quasi-ficcionalizada é o que o sustentam.

Fica sempre aquela pergunta quando vai se falar de literatura clássica, ou mesmo da literatura como um todo: "para que serve?" E apesar de não tocar acho que nenhuma vez nesse assunto, a obra do Daniel, por si só, a responder essa pergunta. Por que ler a Odisseia? Bem, pela sua beleza, pela sua dimensão psicológica, pela inteligência do Homero, e por continuar contemporânea após praticamente quatro mil anos. E ele prova isso, em episódios da vida dele e de seu pai que acontecem logo após o Curso e o Cruzeiro que fazem retraçando a Odisseia, que são extremamente impactantes, e remetem diretamente à obra do Homero.

E cada parte da Odisseia, como perceberemos ao longo desse pequeno vislumbre na vida dos Mendelsohns, é real, é palpável: a Telemaquia (Educação), a Paideusis (Pais e Filhos), a Homophrosynê (Maridos e Mulheres; melhor, o encaixe entre Maridos e Mulheres), o Apologoi (as aventuras), o Nostos (o retorno para casa), Anagnorisis (o Reconhecimento), e enfim, Sêma (Sinal) que grego, não por coincidência, também significa "túmulo" ou "tumba".

Em conclusão, se você enfrentar um leve arraste, de uma introdução ligeiramente maçante, você será recompensado; de um lado, por ser apresentado de uma maneira bastante receptiva à Odisseia do Homero, do outro, pelo impacto da história, da biografia, da narrativa, chame como quiser, do Daniel Mendelsohn e de seu pai, entrelaçados pela Odisséia, e entreleçados pelo mistério de um filho nunca, em sua totalidade, conhecer o seu pai. Impactante, revelador e crítico; grande livro.

Ziguezagueando minhas leituras, logo após ler a Poética do Aristóteles e entender um pouco da tradição e da teoria dramática clássica e todas as suas unidades (de ação, de efeito, de tempo, até de linguagem), dou de cara aqui no Gil Vicente com um teatro que se desprende quase que totalmente desse molde clássico e, ainda sim, funciona muito bem obrigado.

Com cenas que não seguem linha específica e com uma procissão de personagens mesclados e tipificados; longe de serem amarrados por uma unidade de efeito narrativo-dramático, perdemos por um lado, a potência e o impacto da catarse — ou do que entendemos hoje como catarse — do teatro clássico, mas, de outro lado, ganhamos uma elocução divertidíssima, um desprendimento atrativo, um lirismo e uma linguagem cuidadosa, além da metrificação e versificação que deviam tornar as representações e o espetáculo muito vívidos; dependendo do meu humor, se me fosse permitido a escolha, preferiria muito mais assistir um espetáculo do Gil Vicente à uma tragédia grega. Há humores e humores.

Gil Vicente não faz aqui uma narrativa nem casual nem causal, o Auto da Barca do Inferno se assemelha mais a pequenas sketche cômicas, e seus personagens são todos alegóricos. Assim, compõe cenas célebres (na minha memória):
o fidalgo que manda o agiota ser cortês com o djabo, ambos já dentro da Barca do Inferno; o parvo que questiona ao diabo "é esta a NOSSA nau dos tolos?" a que o diabo responde: "nossa, não, VOSSA."; a cafetina que se julga santa por ter sido chicoteada em vida, ter cedido e convertido (à prostituição) muitas moças aos padres; o latim macarrônico e a soberba do advogado…
No entanto, o elogio que deve-se predominar, e a qualidade deste Auto ai está, é sobretudo na linguagem — irônica, variada, e intrincada. A moralidade do Auto é questionável e ultrapassada; se não irônica de inicio à fim. O que deve "ficar" é essa locução do Gil VIcente, que apresentava essas suas peças para a diversão de cortes, e nem por isso segurava a mão apesar com certos tipos sociais, não tinha dó (apesar de eu ter algumas dúvidas quanto até onde isso ia).

A edição anotada que li, do Francisco Achcar, ajudou muitíssimo, e certamente deixo como recomendação: além de uma boa introdução, tem ainda mais que um glossário, com explicações sobre palavras perdidas, palavras que perduraram até hoje, palavras que mudaram de significado, palavras que são referência à tal coisa ou personagem da época..., além disso a edição ajuda também na contextualização, imersão, e principalmente, na escansão, com descrições em como tal palavra era (e deve) ser pronunciada para encaixar na métrica do Auto.

No geral, uma boa obra, a mistificação de uma suposta dificuldade fez com que eu não a houvesse lido antes, mas como (quase) sempre, essas mistificações sempre se provam falsas ou exageradas, foi uma leitura agradável e divertida.